terça-feira, dezembro 05, 2006

Para não me perguntarem mais se estou doente

Aparecem cada vez mais cedo os anúncios prometendo emagrecimentos miraculosamente rápidos. Dantes apareciam mais pela Primavera, agora é durante o ano todo. Há dias reparei num que prometia a perda de 35 quilos "sem esforço". Ora o problema está precisamente aí: perder peso sem esforço é uma miragem, e na generalidade dos casos esses tratamentos redundam num ganho de peso ainda maior, a médio prazo, mesmo que no intervalo se tenham realmente perdido os quilos prometidos. Perder peso implica força de vontade e esforço. A sensação com que fico é a de que se pretende fazê-lo sem sacrifícios, comendo de tudo (e muitos promentem-no) e não levantado o rabo do sofá.

Vem isto tudo a propósito das interpelações que me têm sido feitas nos últimos meses, uns entusiásticos "mas que elegância!", geralmente seguidos de um mais contido e receoso "não é doença, pois não?". É que desde Abril deste ano já perdi 35 quilos, e conto perder mais uns 5. Passei de uns paquidérmicos 115 quilos para uns mais decentes 80 (para uma altura de 1,80m). E com 34/35 anos não se afigurava tarefa fácil.

Sem remédios milagrosos, mas com esforço, sacrifício, preseverança e muito bom-senso. Os ingredientes principais da passagem de baleia a ser humano foram:





  1. Uma dieta rigorosa mas racional - pouca carne, muito peixe (sempre cozidos ou grelhados, obviamente), muita fruta, imensos legumes, litros de sopa; quase nada de gorduras animais, excepto as obtidas em produtos lácteos, quase exclusivamente leite; distribuição das refeições ao longo do dia, comendo pouc0 muitas vezes. Numa primeira fase cortei com o pão, o que é um disparate, mas com o peso que tinha, era preciso ser radical. Não me custou nada. Este é o tipo de alimentação que gosto de fazer, e que sempre fiz com excepção daquele ano a seguir a deixar de fumar. A única alteração significativa foi cortar com as batatas fritas e com as sandochas de queijo grosso várias vezes ao dia. É que ninguém emagrece a enfardar uns chouriços assados como aperitivo, seguidos de um valente bife encharcado em molhanga com ovo a cavalo acompanhado de batatas fritas a nadar em óleo, e uma taçazorra de musse de chocolate como sobremesa.


  2. Um programa rigoroso e persistente de actividade física - nada de especial, na verdade. Passei a fazer a pé o percurso que dantes fazia de transportes, entre casa e o autocarro para Lisboa. São 25 minutos a andar a pé, não custa nada. A isto juntei, a partir de certa altura (já depois de ter perdido uns 10 quilos), corridas de 10 minutos no máximo. O problema é que o pessoal já acha que levantar o rabo do sofá para apanhar o comando da TV que caiu a 2 metros já é um esforço inultrapassável. Sem mexer o rabo não há emagrecimento que resulte, a não ser que seja com os tais produtos que a médio e longo prazo trazem sequelas graves (e muitas vezes uma obesidade ainda maior).

Cerca de 30 quilos (a menos) depois, achei que tinha graça ir para um ginásio, e consultar um nutricionista a ver se estava a fazer bem as coisas. A nutricionista achou que eu estava a comer pouco, mas que no essencial estava a fazer as coisas bem. O ginásio é uma maravilha, e já perdi bastante massa gorda, que no entanto não se nota muito no peso (menos 5 quilos em 3 meses), pois é acompanhada de um aumento significativo da massa muscular. Mas nota-se, e muito, na silhueta e na roupa. Menos 12 números de calças, em 9 meses.


Conseguiria os mesmos resultados se continuasse a fazer uma dieta irregular e a não levantar o rabo da cadeira senão para as operações mais essenciais? Evidentemente que não. Até podia passar uma fomeca durante uns tempos, como fiz em 2000, e perder uns bons quilos, mas depois voltava tudo ao mesmo ou a pior, como veio a acontecer. Agora já estou a fazer a minha alimentação normal, em quantidades até superiores ao que fazia - mas com mais qualidade - e o peso não só não aumenta como até continua a descer a um ritmo constante.


Mas o mais importante é mesmo a perseverança e a força de vontade. Antes de avançar para esta solução, tinha feito uma "dieta" daquelas em que se vai dando facadinhas diárias, e exercício físico só mesmo o de carregar nos botões do comando da TV ou dos teclados do computador e telemóvel. Ainda assim perdi 2 quilos. Num ano e meio. Não, assim não se vai lá.


