Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Paisagem e erudição no humanismo português


Lançamento do livro

'Paisagem e erudição no humanismo português. João
Rodrigues de Sá de Meneses
'


de Ana María S. Tarrío

4 de Dezembro
pelas 18.00 horas

Fundação Calouste Gulbenkian
no âmbito da Festa do Livro

Domingo, Novembro 08, 2009

Da pachorra

A minha misantropia sofre agravamento aos Domingos no supermercado, quando vou reabastecer-me de vegetais e frutas. Não é tanto por causa da quantidade de pessoas. Eu até gosto de multidões e apertos - tal como a natureza, eu aborreço (no sentido etimológico) o vazio. Só me entusiasmo, numa saída nocturna, em ruas apinhadas e em bares à cunha. Ponham-me numa rua vazia ou num bar com lugar para sentar, e começo a bocejar. Portanto, não é por causa da quantidade.

É por causa da pachorrência (se não existe passa a existir) dos casais de ar enfadado a empurrar devagar devagarinho o carrinho de compras e a tapar os caminhos, das senhoras de idade que andam lado a lado ocupando toda a faixa de rodagem, dos cachos de adolescentes pendurados nas mães a tapar os acessos às prateleiras, das senhoras (são sempre senhoras) que deixam os cestos ou os carrinhos a tapar o caminho enquanto hesitam na prateleira em frente entre comprar 6 cacetes destes ou 6 daqueles (ouvido há poucos minutos), e não deixam mais ninguém nem passar nem chegar-se ao pão, e eu ali a deitar fumo pelas orelhas a tentar passar, mas preso entre a pachorra de uns e a má educação de outros.

E depois as senhoras (também são sempre senhoras) que, já na caixa, esperam que esteja tudo registado para se dignarem pescar, sempre com muita pachorra, a carteira de dentro da mala sem fundo, e quando finalmente a acham abrem-na e despejam os dedos lá dentro, devagarinho, à procura do cartão ou do dinheiro, não sem antes esfregarem pachorrentamente os olhos no talão a ver se a operadora as enganou e registou um cacete a mais. Depois chego a casa, tomo um calmante, e juro que nunca mais volto ao supermercado ao Domingo.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Da necessidade do mal


«Hay un argumento, muy elegante pero muy falso, de Leibniz, para defender la existencia del mal. Imaginemos dos bibliotecas. La primera está hecha de mil ejemplares de la Eneida, que se supone un libro perfecto y que acaso lo es. La otra contiene mil libros de valor heterogéneo y uno de ellos es la Eneida. Cuál de las dos es superior? Evidentemente, la segunda. Leibniz llega a la conclusión de que el mal es necesario para la variedad del mundo.»

Jorge Luis Borges, Siete Noches

Sábado, Outubro 31, 2009

Uma viagem de cliché


Apanhei hoje um táxi em Alfornelos (*), mas o que me saiu na rifa foi um cliché. Unhaca do mínimo protuberante, camisa arejada na peitaça peluda (nada de mariquices à jogador de bola), e a intolerável mania de meter conversa com o passageiro. Só lhe faltava o bigode e o Salazar-a-cada-esquina. E claro, lampião. No curto trajecto entre Alfornelos e o Campo Grande, fiquei a conhecer muitas das suas peripécias no Estádio do Galinheiro. Eu ia grunhindo monossílabos enquanto entornava os olhos na janela, a rezar aos meus deuses agnósticos para a viagem terminar depressa nem que fosse por causa de um furo ou de um buraco que se abrisse e nos engolisse. Mas o pior, senhores, o pior foi quando percebi que me tomou por lampião, e desatou a falar mal da "lagartagem" e dos "tripeiros", com piscadelas cúmplices pelo retrovisor, a que eu respondia com o ar mais agoniado que me foi possível. Ainda tentei ostentar assim uma pose intelectual e digna, de modo a desfazer o equívoco, o que no meu caso é quase tão difícil como armar-me em másculo marialva. Mas nada. À medida que íamos circulando pela 2.ª dita cuja a confiança ia aumentando numa proporção que acompanhava a fúria com que eu vomitava os olhos pela janela. Ainda pensei em desfazer o equívoco assumindo-me, mas receei represálias, e tinha mesmo de apanhar o autocarro - ia ao lançamento de um livro, coisa tremendamente intelectual, mas que pelos vistos não transpirou o suficiente. Quando finalmente aterrámos diante do Estádio de Alvalade, rosnei um boatardecomlicença, enfiei-me no autocarro, fui ao lançamento do coiso, e agora estou há horas numa angústia tremenda, a ir regularmente prantar-me diante do espelho à procura de qualquer coisa, qualquer sinal, sei lá, qualquer trejeito (será do meu ar efeminado?! Eu até pus muita colónia hoje.) que tenha levado o taxista a nem sequer hesitar em me tomar por lampião.



