Numa medida mais simbólica do que prática, o Governo resolveu descer a taxa máxima do IVA de 21% para 20%. A oposição, fazendo o seu papel, tratou imediatamente de atacar a medida. O PSD disse uma série de irrelevâncias e momices histriónicas, habituais nesta liderança menezíaca. O CDS disse que o motivo que motivou esta descida, a descida do défice público, se conseguiu à custa de aumento de receitas. E disse isto em tom de crítica, o que é espantoso. Queriam que descesse como? Com receitas extraordinárias, como fizeram, sem qualquer resultado, no seu tempo de desgoverno? O PCP não sei o que disse, mas não é difícil imaginar. O BE recordou que esta redução é insignificante, e que não afecta os bens essenciais. Pois é. É verdade. Do mesmo modo, quando o Governo aumentou a taxa máxima do IVA, em 2005, foi também um aumento insignificante. É que, precisamente como a redução de agora, o aumento de 2005 não afectou os bens essenciais, reflectindo-se apenas em coisas como carros, máquina de filmar, roupas ou jóias. Mas na altura o discurso do BE foi ligeiramente diferente...
quinta-feira, março 27, 2008
quarta-feira, março 26, 2008
De quem?!
O Dário de Notícias publicita um dos seus "cursos de línguas" com uma menina em cima de uma bandeira israelita, e uns dizeres do género "Venha aprender a língua de Ulisses". A não ser que este Ulisses seja alguma outra personalidade que agora me esteja a escapar, há por aqui alguma confusão. Não me consta que, a ter existido, falasse hebraico. Também não falaria grego moderno, certamente, se a frase se referisse a um passado ou futuro CD de um "curso de grego". A não ser que o DN esteja a vender cursos de grego homérico, o que me parece improvável.
Seja como for, espero que os cursos de hebraico ou grego do DN tenham menos erros do que o de árabe (mais seria complicado). O "livro de exercícios" era um atentado à língua e cultura árabes difícil de imaginar. Começava por não ligar as letras, o que é a base da ortografia árabe. É um pouco como se apresentassem um curso de português em que as palavras se escrevessem de cima para baixo. Absurdo e injustificável. Por exemplo, a palavra para "sim" (na'am) aparecia escrita ن ع م em vez do correcto نعم . Convenhamos, qualquer semelhança entre uma coisa e outra é mera coincidência.
Seja como for, espero que os cursos de hebraico ou grego do DN tenham menos erros do que o de árabe (mais seria complicado). O "livro de exercícios" era um atentado à língua e cultura árabes difícil de imaginar. Começava por não ligar as letras, o que é a base da ortografia árabe. É um pouco como se apresentassem um curso de português em que as palavras se escrevessem de cima para baixo. Absurdo e injustificável. Por exemplo, a palavra para "sim" (na'am) aparecia escrita ن ع م em vez do correcto نعم . Convenhamos, qualquer semelhança entre uma coisa e outra é mera coincidência.
terça-feira, março 25, 2008
Voilà
Raus!
Francamente não vejo qual o problema com a história de se pedir informações aos recém-casados sobre a festa e coisas do género. Tudo o que sirva para apanhar criminosos (neste caso os que fogem aos impostos) parece-me muitíssimo bem. De resto acho que nestes casos se podia aplicar a receita que recomendei a quem protesta por a ASAE nos estar a tentar aproximar do 1º mundo: criem-se serviços públicos com separação de utentes. De um lado, os que pagam os impostos devidos e não se importam de que se faça tudo o que é possível para que todos paguem. Esses teriam direito, por exemplo, a um serviço de saúde ao nível do 1º mundo. Do outro, os que fogem aos impostos, não passam nem pedem facturas, etc: esses seriam atendidos nos serviços (não) pagos pelo seu crime - hospitais a cair de podres e sem condições. É muito bonito andar a exigir mundos e fundos ao Estado, quando depois se foge aos impostos. Criminosos!
segunda-feira, março 24, 2008
Ai que surpresa tão grande
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1323436&idCanal=62
«Auto-estrada do Sul com 30 quilómetros de filas compactas no regresso das mini-férias da Páscoa
A auto-estrada do Sul, que liga o Algarve a Lisboa, está com "filas compactas de trânsito" numa extensão de cerca de 30 quilómetros, segundo a GNR, que refere igualmente a existência de congestionamentos em todo o país.
De acordo com a Brigada de Trânsito (BT) da GNR, os portugueses que escolheram o Algarve para passar as mini-férias da Páscoa estão a enfrentar muitas dificuldades no regresso a casa, sobretudo na A2, entre Alcácer do Sal e a Marateca, onde o trânsito está compacto ao longo de cerca de 30 quilómetros. ...»
«Auto-estrada do Sul com 30 quilómetros de filas compactas no regresso das mini-férias da Páscoa
A auto-estrada do Sul, que liga o Algarve a Lisboa, está com "filas compactas de trânsito" numa extensão de cerca de 30 quilómetros, segundo a GNR, que refere igualmente a existência de congestionamentos em todo o país.
De acordo com a Brigada de Trânsito (BT) da GNR, os portugueses que escolheram o Algarve para passar as mini-férias da Páscoa estão a enfrentar muitas dificuldades no regresso a casa, sobretudo na A2, entre Alcácer do Sal e a Marateca, onde o trânsito está compacto ao longo de cerca de 30 quilómetros. ...»
domingo, março 23, 2008
Este ano não!
Todos os anos sou apanhado de surpresa, e só quando vejo na televisão o Algarve apinhado de gente muito apertadinha - ainda dizem que Gaza tem a maior concentração de habitantes por km2: claramente nunca foram a Albufeira ou outras terras com nome tão ou mais árabe do que Gaza, por altura da Páscoa - é que me lembro. Depois percebo a súbita e saborosa desertificação, e dou graças aos céus, em Latim e em Árabe, por estar imune a este delírio nacional que faz com que milhões saiam de casa na Sexta, depois de terem passado parte da Quinta aos gritos a prepararem tudo, passem a Sexta em viagem e a acomodarem-se, gozem o Sábado frio e chuvoso em algum centro comercial, e regressem Domingo à tarde, com a habitual sessão de gritaria com os miúdos enquanto arranjam a bagagem, para amanhã estarem de novo no trabalho. A mim sabem-me tão bem estes dias completos e descansados, sem viagens nem canseiras... Claro que o pessoal agora tem a vida mais facilitada, desde que abriu a A2. Já não lhes acontece como à senhora mal disposta que, há uns anos, num daqueles directos de Telejornal sem qualquer justificação que não encher horário à falta de notícias a sério, rosnava que tinha passado a Sexta em viagem, tinha chegado ao Algarve à noite, tinha passado o Sábado em casa a fugir da chuva, e depois tinha saído Domingo de regresso à casa, processo em que, no decorrer do Telejornal, ainda estava com aspecto imperfeito. Agora a canseira resume-se a algumas horas para lá e mais algumas para cá, sempre dá para o fim de tarde de Sexta e a manhã de Domingo. Mas dizia eu que todos os anos sou apanhado de surpresa. É verdade. Todos os anos quando olho para as notícias e vejo os desfiles do Ku Klux Klan em Espanha dou uma palmadinha na testa e digo "Eh pá, é Páscoa!". Se vou a tempo ainda ligo algum canal de TV nacional (não sem antes respirar fundo, não estu habituado), para ter aquelas sensações do tempo da infância. Sabes. Como quando se sente um cheiro ou se ouve uma voz que nos faz lembrar acontecimentos de quando éramos pequeninos. Neste caso não são meras reminiscências: os filmes que passam nos canais são de facto os mesmos do tempo da minha infância, nos anos 70 e 80 do século passado. Ora queixava-me eu de que todos os anos era apanhado de surpresa. Mas este ano não! Farto de palmadinhas na testa, este ano decidi antecipar-me: comprei as prendas todas com várias semanas de antecedência!
sábado, março 22, 2008
As virgens ofendidas
A besta
O já muito referido e debatido caso da besta do Porto que atacou uma professora e foi filmada, bem como as notícias que agora surgem sobre a punição da criatura, levantam outra questão, que tem que ver com o tipo de punição que a escola reserva para casos de indisciplina.Nascido em 1971, fiz o ensino secundário nos anos 80. Nesse tempo havia o hábito de premiar os alunos violentos e indisciplinados com suspensões de vários dias. Depois uma contínua (agora têm um nome complicado, mas é a mesma coisa) percorria as salas enunciando o nome dos suspensos, sob os nossos olhos frementes de admiração e alguma inveja. Os suspensos eram recebidos, após o exílio, como heróis intangíveis, e bem-aventurado aquele que conseguisse privar com eles. Eu andei 6 anos a tentar dar-me com alguém que tivesse sido suspenso, em vão. A verdade é que nunca fui muito popular, e o máximo que consegui foi uma ida para a rua, que me tornou heróis por alguns dias no espaço mais restrito da minha turma. Os alunos normais ou mais ou menos normais costumam agir assim, com admiração em relação aos rebeldes, aos perseguidos. Tanto lhes faz que sejam malcriados. E a punição, quando sob a forma de suspensão ou de ida para a rua, tem o mesmo efeito que a prisão de um resistente perante os seus compaheiros: longe de intimidar, acicata os ânimos, heroiciza o punido. Deixa de ser punição, é um prémio.
Lembro-me de, já professor, um aluno que decidiu, para gáudio excitado das meninas (e alguns meninos), abrir a braguilha e fazer um regaladíssimo xixi enquanto andava pelos corredores da escola, no intervalo grande da tarde. Entusiasticamente aplaudido, foi alcandorado à categoria de herói e mártir, quando se soube que o caso tinha sido levado ao Conselho Directivo. Alguns alunos confidenciavam-me, a voz cortada pela emoção, que se esperavam vários dias de suspensão. Não me lembro, francamente, se o rapaz era alguma coisa que se apresentasse (ou se terá exposto alguma coisa notável nesse fatídico dia), mas a verdade é que durante aqueles tempos se tornou, além de mártir, no ai-jesus das meninas. Até que veio a decisão oficial. O menino não era suspenso. Para consternação generalizada, não só lhe negavam a glória suprema da suspensão, como lhe atribuíam uma pena humilhante: lavar o chão e os quadros durante uma série de tempo, a horas de grande movimento, devidamente escoltado por uma contínua de porte cetáceo e pose germânica. Ao fim de poucos dias ninguém se lembrava já da história, a não ser quando o viam passar cabisbaixo de esfregona na mão.
Agora discute-se o que fazer à morcona do Porto. Pelo que se podia ouvir na gravação, já é uma heroína na escola. Fala-se agora de transferência. Para que escola, não sei. Mas não tenho dúvidas de que, a ser assim, será recebida como heroína intangível e inefável.
