sábado, setembro 27, 2008

Desenvolvimentos

Desenvolvimentos do caso PT: recebi uma carta da tal advogada que, em nome da PT, me ameaçava com tribunal por dívidas inexistentes, a dizer que na verdade eu não devia nada. Assim. Nem um pedido de desculpas. É a PT que temos. Hoje já veio um senhor reinstalar a linha. E eu estou a pensar seriamente desistir de vez da PT. Farto de faltas de respeito, má criação e incompetência.

terça-feira, setembro 23, 2008

A incompetência e a falta de respeito

Cópia de email enviado à DECO e à Portugal Telecom

André Filipe V. N. Simões
Associado da DECO nº XXXXXXXXXXX

Caros senhores

Em Maio do corrente ano, cansado de receber ameaças de ida a tribunal por parte da Portugal Telecom por faltas de pagamento na ordem dos 17€, apesar de até ter débito directo activado na altura, solicitei a desactivação da minha linha. Foi-me dito, então, que o pedido só seria atendido se, após um primeiro contacto da minha parte nesse sentido, através do preenchimento de impresso, houvesse uma posterior confirmação, desta vez após contacto feito pela PT. Esse contacto existiu, mas entretanto eu tinha mudado de ideias, pois acabara de fazer contrato com um fornecedor de ADSL, e para tal necessitava de ter linha telefónica. Expliquei isso mesmo à senhora da PT que me contactou, e o pedido de desactivação ficou assim sem efeito.

A empresa fornecedora de ADSL, a ZON, assegurou-me que eu de facto deixaria de ter telefone, mas a linha ficaria activa, e por sua conta, de modo a ter ADSL. De facto nunca mais recebi facturas da PT, mas continuei a receber ameaças de ida a tribunal por dever ninharias da ordem dos 17€, que ia pagando mansamente.

A última ameaça chegou-me no dia 11 de Setembro. Uma advogada ameaçava-me com ida a tribunal se não pagasse nesse mesmo dia 11 de Setembro uma quantia de cerca de 28€. Ainda que a carta viesse datada de 3 de Setembro, a verdade é que me chegou apenas no dia 11, e os correios não se costumam atrasar na minha zona (curiosamente só se "atrasam" nestes casos). Mas adiante. Tendo contactado o serviço de contencioso da PT e explicado a situação, foi-me dito que iriam ver o que se passava, e que me iriam contactar. Naturalmente não recebi qualquer contacto... A partir de dia 18, no entanto, notei que a minha linha tinha sido desactivada. A PT, portanto, atirou primeiro e nem sequer perguntou.

Dirigi-me no dia 19 à loja PT de Torres Vedras, e expus a situação, manifestando o meu desagrado e disponibilizando-me, ainda assim, para saldar a estranha dívida. Para meu espanto, a senhora garantiu-me que eu não devia nada, aludindo a uns crípticos "acertos", que não me soube explicar. Disse-me sim, sem conseguir disfarçar o embaraço, que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, apesar de eu não dever nada. Rasgou até, teatralmente, uma factura que nem sequer tinha o valor da ameaça da advogada da PT e que alegadamente eu devia mas que misteriosamente tinha deixado de estar a dever no espaço de minutos.

Confirmou ainda que apesar de eu não dever nada, realmente a PT tinha pedido a uma advogada para me ameaçar com uma acção judicial caso eu não pagasse a dívida que não devia. Perplexo, pedi para me confirmar que a linha me tinha sido desactivada por falta de pagamento apesar de eu não dever nem um cêntimo, pois não podia acreditar no que estava a ouvir. Ela confirmou. Aludiu, em desespero de causa, ao tal pedido de desactivação que eu tinha feito há largos meses, e que, como lhe recordei, tinha sido cancelado após contacto da PT. Confirmou no meu processo que assim tinha sido, e regressou à versão inicial da falta de pagamento apesar de eu não dever nada. Monty Python? Não. PT.

Julgando-me mergulhado num enredo de Kafka, liguei para a linha de apoio da PT, onde uma solícita operadora me confirmou que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, mas que eu não devia nada, nem um cêntimo. Abstive-me de comentários e resignei-me a esperar mais uns dias, até divorciar-me de vez da PT - agora até é mais fácil, com a nova lei.

Os dias passaram, e da PT nem um contacto. Liguei de novo para o contencioso, onde a mesma versão me foi relatada, e que repito porque por tão incrível e surreal receio não me acreditem: que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, mas que eu não devia nada, nem um tostão.

Os telefonemas (feitos e pagos por mim) têm-se multiplicado, e a conversa é sempre a mesma. Que não devo nada à PT, mas que a minha linha de facto está desactivada por falta de pagamento. Da PT nem um contacto, nem uma satisfação, nada.

Hoje contactei de novo o serviço de apoio ao cliente da PT, e a história repetiu-se. O operador voltou a aludir ao pedido de desactivação de Maio, e de novo reconheceu que o mesmo tinha sido cancelado. Anunciou-me, porém, que já tinha indicação de que a linha seria reactivada, numa clara confirmação de que afinal eu tinha mesmo razão. Não me soube foi dizer quando se daria a tal reactivação, e não me garantiu que eu não tivesse de pagar as despesas de reactivação, apesar de não ter qualquer culpa numa situação que claramente se deve a falta de competência de alguém dentro da PT.

Da PT continuo sem receber um contacto que seja - eu é que tenho tomado a iniciativa, e toda a gente sabe que casamentos assim não funcionam. Não me deram cavaco quando me desactivaram sem razão a linha (tirando as ameaças da advogada), e cavaco não me deram quando decidira reactivar - mas sem data prevista.

Se eu fosse como a PT, ameaçaria com tribunal por danos morais e materiais inflingidos (afinal eles ameaçam-me com idas a tribunal por dívidas de 17€), mas eu tenho bom senso, e quero apenas dar a conhecer a situação, e solicitar junto dos senhores informações no sentido de saber o que fazer caso me sejam cobradas as despesas, e sobretudo se tenho direito a exigir compensação pelos danos causados pela empresa.