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(*) Normalmente ando a pé ou de transportes públicos, o que me permitiu perder quatro dezenas de quilos em poucos anos, e ter análises "de fazer inveja" (médico de família dixit). Também me permite correr 10km dia sim dia não, sem grandes dramas, coisa que parece que deixa rapazes profissionais com metade da minha idade fora de combate. Mas hoje arriscava-me a perder o autocarro e assim chegar atrasado a um compromisso.

La Iffanta Coronada

La Iffanta
Coronada.
Por El Rey Don Pedro,
Doña Ines de Castro.

Canto Primeiro

En que se cuenta la venida de doña Ines de Castro al reino de Portugal, se describe su rara hermosura en perfecciones corporales, y se trata de sus amores con el Iffante don Pedro, y su prision, con poeticas ficciones de general sentimiento por ella.

No canto los fingidos caualleros
Que la pluma chymerica lleuanta,
No Caesares Romanos verdaderos
Cuya fama notable al mundo espanta.

No vanos argonautas brauos fieros
Que la vana antiguedad sublima y canta,
No cursos de los cielos presurozos
Ni los siete planetas luminozos.


D. João Soares de Alarcão, La Iffanta Coronada. Por El Rey Don Pedro, Doña Ines de Castro, 1603
Edição de Rui Prudêncio

Versejadores seiscentistas

Retirado da belíssima edição de Rui Prudêncio da Iffanta Coronada de D. Soares de Alarcão (1603)


Soneto

Se a vos que a tuba entoa toa
Em Torres Vedras donde exclama & clama,
(Senhor dom Ioão Soares que a fama ama)
Epor louuar vossa pessoa soa

Se de Lisboa vos pregoa a Goa,
Onde do sol ardente inflama a flama,
Colhendo as flores que derrama a rama,
Ao tom que o mar & o ar atroa, & troa,

Das mesmas flores vos componha, & ponha
Com louro, & era em que verdura dura,
Capellas bellas no cabello bello.

E qualquer Musa que procura & cura
Louuaruos, cesse, pois bisonha sonha
Como eu debalde me desuello, & vello.

Nuno de Pina

res arabicae . I

Nos jornais locais aparecem os anúncios às festas das adiafas. É mais um fóssil linguístico do nosso passado arábico. A palavra, que se refere às festas rurais do fim das vindimas, vem do árabe aḍ-ḍiyâfa (*) [الضيافة], que significa "hospitalidade", "recepção hospitaleira". Provém do radical ḍâfa [ضاف], com o sentido de convidar, juntar, anexar.


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(*) a transcrição do dicionário Houaiss (edição Portugal) está errada.

Pornographia

Regresso ao tema do preço dos livros em Portugal. Que uma tradução portuguesa possa custar o triplo, às vezes o quádruplo de um original ou mesmo de uma tradução em outra língua, isso já me parece um escândalo. Engulo com dificuldade o argumento de que as tiragens são mais baixas, e por isso encarece o produto: além de as boas edições de bolso que recentemente começaram a sair o desmentirem, também me parece que se os livros fossem mais baratos haveria mais procura, e as tiragens seriam necessariamente maiores. Eu falo por mim: da nova literatura portuguesa só compro aquilo que sei à partida que tem qualidade. Não arrisco nomes novos, não sou rico.

