A minha sobrinha, de 2 anos e meio, jura a pés juntos e gritos convictos que a Eva Longoria, que viu fotografada neste cartaz, é a mãe do Ivo, colega da creche. Eu não tenho motivos para não acreditar nela, e já lhe dei um livro de autógrafos que espero ter amanhã devidamente assinado pela Eva.
A eleição presidencial norte-americana há muito deixou de ser um assunto exclusivamente norte-americano, por razões tão óbvias que me dispenso recordá-las. Por isso parece-me legítimo tomar partidos, ainda que não tenhamos o direito de voto. Como homem de esquerda, aquilo a que os americanos chamam "liberal", o meu apoio vai sempre para os candidatos Democratas, do partido que mais perto está do socialismo democrático europeu. Por isso o meu primeiro instinto foi apoiar Hillary Clinton, reconhecida pelas suas tendências esquerdistas (à escala norte-americana, naturalmente). No entanto não fiquei imune aos encantos de Barack Obama. Há qualquer coisa naquele homem que me dá esperança. Por isso aqui fica o meu voto simbólico nas primárias Democratas: Obama!
Cometi o erro de mandar vir um DVD via net, da FNAC portuguesa. Já uma vez tinha mandado vir um livro, por isso deveria estar prevenido. Mas resolvi dar-lhes uma segunda oportunidade. Em vão. As encomendas continuam a demorar cerca de uma semana a chegar, entre a feitura da encomenda e a sua recepção. Habituado à celeridade da Amazon.co.uk, que me entrega as encomendas em 3 ou 4 dias, não volto a cair no mesmo erro. A partir de agora, encomendas da FNAC só em desespero de causa. Ah, e nem sequer coloco a hipótese de mandar vir livros do estrangeiro via FNAC: ignorando evoluções e invenções como o comboio ou os automóveis e as estradas de asfalto, a FNAC portuguesa continua a mandar vir as encomendas via correio a cavalo, e a fazer a sua entrega em carroças puxadas por mulas por caminhos de cabras. Só assim se justifica os meses que uma encomenda demora a chegar...
Nunca tinha ouvido falar deste filme, e é com surpresa que descubro que tem sido um "hipe" cibernético nos últimos tempos. Mais: quando entrei na sala não fazia ideia do que me esperava. Escolhi este porque não me apetecia ver nenhum dos outros. Ainda bem que nunca tinha ouvido falar dele. Se soubesse à partida que se tratava de um filme-catástrofe, com um monstro a destruir (outra vez) Nova Iorque, o mais provável é que tivesse voltado para casa resmungando um "já não há pachorra".
Cloverfield é, no entanto, um filme excelente. Quem vai à espera de um Godzilla revisitado, desengane-se - e havia umas pessoas muito decepcionadas, atrás de mim, provavelmente mais habituadas a ver coisas menos exigentes. A câmera não pára. É uma câmera de mão. Uma festa de despedida. E de repente a electricidade falha e começam a cair prédios e pedaços da Estátua da Liberdade. Atentado? Sismo?
Depois é mais de uma hora de angústia e incerteza. O que é aquilo? De onde veio? E depois acaba-se a fita da cassete de vídeo.
A minha irmã acha que eu não devia deixar a minha sobrinha ler Edgar Allan Poe. Eu ainda me tentei defender, alegando que entre Poe e Joyce, a sua primeira escolha, me tinha parecido mais apropriado à idade o primeiro. Mas a minha irmã mostrou-se irredutível, afirmando que agora já entendia porque raio a miúda tinha tentado emparedar o irmão, e que mal por mal preferia que ela ganhasse a mania de comer rins fritos.
A minha sobrinha, de 2 anos, afirma sem hesitar que este fresco de Pompeios (*), de que tenho uma reprodução no meu escritório, representa a mãe e o pai. Como classicista fico comovido e feliz: tão nova já reconhece os nossos pais.
O cancelamento do Dakar 2008 é uma vitória retumbante do terrorismo internacional, e uma derrota vergonhosa da liberdade e da democracia. Cedendo à ameaça, a organização abriu, além disso, uma caixa de Pandora de consequências imprevisíveis. Qual será o próximo grande evento a ser cancelado por causa de uma ameaça terrorista? Jogos Olímpicos? Europeu de Futebol?