A referência da carta com as ameaças da PT é: XXXXXXXXXXX
O meu número de telefone (desactivado...): XXXXXXXXXXX

Com os meus melhores cumprimentos,
André Filipe V. N. Simões

quarta-feira, setembro 17, 2008

Os russos

Eu dizia que a música me tinha acabado na primeira metade do século XVIII. Ouvia especialmente os séculos XVI e XVII. Victoria, Monteverdi, Palestrina, J. S. Bach, Caccini, Morales, Guerrero, Haendel, Purcell, Lully, Charpentier, eu sei lá, tantos outros. Vá lá, mesmo sainda da barreira cronológica, ainda admitia um Mozart ou um Beethoven ou um Bomtempo. Eram as excepções, as tais que fazem a regra. Até dar uma segunda oportunidade a Tchaikovski, a Prokofiev, a Stravinski. Agora já não só os escritores.

sábado, setembro 13, 2008

Dress you up

Eu gostava dela nos anos 80, quando revolucionou a pop feminina, e usava rendas e crucifixos. Tinha o quarto forrado de posters, numa altura em que poucos assumiam gostar dela e muitos não a conheciam. Comprei-lhe todos os LP até ao True Blue. Comemorava-lhe o aniversário a cada 16 de Agosto. Fiquei desgostoso com a fase menos atrevida, exultei como se fosse uma ressurreição com o monumental clip Justify my love, na altura proibido em quase todo o mundo, hoje perfeitamente banal.

Agora tenho-lhe um tremendo respeito. Ao contrário de outras estrelas da sua época, não é cadente, não faz sempre a mesma coisa, não usa sempre a mesma receita. Ela é uma estrela em contínua ascenção, há mais de um quarto de século. Não gosto hoje da música dela, se calhar nem nunca gostei a sério, já não lhe compro os discos. Mas um dia destes volto a ter um poster dela em casa. Dos dos anos 80.

domingo, setembro 07, 2008

Uma questão de funcionalidade e estética

Uma das coisas que me levam ao desespero quando sou forçado a usar um computador com Windows (*) é a impossibilidade de alterar as configurações (só nos deixam mexer, e com cuidadinho, nas coisas mais básicas), mas também o aspecto. Não me refiro a mudar as cores ou outras minudências. Refiro-me mesmo a alterar radicalmente o aspecto e o funcionamento do sistema gráfico. O sistema Linux, pelo contrário, uma vez que separa com muita clareza o sistema gráfico do modo texto, permite que o utilizador escolha o sistema gráfico que lhe der na gana - ou nem escolha nenhum. E não estamos a falar de mudar cores e sons, repito. Estamos a falar de sistemas gráficos diferentes, com gestores de janelas diferentes, definições diferentes, filosofias diferentes - e que se podem alternar fazendo um simples "logout". Ainda que neste caso a imagem seja muito redutora, mostro o aspecto do meu ambiente de trabalho agora e há poucos dias, usando o sistema KDE e usando o sistema Gnome, ambos livres e gratuitos:

KDE


Gnome


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(*) Na faculdade, por exemplo, onde se gastam milhões em licenças todos os anos, quando há alternativas gratuitas que fazem o mesmo e melhor.

Paranoid Park


Paranoid Park
Gus Van Sant

O medo.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Já lhe chamaram tanta coisa

Certamente devido a denúncia de algum(a) amante despeitado(a), as minhas caixas de correio electrónico são bombardeadas diariamente com promessas de "penis enlargement". Quer dizer, não chego a vê-las na altura, pois o servidor trata de arrumá-las na caixa de "spam", silenciosamente. Isto é bom porque assim não me chateio, mas tem o inconveniente de o servidor, volta e meia, despejar nessa caixa emails sérios e até importantes. Como aquele de uma respeitável funcionária do Vaticano, que talvez por ter nome de actriz porno acabou apertada entre promessas de virilidade acrescida, sem que eu tivesse dado por isso a não ser demasiado tarde. Já com o Gonçalo M. Tavares me tinha acontecido o mesmo: o primeiro email que me enviou foi impiedosamente escondido pelo meu servidor entre os insultos à minha virilidade - concretamente à sua dimensão.

Para evitar situações deste género, uma vez por semana passo os olhos pela pasta de "spam", não vá ter de novo algum email importante mal arrumado. Calhou fazer hoje uma dessas incursões, e por entre as muitas gargalhadas indirectas à minha pobreza viril desobri um mimo, que prometia dimensões equinas para o meu "dinosaur". Já tinha lido muitos eufemismos nestes emails - e repito: recebo dezenas por dia - mas "dinossauro" é a primeira vez.

Uma questão de rapidez


Uso Linux desde meados dos anos 90, primeiro num computador com arranque duplo (escolhia se queria Linux ou Windows), mais tarde apenas com Linux. Deixei de usar Windows durante muitos anos, até começar a ouvir maravilhas do XP e do Vista. Assim, no portátil que comprei no ano passado mantive o Vista, com Linux em alternativa. Rapidamente me desiludi com o caos do menu iniciar, feito a pensar em iniciados, não em utilizadores comuns. Depois vieram as habituais quebras, as falhas, e toda uma procissão de maleitas informáticas, tão típicas do Windows, e que só quem está habituado à eficiência de outros sistemas nota como inadmissíveis. Quando me vê a lutar em desespero com o seu Windows XP, a minha mãe diz "mas isso é normal", e eu não consigo convencê-la de que não é. Afinal ela sempre viu as coisas assim. É como dizer a uma pessoa que só visse a preto e branco que o mundo a cores é muito melhor. Mas isto são contas de outro rosário, e eu há muito deixei de ser proselitista no que respeita a sistemas operativos. Fiquem lá com o vosso lixo microsoft, see if I care.

