Terça-feira, Julho 14, 2009

Anunciação

Sendo agnóstico mas respeitando o mais que posso as crenças dos outros (talvez por inveja, porque gostava de ter fé) sinto-me bastante à vontade para criticar, mas sobretudo para elogiar ou simplesmente comentar a religião dos outros. Sobretudo tenho uma tremenda curiosidade em conhecer o Deus ou os deuses dos outros. Por isso leio regularmente a Bíblia e o Alcorão - embora este mais para aperfeiçoar o meu árabe. Coisa que não fazem muitos crentes e sobretudo não crentes, alimentando com a sua ignorância o preconceito e o ódio. Isto é particularmente grave quando se trata do Islão, religião muitíssimo próxima do Cristianismo (cresce, no início, sobre uma heresia cristã), mas que tantos confundem com as paranóias de uma minoria fundamentalista.

A verdade é que há secções do Alcorão que lembram inequivocamente os Evangelhos - e não é coincidência. Por exemplo, o relato da Anunciação. Pois é, é que os muçulmanos acreditam na Imaculada Conceição e veneram a Virgem como mãe de Jesus ('Iça ibn Mariyam, "Jesus filho de Maria"). O seu respeito pela Mãe de Deus dos cristãos chega ao ponto de lhe dedicarem integralmente a 19.ª sura (capítulo, livro) do Alcorão, apropriadamente chamada suratu Mariyam (Sura de Maria), que compreende nada menos do que 98 versículos.

Entre outras coisas, a suratu Mariyam relata a Anunciação, nestes termos (tradução apressada a partir do árabe, mas podem achar-se muitas na internet, bem melhores e aprovadas por quem de direito):

(15) e recorda no Livro a Maria, quando se afastou do seu povo para um lugar a Leste, (16) e escondeu-se deles com um véu, e então enviámos sobre ela o nosso Espírito, e tomou o aspecto de um homem. (17) Disse ela: refugio-me de ti no Misericordioso, se O temes. Disse ele: eu sou mensageiro do teu Senhor para te dar um filho puro. (19) Disse ela: como posso ter filho se nenhum homem me tocou e sou casta? (20)Disse ele: assim disse o teu Senhor: isso é simples para Mim, e fá-lo-ei sinal para os homens e misericórdia da Nossa parte.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

A direita agradece

Esta é a grande diferença entre esquerda e direita em Portugal: a direita une-se quando está em causa evitar que a esquerda chegue ao poder ou o mantenha; a esquerda, pelo contrário, prefere manter-se desunida, até porque certa esquerda prefere mesmo é ver a direita no poder, desde que isso significa uma derrota do PS.

Domingo, Julho 05, 2009

The White Tiger

[Repescado do fundo do baú. Escrito em Dezembro de 2008]


Aravind Adiga, The White Tiger. Atlantic Books, London, 2008
ISBN 978-1-84354-720-4
Preço (Amazon.co.uk): £6,49 / €7,50

At a time when India is going through great changes and, with China, is likely to inherit the world from the west, it is important that writers like me try to highlight the brutal injustices of society. That's what writers like Flaubert, Balzac and Dickens did in the 19th century and, as a result, England and France are better societies. That's what I'm trying to do - it's not an attack on the country, it's about the greater process of self-examination.

Quem o diz é o indiano Aravind Adiga, vencedor do Man Booker de 2008, com o romance The White Tiger, em entrevista ao The Guardian.

Munna, aliás Balram, aliás Ashok, é um empreendedor indiano de Bangalore. Pelo menos é assim que se apresenta por carta ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, de visita à Índia. Balram - chamemos-lhe assim, pois é assim que se apresenta durante a maior parte do tempo - acredita que o futuro não pertence ao Branco, mas ao Castanho e ao Amarelo. Por isso apresenta a Jiabao a sua história, como saiu de uma vida miserável numa aldeia nas margens do Ganges, e se tornou um empreendedor de sucesso, na esperança de assim ajudar a China a formar os seus próprios empreendedores. E fá-lo por meio de uma série de cartas, onde, numa escrita aparentemente simples, se traça um retrato arrepiante de uma Índia onde impera a corrupção, o caciquismo, a discriminação, a miséria e o medo. E onde a democracia não passa de um teatro de aparências. Uma Índia feia, por vezes nojenta, que se derrama no Ganges e se passeia miserável nas ruas cosmopolitas de Delhi ou Bangalore, onde para se entrar nos brilhantes centros comerciais têm de se usar roupas caras e apresentar aspecto lavado. The White Tiger é um dos grandes livros de 2008, e exige-se rapidamente uma tradução portuguesa (1). Eu já li, e garanto que é muito, muito bom.