Não estou a vender produtos nem penso abrir clínicas de emagrecimento. É que já começa mesmo a ser maçador estar a explicar várias vezes por dia como é que consegui perder 35 quilos em 9 meses, agora vou passar a andar com uns papelinhos, tipo cartão de visita, com o URL deste texto, e quando alguém me abordar com a pergunta do costume, despacho-o/a com um "ora faxavor de ver aqui neste URL o segredo da minha linha".


Dixi.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Ai é?

Papa Ratzi na Turquia

O papa Ratzi deu uma volta radical na sua posição em relação à adesão da Turquia à EU. Depois de ter afirmado, enquanto era apenas cardeal Ratzi, que a entrada na Turquia era um erro, vem agora, já papa, afirmar precisamente o contrário, de acordo com as notícias que correm insistentemente, e ainda não desmentidas nem oficiosa nem oficialmente.
Acho bem que tenha mudado de opinião, embora francamente não lhe reconheça qualquer legitimidade nem importância para meter o nariz assuntos que não lhe dizem respeito. Primo, porque se trata de assuntos de César, e não do seu deus, e a UE é um conjunto de estados laicos, por mais que isso lhe desagrade. Secundo, porque mesmo que não fossem assuntos terrenos, que legitimidade tem ele para meter o bedelho, não fazendo o Vaticano parte da UE?
Resta saber o que o levou a mudar tão radicalmente de opinião em tão pouco tempo. Iluminação divina, só acessível quando foi promovido na hierarquia eclesiástica?

sábado, novembro 25, 2006

La mujer aseada, o no huele absolutamente a nada, o despide un aroma suave y tenue, lo cual es hasta distinguido y de buen tono.

Retirado de um Resúmen de Urbanidad para las Niñas, de uma tal Pilar Pascual de Sanjuán, que devia ser uma chata de primeira, publicado em 1920:


«La limpieza o aseo, forma parte de la Urbanidad o cortesía?
Sí por cierto, y tanto, que una persona sucia, despeinada o con el vestido roto o manchado, no puede presentarse en sociedad.

Qué debe hacer, pues, una niña?
Lavarse cara y manos todas las mañanas y entre día, siempre que de ello hubiere necesidad.

Qué más?
Peinarse, asimismo, diariamente; cortarse las uñas y lavar de cuando en cuando todo el cuerpo, en particular los pies.

(...)

La mujer aseada, o no huele absolutamente a nada, o despide un aroma suave y tenue, lo cual es hasta distinguido y de buen tono.»

quarta-feira, novembro 22, 2006

Regina nostra

Ouço o inefável Duarte Pio, impropriamente designado "Dom" por algumas pessoas, dizer que a República atrasa Portugal, e que não vota nas presidenciais porque o presidente se faz alguma coisa atrapalha o governo, se não faz, então não serve para nada. Bom, então se chegasse o infausto dia em que o Duarte fosse rei? Se fizess alguma coisa atrapalharia o governo? Se não fizesse nada, que estaria lá a fazer?

domingo, novembro 19, 2006

sexta-feira, novembro 17, 2006

Olha eles

O programa "Opinião Pública" da SIC-Notícias costuma ser um festival de populismo, demagogia e ignorância por parte da generalidade dos espectadores que telefonam. Mas hoje, em que se debate a entrevista do Cavaco à SIC, tem sido especialmente divertido e esclarecedor. As reacções despeitadas e desiludidas dos ppds e dos votantes do Cavaco ao apoio inequívoco dado ao governo pelo presidente mostram que realmente a eleição de Cavaco obedecia a objectivos revanchistas, por parte da generalidade dos seus apoiantes. Queriam não um presidente, mas um líder da oposição em Belém. Isto apesar das garantias em contrário dadas pelo Cavaco durante a campanha. Não acreditaram (e eu também não), mas parece que afinal estávamos todos enganados. A solidariedade do presidente com o governo parece ser total, e ainda vamos ver o PS a apoiar a sua reeleição (cruzes credo) - o que faria com que, pela primeira vez na vida, eu votasse contra as orientações do partido.

sábado, novembro 11, 2006

Roseta

O discurso de Helena Roseta no congresso do PS é uma bênção, e fez-me lembrar de novo por que razão sou socialista, por que razão sou de esquerda, por que razão sou militante do PS. Sublinho também as suas palavras, quando diz que o facto de se ser crítico de algumas opções do governo não significa que se seja oposição interna.