Hoje, no entanto, apeteceu-me fazer uma experiência. É consensual que o Linux é mais seguro do que o Windows, toda a gente sabe que aquela lenda urbana de ser muito complicado é menos credível do que o monstro de Loch Ness, e o mito de ser difícil de instalar baseia-se não sei muito bem em quê, pois sempre foi mais simples de instalar do que o Windows - sobretudo agora, em que as distribuições mais populares se instalam rapidamente sem "reboots" e com 3 ou 4 cliques de rato. Faltava-me, porém, ter dados sobre a rapidez. Sempre me pareceu que o Windows era como um elefante centenário com artroses, em termos de rapidez e agilidade, mas sempre admiti que fosse por preconceito. Por isso hoje de cronómetro em punho resolvi fazer contas.

A experiência foi feita no meu portátil com processador Intel Core Duo a 2GHz, memória de 1G. De um lado Windows Vista, do outro Linux Ubuntu 8.04. Resolvi cronometrar apenas as acções comparáveis:
  1. arranque, desde que se carrega no botão de ligação até o indicador de actividade de disco ficar inactivo;
  2. tempo que demora a desligar;
  3. abertura do Firefox (a mesma versão em ambos os sistemas);
  4. abertura do OpenOffice Writer (a mesma versão em ambos os sistemas).
Os resultados confirmaram de forma eloquente as minhas suspeitas:
  1. O Windows demorou, sem introdução de login nem password, 2:58 minutos até o indicador de actividade do disco parar, e 1:20 minutos até a actividade ficar reduzida a ponto de conseguir abrir um programa. O Linux Ubuntu demorou incluindo introdução de login e password 1:03 até o indicador de actividade parar por completo. Vitória do Linux por knock out.
  2. O Windows demorou 32 segundos a desligar o computador. O Linux Ubuntu demorou 12 segundos. Vitória do Linux por abada das antigas.
  3. O Windows demorou 10 segundos a abrir o Firefox. O Linux Ubuntu demorou 2 segundos. Vitória do Linux por goleada.
  4. O Windows demorou 12 segundos a abrir o OpenOffice Writer. O Linux Ubuntu demorou 1 segundo. Vitória do Linux por humilhação.
Portanto no ponto 1 o Linux demorou quase 1/3 do tempo a efectuar a mesma tarefa. No ponto 2, o Linux demorou igualmente quase 1/3 do tempo a efectuar a mesmíssima coisa. No ponto 3 o Linux demorou 1/5 do tempo a efectuar rigorosamente a mesma coisa. No ponto 4 o Linux demorou 1/12 (!) do tempo a fazer precisamente a mesma coisa.

Por isso fiquei cá a pensar: se faz a mesma coisa em muito, mas mesmo muito mesmo tempo, se é mais fácil de instalar, se é mais simples de usar, se é mais seguro, se não tem vírus., se é gratuito e livre.. então porque é que o pessoal ainda insiste no Windows?

N.B.: a imagem é do meu computador de secretária, não do portátil, mas para o caso tanto faz.

sábado, agosto 30, 2008

Karénina


Não consigo convencê-la a pegar na Karénina. Diz que depois da Guerra e Paz não vai conseguir ler mais nenhum Tolstói.

Quevedo?


Os meus esforços no sentido de iniciar a Carolina na poesia espanhola do Siglo de Oro, nomeadamente Quevedo (canto inferior direito), têm-se revelado infrutíferos. Quem lhe tira o Tolkien é como se lhe tirasse a chucha.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Autos de Fé

"Novo partido MMS quer polícia a usar armas de fogo sem tabus". Os extremistas querem também, entre outras cavalidades, que as vítimas tenham uma palavra a dizer nas condenações, transformando portanto a justiça em vingança. O que virá a seguir? Linchamento? Forca? Execuções sumárias em praça pública?

quinta-feira, agosto 21, 2008

Literatura de WC

As minhas frequentes visitas aos WC da Biblioteca Nacional têm-me permitido verificar que entre a chamada "literatura de WC" da BN e a de outros espaços públicos só há uma diferença assinalável: nas portas e paredes dos WC da BN não se encontra ordinarices com erros ortográficos.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Que te papa o quê?!

Comprei um livro de lengalengas para ler à Carolina e ao Manuel, mas fiquei um pouco alarmado quando logo à sexta página dou com estes versos:

Vem aí
O bicho mau
Que te papa
O bacalhau


Valhamedeus!

terça-feira, agosto 19, 2008

Enformação das Cousas da China


A Carolina detesta paparazzi que a distraiam da leitura, sobretudo quando se trata da sua nova paixão: a recepção da cultura chinesa na literatura portuguesa do século XVI.

Brio

«Marco Fortes (lançamento do peso) disse, após a eliminação, que não se adaptou ao horário matinal da sua prova. "De manhã só é bom é na caminha, pelo menos comigo", disse o lançador do Sporting, de 25 anos, eliminado no passado dia 15, com dois lançamentos nulos e um lançamento a 18,05m, bem longe do seu melhor (20,13m).»


Talvez o senhor Marco Fortes devesse ter ficado em casa, sempre podia dormir mais um bocadinho na cama. É que eu também gosto muito de dormir de manhã, de preferência até à hora do almoço. Mas é quando não tenho compromissos. Porque no dia em que o meu trabalho fosse prejudicado por eu gostar mais de ficar na caminha de manhã, então estaria na altura de mudar de trabalho.

terça-feira, agosto 12, 2008

I beg your pardon?

Lido na primeira página do Público de hoje:

George W. Bush acusa Moscovo de "acto inaceitável no século XXI".

Isto dito por um homem que, no decorrer dos primeiros 3 anos do século XXI, invadiu e derrubou, com milhares de vítimas inocentes, o governo de dois países soberanos, por acaso (ou não) apoiados, acarinhados e fortalecidos durante muitos anos pelos seus antecessores, e ainda apoiou explicitamente a invasão e agressão de outro país (Líbano) por um aliado a quem tudo permite, isto dito por este homem é de uma ironia trágica.

domingo, agosto 03, 2008

Epifania


Lembro-me de quando entendi as minhas primeiras frases em Latim, há mais de 20 anos. O arrepio no estômago, a revelação uma língua que me parecia amar desde os primeiros vislumbres da consciência. E um ano depois a emoção das primeiras palavras soletradas em Grego antigo, a voz profunda do meu futuro colega e amigo, o já falecido Victor Jabouille, declinando sílabas olímpicas no gravador ferrugento.