Engulo, dizia, com dificuldade o argumento das tiragens baixas. Agora o que eu não consigo de maneira nenhuma entender, a não ser como ganância e chico-espertismo, é que a mesma edição custe em Portugal o dobro do que se mandar vir do país de origem. Refiro-me ao mais recente vencedor do Booker, Wolf Hall, da Hilary Mantel. Vi a edição original, de capa dura, à venda na Almedina do Saldanha por cerca de 20€. Na Amazon.co.uk está à venda a mesmíssima edição por £8,49 - ou seja, mais coisa menos coisa, 9,5€. Repito: a mesmíssima edição. Mesmo com os portes de envio, sair-me-á sempre mais barato mandar vir de Inglaterra a mesmíssima edição. Ora toma.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

(Ana María S. Tarrío)

«João Rodrigues de Sá de Meneses (1486/87-1579), alcaide-mor do Porto, celebrado pela geração camoniana como pai fundador da nova aristocracia das letras, prefigurou intensamente a dualidade renascentista da pena e da espada. Acusado quatro vezes perante o tribunal da Inquisição por comportamentos heréticos e por práticas de sodomia, representava a facção intelectual mais ousada da nobreza manuelina, marcada pelo impacte da formação humanística italiana e em breve incómoda, no período de rigor doutrinário contra-reformista (...). Elaborou as composições poéticas mais vanguardistas do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende de 1516, renovando a medida velha com novos conceitos e princípios humanísticos antes da renovação métrica de Bernardim Ribeiro e Francisco de Sá de Miranda, seu primo. Além de várias composições poéticas neolatinas, redigiu a singular monografia 'De Platano', que aqui se publica. Nesta obra rara da literatura renascentista europeia a imagética neoplatónica da natureza aviva-se para produzir um discurso nacional que procura superar a condição de periferia cultural lusitana relativamente à hegemonia italiana.»

Ana María S. Tarrío, Paisagem e Erudição no Humanismo Português. João Rodrigues de Sá de Meneses. De Platano (1527-1537). Estudo introdutório, edição crítica, tradução e notas. Gulbenkian, Lisboa, 2009

Domingo, Outubro 25, 2009

Da Serra da Estrela e do mar que lhe deixa destroços



«Destas [montanhas] a mais notável é a que se chama da Estrela, por olhar de perto os astros. Está guardada por um lago e pelas trevas dos bosques. A água daquele, que é doce, comunica com o Oceano, ainda que esteja afastado vinte léguas. A comunhão do lago e do Oceano revela-se pelo movimento diário das marés, como regista Texeira, a partir do testemunho dos habitantes locais. As tempestades que atormentam os mares agitam e alteram as ondas do lago, que muitas vezes presenteiam com destroços de barcos, arremessados através de aberturas subterrâneas, e aos habitantes [presenteiam] com espanto.»

J. Caramuel Lobkowitz, Philippus prudens Caroli V. Imp. Filius Lusitaniae Algarbiae, Indiae, Brasiliae legitimus rex demonstratus, Antuerpia, 1639 (fol. 3r)

***


«
So that here, in the real living experience of living men, the prodigies related in old times of the inland Strello mountain in Portugal (near whose top there was said to be a lake in which the wrecks of ships floated up to the surface);»

Melville, Moby Dick, cap. 41

Para Kabul, e em força!

Visto nas notícias da RTP.

Um militar diz que as missões internacionais portuguesas na Bósnia, Afeganistão e Kosovo são o principal factor de atracção para recrutamento de voluntários. E de facto é difícil encontrar actividade mais estimulante para a juventude portuguesa do que perseguir taliban nas montanhas afegãs. Já sem falar dos banhos de urânio empobrecido nos Balcãs.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Quietude


«Cuando cesaron de patearlo permanecieron unos segundos sumidos en la quietud más extraña de sus vidas. Era como si, por fin, hubieran hecho el ménage à trois con el que tanto habían fantasiado.

Pelletier se sentía como si se hubiera corrido. Lo mismo, con algunas diferencias y matices, Espinoza. Norton, que los miraba sin verlos en medio de la oscuridad, parecía haber experimentado un orgasmo múltiple.»

Roberto Bolaño, 2666

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Vozes de burro não chegam ao Céu

O facto de ser ateu; o facto de, ao contrário da generalidade dos cristãos católicos, ter lido a Bíblia; o facto de em muitíssimas coisas estar em total e irreconciliável desacordo com o Cristianismo; tudo isto dá-me, espero, alguma autoridade para poder dizer que as afirmações do senhor Saramago sobre a Bíblia revelam uma de três coisas (ou mesmo todas as três):
  1. que ensandeceu, e além disso nunca leu de facto a Bíblia (ou se leu, leu mal), limitando-se a fazer eco das cavalidades dos ateus radicais;
  2. que ensandeceu, e procura fazer polémica com intenção de publicidade gratuita, mediante ataques alarves a uma instituição que, com todos os seus defeitos, merece o respeito de qualquer pessoa com um mínimo de boa formação cívica;
  3. que ensandeceu, simplesmente.