Note-se que não há, nesta minha posição, qualquer parti pris. Acho o automobilismo execrável, e acho que é um alívio ver-me livre dos entediantes "resumos do dia", que bem podiam ser imagens de arquivo, para mim aquilo é sempre igual.
A propósito, alguém me explica porque é que se diz que este seria o 30º Dakar? Ora bem, ou a minha matemática já não é o que era, ou há aqui algum dado que me está a falhar: se a primeira edição foi em 1979 e nós estamos em 2008, é fazer as contas. 2008 - 1979 = 29. Não me enganei pois não? Ou falta aqui algum dado? Como disse não tenho pachorra para marmanjos a acelerar carros badalhocos, não sou muito entendido no assunto.
Badii quer morrer, e sabe como fazê-lo: tranquilizantes. Tem até uma sepultura cavada, à sombra de uma cerejeira, onde se deitará enquanto os tranquilizantes fazem efeito. Só há uma dificuldade: contratar alguém que o enterre. Um filme sobre solidão e desespero. Mais uma pérola de Kiarostami.
Elephant é mais uma pequena maravilha com que Gus Van Sant nos presenteia. Um murro no estômago, onde a violência é estética e a morte é limpa e rápida, como num jogo de computador.
O senhor Cavaco manifesta-se preocupado com a disparidade existente entre os salários dos gestores e os dos seus empregados. Só lhe fica bem este tipo de preocupações. Mas é pena ter-se estado nas tintas para o problema, agravando-o até, nos 10 anos 10 em que foi chefe do Governo.
Há filmes que marcam uma vida. Gerry é, para mim, um deles. De Gus Van Sant já tinha visto outras pequenas pérolas, como Mala Noche, ou My Own Private Idaho. Apesar disso, Gerry conseguiu surpreender-me. Planos longos longos, quase ausência de diálogo, banda sonora fabulosa. Um filme opressivo e angustiante. Dois rapazes perdidos no deserto. A rever. Talvez ainda hoje.
No primeiro filme, uma criança procura encontrar um estratagema para passar por uma ruela, controlada por um cão com ar de rufia.
No segundo filme, uma criança sofre castigos na escola e perseguições por parte de outras crianças, e parte sozinha não se sabe para onde.
No terceiro filme, num registo digno de Monty Python (embora não seja, certamente, essa a ideia do autor, duas crianças apresentam duas soluções opostas para resolver um problema: uma delas emprestou um livro à segunda, que o devolve rasgado.
O quarto filme é o meu preferido. Um velhote quase surdo, que precisa de um aparelho auditivo para ouvir. No entanto, a maior parte das vezes, quem sabe para ter um pouco de paz, tem-no de fora da orelha. Vemos o seu passeio pelas ruas da aldeia, até chegar a casa, ora tirando, ora pondo o aparelho, conforme as circunstâncias. Ao chegar a casa, incomodado pelo ruído infernal de umas obras ali perto, retira o aparelho e entretem-se com as suas coisas. Por isso não ouve a campainha, tocada pelas duas netas, meninas dos seus 6 ou 7 anos, que regressam da escola, e que se vêem obrigadas a gritar pelo avô, com a ajuda de uma pequena multidão de colegas de escola que se vai juntando: um coro de vozes infantis, que consegue por fim penetrar o mundo de silêncio do velhote. Uma delícia.
Prossigo a minha descoberta de Kiarostami e do cinema iraniano. "E a vida continua" é mais uma obra sublime. Não se percebe muito bem onde começa o documentário, não se percebe muito bem onde começa a ficção. É a segunda parte da "trilogia do terramoto", e é à primeira parte, "Onde é a casa do meu amigo", que regressamos, nesta viagem do realizador a Koker, a aldeia onde filmou o primeiro filme, depois do terramoto que abalou o norte do Irão em 1990, para tentar saber o que aconteceu ao jovem protagonista, Babek Ahmed Poor (uso a ortografia do IMDB, não tendo encontrado o original persa para verificar). É um filme em tom de documentário, em que nada verdadeiramente se passa, tirando os testemunhos arrepiantes dos sobreviventes do terramoto, mas que nos prende e nos torna companheiros desta viagem sem fim conhecido. Um filme profundamente pacífico e sereno, apesar do argumento. E a vida continua, e um Brasil x Argentina em futebol (Mundial '90) merece a instalação de uma antena num acampamento de desalojados de um terramoto que, ficamos a saber, aconteceu quando Escócia e Brasil jogavam e o Brasil tinha marcado um golo.