Não voltei a sentir nada de parecido. Ainda que tenha andado lá perto há dois anos, quando comecei os estudos de Árabe clássico e moderno. Havia aquele alfabeto novo. Havia sobretudo a minha primeira língua não indo-europeia. Limpar a cabeça de conceitos que de forma consciente e não consciente me guiaram no processo linguístico desde que bolsei as primeiras palavras. A paixão foi à primeira vista.

Uma língua para mim, no entanto, não se pode reduzir a diálogos mais ou menos surreais. Nunca pretendi aprender línguas para comunicar. O Inglês e o Francês qui-los para os desmontar como se faz a um brinquedo, para ver como eram por dentro, como funcionavam. Aos 9 anos comecei a dissecar o Inglês, aos 13 o Francês. Aos 19 passei olhos desiludidos pelo insípido Esperanto, que de tão simplificado não tem qualquer interesse que não seja o comunicativo - e quanto a esse tenho cada vez mais sérias dúvidas. Houve ainda o Grego Moderno, sempre para ver como eram as suas entranhas.

Com a idade adulta veio a motivação cultural e literária, e com ela o Espanhol. Conhecer os vizinhos do lado através do veículo primeiro (ou segundo, em muitos casos) das suas culturas. Olhadelas vagas pelo Catalão antigo, lambidelas distraídas no Provençal medieval. Esquecidos os últimos, espalhado o primeiro em páginas pasmadas de Cervantes e Borges.

O Árabe clássico era paixão antiga. Correspondida desde os primeiros momentos de aprendizagem. Enquanto subiam e desciam os olhos num ziguezage ora cima ora abaixo na vogal breve, ora ao meio na consoante e na vogal longa. Mas não me tinha tocado ainda como as primeiras leituras engasgadas de Xenofonte ou Luciano ou Fedro. Nem quando comecei a apanhar palavras soltas, sintagmas, pequenas frases na al-Jazîra ou na BBC Arabic.

Até ouvir Mahmûd Darwish ler a sua poesia em árabe, e entender o meu primeiro verso completo. Mais de 20 anos depois lá estava outra vez aquele arrepio no estômago.

Não, obrigado.


Agora fiquei confuso: não dizem que o nuclear é limpo e seguro?

segunda-feira, julho 21, 2008

Arquivo Secreto

Começo a ter uma ideia muito mais clara da desinformação criada por best-sellers esotéricos e conspiracionistas, como os do Dan Brown e amigos, quando o carteiro me olha de lado ao pedir-me para assinar o registo e entregar-me um DVD remetido do nada secreto Arquivo Secreto Vaticano. Se ele soubesse que o DVD contém 612 imagens digitalizadas de documentos inéditos desse Arquivo, que me foram feitas a pedido (mediante pagamento régio, é certo), como o fariam a qualquer outra pessoa, imagino então que o seu olhar ficaria tão de lado que me naufragaria algures na entrada do prédio.

quinta-feira, julho 17, 2008

Vlad Tepes

Quando hoje fui buscar os meus sobrinhos à creche, dei com o Manuel retorcendo-se em pranto aflitivo no colo de uma auxiliar. Esta, pesarosa, comunicou-me que o Vlad o tinha mordido, e que lhe ia lavar o braço, onde se destacava o baixo relevo de uma dentadura completa e em bom estado. Ainda pensei dizer-lhe que talvez fosse melhor esfregar com alho, mas depois lembrei-me de que o perigo só era real se o Manuel lhe tivesse bebido o sangue. Conhecedor da impossibilidade de fazer o Manuel beber seja o que for sem ficar mais na roupa do que na boca, e tendo observado que ela se achava imaculada, pelo menos no que a sangue diz respeito, achei que estava tudo bem. Pelo sim pelo não, vou passar a ir à creche armado de dentes de alho e crucifixo. Não vá o diabo tecê-las, nunca se sabe o que nos pode fazer uma criança chamada Vlad.

sábado, julho 12, 2008

Nunca digas nunca

Se alguém me tivesse dito, há 2 ou 3 anos atrás, que um dia na minha casa andariam trepando pelos móveis desordenados rebanhos de fraldas, toalhetes, cremes hidratantes, chuchas, roupas de criança, bonecos de peluche (sem ser os leões do Sporting), carrinhos de brincar e livros do Ruca, e sobretudo que eu teria um carro e que o banco traseiro desse carro estaria permanentemente ocupado com cadeirinhas de criança, eu riria alarvemente e mandaria a pessoa tratar-se no Miguel Bombarda. Et pourtant...

Bocejo


Quando não se tem mais nada de interessante para fazer, no intervalo do trabalho para o doutoramento, fazem-se coisas parvas, como capturas de ecran ao meu Ubuntu Linux. Venham-me cá com Windows da treta que eu digo-lhes o que é bom...

quarta-feira, julho 09, 2008

A vitória das Livrarias


Há uma diferença fundamental entre livrarias e mercados de livros. Os mercados de livros dispõem estética e estrategicamente os livros, com "tops" de vendas. Normalmente é fácil encontrar as novidades e, sobretudo, os grandes êxitos de vendas. São geridas muitas vezes por pessoas que de livros percebem pouco, e acima das letras colocam os números. É legítimo. Eu não penso assim, e se calhar eu é que estou errado, pois chego ao fim do mês e vejo, desesperado, que gastei dezenas (às vezes centenas) de euros em livros, e falta-me o carcanhol para o passe ou para uma ida ao teatro.

Depois há as livrarias, geridas por bibliófilos (o ideal é quando são também bibliómanos), que têm as letras em conta pelo menos igual à dos números (porque é preciso pagar as contas no fim de mês). Nas livrarias há a mesma coisa que nos mercados de livros, e normalmente até há mais. Há aqueles autores que vendem pouco, e são bons. Há aqueles livros com pouca saída, mas muitíssimo bons. E há aqueles que são verdadeiras preciosidades, impossíveis de achar nas fnacs ou na generalidade das bertrands. Porque vendem pouco. São espaços de qualidade. Os livros estão organizados de forma inteligente, não mercantilista. É o livreiro que decide o que fica onde e durante quanto tempo, não as editoras. Os "tops", se existem, são de facto baseados no número de exemplares vendidos.