Comecei citando uma entrevista do autor, termino citando um excerto da obra.


The Autobiography of a Half-Baked Indian. That’s what I ought to call my life’s story.

Me, and thousands of others in this country like me, are half-baked, because we were never allowed to complete our schooling. Open our skulls, look in with a penlight, and you’ll find an odd museum of ideas: sentences of history or mathematics remembered from school textbooks (no boy remembers his schooling like one who was taken out of school, let me assure you), sentences about politics read in a newspaper while waiting for someone to come to an office, triangles and pyramids seen on the torn pages of the old geometry textbooks which every tea shop in this country uses to wrap its snacks in, bits of All India Radio news bulletins, things that drop into your mind, like lizards from the ceiling, in the half hour before falling asleep—all these ideas, half formed and half digested and half correct, mix up with other half-cooked ideas in your head, and I guess these half-formed ideas bugger one another, and make more half-formed ideas, and this is what you act on and live with.

The story of my upbringing is the story of how a half-baked fellow is produced.

But pay attention, Mr Premier! Fully formed fellows, after twelve years of school and three years of university, wear nice suits, join companies, and take orders from other men for the rest of their lives.

Entrepreneurs are made from half-baked clay.

Aravind Adiga, The White Tiger


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(1) Já saiu uma tradução, entretanto.

Sábado, Julho 04, 2009

loneliness

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e.e. cummings

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Assim não brinco


Adeus ó vai-te embora! Va lá fazer birras para o Brasil que a gente já não tem pachorra para tanto amuo. Irra!

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Está lá?

"Não posso garantir títulos. Se eu tivesse árbitros em minha casa, podia garantir isso. Não almoço com eles, não janto com eles em minha casa, portanto, não posso garantir isso"
Luís Filipe Lampião, no Record
Pois não, de facto não os recebe em casa: escolhe-os por telefone.

Sábado, Junho 27, 2009

O piscar de olhos da divindade

Fui levar a minha mãe a Fátima. Enquanto ela rezava, eu sentei-me a reler um dos meus livros sagrados: Ulysses, do Joyce. E lmbrei-me daquela vez em que ia no comboio a ler a Ilíada, versão calhamaço da Cotovia, e uma senhora, depois de passar a viagem toda a olhar para mim embevecida, no fim disse "está a ler a Bíblia, que bonito".

Depois andei a ver as lojas dos vendilhões do templo, e dei com aqueles quadros ultra-kitsch que ninguém de bom gosto pode algum dia comprar, daqueles que mudam consoante a perspectiva. A Cristina já me tinha chamado em tempos a atenção para dois deles: um começa com Jesus e vai mudando para Nossa Senhora. Mas há ali um ponto intermédio em que a Nossa Senhora ainda não é Jesus mas também já não é Nossa Senhora, ficando ali a meio, com uma exuberante barba. Há outro em que Jesus abre e fecha os olhos, o que deve ser fonte de terror para visitantes incautos. Mas há ali uma fase em que um dos olhos está aberto enquanto o outro está fechado, de modo que se olharmos dessa perspectiva temos Jesus com ar lânguido a piscar-nos o olho. Lindo.

Domingo, Junho 21, 2009

Arte nova

O que vos eu afirmarei é que, ainda que há muito tempo que não exercito esta arte, nem quero bem nem à camisa que trago no corpo, que todavia não me esqueço dela, sem necessitar dos nominativos da de Ovídio; porque, quando nisso me ponho, sei amar de ũa arte nova.