Ahmed, um menino de 8 anos, leva para casa, por engano, o caderno do colega de escola Nematzadeh. Ahmed sabe que o amigo corre o risco de ser expulso, pois é reincidente no esquecimento do caderno, e por isso não descansa enquanto não se põe em busca da casa de Nematzadeh, na aldeia vizinha, Poshteh.
Uma história quase ingénua, não fosse o drama que lhe está subjacente, situada num Irão rural, completamente desconhecido do Ocidente.
O Ministro das Finanças anuncia Faria de Oliveira para presidência da Caixa Geral de Depósitos. Antigo ministro de um governo PSD. Rui Gomes da Silva (PSD) diz que isto se deve à intervenção do PSD, numa clara admissão de que efectivamente o sr. Luís Filipe Meneses de facto andou a tentar meter cunhas. Vou ficar agora à espera de ver o que dizem os que acusam o Governo de arranajr "jobs for the boys". Sem grande esperança, pois já ficaram calados em outras situações do género, como quando um ex-ministro do Durão Barroso, aliás José Manuel Barroso, foi nomeado para presidente da CMVM.
Aviso colocado no WC masculino do Terminal Rodoviário de Torres Vedras. A cacografia revela que o autor teve hesitações. Isto pode ver-se, por exemplo, no acento colocado em cima da forma verbal "é". Claramente o autor hesitou entre acento grave e agudo. Não tendo sido capaz de decidir qual o que ficava mais bonito, optou por um acento a que os gramáticos latinos chamavam "nec piscis nec caro" (*). Também me parece claro que o texto se destina a ser cantado. Só assim se entende a divisão silábica dos dois últimos versos, apontanto todas as evidências para um prolongamento da voz no "ó" (v. 4) e na sílaba "qus" (v. 5). Talvez para contrabalançar a acentuação paroxítona predominante no texto. Poder-se-á perguntar porque é que não sucede o mesmo nos restantes versos de acentuação paroxítona. Bom, o facto de o autor isolar os dois versos finais parece-me uma claríssima intenção de lhes sublinhar o sentido. Talvez seja até o refrão.
--- (*) Tradução? Mas era só o que faltava. Como sabe, para entrar neste blogue o conhecimento de Latim é condição sine qua non. Se entrou e não sabe Latim, faça o favor de se retirar.
Os accionistas do BCP querem que o sr. Santos Ferreira, ligado ao PS, passe a dirigir o seu grupo financeiro. Tudo bem. São accionistas privados de um banco privado. Apesar disso há quem ache que o Governo está a colocar homens de confiança em lugares de destaque. Se alguém me fizer um desenho a explicar o que tem o dito a ver com as calças, eu agradeço.
Aviso colocado no WC masculino do Terminal Rodoviário de Torres Vedras. Em cima aparece outra mensagem, que não fotografei porque entretanto chegou gente e era capaz de dar mau aspecto. Na mensagem de cima a forma do verbo "mijar" aparecia como "mixe". Isto demonstra que o autor da inscrição tem uma sólida bagagem cultural, pois escreve à maneira dos humanistas do século XVI, usando grafias diferentes para a mesma palavra, consoante o humor com que acorda.
Estranhei a notícia que dava conta da chegada de um barco com imigrantes clandestinos marroquinos ao Algarve. Com Espanha ali ao lado, quem, no seu perfeito juízo, escolheria Portugal, ainda que eventualmente confundido pela sonoridade arábica da costa algarvia? Depois tudo se tornou claro, quando um dos clandestinos disse, num espanhol macarrónico, que era "España, no Portugal", prontamente secundado por outro, que dizia, em bom francês, "pas de chance". Realmente é preciso ter pouca sorte. Além das condições desumanas em que viajaram, massacrados pelo frio e pela água, ainda tiveram a pouca sorte de virem parar a Portugal.
Espero que tenha sido apenas um azar, e que consigam chegar em breve a Espanha e melhorar as suas condições de vida, إن شاء الله !