Tradição Académica IV


Recebi há tempos um atestado médico de uma aluna, referindo fracturas graves que a impossibilitarão de levar uma vida normal nos próximos meses. Imaginei um acidente de viação, uma queda, alguma coisa deste género. Entretanto fui contactado por um familiar, que me explicou a razão das fracturas graves: tendo-se recusado a ser praxada, a aluna foi agredida, o que levou às graves fracturas de que ainda está a recuperar. Teve o azar de querer ser integrada por alguns símios. Mas tenho a certeza de ela preferia mil vezes não ter sido integrada...

PS firme nas intenções de voto

Segundo estudo da Eurosondagem (que, como só tem um "s", se deve ler "Eurozondagem"), se se realizassem agora eleições, o PS venceria facilmente, apenas com uma ligeira queda de menos de 2% em relação às eleições de 2005. É notável que um governo que tem tomado várias medidas difíceis e impopulares, que tem enfrentado grande contestação na rua, ainda assim se mantenha no limiar da maioria absoluta, deixando o maior partido da oposição a mais de 10 pontos percentuais. Que isto sirva de motivação a José Sócrates, que vê a sua popularidade cada vez mais reforçada, para continuar o seu caminho, sem inflexões. Uma nota final para a maneira como a SIC apresenta a notícia, com um "PS em queda" em título. Um título destes levaria a crer que o PS tinha dado um tombo nas intenções de voto, situação aliás normal, tendo em conta as medidas impopulares. Mas depois vai-se a ver e afinal a "queda" é de menos de 2% em relação às eleições de 2005, e de menos de 1% em relação à última sondagem - valores dentro da margem de erro. Parece clara a intenção da SIC, já manifesta nos comentários e apartes dos jornalistas que fazem a cobertura do congresso de Santarém. Mais profissionalismo, é o que se pede!

quinta-feira, novembro 09, 2006

Visca Catalunya

Apesar de as recentes eleições terem sido vencidas pela conservadora Convergència i Unió (CiU), o novo governo catalão será uma coligação tripardida, formada pelo Partido Socialista da Catalunha (PSC), Esquerda Republicana (ER), e Iniciativa pela Catalunha, Verdes-Esquerda Unida e Alternativa (ICV-EU-iA). O chefe do governo será o socialista José Montilla. O Pesporrente manifesta o seu agrado por mais esta vitória da esquerda


I told you so...

É certamente ousado classificar o Partido Democrático dos EUA como um partido de esquerda. É, no entanto, a categoria onde mais facilmente se encaixa, quando se tenta classificá-lo de acordo com a taxonomia política europeia. Está mais perto do Labour do que dos Tories, se a comparação for feita com a política britânica.
Vem todo este relambório a propósito, como já se deve ter imaginado, das eleições intercalares americanas da passada Terça. A retumbante vitória democrata na Câmara dos Representantes e a maioria alcançada no Senado não podem deixar de animar aqueles que, como eu, são visceralmente antibushistas, mas de modo nenhum antiamericanos. Depois da assustadora vaga da extrema-direita religiosa, encabeçada pelo Bush filius, que até diz que fala com o seu deus, parece - repito: parece - chegar de novo a hora da América moderada, democrática, mais respeitadora dos direitos humanos.
A reacção republicana foi a esperada: fuga para a frente. Acossado por todos os lados, perante o recrudescimento das vozes contra a guerra, Bush filius pede agora aos Democratas que apresentem um plano alternativo, para se sair do atoleiro iraquiano. Acontece que os Democratas não têm de dar plano nenhum. Devem, é certo. Fá-lo-ão, sem dúvida. Mas não têm de o fazer. É que o problema não foi criado pelos Democratas: foi criado pelos Republicanos, são os Republicanos, com Bush filius à cabeça, que têm de encontrar e pôr em prática uma solução. Foram os Republicanos, com Bush filius à cabeça, atiçado pelo agora demitido Rumsfeld (de hoc alias), que fizeram por puro capricho, como se veio a ver, aquilo que nunca deveria ter sido feito: a invasão do Iraque. Criaram o problema, agora rersolvam-no. Exigir solução aos Democratas é um pouco como aquele menino que parte um vaso caro, depois de sobejamente avisado para ter cuidado, e que depois vai ter com o irmão mais novo e lhe exige que arranje uma solução.
A propósito da demissão de Rumsfelt, apetece dizer o tão americano I told you so. O ideólogo da guerra no Iraque, o senhor que andou há uns anos a vender armas a Saddam para ele massacrar curdos e xiitas, afinal o senhor Rumsfelt estava errado (como qualquer criança de 6 anos percebeu na altura), e foi posto no olho da rua - a mais eloquente assunção de que invadir o Iraque foi, como era óbvio para qualquer pessoa com QI médio, um tremendo disparate. Agora só falta o Bush filius e a sua entourage. É que andou meio mundo a avisá-los sobre o disparate e os perigos que repsentariam a invasão do Iraque, e eles não ligaram nenhuma. Quiseram agir sós, orgulhosamente sós, desprezando aliados e a própria ONU. Agora estão atolados até ao pescoço e querem ajuda. I told you so.