Os processos
A coisa contar-se-ia em poucas palavras, não fosse do outro lado estar o serviço de atendimento ao cliente da Sapo ADSL e os seus habituais processos labirínticos e repetitivos.Há algumas semanas comecei a notar a minha ligação ADSL de 4mb muito lenta. Muito, mesmo muito lenta. Um ficheiro que não há muito tempo poderia descarregar a uma velocidade de 300 ou 400kb, agora não ia além dos 50kb, e com sorte. Sem grandes esperanças de ser efectivamente lido, resolvi contactar, mais por descargo de consciência, o serviço de atendimento ao cliente. Conhecedor, infelizmente, da praxis, forneci antecipadamente aquilo que já sabia que me iam pedir, pedir de novo, voltar a pedir, tornar a pedir e pedir uma vez mais até me vencerem pelo cansaço:
dei o número de cliente;
dei o número de telefone a que a conta está atribuída;
dei o meu nome (vem no remetente);
dei o modelo do meu router;
dei a indicação dos dois sistemas operativos em que efectuei os testes;
dei a indicação dos dois computadores em que efectuei os testes;
dei a informação de que experimentei sem e com micro-filtro;
dei a informação de que experimentei com cabos telefónicos diferentes;
dei a informação de que experimentei com cabos de rede diferentes.
Esqueci-me, porém, de dar o meu número de telemóvel, uma vez que me parecia lógico que, tendo dado o número de acesso atribuído, era por ali que me poderiam contactar. Tudo isto, de resto é redundante: através do número de cliente deveriam ter acesso imediato aos meus números de telefone, bem como ao meu nome. Mas adiante, que tentar entender a lógica destes serviços é demasiado para mim, simples filólogo.
O serviço de atendimento não perdoou, porém, o meu esquecimento, e, ignorando todas as informações previamente dadas, pediu-me um número de contacto (mas que raio, eu sou contactável pelo número de acesso!!!!!), e pediu, pela segunda vez, todos os dados que já tinha fornecido na primeira mensagem. Pedia-me, além disso, que efectuasse um teste de velocidade na página do Sapo, na área de clientes, e que descarregasse o inútil “mensageiro sapo”, e verificasse a velocidade de transferência, comprovando com um “screen shot”.
Respirando fundo, fiz copiar/colar dos dados fornecidos na mensagem anterior, sublinhando e repetindo várias vezes, para não ficarem esquecidos. Ingenuamente achava que assim ia resultar. Efectuei o maldito teste de velocidade, em cada sistema e em cada máquina, e descarreguei o malfadado mensageiro três vezes, a horas diferentes, em máquinas diferentes, fiz os benditos “screen shots”, repeti no final da mensagem os dados que já tinha dado na anterior, e enviei. A resposta foi célere: que repetisse o teste, pois estava a dar uma velocidade muito baixa (mas era o que eu estava a dizer desde o primeiro contacto... DUH!), e desta vez com a ligação em monoposto (o que, em português, suponho que se traduza por “tendo apenas uma máquina ligada”), e com todos os programas que gerassem tráfego desligados. Como era óbvio para qualquer criança de 6 anos, eu tinha pensado nisso, e tinha feito dessa maneira os testes. E, claro, tinha de fornecer outra vez todos os dados que já tinha dado no primeiro e no segundo mail. Ainda pensei que por algum motivo não tivessem tido acesso aos meus anteriores mails, mas não, lá estavam eles, citados, com os dados requeridos ali escarrapachados. Enfim.
Respirei fundo, contei até dez, e repeti os testes, em ambas as máquinas, tendo o cuidado de o fazer “em monoposto”. Para que não restassem dúvidas, desliguei o cabo que liga o router à outra máquina, sempre que testava numa. Desliguei, como já tinha feito nas primeiras tentativas, o cliente de mail, o Pidgin (Linux) ou o Messenger (Windows), fechei até as aplicações que não geram tráfego, por via das dúvidas, deixando apenas ligado, como é mais do que óbvio, o browser onde efectuava o teste. Ingenuamente pensando que agora teria uma resposta, enviei os resultados, colando e copiando, pela quarta vez, os dados do costume, os tais a que teriam acesso com um carregar de tecla – partindo do princípio de que usam computadores com bases de dados, o que começo a questionar. A resposta foi implacável: os dados eram inconclusivos, que voltasse a efectuar os testes, desta vez “em monoposto” e com tudo desligado. Ah, e não me esquecesse de voltar a dar o número de cliente, o telefone, enfim, essas coisas que já tinha dado de todas as vezes anteriores, e que estavam escarrapachadas em quadruplicado ou quintuplicado (já lhes tinha perdido a conta) no próprio mail que me estavam a enviar.
Respirei fundo, e repeti as operações dos dois parágrafos anteriores. A resposta, impiedosa, não tardou: os dados eram inconclusivos, que voltasse a efectuar os testes, desta vez “em monoposto” e com tudo desligado. Pensei em fazer um desenho, mas essa foi sempre disciplina em que tive más notas. De resto a minha caligrafia com muito boa vontade assim pode ser chamada, apesar de, para meu espanto, ultimamente ma terem gabado muito... mas quando se trata da árabe. Portanto, nem escrever (se não entendem português, imagino que árabe muito menos) nem desenhar.
Resolvi, portanto, ligar para o atendimento ao cliente, para poder dizer de viva voz, outra vez, tudo aquilo que já me tinham pedido. Papagueei os dados, que já tinha decorado, forneci o elenco das operações já efectuadas. Esqueci-me, no entanto, de referir que tinha testado com e sem micro-filtro, e a menina foi impiedosa: “Faça o mesmo, mas sem o micro-filtro”. Manifestamente desiludida quando lhe disse que já o tinha feito, e em várias posições e disposições, decidiu passar o caso para um departamento técnico. Quando lhe disse que já me tinham sido enviados mails desse maldito departamento, a menina adiantou que não tinha qualquer registo disso no meu processo. Aliás, o meu processo só registava um contacto em 2003. Não fiquei, como é natural, admirado. Afinal o facto de me terem pedido, voltado a pedir, tornado a pedir, insistido em pedir, pedido de novo, uma vez mais pedido os mesmos dados e os mesmos procedimentos, que eu já tinha dado, voltado a dar, tornado a dar, insistido em dar, dado de novo, tudo isto era sinal evidente de que ou alguém se anda a divertir à minha custa, ou algo vai mal, mesmo muito mal no serviço de atendimento do Sapo. Ah, a menina voltou a pedir o meu número de contacto. Sim, aquele que está associado à minha conta.
Much ado about nothing
Confesso: o accordo orthográphico não m'aquece nem m'arrefece. Preocupa-me a correcção orthográphica, como é natural, mas mais ainda a syntáctica e a morphológica. Essas sim, são de natureza linguística. A orthographia é, para todos os effeitos, uma convenção, normalmente mais política do que linguística. A actual ortographia official portuguesa, que tem por base a reforma de 1911, com algumas actualizações posteriores, é um compromisso entre a etymologia e a phonética. Mantiveram-se, por exemplo, alguns penduricalhos etymológicos, sem qualquer função práctica, as malfadadas consoantes mudas, a que tanta gente se appega aghora como Camoens náufrago ao manuscripto d'Os Lusíadas. Consigo compreendel-o, na medida em que a orthographia é, além de sobre tudo convencional, também afectiva. Mas não chega para me agarrar a ella como coisa definitiva e immutável.
Por outro lado, além do carácter affectivo não consigo ver nos dictos penduricalhos qualquer utilidade práctica. Dir-me-hão que servem para abrir as pré-tónicas, argumento antigo e recorrente, mas não completamente verdadeiro. Basta ver alguns exemplos:
- "corar" tem pré-tónica aberta, sem penduricalho;
- "pregar" e seus derivados, no sentido de predicar, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "pegada", marca do pé, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "inflação" não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "actual" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actriz" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actividade" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
etc.
Além disso, os accentos e os penduricalhos não abrem vogais, é ao contrário: estão lá porque as vogais são abertas. A escripta não manda na língua, a língua é que manda na escripta.
Allega-se também que haverá disparidades gráphicas em palavras da mesma família, como "Egito" e "Egípcio", uma tendo a consoante etymológica, a outra não. Mas não é o que já se passa com tantos outros pares, como "esculpir" vs. "escultura"? Pela mesma ordem de ideias, não seria de reintroduzir o "p" em "escultura"? Eu acho que hatté ficava mais bonito. Além do mais, "Egipto" será sempre considerado correcto, pois o accordo prevê a dupla graphia quando a consoante é pronunciada, e há quem a pronuncie n'este caso.
Não m'interpretem mal: eu não tenho nada contra a escripta etymológica. Pello contrário, se eu mandasse seria essa a orthographia legal, assim ao estylo da francesa, ou da nossa antes de 1911. Ler o Eça na sua orthographia original é outra coisa. Perdão, cousa. Desde logo as elisões, que, ao serem eliminadas nas edições modernas não só alteram a disposição gráphica do texto, o que é um mal menor, como introduzem alterações na própria phonética. Quando Eça escrevia "d'ouro", era "d'ouro" que ele queria escrever, não "de ouro", que representa uma sonoridade differente.
Mas não. Não é a questão etymológica que m'apoquenta. Por mim só escrevia etymologicamente - aliás, é assim que faço nos meus escriptos privados.
O que m'incomoda, o que verdadeiramente m'amofina é este nem peixe nem carne orthográphico que nos rege. É ter o penduricalho em "actual", e não o ter em "acabar", quando a etymologia os justificaria em ambos os casos. É ter penduricalho em "connosco" e não ter o mesmíssimo penduricalho em "comigo". Fosse eu quem mandasse e punha-se o penduricalho em todos os casos exigidos pela etymologia. Os franceses fazem-no, e não consta que sejamos menos intelligentes do que elles.
Não sendo politicamente possível regressar à escripta etymológica (uma vez que linguisticamente nada o impediria), então que se arrume esta casa tão desarrumada que é a orthographia portuguesa. O problema é que não me parece que seja desta: apesar de se collocar debaixo do tapete alguma da desarrumação, sob o pretexto de unificar a orthographia, a verdade é que de unificação não se vê grande coisa. A orthographia de Portugal é alterada em pouco mais de 1% do léxico, a brasileira em pouco menos. Portanto, 99% do que se escreve continuar-se-há a escrever da mesma maneira que há meia dúzia de décadas (nem tanto, em muitos casos). Com a excepção parcial dos penduricalhos mudos, não se mexe em muito mais. Em Portugal continaremos a escrever "facto" e "económico", no Brasil "fato" e "econômico". No Brasil despedem-se do inútil trema, nós já nos despedimos delle há muitos annos. Põe-se alguma ordem na utilização do hífen e do circunflexo. Pronto. Basicamente é isto. Espero não me ter esquecido de nada.