Uma pequena jóia no Teatro-Cine de Torres Vedras, que parece ter-se virado definitivamente para uma programação alternativa e de qualidade. O filme é de Gus van Sant é de 1985, mas só agora foi lançado em Portugal. Compreende-se. O filme é bom, por isso não teria sucesso comercial. Uma história negra, a preto e branco, de desejo obsessivo. Um homem apaixonado por um jovem imigrante ilegal. A humilhação, a violência. Imperdível.
A Cornucópia tem em cena Feliz Aniversário / The Birthday Party, de Harold Pinter, até amanhã, dia 11 de Novembro. Fui ontem ver, e acho que é pecado não aproveitar estes dois últimos dias para ir à Comuna, caso ainda não se tenha ido. O texto é soberbo, a interpretação excelente. Custa sempre destacar quando são todos tão bons, mas não posso deixar de me vergar perante a excelência da interpretação desse grande senhor que é João d'Ávila.
Alguém me explica, assim como se eu tivesse 5 anos e uma grave deificiência mental, qual é o problema deste cartaz, e porque está a causar tanta polémica? Aceitam-se desenhos, também.
Não há muitas palavras que possam descrever a excelência do espectáculo que a Cornucópia levou à cena até ontem, por isso não vou sequer tentar. Queria, no entanto, assinalar o facto de das duas vezes que lá fui a lotação estar esgotada, e de ontem haver uma enorme multidão à espera de desistências, para poder assistir. Isto demonstra uma coisa importante: que afinal é mentira que os teatros estejam vazios porque os bilhetes são caros. Alguns teatros estão vazios porque apresentam espectáculos sem qualidade. Não é o caso da Cornucópia, que até tem preços ao nível de um bilhete para um jogo de futebol.
P.S.: infelizmente uma parte muito significativa da audiência parece ter passado ao lado do texto, rindo de situações que eram tudo menos cómicas.
O filme é jeitoso. Tal como o outro filme de Kapur também dedicado à Rainha Virgem, vive muito de uma fotografia belíssima e de um guarda-roupa deslumbrante e historicamente rigoroso. O enredo é bonzinho, embora aqui e ali tenha caído num anacronismo e maniqueísmo perdoáveis na medida em que aquela produção tem de vender para compensar o orçamento, que não deve ter sido pequeno. Interessante, embora inverosímil, o toque trágico (no verdadeiro sentido da palavra) que até certo ponto parece tomar conta de Isabel, convencida de que Filipe II é o instrumento de Deus que castiga a sua hybris, a execução da católica Maria da Escócia. De resto a cena da execução é das mais fortes e bem conseguidas de todo o filme. Mais interessante ainda, do meu ponto de vista, a secundarização da batalha naval em relação à intriga política e amorosa. Kapur não caiu na tentação de fazer um filme de guerra e efeitos especiais, e eu fico-lhe profundamente grato. Um filme interessante, portanto, embora comercial.
P.S.: Não percebi os sussurros de espanto de alguns espectadores, ao verem as quinas portuguesas em barcos da Armada espanhola. Não percebo o espanto. Se em 1588, data da partida Armada de Lisboa, as coroas portuguesa e espanhola se encontravam unificadas em Filipe II de Espanha e I de Portugal, se a Armada era composta por barcos portugueses e espanhóis (como qualquer pessoa informada sabe, o que houve foi uma unificação das coroas, não uma anexação), então que espanto haverá em as armas de Portugal e de Espanha surgirem lado a lado nos barcos da Armada? Ou há qualquer coisa que me está a escapar, ou o ensino anda mesmo muito mal.
Estreou há dias em Portugal o filme intitulado, no original, Elizabeth: The Golden Age. Em Portugal foi baptizado Elizabeth - A idade do ouro. A ignorância e incompetência dos tradutores portugueses é proverbial, no entanto os seus atentados intelectuais costumam cingir-se a um desconhecimento aflitivo das mais elementares regras da gramática portuguesa, bem como uma inacreditável ignorância da língua de partida. Neste caso a ignorância de factos básicos da História europeia levou a chamar Elizabeth a uma senhora que é, há vários séculos, conhecida como Isabel, em Portugal. Pode-se questionar a pertinência da tradução de nomes próprios, mas a verdade é que ela é de regra, por exemplo, nos nomes de personagens históricas ou da realeza contemporânea. É por isso que se diz que a actual rainha de Inglaterra é Isabel II - ou será que a mente iluminada do(a) tradutor(a) lhe chama Elizabeth II. É que é esse o uso prescrito. É por isso que, por exemplo, o famoso imperador se chamava Napoleão, não Napoléon. Já para não falar de Henrique VIII, Alexandre o Grande, Júlio César e outros que tais.