As livrarias são acolhedoras. São casas de livros. Os mercados de livros são estantes e caixas registadoras. Vendem os livros um bocadinho mais baratos, às vezes. Mas valerá a pena?

Há, finalmente, pequenos pormenores que fazem a diferença. Há os lançamentos e as tertúlias e as sessões de poesia. Os mercados do livro também os têm, mas normalmente só se garantirem um número significativo de participantes e um encaixe financeiro agradável. As livrarias também preferem que isso aconteça. Mas não é isso o mais importante. Por isso não se importam de convidar autores pouco ou nada conhecidos.

Há também o espaço para as crianças, aspecto a que só desde que me tornei "babysitter" dos meus sobrinhos comecei a dar a devida importância. E desses espaços eu não posso falar muito, pois o que a mim, adulto, parece bom a uma criança pode parecer uma imensa maçada. Por isso quem melhor do que as crianças para decidir? A Carolina já conhecia a Bertrand de Torres Vedras (a "uoja dos uivros"), e tinha já o seu território, junto da mesa cheia de livros muito bem empilhadinhos, sem espaço para pôr mais nada. Já tinha até marcado o território com uma valente xixizada como já tive oportunidade de contar. Ontem levei-a à LIVROdoDIA, onde ia decorrer o lançamento do livro Portugal e os Portugueses, de D. Manuel Clemente. E ela notou bem a diferença em relação à Bertrand. Não há mesas com arrumadinhas pilhas de livros, mas há brinquedos, há bonecos, há jogos, há bancos confortáveis. Eu prometo ao Luís Cristóvão que a ponho a fazer xixi antes, não vá ela querer marcar de novo o território, mas a verdade é que a Carolina já se decidiu: agora já não quer a "uoja dos uivros" (Bertrand), agora quer a "outra uoja dos uivros" (a LIVROdoDIA).


terça-feira, julho 08, 2008

Voltando a bater no ceguinho

Às vezes sou muito duro para as pastelonas empresas portuguesas (ou dependências portuguesas de multinacionais), que demoram eternidades bíblicas para enviar por correio encomendas feitas pela internet. A FNAC portuguesa, por exemplo. Fiz lá duas encomendas que demoraram entre 1 e 2 semanas a chegar. Como tenho contado, as encomendas através da Amazon.co.uk ou Amazon.fr demoram 2 ou 3 dias a chegar, o que diz muito das razões que levam a Inglaterra e a França a serem países prósperos, e Portugal esta apagada e vil tristeza. Quando uma encomenda demora menos a chegar de Londres ou Paris do que de Lisboa, parece-me que está tudo dito, quando à competência, organização e respeito pelos consumidores. E não, obviamente o problema não é dos correios: os correios que me entregam as encomendas da Amazon, a partir do momento em que desembarcam em Lisboa, são os mesmíssimos que me entregam os da FNAC. A diferença é que a Amazon põe-nos no correio poucas horas depois de a encomenda estar feita, a FNAC fá-lo vários dias depois.

Não tenho tido, no entanto, o hábito de mandar vir da Amazon.com, porque com as taxas fica mais caro, e confesso que não tenho muita paciência para esperar (normalmente vêm de barco, e demora umas semanitas). Por isso quando no dia 24 de Junho, aproveitando o dólar baixo, encomendei o Arabic-English Dictionary: The Hans Wehr Dictionary of Modern Written Arabic, imprescindível para o avanço dos meus estudos na língua árabe padrão e clássica, não contava com ele antes do fim de Julho, como de resto a própria Amazon.com me informava, prevendo a chegada a Lisboa no dia 24 de Julho. Por isso já se pode imaginar a minha surpresa quando ontem, dia 7 de Julho, duas semanas depois de feita a encomenda, já lá estava no cacifo da faculdade o meu precioso dicionariozinho. Como já não punha os pés na faculdade há mais de 1 semana, nada me garante que não tivesse chegada há mais tempo. É por estas e outras que eu continuo a fazer compras via internet na Amazon. Na FNAC, não.

domingo, julho 06, 2008

A ignoranta

Lido no Público:
«"Só os ignorantes é que me chamam presidente [em vez de presidenta]. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta."
Pilar del Río, "Diário de Notícias", 06-07-2008»
Eu, ignorante, continuarei a chamar-lhe "presidente" (de quê, já agora?). A não ser que ela me deixe aplicar-lhe adjectivos como "contenta", "confianta", "granda", "importanta", e, sobretudo, "ignoranta". Porque eu sou muito democrático, e se ela quer arranjar forma feminina para um substantivo invariável, eu não vejo porque é que não se poderia então arranjar feminino para todos os substantivos e adjectivos invariáveis quanto ao género. Estas obsessões quanto ao género sempre me fizeram muita confusão.