D. Francisco Manuel de Melo, Cartas Familiares.
Carta 40, Lisboa, 14 de Dezembro de 1641
Edição: INCM, 1981

Sábado, Junho 20, 2009

Das leituras de Verão

A minha leitura de praia está decidida: reler o "Ulysses", do Joyce, mas agora no original, na incontornável edição de 1960 da Bodley Head. Não se tome isto por uma tirada pedante. Na verdade eu tenho imensa inveja de quem consegue "desligar o cérebro" e ler coisas leves no Verão. O pretexto costuma ser o de descansar a cabeça de coisas sérias e relaxar. Aí está um conceito que, no meu fraco entendimento, não consigo alcançar, daí a minha triste sorte de só conseguir ler coisas boas e estimulantes. Eu quando quero descansar de coisas sérias, e sobretudo quando quero relaxar, pego num bom livro. Num livro a sério: num Joyce, num António Lobo Antunes, num Dostoiévski, num Jorge Luis Borges, num Umberto Eco, num Eça, num Platão, num Kafka, eu sei lá, numa coisa que me estimule. É assim que relaxo e me distraio de coisas sérias. Se pegar numa leitura levezinha - e eu já tentei, juro - , em poucos minutos a minha mente acaba por fugir, por falta de estímulo, e volta a prender-se às coisas sérias e às preocupações quotidianas. As letras deixam de fazer sílabas e palavras, e os meus olhos vão passando as páginas sem ler. Ora a única maneira de conseguir que isso não aconteça é se for uma leitura a sério. Por isso tenho imensa inveja de quem consegue "desligar" com leituras leves, de quem consegue ficar com a mente presa a uma leitura inconsequente, sem se distrair, de quem consegue embrenhar-se num Dan Brown, num Paulo Coelho, numa Margarida Rebelo Pinto ou noutros de cujos nomes, الحمد لله (deo gratias), não consigo recordar-me ou nem sequer conheço. Eu não consigo. Por isso estou condenado a só ler coisas boas, interessantes e intelectualmente estimulantes.

Marcha Pride Lisboa, 1578


Hoje decorre em Lisboa mais uma marcha do orgulho gay. Eu, que saí do armário há duas décadas, continuo sem perceber o que há nisto para se ter orgulho. Ou vergonha. Enquanto a homossexualidade continuar a ser encarada, de dentro, desta maneira, não há qualquer esperança de vir a ser encarada, de fora, com a naturalidade que se pretende. Até lá, enquanto estes homossexuais continuarem a não encarar a sua orientação com a mesma naturalidade com que encaram a dimensão da sua barriga ou a cor dos seus olhos, até lá estas marchas continuarão a fazer o seu papel de perpetuação de estereótipos e de progressivo afastamento entre esta "comunidade gay" e o resto da sociedade, outros homossexuais incluídos.

Mas esta reflexão ensonada vem a propósito de outra marcha igualmente amaricada, há 431 anos, e de consequências não menos lamentáveis: foi num Sábado, dia 14 de Junho de 1578, e preparava-se a partida das tropas portuguesas para Alcácer Quibir. Transcrevo, a partir da edição de António Sérgio, um excerto de um relato da época, de alguém que viu a mariquice toda (modernizei a ortografia):

Neste Sábado, a 14 de Junho, foi el-Rei dos paços da Ribeira à Sé a benzer a bandeira real. Tanto que amanheceu, começaram a correr os fidalgos para o acompanharem: e parece que à porfia trabalharam por ir cada um mais galante e custoso. Coisa que espantou muitas gentes, ver como iam ricamente vestidos; porque, se a matéria dos vestidos era rica, a obra, feitios e invenções de mais rica sobejava: porque tudo era brocado, tela de ouro e prata, tecidos de seda mui custosos. Os veludos, damascos, todas as mais sedas perderam sua valia, e se alguma tinham era pelos muitos passamanes, rendilhas, espiguilhas, torchados e alamares de ouro, que lhe punham; mas tudo isto era de pouco gasto em comparação dos feitios, que estes destruíram os homens.

Além disto, foi espanto ver a muita pedraria que neste dia saiu; os botões de ouro, as tranças dos chapéus cheias de rubis, diamantes, esmeralda de preço infinito, entresachadas a compasso umas com as outras; os camafeus, medalhas, estampas de feitio singular; as cadeias de ouro grossíssimas aos pescoços, de dez e doze voltas, as couras borladas de ouro com botões de ouro, cristal, pedras, e demais pedraria; os gibões e coletes sobre telilha de ouro, com invenção de corte pique pesponto maravilhoso; os capotes de damasco, setim, chamalote de seda bandados com barras de veludo e torçais de ouro.

(...)

Nem era menos para ver como os fidalgos vestiram todos sua gente, uns de grã, outros de raxa de mescla de tamete, e isto assim a escudeiros e pajens como a lacaios e escravos, cada um de sua libré de suas cores; e alguns os vestiram de calças e gibões de seda da cor da sua librea, com meias de agulha, de seda.