Fica praticamente tudo na mesma, não muda quase nada. E é por isto que se faz tanto barulho?
Por outro lado, além do carácter affectivo não consigo ver nos dictos penduricalhos qualquer utilidade práctica. Dir-me-hão que servem para abrir as pré-tónicas, argumento antigo e recorrente, mas não completamente verdadeiro. Basta ver alguns exemplos:
- "corar" tem pré-tónica aberta, sem penduricalho;
- "pregar" e seus derivados, no sentido de predicar, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "pegada", marca do pé, não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "inflação" não tem penduricalho, e a pré-tónica é aberta;
- "actual" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actriz" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
- "actividade" tem penduricalho, mas a pré-tónica é fechada;
etc.
Além disso, os accentos e os penduricalhos não abrem vogais, é ao contrário: estão lá porque as vogais são abertas. A escripta não manda na língua, a língua é que manda na escripta.
Allega-se também que haverá disparidades gráphicas em palavras da mesma família, como "Egito" e "Egípcio", uma tendo a consoante etymológica, a outra não. Mas não é o que já se passa com tantos outros pares, como "esculpir" vs. "escultura"? Pela mesma ordem de ideias, não seria de reintroduzir o "p" em "escultura"? Eu acho que hatté ficava mais bonito. Além do mais, "Egipto" será sempre considerado correcto, pois o accordo prevê a dupla graphia quando a consoante é pronunciada, e há quem a pronuncie n'este caso.
Não m'interpretem mal: eu não tenho nada contra a escripta etymológica. Pello contrário, se eu mandasse seria essa a orthographia legal, assim ao estylo da francesa, ou da nossa antes de 1911. Ler o Eça na sua orthographia original é outra coisa. Perdão, cousa. Desde logo as elisões, que, ao serem eliminadas nas edições modernas não só alteram a disposição gráphica do texto, o que é um mal menor, como introduzem alterações na própria phonética. Quando Eça escrevia "d'ouro", era "d'ouro" que ele queria escrever, não "de ouro", que representa uma sonoridade differente.
Mas não. Não é a questão etymológica que m'apoquenta. Por mim só escrevia etymologicamente - aliás, é assim que faço nos meus escriptos privados.
O que m'incomoda, o que verdadeiramente m'amofina é este nem peixe nem carne orthográphico que nos rege. É ter o penduricalho em "actual", e não o ter em "acabar", quando a etymologia os justificaria em ambos os casos. É ter penduricalho em "connosco" e não ter o mesmíssimo penduricalho em "comigo". Fosse eu quem mandasse e punha-se o penduricalho em todos os casos exigidos pela etymologia. Os franceses fazem-no, e não consta que sejamos menos intelligentes do que elles.
Não sendo politicamente possível regressar à escripta etymológica (uma vez que linguisticamente nada o impediria), então que se arrume esta casa tão desarrumada que é a orthographia portuguesa. O problema é que não me parece que seja desta: apesar de se collocar debaixo do tapete alguma da desarrumação, sob o pretexto de unificar a orthographia, a verdade é que de unificação não se vê grande coisa. A orthographia de Portugal é alterada em pouco mais de 1% do léxico, a brasileira em pouco menos. Portanto, 99% do que se escreve continuar-se-há a escrever da mesma maneira que há meia dúzia de décadas (nem tanto, em muitos casos). Com a excepção parcial dos penduricalhos mudos, não se mexe em muito mais. Em Portugal continaremos a escrever "facto" e "económico", no Brasil "fato" e "econômico". No Brasil despedem-se do inútil trema, nós já nos despedimos delle há muitos annos. Põe-se alguma ordem na utilização do hífen e do circunflexo. Pronto. Basicamente é isto. Espero não me ter esquecido de nada.
Fica praticamente tudo na mesma, não muda quase nada. E é por isto que se faz tanto barulho?
sexta-feira, março 21, 2008
O culto do chá
A minha mais recente leitura recreativa é O culto do chá, de Wenceslau de Moraes, edição da Biblioteca de Autores Independentes. Como tantas vezes aqui tenho deixado catilinárias enfurecidas contra a pornografia que é o preço dos livros em Portugal, é justo que aqui venha agora felicitar esta colecção, que oferece livros a preços decentes, provando (se necessário fosse) que é possível vender livros a preços comportáveis para o português médio.Eu sou um chazeiro inveterado. Não passo sem o meu chá matinal, em folhas soltas e com coador. E, evidentemente, sem açúcar e sem leite. Pôr açúcar ou leite no chá é assim um bocadinho como deitar sal no mel ou fazer sexo à distância ou até beber cerveja sem álcool. Tira a graça toda a coisa, na medida em que lhe adultera a natureza. Não sei, a mim pelo menos faz-me um bocadinho de confusão.
A minha família tem atitudes bastante diversas em relação ao chá.
A minha mãe, por exemplo, usa o chá para temperar o açúcar. Depois de vazar ininterruptamente açúcar para uma chávena (nem usa colher, pois isso limitaria a quantidade), deita um pouco de chá, creio que para desenjoar. Assim já me parece mais aceitável, pois não é bem pôr açúcar no chá, mas sim chá no açúcar. Além disso, da mesma forma que o vinho para os bifes pode ser qualquer zurrapa, uma vez que é apenas para temperar e o que interessa é a carne, do mesmo modo a minha mãe prefere chá do mais ordinarote, recusando os chás de qualidade. Eu tenho de concordar com ela, não faria sentido nenhum temperar o açúcar com chá de qualidade, tal como não faz muito sentido temperar um bife com Porto Vintage.
A minha sobrinha Carolina (2 anos e meio), por outro lado, tem uma atitude mais mística em relação ao chá. Usa-o para longas, silenciosas e ritualizadas abluções da cabeça, braços e mãos, seguidas de aspersões ritmadas em seu redor. Surpreendi-a ontem num destes rituais. Depois de me ter pedido um chá, achei que não seria má ideia vertê-lo numa taça de plástico, de modo a minimizar o risco de copo de vidro partido. Pu-la no chão, na sala, e deitei-me no sofá a ver qualquer coisa bastante intelectual na TV (eu só vejo coisas intelectuais). A Carolina ajoelhou-se de costas para mim, escondendo a taça da minha vista, talvez por não querer ser vista em tão piedosas acções. Assim se passaram longos minutos. A minha atenção só foi despertada quando fui aspergido por uma chuva de gotas de chá. Levantei-me, e chamei-a. Voltou-se para mim, com a cara pingando chá, os cabelos colados à testa, as mangas e as mãos encharcadas. Riu-se e, já sem qualquer pudor, voltou a mergulhar as mãos na taça, e levou de novo a cabo as suas devotas abluções de cabeça, cara, pescoço, mãos e braços. Depois, e enquanto eu me levantava e me lançava para lhe tirar a taça, fez de novo várias aspersões em volta.
A minha sala mantém, apesar de bem lavada, um belo aroma a chá verde, e a manta que uso para me cobrir no sofá, mas que estava ontem a servir de tapete à Carolina, está a secar na varanda.
Arthur C. Clarke
Nunca li nada dele, mas a minha infância e adolescência estão indelevelmente marcadas pelo seu Arthur C. Clarke's Mysterious World, que dava conta de fenómenos estranhos ou inexplicáveis. Vagamente conspiracionista, fascinava-me a mente e abriu-me o caminho, de certa forma, para aquilo que sou hoje. O que não é necessariamente uma boa coisa.
Quousque tandem
Cópia de email enviado à PT Comunicações:
Caros senhores
Embora já quase nada me espante vindo de vossas excelências, a minha estupefação atingiu um novo limite, quando recebi uma carta de uma senhora advogada ameaçando-me com recurso a via judicial caso não proceda ao pagamento de uma dívida de 17€ (dezassete, Cristo!). O meu espanto é triplo.
Primeiro, porque não sabia que a PT Comunicações se socorria de advogados para cobranças de 17€ (dezassete, céus!), o que de resto imagino que nem seja aceite por lei - mas a senhora é advogada, deve saber melhor do que eu, humilde filólogo.
Segundo, porque estava convencido de que, após já ter activado o débito directo, de modo a que me pudessem cobrar o serviço sem me maçarem com cartas, intimidações e ameaças de cada vez que me esqueço de pagar, os senhores iriam fazer uso desse serviço, que consiste, recordo, em debitarem da minha conta os valores em dívida. Eu autorizei, pelo amor de Deus, tirem-me o raio do dinheiro da conta! Que é preciso mais, tenho de me humilhar e implorar que me tirem o dinheiro da conta?
Terceiro, porque achava que já tinha visto de tudo, mas afinal ainda há tanto para ver.
Tudo isto me fez lembrar de que afinal eu estou a pagar por um serviço de que não faço praticamente uso. Pago uma assinatura inútil de um serviço que não uso. E ainda sou intimidado e ameaçado porque parece que me esqueci de pagar 17€, e os senhores não se lembraram de mos subtrair da conta. E eu até dei autorização para isso, mas de que valeu? Assim, pela primeira vez estou sensível aos cantos de sereia que me acenam com serviços sem assinatura mensal. Melhor, considero de forma mais consistente abandonar de vez o telefone fixo. Uma coisa é certa: cliente da PT não mais serei. E tratarei, a partir de hoje, de estudar as alternativas do mercado.
Sem os meus melhores cumprimentos,
André Simões
Embora já quase nada me espante vindo de vossas excelências, a minha estupefação atingiu um novo limite, quando recebi uma carta de uma senhora advogada ameaçando-me com recurso a via judicial caso não proceda ao pagamento de uma dívida de 17€ (dezassete, Cristo!). O meu espanto é triplo.
Primeiro, porque não sabia que a PT Comunicações se socorria de advogados para cobranças de 17€ (dezassete, céus!), o que de resto imagino que nem seja aceite por lei - mas a senhora é advogada, deve saber melhor do que eu, humilde filólogo.
Segundo, porque estava convencido de que, após já ter activado o débito directo, de modo a que me pudessem cobrar o serviço sem me maçarem com cartas, intimidações e ameaças de cada vez que me esqueço de pagar, os senhores iriam fazer uso desse serviço, que consiste, recordo, em debitarem da minha conta os valores em dívida. Eu autorizei, pelo amor de Deus, tirem-me o raio do dinheiro da conta! Que é preciso mais, tenho de me humilhar e implorar que me tirem o dinheiro da conta?
Terceiro, porque achava que já tinha visto de tudo, mas afinal ainda há tanto para ver.
Tudo isto me fez lembrar de que afinal eu estou a pagar por um serviço de que não faço praticamente uso. Pago uma assinatura inútil de um serviço que não uso. E ainda sou intimidado e ameaçado porque parece que me esqueci de pagar 17€, e os senhores não se lembraram de mos subtrair da conta. E eu até dei autorização para isso, mas de que valeu? Assim, pela primeira vez estou sensível aos cantos de sereia que me acenam com serviços sem assinatura mensal. Melhor, considero de forma mais consistente abandonar de vez o telefone fixo. Uma coisa é certa: cliente da PT não mais serei. E tratarei, a partir de hoje, de estudar as alternativas do mercado.
