Confesso: o accordo orthográphico não m'aquece nem m'arrefece. Preocupa-me a correcção orthográphica, como é natural, mas mais ainda a syntáctica e a morphológica. Essas sim, são de natureza linguística. A orthographia é, para todos os effeitos, uma convenção, normalmente mais política do que linguística. A actual ortographia official portuguesa, que tem por base a reforma de 1911, com algumas actualizações posteriores, é um compromisso entre a etymologia e a phonética. Mantiveram-se, por exemplo, alguns penduricalhos etymológicos, sem qualquer função práctica, as malfadadas consoantes mudas, a que tanta gente se appega aghora como Camoens náufrago ao manuscripto d'Os Lusíadas. Consigo compreendel-o, na medida em que a orthographia é, além de sobre tudo convencional, também afectiva. Mas não chega para me agarrar a ella como coisa definitiva e immutável.
Por outro lado, além do carácter affectivo não consigo ver nos dictos penduricalhos qualquer utilidade práctica. Dir-me-hão que servem para abrir as pré-tónicas, argumento antigo e recorrente, mas não completamente verdadeiro. Basta ver alguns exemplos:
- "corar" tem pré-tónica aberta, sem penduricalho;
- "pregar" e seus derivados, no sentido de predicar, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "pegada", marca do pé, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "inflação" não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "actual" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actriz" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actividade" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
etc.
Além disso, os accentos e os penduricalhos não abrem vogais, é ao contrário: estão lá porque as vogais são abertas. A escripta não manda na língua, a língua é que manda na escripta.
Allega-se também que haverá disparidades gráphicas em palavras da mesma família, como "Egito" e "Egípcio", uma tendo a consoante etymológica, a outra não. Mas não é o que já se passa com tantos outros pares, como "esculpir" vs. "escultura"? Pela mesma ordem de ideias, não seria de reintroduzir o "p" em "escultura"? Eu acho que hatté ficava mais bonito. Além do mais, "Egipto" será sempre considerado correcto, pois o accordo prevê a dupla graphia quando a consoante é pronunciada, e há quem a pronuncie n'este caso.
Não m'interpretem mal: eu não tenho nada contra a escripta etymológica. Pello contrário, se eu mandasse seria essa a orthographia legal, assim ao estylo da francesa, ou da nossa antes de 1911. Ler o Eça na sua orthographia original é outra coisa. Perdão, cousa. Desde logo as elisões, que, ao serem eliminadas nas edições modernas não só alteram a disposição gráphica do texto, o que é um mal menor, como introduzem alterações na própria phonética. Quando Eça escrevia "d'ouro", era "d'ouro" que ele queria escrever, não "de ouro", que representa uma sonoridade differente.
Mas não. Não é a questão etymológica que m'apoquenta. Por mim só escrevia etymologicamente - aliás, é assim que faço nos meus escriptos privados.
O que m'incomoda, o que verdadeiramente m'amofina é este nem peixe nem carne orthográphico que nos rege. É ter o penduricalho em "actual", e não o ter em "acabar", quando a etymologia os justificaria em ambos os casos. É ter penduricalho em "connosco" e não ter o mesmíssimo penduricalho em "comigo". Fosse eu quem mandasse e punha-se o penduricalho em todos os casos exigidos pela etymologia. Os franceses fazem-no, e não consta que sejamos menos intelligentes do que elles.
Não sendo politicamente possível regressar à escripta etymológica (uma vez que linguisticamente nada o impediria), então que se arrume esta casa tão desarrumada que é a orthographia portuguesa. O problema é que não me parece que seja desta: apesar de se collocar debaixo do tapete alguma da desarrumação, sob o pretexto de unificar a orthographia, a verdade é que de unificação não se vê grande coisa. A orthographia de Portugal é alterada em pouco mais de 1% do léxico, a brasileira em pouco menos. Portanto, 99% do que se escreve continuar-se-há a escrever da mesma maneira que há meia dúzia de décadas (nem tanto, em muitos casos). Com a excepção parcial dos penduricalhos mudos, não se mexe em muito mais. Em Portugal continaremos a escrever "facto" e "económico", no Brasil "fato" e "econômico". No Brasil despedem-se do inútil trema, nós já nos despedimos delle há muitos annos. Põe-se alguma ordem na utilização do hífen e do circunflexo. Pronto. Basicamente é isto. Espero não me ter esquecido de nada.