sábado, julho 05, 2008

O machado

Tendo-me prometido, sob pena de abdicar da herança da minha biblioteca, que desta vez não faria xixi no chão, lá levei de novo a sobrinha Carolina, de quase 3 anos, à Bertrand de Torres Vedras. Perdão, à "uoja dos uivros". Nunca fiando, porém, antes de sairmos enfiei-a na sanita e de lá não saiu enquanto não fez a sua xixizada, perante o meu aplauso e entusiásticos "linda menina", que estes pequenos progressos têm de ser incentivados. Espero é que a miúda não venha a desenvolver, quando mais velhinha, nenhuma perversão por causa destes xixis aplaudidos e ovacionados. Depois do Poe e do Joyce, a minha irmã nunca me perdoaria. Mas dizia eu que lá a levei de novo à Bertrand de Torres Vedras. Francamente preferia ter ficado a fazer levantamento de sobrinhos em casa (*), pois nem estava, para escândalo da Carolina, calçado nem decentemente vestido. Mas que fazer diante dos imperativamente escandidos "que-ro ir à uo-ja dos ui-vros" acompanhados de categóricos franzir de sobrancelhas e furiosos enrugar de lábios? Lá me arrastei até ao carro e fiz os 5 minutos de viagem com o José Barata Moura a dar a papa à Joana no leitor de CDs (a alternativa é cantar eu o Avô Cantigas ou a Floribella brasileira). Depois entrámos, eu timidamente, a ver se alguém me apontava o dedo e me rosnava "lá está o da menina que fez xixi no chão", ela gritando de alegria - e isto compensa tudo. A visita foi, porém, rápida. Atraída talvez pelo verde vivo da capa (eu bem tento instruí-la nas virtudes do verde e dos leões e das camisolas às riscas horizontais), a Carolina parou ainda antes de chegar à secção infantil, e pegou no Crime e Castigo. Aliviado embora por não ter sido o livro das dietas da Oprah, que ameaçava mesmo ao lado, qual Adamastor de papel, imediatamente lho tirei das mãos, peguei nela e saí, sussurrando-lhe ao ouvido "o Ródia é um menino feio! A Carolina nunca vai namorar com meninos feios que matam velhotas à machadada". Ela disse que sim, eu fiquei mais descansado, levei-a a ver as iguanas (perdão, os "uagartos") na loja de animais, e acabou-se a história.

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(*)
Já tem largos meses, a foto; agora estão bastante maiores, e muito mais colófilos :|

A especificidade de um número de fax

Lê-se e não se acredita. A "especificidade do assunto" que coloquei foi o número de fax para onde enviar o pedido de cancelamento do serviço Sapo ADSL.

«Estimado Cliente,
Muito obrigado por nos ter contactado.

Dada a especificidade do assunto que nos coloca e para podermos dar seguimento ao seu pedido da melhor forma, agradecemos que nos contacte através da linha de apoio ao cliente 707 22 72 76[1], de segunda a sexta-feira, entre as 9h00 e as 22h00.
Com os melhores cumprimentos,
Paula Dias
Apoio ao Cliente»


A minha resposta:

«
Caros senhores
É por essas e outras que da vossa empresa quero distância o mais depressa possível. Não consigo entender, por mais voltas que dê à cabeça, a especificidade da informação sobre um simples número de fax. Já perdi muito tempo na vossa linha de apoio ao cliente, onde, após muita conversa fiada, lá me foi dado de má vontade o número, que infelizmente perdi. Seria pedir muito que me dessem de novo por email? Não acredito que não o saibam. São só nove números.
Sem mais
André Simões»

A base


«Mas elle queria dizer se o Carlinhos já entrava com o seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...
– Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de santa malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo... Não admitte, acha que é antigo... Elle, antigo é...
– Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá o latim...
O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave, ia murmurando:
– Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é a basesinha!»

Eça de Queirós, Os Maias

sexta-feira, julho 04, 2008

Tanga


Voltou o discurso da tanga. E com ele a cara de pau da dama de pau. É espantoso como uma mulher que foi, como ministra de estado e das finanças, o rosto mais eminente de um dos piores governos das últimas décadas, marcado por um dramático recuo nas condições de vida das população, que em parte ainda estamos a pagar, por um total desprezo pelos mais necessitados, pela indiferença pelos graves problemas sociais criados, pela degradação da nossa economia, pelo disparar do desemprego, de que ainda estamos a vamos continuar a sofrer as consequências, é espantoso como uma mulher destas vem agora dizer que não há dinheiro para nada e que quer maioria absoluta nas próximas eleições. Uma mulher que, recordemos, não só não conseguiu conter o défice orçamental (disfarçado por medidas extraordináras e desorçamentações) como também o agravou, obrigando às políticas de contenção a que o actual governo tem sido forçado. É preciso ter lata. E muita cara de pau.

quinta-feira, junho 26, 2008

A dama de pau

Há quem chame a Manuela Ferreira Leite "dama de ferro". Injustamente. É que uma mulher que, enquanto foi ministra, demonstrou e assumiu um total desprezo pelos mais necessitados, congelando salários e proibindo renovação de contratos, entre outras malfeitorias; uma mulher que transformou uma crise orçamental numa profunda crise económica, com as suas medidas "estúpidas" (palavras da própria), de que ainda não saimos, e deixando o défice orçamental muito acima do que encontrou; uma mulher que tentou (não passou de intenções) controlar o défice com medidas extraordinárias, aumentando ao mesmo tempo a despesa pública - uma mulher dessas quando vem agora armar-se em paladina dos pobres e dizer que o que tem de se cortar (mais?!) é a despesa, uma mulher destas não é de ferro. É de pau. Como a sua cara. De pau.

quarta-feira, junho 25, 2008

Xixis

Enquanto fazia xixi pernas abaixo na secção infantil da Bertrand de Torres Vedras, a minha sobrinha Carolina (a caminho dos 3 anos) manifestou hoje a sua independência em relação aos grandes grupos editoriais. Depois de bem espalhado o seu protesto na carpete, olhou para mim como se à espera de que a apoiasse, no mínimo com comportamento idêntico. Mas eu sou um vendido, e portanto peguei nela ao colo, pedindo entre dentes aos meus santinhos ateus que ninguém reparasse na conspícua poça indignada, rosnei um "amanhã no mesmo sítio à mesma hora" apressado ao Philip Roth que ando a namorar, cuspi sorrisos subservientes aos empregados, e saí, embebido em xixi contestatário, a correr em direcção ao fraldário.

terça-feira, junho 24, 2008

Sit terra tibi leuis

Conta o Público que um guarda israelita se suicidou quando Sarkozy e a sua mulher subiam para o avião, depois de uma visita a Israel. Eu também não sei se me aguentaria, depois de aturar o casal mais piroso e insuportável da política internacional.

domingo, junho 22, 2008

ما شاء الله

Ouço e leio intervenções públicas do sr. Cavaco desde 1985, e ainda ando em tratamento psiquiátrico por causa disso, mas não queria deixar de assinalar as palavras que lhe li hoje. É que é a primeira vez em 23 anos que concordo com ele ponto por ponto, letra por letra. Nestes tempos de ignorância e caça às bruxas (já faltou mais para as fogueiras) é sempre bom ler palavras lúcidas e inteligentes, mesmo vindas de quem vêm.

sábado, junho 21, 2008

Ensaio sobre a incompetência


Quanto pensava que já tinha visto de tudo no que respeita à inventiva de alguns tradutores portugueses, eis que me deparo com esta pérola que é o título "Ensaio sobre o ciúme" para a espantosa "Sonata Kreutzer", de Lev Tolstói (rebaptizado Leon, nesta tradução...). A coisa é editada pela "Coisas de Ler", e não vi quem traduzia.