Enfim foram os fidalgos esperar a el-Rei à sala, e de aí desceram com ele até cavalgar. Estava a este tempo o Terreiro do Paço, que é um espaço grande, muito cheio de gente, que não havia poder andar; e além disso era para ver estarem as libreas de dez em dez homens pegando nos cavalos de seus senhores, de cores diferentes todos, com muitas plumas aos pescoços, com borlas de ouro e seda, que faziam o campo esmaltado de diversas boninas.

Anónimo, Relação da jornada.
Edição de António Sérgio (1924), pp. 45-46

Aposto que hoje também vai estar o campo esmaltado de diversas boninas, em Lisboa.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

It's the teeth, stupid!

Diz que a transferência do Cissokho para o Milan sofreu uma interrupção voluntária, devido a problemas dentários. Sendo por todos conhecida a importância basilar dos dentes no futebol moderno, sobretudo em lances defensivos, não se compreende como é que o FCP permitiu uma situação destas no seu plantel, na época 08/09.

Bedtime story


«That ideal reader suffering from an ideal insomnia
James Joyce

Na foto: o meu afilhado Eduardo, no seu primeiro Bloomsday, 3 meses e 1 dia após o seu nascimento.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Bloomsday '09 . a minha edição

Jimmy Joyced


É aqui que eu vou comemorar o meu Bloomsday.

Bloomsday '09


Happy. Happier then. Snug little room that was with the red wallpaper, Dockrell’s, one and ninepence a dozen. Milly’s tubbing night. American soap I bought: elderflower. Cosy smell of her bathwater. Funny she looked soaped all over. Shapely too. Now photography. Poor papa’s daguerreotype atelier he told me of. Hereditary tast.

Ulysses. Bodley Head, 1966. Página 196.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Vlad: a saga continua

O Manuel (a caminho dos 3 anos) estava a chorar quando o fui buscar à creche. A educadora disse-me que o Vlad o tinha mordido de novo. E apontava, penalizada, as marcas da dentadura do menino Vlad. Eu voltei a dizer algo como "está-lhe no sangue, e pelo menos desta vez aparou os caninos", e a educadora voltou a não perceber a fina alusão cultural, e despejou-me um sorriso comiserado. Vou deixar-me de piadas intelectuais, é o que é.

Sábado, Junho 13, 2009

Futebol

Passei parte da tarde a jogar à bola. Isto seria uma actividade muito máscula, não fosse a bola ser cor de rosa com Minnies e Margaridas.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

O Corpo de Deus de 1647

O dia de Corpo de Deus, feriado móvel cristão neste país laico, foi hoje. Ter-me-ia passado ao lado, não fosse ter notado as lojas fechadas. No ano de 1647, em Lisboa, o dia de Corpo de Deus teve todos os condimentos para ser muito mais animado.

Passavam menos de 7 anos da revolta que pôs fim à união dinástica que juntou os reinos de Portugal e Castela em 1580, e a guerra contra Filipe IV fazia-se no campo de batalha, mas sobretudo, nesta década de 40, no campo diplomático. Importava sobretudo aos Braganças ter o reconhecimento da Santa Sé, que, ontem como hoje, preferia jogar pelo seguro, de preferência alinhando com o lado mais forte. E o lado mais forte era, sem dúvida, Castela, ainda que acossada em várias frentes, no contexto da Guerra dos 30 Anos - sem a qual, como reconhecia Vieira logo em 1642, a Restauração seria impossível (1). Interessava, pois, ao partido português qualquer pretexto que deslustrasse a ortodoxia do Rei Católico.

A ocasião apresentou-se, alegadamente, no dia 20 de Junho de 1647, dia de Corpo de Deus. O rei D. João IV ia na procissão, que percorria a actual baixa pombalina, e passava ali mais ou menos onde é hoje a Rua dos Fanqueiros. A procissão deve ter sido bonita. As procissões costumam ser bonitas, sobretudo as barrocas. Mas aparentemente foi apenas mais uma procissão, ainda que barroca. Não foi senão em Julho que se revelou que por pouco não entrou essa procissão do Corpo de Deus de 1647 para a História, pelas piores razões.