Sem os meus melhores cumprimentos,
André Simões
quarta-feira, março 19, 2008
Cinco anos

Cinco longos anos depois da invasão e destruição do Iraque, urge fazer um pequeno balanço (deixo os grandes para os mais avisados). Em 2003 o Iraque era uma ditadura feroz, laica para os padrões da zona, e um dos maiores produtores de petróleo do mundo. A invasão foi orquestrada no pressuposto falso, como toda a gente sabia mesmo antes de os próprios invasores o admitirem, de umas famosas armas de destruição que nunca foram vistas por ninguém, a começar pelos inspectores da ONU que por lá andaram anos a fio. As vítimas mortais, além dos perseguidos pelo tirano Saddam, eram as que morriam graças ao embargo internacional. Não há provas que apontem para uma presença da al-Qa'ida (*) no território até ao início da guerra. Pelo contrário, como tanta gente disse e screveu na época, a rivalidade entre Saddam e essa nebulosa organização era notória.
Hoje, cinco anos depois, o que temos? Acabou-se com a ditadura de Saddam. Em contrapartida o país está na prática em guerra civil; morrem dezenas por dia em confrontos e atentados; o radicalismo religioso cresce assustadoramente; a al-Qá'ida finalmente entrou em território, livre de controle estatal; o radicalismo alastrou, em resposta à agressão, aos outros países da região - o Irão, que até então caminhava rapidamente para uma abertura do regime, liderado por liberais, rapidamente inflectiu para o radicalismo, com a vitória eleitoral de Ahmadinejad; os iraquianos vivem hoje, é incontestável, muito pior do que antes de os americanos lhes terem destruído as infra-estruturas e matado os amigos e familiares.
Ainda se disséssemos que todos fomos enganados, que tudo indicava para a existência das tais armas fabulosas... mas não. Toda a gente informada sabia. Aquilo que aqui escrevi muita gente previu, disse e screveu antes da invasão. Não era preciso ser bruxo. Bastava ter dois dedos de testa.
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(*) A grafia "Al-Qaeda" é provincianamente imitadora da fonética inglesa, em árabe diz "al-Qá'ida", é um trissílabo, descontando o artigo "al-": qa-'i-da. Não se pede aos jornalistas portugueses que saibam árabe (embora não lhes fizesse mal nenhum, a mim não tem feito), mas ao menos investigassem, em vez de copiarem servilmente. A grafia aportuguesa mais correcta é "alcaida".
segunda-feira, março 17, 2008
O herdeiro

Talvez pouco satisfeito com o facto de eu ter designado, provisoriamente, a irmã como herdeira da minha biblioteca pessoal, o Manuel, anteontem, decidiu arrancar das estantes que conseguia alcançar praticamente toda a secção "L" - "M" do armário principal dos autores de ficção estrangeiros. Não sei como o fez tão rapidamente, ainda são umas dezenas. E isto enquanto eu fazia um regalado chichi. Descansado com o facto de não ter no escritório nenhum objecto ao seu alcance susceptível de ser engolido ou de lhe cair em cima, achei que 20 ou 30 segundos (eu disse que era regalado) não iriam fazer a diferença. Mas fizeram. Quando regressei ao escritório tinha o Llosa à bulha com o Mahfouz e o Malouf, o McEwan em cima da McCullough, perante o olhar indignado do Melville, tudo numa grande rebaldaria que me tapava a maior parte do chão do escritório. Na mão o Manuel brandia Edward Lear. Não que seja admirador de "nonsense", suponho, mas porque é um livro que, fortemente orientado na horizontal, se destaca na estante, facilmente agarrável. Não existe, eu sei.
Mas o meu sobrinho pode estar descansado, não ficará de mãos a abanar quando eu finalmente me vir livre do pessoal todo e das maçadas diárias.
Ainda que não de forma tão premente como a minha biblioteca pessoal, a minha colecção de CD e DVD de música antiga e clássica também anda à procura de herdeiro há largos anos. Se com a biblioteca o problema é mais logístico, pois, como podem testemunhar as paredes da minha casa, arranjar espaço para alguns milhares de livros não é fácil, o problema das centenas de CD, que até cabem em 3 prateleiras maneirinhas, é sobretudo emocional. Se por um imprevisível golpe de sorte eu morresse em breve, a biblioteca ficaria sempre bem entregue: o meu irmão não gosta muito de ler, é verdade, mas a minha mãe e a minha irmã não desdenhariam a herança. Com os CD já não é bem assim. Os meus irmãos abominam, assumida e orgulhosamente (embora eu não consiga entender como é possível) qualquer tipo de música erudita. A minha mãe gosta de música clássica (no verdadeiro sentido da palavra), mas não alinha muito na barroca, menos ainda na antiga. Ora eu clássicos e românticos, a bem dizer, tenho três ou quatro Mozarts e Bomtempos, e mais uma coisita ou outra que me têm oferecido. Depois são cerca de 300 barrocos e antigos.
Há umas semanas, estando com a Carolina no carro, pus no leitor um CD de motetes polifónicos, salvo erro do Francisco Guerrero. A miúda fez uma careta e gritou "DESLIGA!". Eu obedeci, contristado. Afinal, como se pode dizer não àqueles caracóis furiosos? "Desliguei" o CD, é certo, mas não me rendi: liguei o rádio, na Antena 2, como é mais do que óbvio. Fi-lo com um sorriso triunfante, pensando "achavas que vencias", que imediatamente se desfez: estava a dar um programa de jazz. Mais vencido me senti quando a Carolina, com pequenos gritinhos de alegria, começou a dançar ao som daquele música infernal. Não herdas os meus CD, pensei. Contei à mãe, que replicou "pudera, ela em casa não ouve porcarias dessas". Tu também não herdas nada.
Mais recentemente tive uma primeira pequena alegria. Tendo ido buscar o Manuel à creche, achei que me apetecia ouvir o Gloria da Missa em Si Menor de Bach. Sobretudo tinha a certeza de que não ia ouvir nenhum "DESLIGA" irado, pois o Manuel ainda não fala. Do que eu não estava à espera era de o ver dançar na cadeirinha ao som de Bach, com um sorriso daqueles que só as crianças pequeninas conseguem abrir. Não muito depois caiu-me em sorte ter de o adormecer, o que se foi revelando tarefa muito complicada, até que, em desespero, resolvi murmurar uma melodia barroca. Em vez do colérico "NÃO CANTA" com que a Carolina me presenteia sempre que cometo a imprudência de começar a cantar-lhe alguma coisa, o Manuel adormeceu em poucos minutos.
Ainda a recuperar do incidente relatado no primeiro parágrafo, anteontem decidi repetir a dose, com variações. Ainda que não seja grande fã da ópera clássica (mas quem me tira a barroca...), pus a correr no DVD a Flauta Mágica, na esperança de que o miúdo se interessasse pelos fatos coloridos. A coisa funcionou muito bem. Sobretudo quando lhe pus a ária da Rainha da Noite. Não sei se lhe lembrou os ralhetes da mãe, se as fúrias da irmã. A verdade é que o Manuel ficou preso à televisão, enquanto a ária ia passando e repassando (eu gosto muito daquela ária, que querem que lhes diga). Curiosamente não achou tanta graça ao célebre encontro final de Papageno e Papagena, mas ficou verdadeiramente entusiasmado com o grande final, aplaudindo em delírio. Portanto aqui fica escrito: se entretanto a mãe e o pai não o desviarem do bom caminho, o Manuel herda a minha colecção de CD e DVD. Que, à cautela, vou colocar fora do alcance da Carolina.
Ainda a recuperar do incidente relatado no primeiro parágrafo, anteontem decidi repetir a dose, com variações. Ainda que não seja grande fã da ópera clássica (mas quem me tira a barroca...), pus a correr no DVD a Flauta Mágica, na esperança de que o miúdo se interessasse pelos fatos coloridos. A coisa funcionou muito bem. Sobretudo quando lhe pus a ária da Rainha da Noite. Não sei se lhe lembrou os ralhetes da mãe, se as fúrias da irmã. A verdade é que o Manuel ficou preso à televisão, enquanto a ária ia passando e repassando (eu gosto muito daquela ária, que querem que lhes diga). Curiosamente não achou tanta graça ao célebre encontro final de Papageno e Papagena, mas ficou verdadeiramente entusiasmado com o grande final, aplaudindo em delírio. Portanto aqui fica escrito: se entretanto a mãe e o pai não o desviarem do bom caminho, o Manuel herda a minha colecção de CD e DVD. Que, à cautela, vou colocar fora do alcance da Carolina.
sexta-feira, março 14, 2008
E assim é
Ouço na Antena 1 que António Capucho considera a liderança de Menezes motivo de gáudio para o PS. Não sei se ao resto do partido assim é, mas em relação a mim Capucho tem razão.
ASAE

Eu se fosse aos senhores da ASAE deixava de controlar a qualidade e segurança alimentar a quem não o quisesse. Deixava que chafurdassem naquelas cozinhas imundas que todos vimos em boas reportagens. Ou que enfardassem as bolas de berlim degradadas pelo calor do Verão. Afinal o pessoal gosta das coisas à boa maneira tradicional portuguesa. Deixá-los então. Voltemos aos tempos do botulismo apanhado através do chouriço mal acondicionado (não venham é depois pedir apoios para os funerais). Ou às salmonelas à solta. Que chafurdassem nos óleos fritos, refritos, rerrefritos, rerrerrefritos, nas bancadas de madeira fedorentas de carnes apodrecidas de meses de utilização, nas colheres de pau ressumando mil aromas de mil pratos confeccionados nos últimos anos (não duvido de que um cozinhado feito com colher de pau tenha um sabor diferente; não sei é se o quero provar), que se engasgassem com o rissolito frito no óleo de origem incógnita e número indefinido de utilizações. Ah, e já me esquecia dos baldes de despejos ao lado dos pratos de comer. Como sempre ouvi dizer, albarda-se o burro à vontade do dono.
Eu cá fazia assim: quem faz aqueles abaixo-assinados e manda mails ao Paulo Portas tinha umas prateleiras no supermercado à parte, com a designação "não controlado pela ASAE". Também se podiam criar restaurantes e cafés "livres de controlo da ASAE". Para nós, que nos preocupamos com a nossa saúde e queremos viver no século XXI, então ficavam as prateleiras, restaurantes e cafés com o dístico "controlado pela ASAE". Ficávamos todos contentes. Claro que nós por mais tempo.