Bom, ingorância à parte, vou ver o filme, porque retrata um período histórico que me interessa bastante. Mas vou preparado para mais umas alarvidades do género. É pena não haver a opção de ver os filmes sem legendas, na língua original.
Enquanto suava no ginásio, ia olhando para a televisão, posta estrategicamente por cima da passadeira. Estava a dar um programa medonho na MTV (sim, é redundante "medonho" e MTV na mesma frase, mas não interessa), sobre mansões de "parvenues" americanos. Um deles, com fronha de emigrante portuga em França (mas era americano e estava em L. A.), mostrava orgulhoso um "raro piano do século XVII": uma peça horrorosa, cheia de talha dourada, com todo o ar de órgão manhoso de igreja de província. Ora, como toda a gente sabe, o piano só foi inventado no século XVIII, ainda que se possa remontar aos finais década de 90 do século XVII um primeiro protótipo, que no entanto só com muito boa vontade se poderia chamar um piano. Portanto, o mamarracho de teclas modernas que o "parvenue" exibia orgulhoso e que, segundo o programa, lhe custou algumas centenas de milhares de dólares, é realmente uma peça mesmo mesmo muito rara... Assim uma espécie de Nossa Senhora de Fátima em marfim do século XVIII.
O senhor à minha frente, barrigudo e bem fornecido de carnes, pediu não sei o quê. Crepes? Francesinhas? Assim uns quadrados com dois ou três dedos de altura, cobertos de uma pasta branca fumegante. Queijo derretido? Algum molho? Tinha muitíssimo bom aspecto. Olhou para o prato com ar culpado, e pediu, para acompanhamento, salada. Deitava olhares aflitivos às batatas fritas e à maionese. Mas resistiu. Depois pediu uma sopa, pouco convencido. A refeição ficaria completa com um desanimado pratinho de fruta. Aposto que no fim pediu café com adoçante. Eu pedi uma belíssima sopa. Como não tenho tendências suicidas, dispensei a gordura com um pouco de crepe, bem como a bacalhauzada com natas e o que quer que fosse aquela pasta grossa, avermelhada, com bolhas de gordura, onde nadavam pedaços de carne. Na impossibilidade de esperar que me grelhassem um bife, e como no chamado "Bar de Românicas" da FLUL se declarou guerra à comida saudável, fiquei-me pelo arroz branco com salada. Concluí com uma deliciosa pratada de fruta, e no fim bebi um chá sem açúcar - lembra alguém estragar o fabuloso sabor do chá com açúcar?! Depois olhei de novo para a barriga do senhor à minha frente. Eu também já tive uma assim, há 40 quilos atrás. Só que um dia achei que uma coisa daquelas era feia e perigosa para a saúde. E fiz uma dieta racional e séria. Aquele senhor acha que aqueles nacos de não sei quê embebidos em gordura fazem menos mal se forem acompanhados de salada.
O André Benjamim lançou-me o desafio. Eu não costumo participar, mas abro uma excepção, em consideração ao meu homónimo, que gosto de ler. Além disso achei que era um bom pretexto para falar de uma das minhas mais recentes e intensas paixões, a língua e cultura árabe e islâmica.
O desafio é, pois, o seguinte:
"1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro; 2. Abra o livro na página 161; 3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa; 4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada; 5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha."
O problema é que o livro que tinha mais perto de mim era um dicionário "Árabe - Inglês", e supus que dicionários não contassem. Pensei então no segundo livro mais perto de mim, o Alcorão. Mas o desafio implica não escolher. Voltei então ao dicionário. Tive a esperança de que aparecesse uma definição interessante. Sei lá, um conceito filosófico ou religioso. Ou um verbo de implicações cognitivas. Ou uma preposição daquelas muito ricas em sentidos. Ou até um adjectivo bonito. Sei lá, qualquer coisa de jeito. Mas o que está na 5ª frase completa (entendida como definição) é o seguinte:
"كاحل kahil (كواحل kawahil) ankle"
Bom, o difícil agora é escolher 5 pessoas. Mas aqui vai:
Aprender árabe foi um dos maiores desafios a que me propus nos últimos anos. Não tanto pela proverbial (e até certo ponto real) dificuldade da língua, mas por três factores que ma tornaram irresistível.