É que se é certo que, sobretudo o Antigo Testamento, tem de facto partes de uma violência chocante aos olhos da nossa cultura greco-romana fortemente temperada pela judaico-cristã, a verdade é que não se pode tomar a parte pelo todo, nem se pode, sobretudo, desligá-las do seu contexto. Longe de ser um "manual de maus costumes", é na verdade um dos pilares da nossa cultura e da nossa civilização, para o bem e para o mal.

Não reconhecer isto revela, no mínimo, ignorância. Embora no caso presente me pareça que outras razões bem mais lamentáveis - é que a ignorância não é um defeito, pode mesmo ser a maior das qualidades, quando a reconhecemos e a tentamos colmatar. Já a provocação e a afronta com efeitos publicitários, essas parecem-me sem remédio.

Quanto à Igreja, instituição à qual não tenho, repito, qualquer ligação e pela qual, insisto, não me move nenhuma simpatia especial (nem antipatia), espero que não morda o anzol insidiosamente lançado pelo senhor Saramago, e que leve à letra o conhecido dito que dá título a este texto.


acrescento: a comunidade judaica já reagiu. Como a gente costuma dizer nas discussões geek (sim, eu sou um bocadinho, e assumo-o), "please, don't feed the troll".

Domingo, Outubro 04, 2009

Hoje acordei assim

Sábado, Outubro 03, 2009

Garanhão

A vizinha de baixo cumprimentou-me com um sorriso malandro. Talvez lhe devesse ter dito que é só a nova máquina de lavar roupa que faz demasiado barulho ao bater no armário durante a centrifugação.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Contas


Mandei vir da Amazon.co.uk a tradução inglesa do primeiro volume da trilogia do Stieg Larsson (espero não me arrepender...)*. O total da encomenda foi £9,42. Ou seja, em moeda de gente, 10,34€, mais coisa menos coisa. Já incluindo despesas de envio, porque o livro mesmo só custa £4,19 (4,60€). A tradução portuguesa custa, na Wook, 17,55€. Ainda sem os portes de envio.

Portanto, a tradução portuguesa custa o quádruplo da tradução inglesa. Eu acredito que haja uma razão aceitável para isto, mas enquanto não souber qual é, continuarei a só comprar em Portugal livros de autores portugueses.
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* arrependi-me.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

A porta da rua é serventia da casa


Depois da figura patética que fez ontem, que mais pareceu uma fuga para a frente depois de apanhado em falso, depois de não ter explicado nada, depois de ter metido as mãos pelos pés, depois de ter explicitamente declarado guerra ao partido do governo, o sr. Cavaco só tem duas saídas:

1. não nomear Sócrates, já que pelos vistos não tem confiança no partido que venceu as eleições, o que configuraria na prática uma espécie de golpe de estado;

2. demitir-se, para não ter de indigitar o líder de um partido em quem não tem confiança e a quem declarou ontem guerra.

Qualquer terceira via é politicamente inaceitável. Mas claro, parece óbvio que vai mesmo escolher a terceira via: assobiar para o ar, de preferência a comer bolo-rei de boca aberta. Ao governo agora só resta ajudar o sr. Cavaco a acabar o seu mandato dignamente. O que se afigura complicaco.

Domingo, Setembro 27, 2009

A vitória

Há 3 grandes vencedores nestas eleições, um assim-assim e um derrotado claro.