Inaguração do Centro de Línguas (CLi) da FLUL
Foi ontem, 13 de Março de 2008, inaugurado oficialmente o CLi. Aqui deixo a mensagem de apresentação.
«Caros Alunos,
Caros Funcionários,
Caros Colegas,
No presente ano lectivo, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa passa a contar com o Centro de Línguas (CLi), criado pelos Conselhos Directivo e Científico e por diversos departamentos da FLUL.
O CLi tem por vocação a prestação de serviços nas áreas das línguas estrangeiras, respondendo a solicitações internas e externas. Visa ainda criar condições que favoreçam aprendizagens complementares, orientadas ou em autonomia, das línguas inseridas nos currículos da FLUL. Pretende também implementar a certificação de competências em línguas através de protocolos com instituições internacionais.
O CLi possui vários espaços onde vai desenvolver as suas actividades:
Estes espaços servem fins tão diversos como o trabalho de tutoria ou a prática do ensino à distância. O CLi coloca ao dispor da comunidade da FLUL estes recursos, que poderão ser utilizados mediante requisição. Para divulgar e promover a sua utilização, prevê-se a realização de acções de formação e treino, em data a indicar no futuro.
As inscrições para os cursos de línguas decorrerão a partir de Janeiro e o início das actividades do CLi está agendado para Março 2008. Brevemente, o CLi também disporá dum sítio na Internet, que permitirá um melhor acesso ao seu plano de actividades.
Os membros da Comissão Executiva do CLi estão abertos a sugestões e opiniões que ajudem a definir as áreas onde é mais urgente intervir. Qualquer contributo poderá ser enviado para o endereço electrónico cli@fl.ul.pt.
Os membros do CLi desejam-lhe um Ano Feliz.
Agradecendo a atenção, subscrevo-me, em nome da Comissão Executiva, com os melhores cumprimentos.
Lisboa, 4 de Janeiro 2007
Guilhermina Jorge»
Mais informações e folheto de inscrição aqui:
http://www.fl.ul.pt/agenda/pdf/Folheto_CLi.pdf
«Caros Alunos,
Caros Funcionários,
Caros Colegas,
No presente ano lectivo, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa passa a contar com o Centro de Línguas (CLi), criado pelos Conselhos Directivo e Científico e por diversos departamentos da FLUL.
O CLi tem por vocação a prestação de serviços nas áreas das línguas estrangeiras, respondendo a solicitações internas e externas. Visa ainda criar condições que favoreçam aprendizagens complementares, orientadas ou em autonomia, das línguas inseridas nos currículos da FLUL. Pretende também implementar a certificação de competências em línguas através de protocolos com instituições internacionais.
O CLi possui vários espaços onde vai desenvolver as suas actividades:
- Uma sala situada no piso superior do Edifício Central da FLUL, utilizada para fins administrativos e para local de reunião dos seus órgãos;
- Na cave, o CLi possui duas salas multimédia com recursos específicos para projectos pessoais e colectivos de aprendizagem de línguas. No conjunto, estas salas estão equipadas com um total de 40 computadores equipados com o software Netop School que permitirá introduzir novas práticas pedagógicas na FLUL.
Estes espaços servem fins tão diversos como o trabalho de tutoria ou a prática do ensino à distância. O CLi coloca ao dispor da comunidade da FLUL estes recursos, que poderão ser utilizados mediante requisição. Para divulgar e promover a sua utilização, prevê-se a realização de acções de formação e treino, em data a indicar no futuro.
As inscrições para os cursos de línguas decorrerão a partir de Janeiro e o início das actividades do CLi está agendado para Março 2008. Brevemente, o CLi também disporá dum sítio na Internet, que permitirá um melhor acesso ao seu plano de actividades.
Os membros da Comissão Executiva do CLi estão abertos a sugestões e opiniões que ajudem a definir as áreas onde é mais urgente intervir. Qualquer contributo poderá ser enviado para o endereço electrónico cli@fl.ul.pt.
Os membros do CLi desejam-lhe um Ano Feliz.
Agradecendo a atenção, subscrevo-me, em nome da Comissão Executiva, com os melhores cumprimentos.
Lisboa, 4 de Janeiro 2007
Guilhermina Jorge»
Mais informações e folheto de inscrição aqui:
http://www.fl.ul.pt/agenda/pdf/Folheto_CLi.pdf
quinta-feira, março 13, 2008
Porque é que eu não mando vir coisas da FNAC.pt
Na Segunda, dia 10 de Março de 2008, encomendei na Amazon.co.uk a Key to a New Arabic Grammar, de John A. Haywood e H.M. Nahmad. Ficou-me em 24,92£ (32,50€), já com os portes de envio. O prazo de entrega foi britânico. Só hoje, dia 13 de Março de 2008, vim à faculdade, e lá estava a minha Key, no meu cacifo. Se só chegou hoje, foram 3 dias desde o pedido. Portanto, mandar vir de Londres é mais rápido do que mandar vir da FNAC ali em Lisboa. Com efeito, das duas vezes em que mandei vir coisas da FNAC.pt, nunca esperei menos de uma semana. Da Amazon.co.uk nunca esperei mais de 4 dias. E note-se que estou apenas a comparar com artigos disponíveis na FNAC no momento do pedido. Se tiverem de mandar vir, o período de espera pode ser de meses. Mais vale mandar vir da Amazon, mesmo da norte-americana. Mais rápido, mais barato, serviço melhor.
terça-feira, março 11, 2008
A herdeira

Quando olho para as prateleiras que já me deixam pouco espaço em casa, vergadas (não é figura de estilo) sob o peso de alguns milhares dos livros que fui juntando desde a infância (muitos perderam-se ou foram emprestados, o que vai dar ao mesmo), tenho sempre um aperto na alma. Para onde irão, quando eu morrer. Se for em breve, serão partilhados entre a minha mãe e os meus irmãos. Se contudo prevalecer a estatística e só me libertarem daqui a uns 40 anos, fico sem saber o que lhes fazer. Filhos não tenho, e vir a tê-los é tão improvável como o Porto ser condenado com descida de divisão na sequência do Apito Dourado. Restam-me os sobrinhos, os que já cá estão e os que poderão vir a nascer. E nisso reside a minha esperança. A Carolina, do alto dos seus caprichosos 2 anos e meio, até agora tem-se revelado uma bibliómana capaz de me vir a fazer frente. Não vai para lado nenhum sem um livro, que prefere a qualquer brinquedo, mesmo se tiver poucas ou nenhumas imagens, e mais do que pedir-nos para desenhar, pede-nos para escrever.
Ontem foi pela segunda vez à Bertrand de Torres Vedras comigo. Na primeira vez foi a surpresa. Não sabia que havia lojas de livros. Ontem, mal vislumbrou a porta da livraria começou a dar guinchos de alegria, como só lhe tinha ouvido uma ou duas vezes. Correu para dentro da livraria e lançou-se, literalmente, aos livros infantis. Sentou-se, com um molho debaixo de cada braço, na mesinha colorida da secção infantil, e só com muitas súplicas a consegui arrancar de lá. É neste momento a candidata mais bem colocada para herdar estes milhares de livros que me tiram o sono. No melhor dos sentidos.
Ontem foi pela segunda vez à Bertrand de Torres Vedras comigo. Na primeira vez foi a surpresa. Não sabia que havia lojas de livros. Ontem, mal vislumbrou a porta da livraria começou a dar guinchos de alegria, como só lhe tinha ouvido uma ou duas vezes. Correu para dentro da livraria e lançou-se, literalmente, aos livros infantis. Sentou-se, com um molho debaixo de cada braço, na mesinha colorida da secção infantil, e só com muitas súplicas a consegui arrancar de lá. É neste momento a candidata mais bem colocada para herdar estes milhares de livros que me tiram o sono. No melhor dos sentidos.
domingo, março 09, 2008
sábado, março 08, 2008
O livro do Pedro
Com texto e ilustração de Manuela Bacelar, O livro do Pedro é uma história que, num mundo perfeito, seria apenas mais uma história infantil. Mas este não é um mundo perfeito. O preconceito, a estupidez e a estreiteza de espírito (passe a redundância) ainda dominam uma parte significativa da população. A Maria tem dois pais, o Pedro e o Paulo. Num mundo ideal isto seria banal, já o disse. Mas não é. E como não é, aqui fica o registo e o aplauso.quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Allez Meneses!
A entrevista do líder do PSD à SIC demonstrou que estávamos todos muito enganados quando atribuíamos a Santana Lopes o troféu de bobo da corte do regime. Luís Filipe Meneses relega Santana à categoria de aprendiz, para gáudio de todos aqueles que, como eu, querem o PSD longos anos fora do governo. Sócrates não podia desejar melhor líder da oposição. As afirmações sobre a retirada da publicidade da RTP andam muito perto do hilariante, tendo provocado desconforto dentro do PSD mais sério, pelo seu ridículo e irresponsável. A ideia de proibir os médicos de exercer no público e no privado assume já foros de motivo para inimputabilidade. Por mim acho lindamente que o mantenham muitos e bons anos à frente do PSD, embora receie que ele nem chegue a 2009.sábado, fevereiro 23, 2008
I beg your pardon?

A propósito das primárias Democratas nos Estados Unidos, um rapazola aparecia numa reportagem televisiva repetindo o absurdo lugar-comum de que com mulheres no poder o mundo seria mais pacífico. Claramente nunca ouviu falar de chefes de governo como a britânica Margareth Thatcher ou a ucraniana-israelita Golda Meir, que lideraram os seus países em guerras (Malvinas e Yom Kippur). Já para não falar da turca Tansu Çiller, que durante o razoavelmente longo período de tempo em que foi primeira-ministra da Turquia (1993-1996, se a memória não me falha) investiu fortemente na renovação das forças armadas turcas e reforçou a ofensiva militar contra os separatistas curdos. Ou a paquistanesa Benazir Bhutto, por quem sempre tive uma simpatia muito especial, mas que enquanto foi chefe do governo do Paquistão não só deu apoio activo aos Taliban afegãos na sua tomada do poder em Kabul, vendendo-lhes armas, como inclusive enviou militares paquistaneses para os apoiar na guerra. Ora aqui temos um belo (*) leque de senhoras que chefiaram governos no mínimo belicosos. Só falta dizerem que com as mulheres no poder há menos corrupção.
Não se interprete este texto como sendo contra as mulheres. De modo nenhum. Não sou contra sexo nenhum. A minha visão do mundo não se divide em sexos, cor de pele, etnia, nada. Para mim uma pessoa vale por si mesma, e ser homem, mulher, amarela, negra, é a mesma coisa. Votar num político pelo sexo ou pela cor da pele é um absurdo escandaloso.
---
(*) Bem, tirando o camafeu da Meir, que era mais feia do que um general bêbedo, e a Thatcher, que no entanto na sua juventude deve ter sido uma bela rapariga.