terça-feira, novembro 07, 2006

Sinais do fim dos tempos

Isto é histórico. Pela primeira vez na minha vida estou de acordo e aplaudo as palavras do Cavaco:

«Para Cavaco Silva, a não concretização da pena de morte "seria uma manifestação de superioridade do novo regime do Iraque, que está construindo a sua democracia, em relação ao ditador" Saddam Hussein.»

Aplaudo, sublinho e assino por baixo. Por mais horrendos que tenham sido os crimes do antigo ditador de Bagdad, nada justifica a pena de morte, nada justifica que o Estado desça ao nível dos criminosos comuns.

domingo, novembro 05, 2006

I'm a lumberjack, and I'm okay...


I'm a lumberjack, and I'm okay,
I sleep all night, I work all day.

Mounties: He's a lumberjack, and he's okay,
He sleeps all night and he works all day.

I cut down trees, I eat my lunch,
I go to the lavatory.
On Wednesdays I go shoppin'
And have buttered scones for tea.

Mounties: He cuts down trees, he eats his lunch,
He goes to the lavatory.
On Wednesdays he goes shopping
And has buttered scones for tea.

Chorus : I'm a lumberjack, and I'm okay,
I sleep all night and I work all day.

I cut down trees, I skip and jump.
I like to press wild flowers,
I put on women's clothing
And hang around in bars.

Mounties: He cuts down trees, he skips and jumps,
He likes to press wild flowers.
He puts on women's clothing
And hangs around in bars?!

Chorus: I'm a lumberjack, and I'm okay,
I sleep all night and I work all day.

I cut down trees. I wear high heels,
Suspendies, and a bra,
I wish I'd been a girlie,
Just like my dear Mama.

Mounties: He cuts down trees, he wears high heels,
Suspendies, and a bra?!

Chorus: I'm a lumberjack, and I'm okay,
I sleep all night and I work all day.

Yes, I'm a lumberjack, and I'm ok-a-y,
I sleep all night and I work all day.

Monty Python

Pode repetir?

Acabo de ouvir o Pacheco Pereira dizer "iriam-se". Pelamordedeus! Nem na 4º classe me seria admitida uma coisa dessas!

Quis custodiet ipsos custodes?

A condenação à morte de Saddam Hussein é, tal como os crimes que praticou, um acto hediondo e revoltante. Não há justificação para a condenação à morte, por mais horrendos que sejam os crimes do condenado. O Estado não pode descer ao nível dos assassinos. O Estado não pode ser o assassino.

Mudanças

O Pesporrente mudou-se sem armas (sou pacifista) mas com bagagens para esta nova página.

sábado, outubro 21, 2006

Ai baralham?

No "Expresso da Meia-noite", da SIC-Notícias, Laurinda Alves, apologista da prisão de mulheres por aborto, disse entre outras pérolas que "os políticos baralham as pessoas". Laura, fofa, fala por ti. Lá porque tu te baralhas com facilidade não quer dizer que aconteça o mesmo com os outros...

sexta-feira, outubro 20, 2006

Iustitia et Misericordia


A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) apela ao voto "não" no referendo sobre a despenalização do aborto. Não há surpresa nesa posição, e estranho seria o contrário. Engraçado é ver que, depois de tão veemente apelo ao "não", a CEP dizer que os eleitores não devem seguir correntes de opinião. A afirmação, além de espantosa, é no mínimo irónica. Diz ainda a CEP que não entra em campanhas de tipo político (seja lá o que isso for). Esperemos que cumpram a promessa. É que em 1998, pouco antes do referendo, eu estive, por motivos profissionais, no 13 de Maio, em Fátima, e o que ouvi pelos microfones do santuário foi um verdadeiro comício político, com apelas explícitos ao "não". A Igreja Católica faz o seu papel e defende os seus valores, é certo. Mesmo que não concordemos com a sua opinião, como é o meu caso, temos de respeitá-la. Mas seria interessante que a Igreja Católica respeitasse também a opinião dos outros, o que infelizmente não acontece com frequência.