A obra, recorde-se, é intitulada "Крейцерова соната" (Kreitserova sonata), no original russo. Não há dúvidas, não há ambiguidades. "Sonata Kreutzer". Limpinho. Apesar disso, o(a) tradutor(a) resolveu ignorar o título original e pelo qual é conhecida em todo o mundo, e inventou um "Ensaio sobre o ciúme" que é a sua interpretação pessoal do conteúdo da obra. Eu gostava de saber o que acharia o(a) tradutor(a) se, seguindo o seu exemplo, aparecesse agora uma tradução francesa de "Os Maias" intitulada "Essai sur l'Inceste". Absurdo, não? Idiota, não? Não menos do que chamar à fabulosa "Sonata Kreutzer" "Ensaio sobre o ciúme".

Há outro pormenor significativo e revelador do calibre desta edição: na ficha técnica, diz-se que o título original é "The Kreutzer sonata". Das duas uma, ou foi descoberta alguma versão inglesa escrita pelo próprio punho de Tolstói, ou então trata-se de uma pateta (mais do que patética) confissão do tradutor e/ou do editor de que, ao contrário do que manda o bom senso, a qualidade e o respeito pelos leitores, esta tradução é em segunda mão. Se uma tradução é, à partida, uma versão imperfeita do original, uma tradução de uma tradução é como uma fotocópia de uma fotocópia: acentuam-se os inevitáveis erros, afasta-se irremediavelmente do original.

Não desespere, porém, quem ainda não leu esta obra extraordinária, e, como eu, tem a desdita de não saber russo. Além de traduções inglesas de grande qualidade e quase de graça, feitas sobre o original russo e respeitando-lhe o título, há a tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, obviamente directa do russo, na Relógio d'Água. Parece-me já ter visto por aí uma tradução do António Pescada, mas não posso garantir. A Guimarães também tem uma tradução respeitando o título, talvez seja a do Pescada.

Desorientações

Enquanto beberricava ontem o meu chá matinal, no café aqui do prédio, deixei cair inadvertidamente os olhos sobre a manchete do Correio da Manhã. Escarrapachava que as "visitas íntimas" homossexuais passariam a ser permitidas nas prisões portuguesas. A ILGA veio logo toda contente aprovar a medida. Eu também aprovo, como é evidente. Mas não deixo de lamentar que tenha de haver uma lei para isto. Numa sociedade normal a lei das "visítas íntimas" não teria de explicitar a orientação sexual das pessoas. O problema parte daí. Se não o fizesse, não seria necessário vir esta nova legislação. Mas nós ainda vivemos, infelizmente, numa sociedade obcecada pela orientação sexual. E isto tanto é válido para os legisladores como as as associações do género da ILGA.

A notícia vem referida também no Público.

Estabilização


De cada vez que fazia este teste, ao longo dos anos, ia-me chegando mais à esquerda. Agora, e quando caminho a passos largos para os 40, parece que estabilizei. Não sei é se isso é bom ou se é mau.

terça-feira, junho 17, 2008

İkinci Viyana Kuşatması

[Józef Brandt - A batalha de Viena]

Na sequência da sensacional vitória turca sobre os checos, o jogo que mais me alegrou neste europeu, um adepto turco eufórico gritava "agora vamos até Viena". Não deixaria de ser uma divertida ironia da História.

segunda-feira, junho 16, 2008

Bloomsday


«Rhythm begins, you see. I hear. A catalectic tetrameter of iambs marching. No, agallop: deline the mare.»

James Joyce, Ulysses

quinta-feira, junho 12, 2008

Só se for para os seus

«Citando padre António Vieira, o Presidente desafiou ainda: "saibamos nós, os portugueses de hoje, honrar a sua memória e acreditar, como ele acreditou, nessa História do Futuro, a História que desejamos para os nossos filhos".»

Notícia tirada daqui.

Como eu suponho que o sr. Cavaco leu a História do Futuro, suponho também que, como Vieira defende nesse texto, o sr. Cavaco acha que Portugal é uma nação superior eleita e protegida por Deus, a quem está destinado o domínio sobre todas as outras nações, liderando o mundo cristão contra o Islão. Não é essa a História que eu desejo para os nossos filhos. Porque eu não acredito em impérios, e prezo demasiado a tolerância e a convivência inter-cultural. É que como o sr. Cavaco devia saber (não é assim tão transcendente), a História do Futuro tem um contexto histórico muito preciso, dificilmente exportável, pelo menos por pessoas de bem, para fora do século em que foi escrita. A não ser que o sr. Cavaco não tenha lido, e que se tenha limitado a arrotar umas postinhas de pescada sussurradas por algum assessor que ou é alucinado ou também não leu, e nesse caso trata-se de uma tremenda, escandalosa desonestidade intelectual.

Já agora, e embora não venha na História do Futuro, fica aqui uma citaçãozinha de Vieira, na corrente do que escreveu na História do Futuro.
«Em Espanha verá o rei de Portugal ressuscitado, e Castela vencida e dominada pelos portugueses. Em Itália verá o Turco barbaramente vitorioso, e depois desbaratado e posto em fugida. Em Europa verá universal suspensão de armas entre todos os príncipes cristãos, católicos e não católicos; verá ferver o mar e a terra em exércitos e em armadas contra o inimigo comum. Na África e na Ásia, e em parte da mesma Europa, verá o Império Otomano acabado, e El-Rei de Portugal adorado Imperador de Constantinopla. Finalmente, com assombro de todas as gentes, verá aparecidas de repente as dez tribos de Israel, que há mais de dois mil anos desapareceram, reconhecendo por seu Deus e seu senhor Jesus Cristo, em cuja morte não tiveram parte.»

