domingo, setembro 07, 2008

Uma questão de funcionalidade e estética

Uma das coisas que me levam ao desespero quando sou forçado a usar um computador com Windows (*) é a impossibilidade de alterar as configurações (só nos deixam mexer, e com cuidadinho, nas coisas mais básicas), mas também o aspecto. Não me refiro a mudar as cores ou outras minudências. Refiro-me mesmo a alterar radicalmente o aspecto e o funcionamento do sistema gráfico. O sistema Linux, pelo contrário, uma vez que separa com muita clareza o sistema gráfico do modo texto, permite que o utilizador escolha o sistema gráfico que lhe der na gana - ou nem escolha nenhum. E não estamos a falar de mudar cores e sons, repito. Estamos a falar de sistemas gráficos diferentes, com gestores de janelas diferentes, definições diferentes, filosofias diferentes - e que se podem alternar fazendo um simples "logout". Ainda que neste caso a imagem seja muito redutora, mostro o aspecto do meu ambiente de trabalho agora e há poucos dias, usando o sistema KDE e usando o sistema Gnome, ambos livres e gratuitos:

KDE


Gnome


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(*) Na faculdade, por exemplo, onde se gastam milhões em licenças todos os anos, quando há alternativas gratuitas que fazem o mesmo e melhor.

Paranoid Park


Paranoid Park
Gus Van Sant

O medo.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Já lhe chamaram tanta coisa

Certamente devido a denúncia de algum(a) amante despeitado(a), as minhas caixas de correio electrónico são bombardeadas diariamente com promessas de "penis enlargement". Quer dizer, não chego a vê-las na altura, pois o servidor trata de arrumá-las na caixa de "spam", silenciosamente. Isto é bom porque assim não me chateio, mas tem o inconveniente de o servidor, volta e meia, despejar nessa caixa emails sérios e até importantes. Como aquele de uma respeitável funcionária do Vaticano, que talvez por ter nome de actriz porno acabou apertada entre promessas de virilidade acrescida, sem que eu tivesse dado por isso a não ser demasiado tarde. Já com o Gonçalo M. Tavares me tinha acontecido o mesmo: o primeiro email que me enviou foi impiedosamente escondido pelo meu servidor entre os insultos à minha virilidade - concretamente à sua dimensão.

Para evitar situações deste género, uma vez por semana passo os olhos pela pasta de "spam", não vá ter de novo algum email importante mal arrumado. Calhou fazer hoje uma dessas incursões, e por entre as muitas gargalhadas indirectas à minha pobreza viril desobri um mimo, que prometia dimensões equinas para o meu "dinosaur". Já tinha lido muitos eufemismos nestes emails - e repito: recebo dezenas por dia - mas "dinossauro" é a primeira vez.

Uma questão de rapidez


Uso Linux desde meados dos anos 90, primeiro num computador com arranque duplo (escolhia se queria Linux ou Windows), mais tarde apenas com Linux. Deixei de usar Windows durante muitos anos, até começar a ouvir maravilhas do XP e do Vista. Assim, no portátil que comprei no ano passado mantive o Vista, com Linux em alternativa. Rapidamente me desiludi com o caos do menu iniciar, feito a pensar em iniciados, não em utilizadores comuns. Depois vieram as habituais quebras, as falhas, e toda uma procissão de maleitas informáticas, tão típicas do Windows, e que só quem está habituado à eficiência de outros sistemas nota como inadmissíveis. Quando me vê a lutar em desespero com o seu Windows XP, a minha mãe diz "mas isso é normal", e eu não consigo convencê-la de que não é. Afinal ela sempre viu as coisas assim. É como dizer a uma pessoa que só visse a preto e branco que o mundo a cores é muito melhor. Mas isto são contas de outro rosário, e eu há muito deixei de ser proselitista no que respeita a sistemas operativos. Fiquem lá com o vosso lixo microsoft, see if I care.

Hoje, no entanto, apeteceu-me fazer uma experiência. É consensual que o Linux é mais seguro do que o Windows, toda a gente sabe que aquela lenda urbana de ser muito complicado é menos credível do que o monstro de Loch Ness, e o mito de ser difícil de instalar baseia-se não sei muito bem em quê, pois sempre foi mais simples de instalar do que o Windows - sobretudo agora, em que as distribuições mais populares se instalam rapidamente sem "reboots" e com 3 ou 4 cliques de rato. Faltava-me, porém, ter dados sobre a rapidez. Sempre me pareceu que o Windows era como um elefante centenário com artroses, em termos de rapidez e agilidade, mas sempre admiti que fosse por preconceito. Por isso hoje de cronómetro em punho resolvi fazer contas.