A história, inexplicavelmente ignorada pela historiografia do século XX, mas que no século XIX ainda era tão conhecida que Camilo lhe dedicou um romance com duas sequelas (2), conta-se rapidamente. Domingos Leite Pereira, alegadamente a soldo de Filipe IV, ter-se-ia emboscado numas casas, cujas paredes derrubou para ficar com vista para os dois lados da rua, ali para a zona da actual Rua dos Fanqueiros. Não é que lhe interessasse ter uma boa vista por causa da beleza da procissão. Armado de uma escopeta, cujas balas tinham sido banhadas em veneno, o seu objectivo era, ao que parece, atingir D. João IV, de modo a acabar com a rebelião portuguesa, e fazer regressar a coroa de Portugal aos domínios dos Áustrias de Madrid. Não chegou, porém, sequer a disparar. Terá dito, nos interrogatórios a que poucos meses depois foi sujeito, que a visão de uma majestade divina sobre o rei lhe tinha paralisado os membros, e que tinha gritado louvores ao Bragança. Que nem ginjas, para a propaganda do Quinto Império.

Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).

Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.

Os teóricos do Quinto Império não perderam tempo, vendo na tal visão da majestade divina sobre D. João IV um sinal da preferência de Deus pelo partido português. De resto achavam já desde há muito tempo muitas evidências disso, e até pessoas seriíssimas como o Padre António Vieira escreveram longamente sobre o assunto (3).

Mas isto caiu que nem ginjas também para a guerra diplomática que se travava na Santa Sé, tendo em vista o reconhecimento do Duque de Bragança como novo e legítimo rei de Portugal (o que só veio a acontecer já depois da paz com Espanha de 1668). Uns mais entusiásticos, outros mais racionais, todos os textos portugueses contemporâneos insistiram num ponto essencial: o Rei Católico, ao ter ordenado o assassínio em plena procissão do Corpo de Deus, cometia sacrilégio. Por outro lado, D. João IV, tendo escapado, protegido na procissão por intervenção divina, como o próprio regicida frustrado teria admitido nos interrogatórios, revelara ter Deus do seu lado. Assim, apenas restava à Santa Sé deixar-se de coisas, e dignar-se receber os embaixadores portugueses, prover os bispados, e assim reconhecer de facto a nova dinastia reinante em Lisboa. A Santa Sé, porém, não se comoveu com tanta conveniência junta, e só veio a reconhecer os Braganças três décadas depois de 1º de Dezembro.


A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.

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(1) "Se Portugal se levantara enquanto Castela estava vitoriosa, ou, quando menos, enquanto estava pacífica, segundo o miserável estado em que nos tinham posto, era a empresa mui arriscada. eram os dias críticos e perigosos; mas como a Providência Divina cuidava tão particularmente de nosso bem, por isso ordenou que se dilatasse nossa restauração tanto tempo, e que se esperasse a ocasião oportuna do ano de quarenta, em que Castela estava tão embaraçada com inimigos, tão apertada com guerras de dentro e de fora; para que, na diversão de suas impossibilidades, se lograsse mais segura a nossa resolução. Dilatou-se o remédio, mas segurou-se o perigo. Quando os Filisteus se quiseram levantar contra Sansão, aguardaram a que Dalila lhe tivesse presas e atadas as mãos, e então deram sobre ele. Assim o fizeram os Portugueses bem advertidos. Aguardaram a que Catalunha atasse as mãos ao Sansão que os oprimia, e como o tiveram assim embaraçado e preso. então se levantaram contra ele tão oportuna como venturosamente." Padre António Vieira, Sermão dos Bons Anos, Janeiro de 1642.

(2) "O regicida", "A filha do regicida", "A caveira da mártir". Embora só o primeiro diga respeito ao não-acontecimento de 20 de Junho de 1647, os dois últimos dependem dele na sua construção.

(3) De resto o nosso actual Presidente da República, que já nos exortou a todos a seguir as recomendações do Padre António Vieira na História do Futuro, parece querer continuar a segurar a chama do Quinto Império, e não na sua versão inócua e muito incompleta, que é a mais conhecida: como as recomendações de Vieira vão no sentido de reconhecer que os portugueses são o novo povo eleito de Deus e que deverão esmagar os espanhóis, eu espera francamente que o Presidente nunca tenha lido o livro e que se tenha limitado a regurgitar o que algum assessor lhe passou para as mãos.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Começar bem o dia . 16

Y así como uno tuviera injusta vanidad de haber nacido falto de una vista, de un pie tullido, o árido de un brazo, así es injustísimo lo que de sí presumen algunos, leyendo mal y escribiendo peor.

D. Francisco Manuel de Melo, Cartas familiares.
Carta 35, Dezembro de 1639