1. O facto de não ser uma língua indo-europeia. Até agora só tinha aprendido línguas indo-europeias: inglês, francês, latim, grego clássico e espanhol (por ordem cronológica). Por mais estranhas que aparentem ser, há sempre um determinado número de características fundamentais que as unem, ao nível morfo-sintáctico. Por mais bizarro que possa parecer o sistema verbal grego clássico, ele obedece, no essencial, aos mesmos princípios do nosso. Mas com o árabe não se passa nada disto. É necessário esquecer praticamente tudo o que se sabe sobre línguas. Lembra a alguém, por exemplo, que animais ou coisas no plural levem uma concordância de adjectivo no feminino singular?
2. O facto de ser uma língua sagrada. O estudo do árabe não se pode dissociar do Islão, ainda que haja um número significativo de arabófonos de religião cristã ou judaica. É que o árabe que aprendo, o árabe padrão usado nos "media", literatura e relações internacionais, não é outro senão o árabe do Alcorão, fixado há 14 séculos, apenas com alguns neologismos impostos pela evolução tecnológica. Eu não sou muçulmano nem imagino que venha alguma vez a ser. Sou ateu. Mas as religiões fascinam-me, e por isso talvez tenha lido o Novo Testamento mais vezes do que a esmagadora maioria dos cristãos. O Islão, tão pouco e mal conhecido no Ocidente, sempre me fascinou. Esta é uma oportunidade única de o conhecer melhor, e com a possibilidade de ler os seus textos fundadores no original.
3. O facto de ser uma língua quase imutável. Como ficou dito em cima, o árabe padrão moderno é o árabe fixado por Maomé no Alcorão, no século VII d.C., apenas com alguns neologismos impostos pela evolução tecnológica. Mas a sintaxe, a morfologia, a generalidade do léxico, são os mesmos num jornal do Cairo ou numa Sura do Alcorão. É quase como se nos jornais portugueses se escrevesse à maneira de Fernão Lopes, ou, levando um pouco mais longe o símile, como se o telejornal fosse dito em latim. Evidentemente não é este o árabe do homem da rua, que fala o que se convencionou, por razões políticas e religiosas, chamar dialectos, mas que na prática são línguas diferentes. Ora, tendo-me eu dedicado durante tantos anos ao estudo da filologia medieval hispânica, como poderia deixar escapar esta oportunidade de aprender a língua usada, com quase nenhumas alterações, no al-Andalus medieval?
Regressa este blogue à actividade com a excelente notícia que foi a derrota sofrida pela extrema-direita polaca nas eleições deste Domingo. Não é que o Tusk seja assim por aí além em termos ideológicos (não posso avaliar mais nada, não vivendo na Polónia), mas a derrota das ideias reaccionárias, ultra-religiosas, xenófobas, homófobas, etc. tem de ser uma boa notícia em qualquer parte do mundo.
Não bastavam ao Al Gore os ataques soezes de que tem sido vítima nos EUA? Não lhe bastava ter sido derrotado nas presidenciais mesmo tendo tido mais votos do que o adversário? Tinham mesmo de lhe fazer mais esta?
Já entrou em vigor a obrigatoriedade de realização de exames de português para a obtenção da nacionalidade portuguesa. A lei não se aplica, racistamente, aos nascidos em Portugal filhos de portugueses. Para os nacionalistas não é má ideia. É que se fosse obrigatório obter classificação positiva num exame de português para a obtenção da nacionalidade, em vez de 10 milhões talvez fôssemos 1 milhão - e estou a ser optimista.
Num país normal, Jardim há muito teria sido demitido e reformado compulsivamente, tais têm sido os dislates, as incontinências verbais, a chantagem, o insulto.