Não se interprete este texto como sendo contra as mulheres. De modo nenhum. Não sou contra sexo nenhum. A minha visão do mundo não se divide em sexos, cor de pele, etnia, nada. Para mim uma pessoa vale por si mesma, e ser homem, mulher, amarela, negra, é a mesma coisa. Votar num político pelo sexo ou pela cor da pele é um absurdo escandaloso.
---
(*) Bem, tirando o camafeu da Meir, que era mais feia do que um general bêbedo, e a Thatcher, que no entanto na sua juventude deve ter sido uma bela rapariga.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Ai Deus e u é?
Quando Oliveira Martins foi designado presidente do Tribunal de Contas, a oposição, até aquela que quando é governo mete o pessoal todo em lugares de confiança política (o que é normal), bradou aos céus lamentos de virgens ofendidas, pondo em causa a honra de Oliveira Martins, jurando a pés juntos que ele ia para lá para fazer favores ao governo. Agora o mesmo Tribunal de Contas chumba o pedido de empréstimo da Câmara de Lisboa, destinado a acabar com a vergonha que são as dívidas do estado (neste caso a CML) aos fornecedores. A CML, presidida por um socialista, que fica assim em maus lençóis. Mas espera, então o Oliveira Martins não tinha ido para lá alegadamente para favorecer o PS? Há aqui qualquer coisa que me está a escapar...
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Eva
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Yes we can!
A eleição presidencial norte-americana há muito deixou de ser um assunto exclusivamente norte-americano, por razões tão óbvias que me dispenso recordá-las. Por isso parece-me legítimo tomar partidos, ainda que não tenhamos o direito de voto. Como homem de esquerda, aquilo a que os americanos chamam "liberal", o meu apoio vai sempre para os candidatos Democratas, do partido que mais perto está do socialismo democrático europeu. Por isso o meu primeiro instinto foi apoiar Hillary Clinton, reconhecida pelas suas tendências esquerdistas (à escala norte-americana, naturalmente). No entanto não fiquei imune aos encantos de Barack Obama. Há qualquer coisa naquele homem que me dá esperança. Por isso aqui fica o meu voto simbólico nas primárias Democratas: Obama!
quinta-feira, janeiro 31, 2008
FNAC? Não obrigado.
Cometi o erro de mandar vir um DVD via net, da FNAC portuguesa. Já uma vez tinha mandado vir um livro, por isso deveria estar prevenido. Mas resolvi dar-lhes uma segunda oportunidade. Em vão. As encomendas continuam a demorar cerca de uma semana a chegar, entre a feitura da encomenda e a sua recepção. Habituado à celeridade da Amazon.co.uk, que me entrega as encomendas em 3 ou 4 dias, não volto a cair no mesmo erro. A partir de agora, encomendas da FNAC só em desespero de causa. Ah, e nem sequer coloco a hipótese de mandar vir livros do estrangeiro via FNAC: ignorando evoluções e invenções como o comboio ou os automóveis e as estradas de asfalto, a FNAC portuguesa continua a mandar vir as encomendas via correio a cavalo, e a fazer a sua entrega em carroças puxadas por mulas por caminhos de cabras. Só assim se justifica os meses que uma encomenda demora a chegar...
sexta-feira, janeiro 25, 2008
Cloverfield
Matt Reeves
Nunca tinha ouvido falar deste filme, e é com surpresa que descubro que tem sido um "hipe" cibernético nos últimos tempos. Mais: quando entrei na sala não fazia ideia do que me esperava. Escolhi este porque não me apetecia ver nenhum dos outros. Ainda bem que nunca tinha ouvido falar dele. Se soubesse à partida que se tratava de um filme-catástrofe, com um monstro a destruir (outra vez) Nova Iorque, o mais provável é que tivesse voltado para casa resmungando um "já não há pachorra".
Cloverfield é, no entanto, um filme excelente. Quem vai à espera de um Godzilla revisitado, desengane-se - e havia umas pessoas muito decepcionadas, atrás de mim, provavelmente mais habituadas a ver coisas menos exigentes. A câmera não pára. É uma câmera de mão. Uma festa de despedida. E de repente a electricidade falha e começam a cair prédios e pedaços da Estátua da Liberdade. Atentado? Sismo?
Depois é mais de uma hora de angústia e incerteza. O que é aquilo? De onde veio? E depois acaba-se a fita da cassete de vídeo.
Imperdível.
Cloverfield é, no entanto, um filme excelente. Quem vai à espera de um Godzilla revisitado, desengane-se - e havia umas pessoas muito decepcionadas, atrás de mim, provavelmente mais habituadas a ver coisas menos exigentes. A câmera não pára. É uma câmera de mão. Uma festa de despedida. E de repente a electricidade falha e começam a cair prédios e pedaços da Estátua da Liberdade. Atentado? Sismo?
Depois é mais de uma hora de angústia e incerteza. O que é aquilo? De onde veio? E depois acaba-se a fita da cassete de vídeo.
Imperdível.
sábado, janeiro 19, 2008
Rins fritos

A minha irmã acha que eu não devia deixar a minha sobrinha ler Edgar Allan Poe. Eu ainda me tentei defender, alegando que entre Poe e Joyce, a sua primeira escolha, me tinha parecido mais apropriado à idade o primeiro. Mas a minha irmã mostrou-se irredutível, afirmando que agora já entendia porque raio a miúda tinha tentado emparedar o irmão, e que mal por mal preferia que ela ganhasse a mania de comer rins fritos.
terça-feira, janeiro 15, 2008
sábado, janeiro 05, 2008
A mãe e o pai
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Dakar
O cancelamento do Dakar 2008 é uma vitória retumbante do terrorismo internacional, e uma derrota vergonhosa da liberdade e da democracia. Cedendo à ameaça, a organização abriu, além disso, uma caixa de Pandora de consequências imprevisíveis. Qual será o próximo grande evento a ser cancelado por causa de uma ameaça terrorista? Jogos Olímpicos? Europeu de Futebol?
Note-se que não há, nesta minha posição, qualquer parti pris. Acho o automobilismo execrável, e acho que é um alívio ver-me livre dos entediantes "resumos do dia", que bem podiam ser imagens de arquivo, para mim aquilo é sempre igual.
A propósito, alguém me explica porque é que se diz que este seria o 30º Dakar? Ora bem, ou a minha matemática já não é o que era, ou há aqui algum dado que me está a falhar: se a primeira edição foi em 1979 e nós estamos em 2008, é fazer as contas. 2008 - 1979 = 29. Não me enganei pois não? Ou falta aqui algum dado? Como disse não tenho pachorra para marmanjos a acelerar carros badalhocos, não sou muito entendido no assunto.
Note-se que não há, nesta minha posição, qualquer parti pris. Acho o automobilismo execrável, e acho que é um alívio ver-me livre dos entediantes "resumos do dia", que bem podiam ser imagens de arquivo, para mim aquilo é sempre igual.
A propósito, alguém me explica porque é que se diz que este seria o 30º Dakar? Ora bem, ou a minha matemática já não é o que era, ou há aqui algum dado que me está a falhar: se a primeira edição foi em 1979 e nós estamos em 2008, é fazer as contas. 2008 - 1979 = 29. Não me enganei pois não? Ou falta aqui algum dado? Como disse não tenho pachorra para marmanjos a acelerar carros badalhocos, não sou muito entendido no assunto.
O sabor da cereja
طعم گيلاس(Ta'm-e gilas)
Abbas Kiarostami
Badii quer morrer, e sabe como fazê-lo: tranquilizantes. Tem até uma sepultura cavada, à sombra de uma cerejeira, onde se deitará enquanto os tranquilizantes fazem efeito. Só há uma dificuldade: contratar alguém que o enterre. Um filme sobre solidão e desespero. Mais uma pérola de Kiarostami.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
Elephant
Gus Van Sant
Elephant é mais uma pequena maravilha com que Gus Van Sant nos presenteia. Um murro no estômago, onde a violência é estética e a morte é limpa e rápida, como num jogo de computador.
Primeiro Ministro entre 1985 e 1995
O senhor Cavaco manifesta-se preocupado com a disparidade existente entre os salários dos gestores e os dos seus empregados. Só lhe fica bem este tipo de preocupações. Mas é pena ter-se estado nas tintas para o problema, agravando-o até, nos 10 anos 10 em que foi chefe do Governo.
http://dn.sapo.pt/2008/01/02/nacional/presidente_critica_altos_salarios_ge.html
terça-feira, janeiro 01, 2008
duh...
Ir passar férias para um país africano em altura de eleições é de uma estupidez confrangedora. Embora não tanto como ir passar férias para as Caraíbas na época dos furacões, concedo.
Gerry
Há filmes que marcam uma vida. Gerry é, para mim, um deles. De Gus Van Sant já tinha visto outras pequenas pérolas, como Mala Noche, ou My Own Private Idaho. Apesar disso, Gerry conseguiu surpreender-me. Planos longos longos, quase ausência de diálogo, banda sonora fabulosa. Um filme opressivo e angustiante. Dois rapazes perdidos no deserto. A rever. Talvez ainda hoje.
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Quatro curtas de Kiarostami
Quatro deliciosas curtas metragens de Kiarostami:
- نان و کوچه (Nâm va kûtcheh)
- زنگ تفریح (Zang-e Tafrîh)
- دو راه حل برای يک مسئله (Dow Râhehal Barâye yek Massaleh)
- Hamsarayan
No primeiro filme, uma criança procura encontrar um estratagema para passar por uma ruela, controlada por um cão com ar de rufia.
No segundo filme, uma criança sofre castigos na escola e perseguições por parte de outras crianças, e parte sozinha não se sabe para onde.
No terceiro filme, num registo digno de Monty Python (embora não seja, certamente, essa a ideia do autor, duas crianças apresentam duas soluções opostas para resolver um problema: uma delas emprestou um livro à segunda, que o devolve rasgado.