A experiência foi feita no meu portátil com processador Intel Core Duo a 2GHz, memória de 1G. De um lado Windows Vista, do outro Linux Ubuntu 8.04. Resolvi cronometrar apenas as acções comparáveis:
  1. arranque, desde que se carrega no botão de ligação até o indicador de actividade de disco ficar inactivo;
  2. tempo que demora a desligar;
  3. abertura do Firefox (a mesma versão em ambos os sistemas);
  4. abertura do OpenOffice Writer (a mesma versão em ambos os sistemas).
Os resultados confirmaram de forma eloquente as minhas suspeitas:
  1. O Windows demorou, sem introdução de login nem password, 2:58 minutos até o indicador de actividade do disco parar, e 1:20 minutos até a actividade ficar reduzida a ponto de conseguir abrir um programa. O Linux Ubuntu demorou incluindo introdução de login e password 1:03 até o indicador de actividade parar por completo. Vitória do Linux por knock out.
  2. O Windows demorou 32 segundos a desligar o computador. O Linux Ubuntu demorou 12 segundos. Vitória do Linux por abada das antigas.
  3. O Windows demorou 10 segundos a abrir o Firefox. O Linux Ubuntu demorou 2 segundos. Vitória do Linux por goleada.
  4. O Windows demorou 12 segundos a abrir o OpenOffice Writer. O Linux Ubuntu demorou 1 segundo. Vitória do Linux por humilhação.
Portanto no ponto 1 o Linux demorou quase 1/3 do tempo a efectuar a mesma tarefa. No ponto 2, o Linux demorou igualmente quase 1/3 do tempo a efectuar a mesmíssima coisa. No ponto 3 o Linux demorou 1/5 do tempo a efectuar rigorosamente a mesma coisa. No ponto 4 o Linux demorou 1/12 (!) do tempo a fazer precisamente a mesma coisa.

Por isso fiquei cá a pensar: se faz a mesma coisa em muito, mas mesmo muito mesmo tempo, se é mais fácil de instalar, se é mais simples de usar, se é mais seguro, se não tem vírus., se é gratuito e livre.. então porque é que o pessoal ainda insiste no Windows?

N.B.: a imagem é do meu computador de secretária, não do portátil, mas para o caso tanto faz.

sábado, agosto 30, 2008

Karénina


Não consigo convencê-la a pegar na Karénina. Diz que depois da Guerra e Paz não vai conseguir ler mais nenhum Tolstói.

Quevedo?


Os meus esforços no sentido de iniciar a Carolina na poesia espanhola do Siglo de Oro, nomeadamente Quevedo (canto inferior direito), têm-se revelado infrutíferos. Quem lhe tira o Tolkien é como se lhe tirasse a chucha.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Autos de Fé

"Novo partido MMS quer polícia a usar armas de fogo sem tabus". Os extremistas querem também, entre outras cavalidades, que as vítimas tenham uma palavra a dizer nas condenações, transformando portanto a justiça em vingança. O que virá a seguir? Linchamento? Forca? Execuções sumárias em praça pública?

quinta-feira, agosto 21, 2008

Literatura de WC

As minhas frequentes visitas aos WC da Biblioteca Nacional têm-me permitido verificar que entre a chamada "literatura de WC" da BN e a de outros espaços públicos só há uma diferença assinalável: nas portas e paredes dos WC da BN não se encontra ordinarices com erros ortográficos.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Que te papa o quê?!

Comprei um livro de lengalengas para ler à Carolina e ao Manuel, mas fiquei um pouco alarmado quando logo à sexta página dou com estes versos:

Vem aí
O bicho mau
Que te papa
O bacalhau


Valhamedeus!

terça-feira, agosto 19, 2008

Enformação das Cousas da China


A Carolina detesta paparazzi que a distraiam da leitura, sobretudo quando se trata da sua nova paixão: a recepção da cultura chinesa na literatura portuguesa do século XVI.

Brio

«Marco Fortes (lançamento do peso) disse, após a eliminação, que não se adaptou ao horário matinal da sua prova. "De manhã só é bom é na caminha, pelo menos comigo", disse o lançador do Sporting, de 25 anos, eliminado no passado dia 15, com dois lançamentos nulos e um lançamento a 18,05m, bem longe do seu melhor (20,13m).»


Talvez o senhor Marco Fortes devesse ter ficado em casa, sempre podia dormir mais um bocadinho na cama. É que eu também gosto muito de dormir de manhã, de preferência até à hora do almoço. Mas é quando não tenho compromissos. Porque no dia em que o meu trabalho fosse prejudicado por eu gostar mais de ficar na caminha de manhã, então estaria na altura de mudar de trabalho.

terça-feira, agosto 12, 2008

I beg your pardon?

Lido na primeira página do Público de hoje:

George W. Bush acusa Moscovo de "acto inaceitável no século XXI".

Isto dito por um homem que, no decorrer dos primeiros 3 anos do século XXI, invadiu e derrubou, com milhares de vítimas inocentes, o governo de dois países soberanos, por acaso (ou não) apoiados, acarinhados e fortalecidos durante muitos anos pelos seus antecessores, e ainda apoiou explicitamente a invasão e agressão de outro país (Líbano) por um aliado a quem tudo permite, isto dito por este homem é de uma ironia trágica.

domingo, agosto 03, 2008

Epifania


Lembro-me de quando entendi as minhas primeiras frases em Latim, há mais de 20 anos. O arrepio no estômago, a revelação uma língua que me parecia amar desde os primeiros vislumbres da consciência. E um ano depois a emoção das primeiras palavras soletradas em Grego antigo, a voz profunda do meu futuro colega e amigo, o já falecido Victor Jabouille, declinando sílabas olímpicas no gravador ferrugento.