  1. O PS venceu. Perdeu a maioria absoluta, como era previsível há muito tempo. No entanto, convém recordar que vinha de uma derrota expressiva nas Europeias, e que as sondagens ainda há pouco mais de 15 dias davam um empate com o PSD, que vinha, aparentemente, numa dinâmica de vitória. Havia ainda a crise internacional e nacional, o desemprego a subir. Em Junho houve quem imprudentemente augurasse o fim do "socratismo". Sócrates, goste-se dele ou não, mostrou que está muito longe de morto politicamente, e com uma campanha inteligente e muitíssimo bem gizada (o cartaz dos últimos dias é um prodígio de marketing político), desmentindo ao mesmo tempo todos os que acham que as campanhas nada decidem. Partia numa situação difícil, foi dado como derrotado até a poucas semanas das eleições, mas fez uma campanha notável, e estou convencido de que com mais 1 ou 2 semanas ainda chegava à maioria. Finalmente, o facto de nem o BE nem a CDU poderem fazer, separados, maioria com o PS, é um alívio para Sócrates, que assim deixa de se sentir obrigado a entendimentos à esquerda (o que eu lamento).
  2. O CDS obteve um resultado histórico, capitalizando os votos da direita e certamente de parte dos eleitores PS em 2005. Fez uma campanha quase tão boa como o PS, e, com uma mestria ousada, conseguiu que o seu líder fosse o último a falar, com um discurso que, conjugado com esse tremendo pormenor, lhe dá de feito um lugar no pódio destas eleições.
  3. O BE é o terceiro vencedor, embora com resultado aquém do que se esperava. Aumenta muito a sua representação parlamentar, descola da CDU, e assume-se definitivamente como a grande alternativa de esquerda ao PS. Ganha ainda um tremendo trunfo: se as contas não me falham, não consegue formar maioria com o PS. Assim pode sem problemas continuar a fazer do PS, e não da direita, o seu principal inimigo. De resto nem uma palavra se ouviu de congratulação pera estrondosa derrota do PSD, o que é pena.
  4. A CDU fica assim-assim. Não ganha nada, embora o seu discurso diga o contrário, numa divertida reedição do saudoso ministro de Saddam no dia da tomada do Bagdade. Tal como o BE, não consegue formar maioria com o PS, ficando de mãos livres para continuar a sua luta fratricida contra o PS, ignorando a direita.
  5. O PSD é o grande derrotado, talvez a mais significativa derrota da sua história. Obtém um resultado semelhante ao de 2005, mas com uma enorme diferença: em 2005 partia fragilizado por um governo impopular, em 2009 era o partido que teoricamente poderia tirar partido da impopularida do governo PS. Vinha de uma vitória nas Europeias, partia lado a lado nas sondagens a 15 dias das eleições. Mas fez uma campanha vazia, sem apresentar ideias nem propostas. Sobrestimou o povão tuga, e achou que já éramos suficientemente civilizadosa para passar sem espectáculo de campanha, sem comícios, sem brindes, sem espalhafato: apresentou uma imagem tristonha, quase fúnebre. Um erro crasso, quando do outro lado estava um mestre nestas artes. Poderia ter contrabalançado com as ideias, mas apresentou um programa vago, e centrou a sua campanha no discurso tipo velho-do-restelo contra o TGV, numa primeira fase, e tipo Quixote contra uma delirante asfixia democrática. Assim, partindo da "pole position", deixou-se ficar para trás, estagnou em termos de votos, não parece ter capitalizado praticamente nenhum voto de descontentamento, que se distribuiu entre o BE e o CDS.
O meu voto, como toda a gente sabe, foi para o PS. Esta vitória soube-me, como estou convencido que a quase todos os socialistas, muito melhor do que a de 2005, que era fácil e previsível. Esta foi difícil, e, tendo em conta as circunstâncias, nada evidente à partida. Espero agora que a esquerda (PS-BE-CDU) se entenda, e que o PS não caia na asneira histórica de se aliar ao CDS, o que me faria deixar de votar no partido.

Sábado, Setembro 19, 2009

Alegre

A participação de Manuel Alegra no comício desta noite do PS é significativa por várias razões. A principal é que mostra uma das maiores diferenças entre o PS e o PSD: enquanto a D. Manuela, com a ajuda do Sr. Cavaco, vão falando de asfixias democráticas e de "receios" e "apreensões", ao mesmo tempo que se saneiam das suas listas, correndo com os opositores, o PS do "ditador" Sócrates integra opositores internos nas listas (Seguro, por exemplo, n.º 1 por Braga, João Soares, no Algarve) e chama para o seu lado o maior de todos os opositores, Manuel Alegre (que infelizmente recusou estar nas listas de deputados). É a diferença entre um partido que sempre respeitou a pluralidade de opiniões e outro que tem por tradição calar as bocas discordantes - veja-se a expulsão de membros do partido em 1986, perpetrada pelo sr. Cavaco, depois de terem tido a ousadia de não apoiar o candidato presidencial do partido.