O quarto filme é o meu preferido. Um velhote quase surdo, que precisa de um aparelho auditivo para ouvir. No entanto, a maior parte das vezes, quem sabe para ter um pouco de paz, tem-no de fora da orelha. Vemos o seu passeio pelas ruas da aldeia, até chegar a casa, ora tirando, ora pondo o aparelho, conforme as circunstâncias. Ao chegar a casa, incomodado pelo ruído infernal de umas obras ali perto, retira o aparelho e entretem-se com as suas coisas. Por isso não ouve a campainha, tocada pelas duas netas, meninas dos seus 6 ou 7 anos, que regressam da escola, e que se vêem obrigadas a gritar pelo avô, com a ajuda de uma pequena multidão de colegas de escola que se vai juntando: um coro de vozes infantis, que consegue por fim penetrar o mundo de silêncio do velhote. Uma delícia.
domingo, dezembro 30, 2007
E a vida continua
زندگی و دیگر هیچ(Zendegi va digar hich)
Abbas Kiarostami
Prossigo a minha descoberta de Kiarostami e do cinema iraniano. "E a vida continua" é mais uma obra sublime. Não se percebe muito bem onde começa o documentário, não se percebe muito bem onde começa a ficção. É a segunda parte da "trilogia do terramoto", e é à primeira parte, "Onde é a casa do meu amigo", que regressamos, nesta viagem do realizador a Koker, a aldeia onde filmou o primeiro filme, depois do terramoto que abalou o norte do Irão em 1990, para tentar saber o que aconteceu ao jovem protagonista, Babek Ahmed Poor (uso a ortografia do IMDB, não tendo encontrado o original persa para verificar). É um filme em tom de documentário, em que nada verdadeiramente se passa, tirando os testemunhos arrepiantes dos sobreviventes do terramoto, mas que nos prende e nos torna companheiros desta viagem sem fim conhecido. Um filme profundamente pacífico e sereno, apesar do argumento. E a vida continua, e um Brasil x Argentina em futebol (Mundial '90) merece a instalação de uma antena num acampamento de desalojados de um terramoto que, ficamos a saber, aconteceu quando Escócia e Brasil jogavam e o Brasil tinha marcado um golo.
sábado, dezembro 29, 2007
Onde é a casa do meu amigo?
(Khane-ye doust kodjast?)
Abbas Kiarostami
Abbas Kiarostami
Ahmed, um menino de 8 anos, leva para casa, por engano, o caderno do colega de escola Nematzadeh. Ahmed sabe que o amigo corre o risco de ser expulso, pois é reincidente no esquecimento do caderno, e por isso não descansa enquanto não se põe em busca da casa de Nematzadeh, na aldeia vizinha, Poshteh.
Uma história quase ingénua, não fosse o drama que lhe está subjacente, situada num Irão rural, completamente desconhecido do Ocidente.
Uma história quase ingénua, não fosse o drama que lhe está subjacente, situada num Irão rural, completamente desconhecido do Ocidente.
CGD
O Ministro das Finanças anuncia Faria de Oliveira para presidência da Caixa Geral de Depósitos. Antigo ministro de um governo PSD. Rui Gomes da Silva (PSD) diz que isto se deve à intervenção do PSD, numa clara admissão de que efectivamente o sr. Luís Filipe Meneses de facto andou a tentar meter cunhas. Vou ficar agora à espera de ver o que dizem os que acusam o Governo de arranajr "jobs for the boys". Sem grande esperança, pois já ficaram calados em outras situações do género, como quando um ex-ministro do Durão Barroso, aliás José Manuel Barroso, foi nomeado para presidente da CMVM.sexta-feira, dezembro 28, 2007
Nãu mixe II - a saga continua

é favrõre
xigrà máis
para fréte
Ó vrigá da
nãu qus tanáda
N.B.: isto só se entende completamente depois de ler o aviso anterior, que ainda lá está.
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(*) Tradução? Mas era só o que faltava. Como sabe, para entrar neste blogue o conhecimento de Latim é condição sine qua non. Se entrou e não sabe Latim, faça o favor de se retirar.
xigrà máis
para fréte
Ó vrigá da
nãu qus tanáda
Aviso colocado no WC masculino do Terminal Rodoviário de Torres Vedras. A cacografia revela que o autor teve hesitações. Isto pode ver-se, por exemplo, no acento colocado em cima da forma verbal "é". Claramente o autor hesitou entre acento grave e agudo. Não tendo sido capaz de decidir qual o que ficava mais bonito, optou por um acento a que os gramáticos latinos chamavam "nec piscis nec caro" (*). Também me parece claro que o texto se destina a ser cantado. Só assim se entende a divisão silábica dos dois últimos versos, apontanto todas as evidências para um prolongamento da voz no "ó" (v. 4) e na sílaba "qus" (v. 5). Talvez para contrabalançar a acentuação paroxítona predominante no texto. Poder-se-á perguntar porque é que não sucede o mesmo nos restantes versos de acentuação paroxítona. Bom, o facto de o autor isolar os dois versos finais parece-me uma claríssima intenção de lhes sublinhar o sentido. Talvez seja até o refrão.
N.B.: isto só se entende completamente depois de ler o aviso anterior, que ainda lá está.
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(*) Tradução? Mas era só o que faltava. Como sabe, para entrar neste blogue o conhecimento de Latim é condição sine qua non. Se entrou e não sabe Latim, faça o favor de se retirar.
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Hã?
Os accionistas do BCP querem que o sr. Santos Ferreira, ligado ao PS, passe a dirigir o seu grupo financeiro. Tudo bem. São accionistas privados de um banco privado. Apesar disso há quem ache que o Governo está a colocar homens de confiança em lugares de destaque. Se alguém me fizer um desenho a explicar o que tem o dito a ver com as calças, eu agradeço.
terça-feira, dezembro 18, 2007
Nãu mixe

Nãu mige para xãu. Ovigáda.
Aviso colocado no WC masculino do Terminal Rodoviário de Torres Vedras. Em cima aparece outra mensagem, que não fotografei porque entretanto chegou gente e era capaz de dar mau aspecto. Na mensagem de cima a forma do verbo "mijar" aparecia como "mixe". Isto demonstra que o autor da inscrição tem uma sólida bagagem cultural, pois escreve à maneira dos humanistas do século XVI, usando grafias diferentes para a mesma palavra, consoante o humor com que acorda.
Pas de chance

Estranhei a notícia que dava conta da chegada de um barco com imigrantes clandestinos marroquinos ao Algarve. Com Espanha ali ao lado, quem, no seu perfeito juízo, escolheria Portugal, ainda que eventualmente confundido pela sonoridade arábica da costa algarvia? Depois tudo se tornou claro, quando um dos clandestinos disse, num espanhol macarrónico, que era "España, no Portugal", prontamente secundado por outro, que dizia, em bom francês, "pas de chance". Realmente é preciso ter pouca sorte. Além das condições desumanas em que viajaram, massacrados pelo frio e pela água, ainda tiveram a pouca sorte de virem parar a Portugal.
Espero que tenha sido apenas um azar, e que consigam chegar em breve a Espanha e melhorar as suas condições de vida, إن شاء الله !
sábado, dezembro 01, 2007
quarta-feira, novembro 28, 2007
terça-feira, novembro 13, 2007
Mala Noche
Uma pequena jóia no Teatro-Cine de Torres Vedras, que parece ter-se virado definitivamente para uma programação alternativa e de qualidade. O filme é de Gus van Sant é de 1985, mas só agora foi lançado em Portugal. Compreende-se. O filme é bom, por isso não teria sucesso comercial. Uma história negra, a preto e branco, de desejo obsessivo. Um homem apaixonado por um jovem imigrante ilegal. A humilhação, a violência. Imperdível.
sábado, novembro 10, 2007
Pinter na Comuna
A Cornucópia tem em cena Feliz Aniversário / The Birthday Party, de Harold Pinter, até amanhã, dia 11 de Novembro. Fui ontem ver, e acho que é pecado não aproveitar estes dois últimos dias para ir à Comuna, caso ainda não se tenha ido. O texto é soberbo, a interpretação excelente. Custa sempre destacar quando são todos tão bons, mas não posso deixar de me vergar perante a excelência da interpretação desse grande senhor que é João d'Ávila.
Ambíguo, violento, cómico, desconcertante. Pinter.
terça-feira, novembro 06, 2007
The lumberjack
I sleep all night, I work all day.
Mounties: He's a lumberjack, and he's okay,
He sleeps all night and he works all day.
I cut down trees, I eat my lunch,
I go to the lavatory.
On Wednesdays I go shoppin'
And have buttered scones for tea.
Mounties: He cuts down trees, he eats his lunch,
He goes to the lavatory.
On Wednesdays he goes shopping
And has buttered scones for tea.
Chorus : He's a lumberjack, and he's okay,
he sleeps all night and he works all day.
I cut down trees, I skip and jump.
I like to press wild flowers,
I put on women's clothing
And hang around in bars.
Mounties: He cuts down trees, he skips and jumps,
He likes to press wild flowers.
He puts on women's clothing
And hangs around in bars?!
Chorus : He's a lumberjack, and he's okay,
he sleeps all night and he works all day.
I cut down trees. I wear high heels,
Suspendies, and a bra,
I wish I'd been a girlie,
Just like my dear Mama.
Mounties: He cuts down trees, he wears high heels,
Suspendies, and a bra?!
I cut down trees. I wear high heels,
Suspendies, and a bra,
I wish I'd been a girlie,
Just like my dear Mama.
Monty Python
segunda-feira, novembro 05, 2007
Ibsen
P.S.: infelizmente uma parte muito significativa da audiência parece ter passado ao lado do texto, rindo de situações que eram tudo menos cómicas.
domingo, novembro 04, 2007
Elizabeth: The Golden Age

O filme é jeitoso. Tal como o outro filme de Kapur também dedicado à Rainha Virgem, vive muito de uma fotografia belíssima e de um guarda-roupa deslumbrante e historicamente rigoroso. O enredo é bonzinho, embora aqui e ali tenha caído num anacronismo e maniqueísmo perdoáveis na medida em que aquela produção tem de vender para compensar o orçamento, que não deve ter sido pequeno. Interessante, embora inverosímil, o toque trágico (no verdadeiro sentido da palavra) que até certo ponto parece tomar conta de Isabel, convencida de que Filipe II é o instrumento de Deus que castiga a sua hybris, a execução da católica Maria da Escócia. De resto a cena da execução é das mais fortes e bem conseguidas de todo o filme. Mais interessante ainda, do meu ponto de vista, a secundarização da batalha naval em relação à intriga política e amorosa. Kapur não caiu na tentação de fazer um filme de guerra e efeitos especiais, e eu fico-lhe profundamente grato. Um filme interessante, portanto, embora comercial.
P.S.:
Não percebi os sussurros de espanto de alguns espectadores, ao verem as quinas portuguesas em barcos da Armada espanhola. Não percebo o espanto. Se em 1588, data da partida Armada de Lisboa, as coroas portuguesa e espanhola se encontravam unificadas em Filipe II de Espanha e I de Portugal, se a Armada era composta por barcos portugueses e espanhóis (como qualquer pessoa informada sabe, o que houve foi uma unificação das coroas, não uma anexação), então que espanto haverá em as armas de Portugal e de Espanha surgirem lado a lado nos barcos da Armada? Ou há qualquer coisa que me está a escapar, ou o ensino anda mesmo muito mal.