Não voltei a sentir nada de parecido. Ainda que tenha andado lá perto há dois anos, quando comecei os estudos de Árabe clássico e moderno. Havia aquele alfabeto novo. Havia sobretudo a minha primeira língua não indo-europeia. Limpar a cabeça de conceitos que de forma consciente e não consciente me guiaram no processo linguístico desde que bolsei as primeiras palavras. A paixão foi à primeira vista.

Uma língua para mim, no entanto, não se pode reduzir a diálogos mais ou menos surreais. Nunca pretendi aprender línguas para comunicar. O Inglês e o Francês qui-los para os desmontar como se faz a um brinquedo, para ver como eram por dentro, como funcionavam. Aos 9 anos comecei a dissecar o Inglês, aos 13 o Francês. Aos 19 passei olhos desiludidos pelo insípido Esperanto, que de tão simplificado não tem qualquer interesse que não seja o comunicativo - e quanto a esse tenho cada vez mais sérias dúvidas. Houve ainda o Grego Moderno, sempre para ver como eram as suas entranhas.

Com a idade adulta veio a motivação cultural e literária, e com ela o Espanhol. Conhecer os vizinhos do lado através do veículo primeiro (ou segundo, em muitos casos) das suas culturas. Olhadelas vagas pelo Catalão antigo, lambidelas distraídas no Provençal medieval. Esquecidos os últimos, espalhado o primeiro em páginas pasmadas de Cervantes e Borges.

O Árabe clássico era paixão antiga. Correspondida desde os primeiros momentos de aprendizagem. Enquanto subiam e desciam os olhos num ziguezage ora cima ora abaixo na vogal breve, ora ao meio na consoante e na vogal longa. Mas não me tinha tocado ainda como as primeiras leituras engasgadas de Xenofonte ou Luciano ou Fedro. Nem quando comecei a apanhar palavras soltas, sintagmas, pequenas frases na al-Jazîra ou na BBC Arabic.

Até ouvir Mahmûd Darwish ler a sua poesia em árabe, e entender o meu primeiro verso completo. Mais de 20 anos depois lá estava outra vez aquele arrepio no estômago.

Não, obrigado.


Agora fiquei confuso: não dizem que o nuclear é limpo e seguro?

segunda-feira, julho 21, 2008

Arquivo Secreto

Começo a ter uma ideia muito mais clara da desinformação criada por best-sellers esotéricos e conspiracionistas, como os do Dan Brown e amigos, quando o carteiro me olha de lado ao pedir-me para assinar o registo e entregar-me um DVD remetido do nada secreto Arquivo Secreto Vaticano. Se ele soubesse que o DVD contém 612 imagens digitalizadas de documentos inéditos desse Arquivo, que me foram feitas a pedido (mediante pagamento régio, é certo), como o fariam a qualquer outra pessoa, imagino então que o seu olhar ficaria tão de lado que me naufragaria algures na entrada do prédio.

quinta-feira, julho 17, 2008

Vlad Tepes

Quando hoje fui buscar os meus sobrinhos à creche, dei com o Manuel retorcendo-se em pranto aflitivo no colo de uma auxiliar. Esta, pesarosa, comunicou-me que o Vlad o tinha mordido, e que lhe ia lavar o braço, onde se destacava o baixo relevo de uma dentadura completa e em bom estado. Ainda pensei dizer-lhe que talvez fosse melhor esfregar com alho, mas depois lembrei-me de que o perigo só era real se o Manuel lhe tivesse bebido o sangue. Conhecedor da impossibilidade de fazer o Manuel beber seja o que for sem ficar mais na roupa do que na boca, e tendo observado que ela se achava imaculada, pelo menos no que a sangue diz respeito, achei que estava tudo bem. Pelo sim pelo não, vou passar a ir à creche armado de dentes de alho e crucifixo. Não vá o diabo tecê-las, nunca se sabe o que nos pode fazer uma criança chamada Vlad.

sábado, julho 12, 2008

Nunca digas nunca

Se alguém me tivesse dito, há 2 ou 3 anos atrás, que um dia na minha casa andariam trepando pelos móveis desordenados rebanhos de fraldas, toalhetes, cremes hidratantes, chuchas, roupas de criança, bonecos de peluche (sem ser os leões do Sporting), carrinhos de brincar e livros do Ruca, e sobretudo que eu teria um carro e que o banco traseiro desse carro estaria permanentemente ocupado com cadeirinhas de criança, eu riria alarvemente e mandaria a pessoa tratar-se no Miguel Bombarda. Et pourtant...

Bocejo


Quando não se tem mais nada de interessante para fazer, no intervalo do trabalho para o doutoramento, fazem-se coisas parvas, como capturas de ecran ao meu Ubuntu Linux. Venham-me cá com Windows da treta que eu digo-lhes o que é bom...