No futebol costuma-se dizer que, se uma equipa ganha o jogo, então o treinador é felicitado por determinada táctica. Se por um acaso perder, então essa mesma táctica é arrasada por adeptos e imprensa. Sócrates não era obrigado a submeter a sua proposta de despenalização do aborto a referendo. Tinha legitimidade legal e política para propor a alteração no parlamento, onde tinha a garantia de uma aprovação por maioria esmagadora. Era o que o PCP defendia. Mas o que o PCP nunca entendeu é que os movimentos do "não" nunca deixariam passar em branco esta manobra legalíssima, e que a nova lei ficaria maculada inevitavelmente logo à nascença. Pelo contrário, a opção referendária (que não era legalmente obrigatória, recorde-se) permite calar os "nãos" radicais, por um lado, e a legitimação da legislação proposta, por outro. Sócrates apostou tudo, e ganhou. Ganhámos todos.
Ainda não se sabe o resultado do referendo, são agora 19:00, mas já se sabe que a abstenção anda por volta dos 60%. Portanto, o portuga típico, que passa a vida em declarações proto-fascistas do tipo "eles são todos iguais", "eles querem é poleiro", responde desta forma quando lhe é dada a oportunidade de escolher, sem ser por intermédio desses "malandros": está-se nas tintas, não quer saber, os outros que decidam. É este o povo que temos. Eu? Eu fui votar, como qualquer pessoa bem formada e civilizada.
P.S.: o que quer dizer o título deste texto? Eu acho que qualquer pessoa sabe, mas pronto, para terem a certeza: "... pérolas a porcos".
Todas as sondagens apontam para uma vitória folgada do SIM, no referendo de Domingo. Mas nós já vimos este filme, e não podemos portanto fiar-nos em sondagens. Sondagens não ganham eleições: é um lugar-comum, mas não deixa de ser uma verdade incontornável. Não podemos nós, que somos contra a penalização das mulheres que se vêem obrigadas a abortar, ficar em casa, fiados de que os outros vão resolver por nós. É que até podem resolver, mas não necessariamente como queremos. Todos às urnas, todos pelo SIM!
A última dos apoiantes do "não" é que se deve alterar a lei de modo a que a mulher que aborta não seja penalizada. Isto é, que seja crime, mas sem ser punido. Portanto, pode-se fazer, porque não há penalização. Por isso votam contra uma proposta que pretende despenalizar a mulher que faça um aborto, e por isso hostilizam o SIM, que quer que acabem os julgamentos de mulheres que abortam. Espera lá que agora fiquei baralhado. Alguém me pode explicar assim como se eu tivesse 5 anos?
Não sei se ainda me consideram jovem, apesar de num recente programa da RTP sobre jovens os ditos cujos parecerem ser meus avós. Mas eu assumo: já não sou jovem. Já caminho em direcção aos 40, e só se fosse agricultor é que ainda era considerado um jovem. Mas isso não me impede de me juntar, ainda que simbolicamente, à campanha dos Jovens pelo SIM.
Marques Mendes diz que vai votar "não" no referendo de 11 de Fevereiro, mas que é contra a prisão de mulheres por abortarem. Alguém me pode explicar, assim como se eu fosse muito burro, como é que se pode ser contra a prisão de mulheres por aborto e votar "não" a uma proposta de alteração da lei que visa exactamente acabar com a prisão de mulheres por aborto? Ou será que o Marques Mendes quer que a lei se mantenha e seja desrespeitada?
Há já muito tempo que a política interna norte-americana deixou de o ser. Assim, o anúncio da candidatura de Hillary Clinton à nomeação democrata para a corrida presidencial de 2008 tem de ser importante não só para os norte-americanos mas também para o resto do mundo. Hillary vem, certamente, recentrar à esquerda a política norte-americana, e, sobretudo, devolver-lhe inteligência e bom-senso. A minha simpatia por Hillary vem dos tempos do 1º mandado do seu marido como presidente dos EUA. Não é comum encontrar nos partidos dominantes da política norte-americana alguém com posições tão à esquerda como Hillary. É portanto com alegria que proclamo she's in!
As bichas de horas na Gulbenkian nos últimos dias da exposição do Amadeo de Sousa Cardoso, mais do que uma inusitada apetência pela cultura do povo português, demonstra de novo em todo o seu esplendor esta característica nacional que tanto nos tem afundado: deixar tudo para a última hora. É que se o motivo fosse mesmo o desejo de cultura, teria havido bicha durante as outras semanas em que a exposição este patente. Mas não: de todas as vezes que passei por lá, não via mais do que 2 ou 3 pessoas (em dias bons) a rondar o acesso da dita cuja exposição.