A outra grande razão é que, sendo Manuel Alegre o porta-voz oficioso da ala mais à esquerda do partido, e sendo, sobretudo uma figura simpática ao BE e ao PCP, pode ser um trunfo decisivo para a conquista de votos à esquerda, sobretudo entre os indecisos que, sendo da área do PS, estão descontentes e mais virados para um voto de protesto no BE. Porque é aí que se vai decidir a vitória do PS, não, como habitualmente, ao centro. O centro já optou há muito pelo PS, como se vê nas modestas intenções de voto no PSD, pouco acima da catástrofe de 2005. Os votos que o PS perdeu não foram para o PSD, foram para o PCP e para o BE. E é aqui que Alegre joga uma cartada decisiva. Não tirando seguros do BE e ao PCP, que não vão em cantigas e não se importam nada (pelo contrário) com uma vitória da direita, mas apelando aos indecisos de esquerda, os que não sabem ainda onde votar, só sabem que não querem a direita outra vez no governo, e têm pesadelos com a perspectiva de uma santíssima trindade com Cavaco, Manuela e Portas. É nesses que está a solução e a decisão destas eleições.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Porém?!

São muitos os motivos que me levam a recusar-me a ler obras inglesas, francesas ou espanholas em tradução. O primeiro de todos é o da fruição estética; o que perco na inteligibilidade, ganho no contacto com a sonoridade original, a escolha das palavras, a organização do discurso. No fim de contas, ganho mais do que perco. O outro grande motivo é o económico: as traduções portuguesas têm preços obscenos, por vezes o triplo, às vezes o quádruplo do original - e não, não se trata de "pagar o tradutor": mesmo as traduções inglesas de autores de outras línguas são geralmente pelo menos metade do preço das portuguesas.

Vejamos um exemplo. Comprei há algum tempo tradução da Moby Dick, da Relógio d'Água, por recear o inglês um pouco retorcido do original. Ainda assim, arrisquei lê-la na edição inglesa da Penguin Classics. Apesar da dificuldade, não me arrependi. Mas como sou muito curioso, decidi ir ver como resolviam os tradutores da Relógio d'Água algumas situações. Por exemplo, a peculiar linguagem arcaizante dos quakers. Por exemplo, no capítulo 18:

«"Young man," said Bildad sternly, "thou art skylarking with me - explain thyself, thou young Hittite. What church dost thee mean? answer me."»
Achei sempre, antes de verificar o português, que a única opção aceitável era usar a 2.ª pessoa do plural, desrespeitando a gramática do inglês, mas conservando o sabor arcaico. Qualquer outra opção apagaria por completo a intencionalidade do original. Mas o que a mim parecia lógico, aos tradutores da Relógio d'Água pareceu retorcido, e, passando uma esponja sobre o original, verteram desta maneira no mínimo sensaborona:

« - Rapaz - observou Bildad severamente - , estás a divertir-te à minha custa. Explica-te porém, hitita. A que igreja te referes, responde.»

E se ignorar a preciosa musicalidade do texto é já grave (como entenderá o leitor a alusão explícita do narrador à peculiaridade da fala quaker, se na sua tradução não há qualquer peculiaridade?), que dizer daquele "porém" ali metido a martelo? Os tradutores claramente tomaram o pronome pessoal thou pela concessiva though. Lamentável.

Estranha, finalmente, também é a opção de representar o sinal de Queequeg (que dá o nome ao capítulo) não por uma forma redonda, como diz explicitamente o texto (e representa a edição da Penguin), mas por uma cruz. Depois há pormenores menos significativos, como a omissão da versão hebraica do nome "baleia", no início, ou a opção por não numerar os capítulos. Ainda assim, uma tradução muito superior à inenarrável e inapresentável versão publicada numa colecção do Público há uns anos, que entre gralhas e erros omitia todo o capítulo introdutório.

Por fim, o motivo financeiro. A minha edição da Penguin custa, na Amazon, 11,20$, o que dá pouco mais de 7€. A tradução da Relógio d'Água custa, na FNAC, 24€. Mais do triplo.

E não, não se pode justificar com o pagamento ao tradutor. Vejamos outro exemplo. O fabuloso "O meu nome é Vermelho", do Pamuk, custa na tradução (indirecta) da Presença, 22,50€ (via Wook). A tradução inglesa, directa, por onde o li custa, na Amazon.co.uk, 4,11£, ou seja cerca de 4,50€ - cerca de 1/5 da tradução portuguesa, e com a vantagem de ser feita sobre o original. Também o tradutor da edição inglesa terá certamente recebido pagamento.

É por estas e outras que continuarei a ler em inglês, mesmo correndo o risco de não entender algumas palavras. Antes isso do que apanhar com algum "porém" inadvertido.