Fica praticamente tudo na mesma, não muda quase nada. E é por isto que se faz tanto barulho?
Por outro lado, além do carácter affectivo não consigo ver nos dictos penduricalhos qualquer utilidade práctica. Dir-me-hão que servem para abrir as pré-tónicas, argumento antigo e recorrente, mas não completamente verdadeiro. Basta ver alguns exemplos:
- "corar" tem pré-tónica aberta, sem penduricalho;
- "pregar" e seus derivados, no sentido de predicar, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "pegada", marca do pé, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "inflação" não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "actual" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actriz" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actividade" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
etc.
Além disso, os accentos e os penduricalhos não abrem vogais, é ao contrário: estão lá porque as vogais são abertas. A escripta não manda na língua, a língua é que manda na escripta.
Allega-se também que haverá disparidades gráphicas em palavras da mesma família, como "Egito" e "Egípcio", uma tendo a consoante etymológica, a outra não. Mas não é o que já se passa com tantos outros pares, como "esculpir" vs. "escultura"? Pela mesma ordem de ideias, não seria de reintroduzir o "p" em "escultura"? Eu acho que hatté ficava mais bonito. Além do mais, "Egipto" será sempre considerado correcto, pois o accordo prevê a dupla graphia quando a consoante é pronunciada, e há quem a pronuncie n'este caso.
Não m'interpretem mal: eu não tenho nada contra a escripta etymológica. Pello contrário, se eu mandasse seria essa a orthographia legal, assim ao estylo da francesa, ou da nossa antes de 1911. Ler o Eça na sua orthographia original é outra coisa. Perdão, cousa. Desde logo as elisões, que, ao serem eliminadas nas edições modernas não só alteram a disposição gráphica do texto, o que é um mal menor, como introduzem alterações na própria phonética. Quando Eça escrevia "d'ouro", era "d'ouro" que ele queria escrever, não "de ouro", que representa uma sonoridade differente.
Mas não. Não é a questão etymológica que m'apoquenta. Por mim só escrevia etymologicamente - aliás, é assim que faço nos meus escriptos privados.
O que m'incomoda, o que verdadeiramente m'amofina é este nem peixe nem carne orthográphico que nos rege. É ter o penduricalho em "actual", e não o ter em "acabar", quando a etymologia os justificaria em ambos os casos. É ter penduricalho em "connosco" e não ter o mesmíssimo penduricalho em "comigo". Fosse eu quem mandasse e punha-se o penduricalho em todos os casos exigidos pela etymologia. Os franceses fazem-no, e não consta que sejamos menos intelligentes do que elles.
Não sendo politicamente possível regressar à escripta etymológica (uma vez que linguisticamente nada o impediria), então que se arrume esta casa tão desarrumada que é a orthographia portuguesa. O problema é que não me parece que seja desta: apesar de se collocar debaixo do tapete alguma da desarrumação, sob o pretexto de unificar a orthographia, a verdade é que de unificação não se vê grande coisa. A orthographia de Portugal é alterada em pouco mais de 1% do léxico, a brasileira em pouco menos. Portanto, 99% do que se escreve continuar-se-há a escrever da mesma maneira que há meia dúzia de décadas (nem tanto, em muitos casos). Com a excepção parcial dos penduricalhos mudos, não se mexe em muito mais. Em Portugal continaremos a escrever "facto" e "económico", no Brasil "fato" e "econômico". No Brasil despedem-se do inútil trema, nós já nos despedimos delle há muitos annos. Põe-se alguma ordem na utilização do hífen e do circunflexo. Pronto. Basicamente é isto. Espero não me ter esquecido de nada.
Fica praticamente tudo na mesma, não muda quase nada. E é por isto que se faz tanto barulho?