Não percebi os sussurros de espanto de alguns espectadores, ao verem as quinas portuguesas em barcos da Armada espanhola. Não percebo o espanto. Se em 1588, data da partida Armada de Lisboa, as coroas portuguesa e espanhola se encontravam unificadas em Filipe II de Espanha e I de Portugal, se a Armada era composta por barcos portugueses e espanhóis (como qualquer pessoa informada sabe, o que houve foi uma unificação das coroas, não uma anexação), então que espanto haverá em as armas de Portugal e de Espanha surgirem lado a lado nos barcos da Armada? Ou há qualquer coisa que me está a escapar, ou o ensino anda mesmo muito mal.
sábado, novembro 03, 2007
Elizabeth, ou da ignorância
[Nicholas Hilliard, 1585]Estreou há dias em Portugal o filme intitulado, no original, Elizabeth: The Golden Age. Em Portugal foi baptizado Elizabeth - A idade do ouro. A ignorância e incompetência dos tradutores portugueses é proverbial, no entanto os seus atentados intelectuais costumam cingir-se a um desconhecimento aflitivo das mais elementares regras da gramática portuguesa, bem como uma inacreditável ignorância da língua de partida. Neste caso a ignorância de factos básicos da História europeia levou a chamar Elizabeth a uma senhora que é, há vários séculos, conhecida como Isabel, em Portugal. Pode-se questionar a pertinência da tradução de nomes próprios, mas a verdade é que ela é de regra, por exemplo, nos nomes de personagens históricas ou da realeza contemporânea. É por isso que se diz que a actual rainha de Inglaterra é Isabel II - ou será que a mente iluminada do(a) tradutor(a) lhe chama Elizabeth II. É que é esse o uso prescrito. É por isso que, por exemplo, o famoso imperador se chamava Napoleão, não Napoléon. Já para não falar de Henrique VIII, Alexandre o Grande, Júlio César e outros que tais.
Bom, ingorância à parte, vou ver o filme, porque retrata um período histórico que me interessa bastante. Mas vou preparado para mais umas alarvidades do género. É pena não haver a opção de ver os filmes sem legendas, na língua original.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Um piano mesmo muito raro

Enquanto suava no ginásio, ia olhando para a televisão, posta estrategicamente por cima da passadeira. Estava a dar um programa medonho na MTV (sim, é redundante "medonho" e MTV na mesma frase, mas não interessa), sobre mansões de "parvenues" americanos. Um deles, com fronha de emigrante portuga em França (mas era americano e estava em L. A.), mostrava orgulhoso um "raro piano do século XVII": uma peça horrorosa, cheia de talha dourada, com todo o ar de órgão manhoso de igreja de província. Ora, como toda a gente sabe, o piano só foi inventado no século XVIII, ainda que se possa remontar aos finais década de 90 do século XVII um primeiro protótipo, que no entanto só com muito boa vontade se poderia chamar um piano. Portanto, o mamarracho de teclas modernas que o "parvenue" exibia orgulhoso e que, segundo o programa, lhe custou algumas centenas de milhares de dólares, é realmente uma peça mesmo mesmo muito rara... Assim uma espécie de Nossa Senhora de Fátima em marfim do século XVIII.
domingo, outubro 28, 2007
O naco de carne

O senhor à minha frente, barrigudo e bem fornecido de carnes, pediu não sei o quê. Crepes? Francesinhas? Assim uns quadrados com dois ou três dedos de altura, cobertos de uma pasta branca fumegante. Queijo derretido? Algum molho? Tinha muitíssimo bom aspecto. Olhou para o prato com ar culpado, e pediu, para acompanhamento, salada. Deitava olhares aflitivos às batatas fritas e à maionese. Mas resistiu. Depois pediu uma sopa, pouco convencido. A refeição ficaria completa com um desanimado pratinho de fruta. Aposto que no fim pediu café com adoçante. Eu pedi uma belíssima sopa. Como não tenho tendências suicidas, dispensei a gordura com um pouco de crepe, bem como a bacalhauzada com natas e o que quer que fosse aquela pasta grossa, avermelhada, com bolhas de gordura, onde nadavam pedaços de carne. Na impossibilidade de esperar que me grelhassem um bife, e como no chamado "Bar de Românicas" da FLUL se declarou guerra à comida saudável, fiquei-me pelo arroz branco com salada. Concluí com uma deliciosa pratada de fruta, e no fim bebi um chá sem açúcar - lembra alguém estragar o fabuloso sabor do chá com açúcar?! Depois olhei de novo para a barriga do senhor à minha frente. Eu também já tive uma assim, há 40 quilos atrás. Só que um dia achei que uma coisa daquelas era feia e perigosa para a saúde. E fiz uma dieta racional e séria. Aquele senhor acha que aqueles nacos de não sei quê embebidos em gordura fazem menos mal se forem acompanhados de salada.
O desafio
O André Benjamim lançou-me o desafio. Eu não costumo participar, mas abro uma excepção, em consideração ao meu homónimo, que gosto de ler. Além disso achei que era um bom pretexto para falar de uma das minhas mais recentes e intensas paixões, a língua e cultura árabe e islâmica.O desafio é, pois, o seguinte:
"1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha."
O problema é que o livro que tinha mais perto de mim era um dicionário "Árabe - Inglês", e supus que dicionários não contassem. Pensei então no segundo livro mais perto de mim, o Alcorão. Mas o desafio implica não escolher. Voltei então ao dicionário. Tive a esperança de que aparecesse uma definição interessante. Sei lá, um conceito filosófico ou religioso. Ou um verbo de implicações cognitivas. Ou uma preposição daquelas muito ricas em sentidos. Ou até um adjectivo bonito. Sei lá, qualquer coisa de jeito. Mas o que está na 5ª frase completa (entendida como definição) é o seguinte:
"كاحل kahil (كواحل kawahil) ankle"
Bom, o difícil agora é escolher 5 pessoas. Mas aqui vai:
André (O melhor blog do universo)
Cláudio (claudiofranco.net v. something)
Firefly (Staré mesto)
Mariana (Clube das leoas)
Pedro (Reflexos meus)
Aprender árabe foi um dos maiores desafios a que me propus nos últimos anos. Não tanto pela proverbial (e até certo ponto real) dificuldade da língua, mas por três factores que ma tornaram irresistível.
1. O facto de não ser uma língua indo-europeia. Até agora só tinha aprendido línguas indo-europeias: inglês, francês, latim, grego clássico e espanhol (por ordem cronológica). Por mais estranhas que aparentem ser, há sempre um determinado número de características fundamentais que as unem, ao nível morfo-sintáctico. Por mais bizarro que possa parecer o sistema verbal grego clássico, ele obedece, no essencial, aos mesmos princípios do nosso. Mas com o árabe não se passa nada disto. É necessário esquecer praticamente tudo o que se sabe sobre línguas. Lembra a alguém, por exemplo, que animais ou coisas no plural levem uma concordância de adjectivo no feminino singular?
2. O facto de ser uma língua sagrada. O estudo do árabe não se pode dissociar do Islão, ainda que haja um número significativo de arabófonos de religião cristã ou judaica. É que o árabe que aprendo, o árabe padrão usado nos "media", literatura e relações internacionais, não é outro senão o árabe do Alcorão, fixado há 14 séculos, apenas com alguns neologismos impostos pela evolução tecnológica. Eu não sou muçulmano nem imagino que venha alguma vez a ser. Sou ateu. Mas as religiões fascinam-me, e por isso talvez tenha lido o Novo Testamento mais vezes do que a esmagadora maioria dos cristãos. O Islão, tão pouco e mal conhecido no Ocidente, sempre me fascinou. Esta é uma oportunidade única de o conhecer melhor, e com a possibilidade de ler os seus textos fundadores no original.
3. O facto de ser uma língua quase imutável. Como ficou dito em cima, o árabe padrão moderno é o árabe fixado por Maomé no Alcorão, no século VII d.C., apenas com alguns neologismos impostos pela evolução tecnológica. Mas a sintaxe, a morfologia, a generalidade do léxico, são os mesmos num jornal do Cairo ou numa Sura do Alcorão. É quase como se nos jornais portugueses se escrevesse à maneira de Fernão Lopes, ou, levando um pouco mais longe o símile, como se o telejornal fosse dito em latim. Evidentemente não é este o árabe do homem da rua, que fala o que se convencionou, por razões políticas e religiosas, chamar dialectos, mas que na prática são línguas diferentes. Ora, tendo-me eu dedicado durante tantos anos ao estudo da filologia medieval hispânica, como poderia deixar escapar esta oportunidade de aprender a língua usada, com quase nenhumas alterações, no al-Andalus medieval?
segunda-feira, outubro 22, 2007
Rua!
Regressa este blogue à actividade com a excelente notícia que foi a derrota sofrida pela extrema-direita polaca nas eleições deste Domingo. Não é que o Tusk seja assim por aí além em termos ideológicos (não posso avaliar mais nada, não vivendo na Polónia), mas a derrota das ideias reaccionárias, ultra-religiosas, xenófobas, homófobas, etc. tem de ser uma boa notícia em qualquer parte do mundo.quarta-feira, março 07, 2007
Mais esta?!
Não bastavam ao Al Gore os ataques soezes de que tem sido vítima nos EUA? Não lhe bastava ter sido derrotado nas presidenciais mesmo tendo tido mais votos do que o adversário? Tinham mesmo de lhe fazer mais esta? sábado, março 03, 2007
Exames de português
Já entrou em vigor a obrigatoriedade de realização de exames de português para a obtenção da nacionalidade portuguesa. A lei não se aplica, racistamente, aos nascidos em Portugal filhos de portugueses. Para os nacionalistas não é má ideia. É que se fosse obrigatório obter classificação positiva num exame de português para a obtenção da nacionalidade, em vez de 10 milhões talvez fôssemos 1 milhão - e estou a ser optimista.
domingo, fevereiro 25, 2007
Num país normal...

Num país normal, Jardim há muito teria sido demitido e reformado compulsivamente, tais têm sido os dislates, as incontinências verbais, a chantagem, o insulto.
domingo, fevereiro 11, 2007
Aposta ganha
No futebol costuma-se dizer que, se uma equipa ganha o jogo, então o treinador é felicitado por determinada táctica. Se por um acaso perder, então essa mesma táctica é arrasada por adeptos e imprensa. Sócrates não era obrigado a submeter a sua proposta de despenalização do aborto a referendo. Tinha legitimidade legal e política para propor a alteração no parlamento, onde tinha a garantia de uma aprovação por maioria esmagadora. Era o que o PCP defendia. Mas o que o PCP nunca entendeu é que os movimentos do "não" nunca deixariam passar em branco esta manobra legalíssima, e que a nova lei ficaria maculada inevitavelmente logo à nascença. Pelo contrário, a opção referendária (que não era legalmente obrigatória, recorde-se) permite calar os "nãos" radicais, por um lado, e a legitimação da legislação proposta, por outro. Sócrates apostou tudo, e ganhou. Ganhámos todos.
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