Padre António Vieira, Carta ao padre André Fernandes,
29 de Abril de 1659
Edição de J. Lúcio de Azevedo, INCM

quinta-feira, maio 29, 2008

As freiras do Bugio

Juro que por momentos pensei que esta notícia do Público fosse sobre um eventual ataque da hierarquia católica contra o meritório esforço de laicização do país feito por este governo. Sei lá, que se tivessem barricado no Bugio (o de Lisboa), preparando um bombardeamento de terços e crucifixos. Não me parece assim tão improvável.

Leak source

Volta e meia vou verificar a pasta de "spam" do meu servidor de email, a ver se não terá ido lá parar algum email a sério indevidamente. Olho para os assuntos e para os remetentes, salvo o que eventualmente estiver fora do sítio, e apago o resto com um só clique. Noto, porém, que a cada dia que passa cresce o número de emails a prometer que me aumentam o sexo. Não o sexo em termos abstractos, mas concretos (não é que isso seja tão relevante como o facto de ter feito a distinção possa levar a pensar, pois a verdade é que eu bem precisava de um aumento de ambos, sobretudo do primeiro). Isto leva-me a pensar que há por aí algum(a) "ex" ressabiado(a) a divulgar pormenores da minha infeliz anatomia na esperança de me embaraçar. Ou então sou eu a ficar ainda mais paranóico. Em ambos os casos a situação é preocupante.

segunda-feira, maio 26, 2008

Viva

Diz que o Lidl já acabou com o racionamento de arroz que impedia que um cliente comprasse mais de 10kg. Que bom! Agora já posso comprar os meus 11kg diários.

P.S.: quando é que o Modelo acaba com o racionamento de bananas, para eu poder comer os meus 11kg diários?

Feira do Livro

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Ao contrário do que se passou nos últimos anos, a Feira do Livro de Lisboa teve muita publicidade. Gratuita e má, mas teve. Nos últimos anos, e apesar de a APEL jurar o contrário (e sem corar!), não houve mais publicidade do que uma outra notícia de duas linhas no canto esconso de um ou outro jornal. De resto, e tal como este ano, nem cartazes, nem campanhas televisivas. Este ano houve, porém, toda a polémica que se sabe, e que teve uma grande virtude: pela primeira vez em muitos anos, toda a gente ficou a saber que e quando abria a Feira do Livro. O resultado esteve à vista ontem: à cunha. É verdade que era Domingo. Mas devo ter visto lá ontem mais gente do que em todos os domingos juntos dos últimos 3 ou 4 anos.

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Foto: a colheita de ontem.

sábado, maio 24, 2008

Os demagogos

Ao ver o Paulo Portas no seu registo histérico-histriónico em Badajoz reclamar pelo facto de os combustíveis serem mais baratos em Espanha, por causa (mas não só) da carga fiscal, vem-me uma pergunta à cabeça: não é este o mesmo senhor que esteve no governo durante 3 penosos anos? Porque é que não fez, enquanto governante, o que exige agora ao actual governo?

A gasolina e os cafés

Na minha praceta há 3 cafés.

O mais antigo tem hoje muito menos gente do que era habitual. Ainda me lembro de o ver apinhado, à noite, e sempre muito composto de dia, mesmo depois de o do meio ter aberto, mesmo depois de o mais recente ter aberto. Vai-se mantendo porque tem uma clientela fiel, ligada por fortes laços de amizade aos donos.

O do meio tem duas portas que dão para os dois lados do prédio. Em cada uma um malcriado papel a berrar "É proibido fazer do café passagem". Antes de o papel estar afixado já o café estava quase vazio. Agora está permanentemente vazio. A dona e a empregada passam o dia à porta, na rua, a fumar cigarros entediados. O declínio deste café, que já foi concorridíssimo, começou quando os donos, desrespeitando ostensivamente toda a vizinhança, começaram a fazer festanças pela noite dentro, ao Sábado, com música no máximo e muito, muito álcool a correr. Antes disso estava sempre à cunha. Quando havia futebol, rebentava pelas costuras. Agora já nem passa futebol. Não há ninguém para o ver.

O mais recente começou por ter uma clientela residual. Afinal o mais antigo e o do meio estavam no seu auge, sempre cheios de gente. Além disso, não tinha (nem tem ainda) SportTV, o que em dias de futebol é uma falha imperdoável. Depois foi fazendo a diferença, e roubando a clientela aos outros. Agora, mesmo sendo, de longe, o mais pequeno dos três, é o que tem sempre mais gente. A certas horas não há lugar sentado, e para se chegar ao balcão é preciso pedir licença com alguma veemência. Qual é o segredo? Um serviço exemplar. Se um empregado demora mais do que alguns segundos a atender o cliente, o patrão (que também serve, é apenas o primus inter pares dos empregados) chama-lhe imediatamente a atenção. Se o serviço é mal feito, o patrão é o primeiro a protestar. Além disso, o cliente aqui tem mesmo sempre razão, e qualquer eventual falha é compensada com abundantes e sinceros pedidos de desculpa por parte de empregados e patrão. Se acaso patrão e empregados estão a almoçar, não há ninguém ao balcão e um cliente entra, há sempre alguém que se levanta da mesa, rapidamente, sem maus modos, sem expressão de enfado, e atende com sorrisos. O cliente, além de ter sempre razão, é sempre o mais importante: se o patrão está a tratar com um fornecedor e aparece um cliente, não há hesitações: o fornecedor que espere, o cliente é atendido sempre em primeiro lugar, custe o que custar, doa a quem doer. Neste café é impensável a usual cena do empregado a lavar pachorrentamente chávenas de café enquanto os clientes esperam. E portanto este é o café mais frequentado da praceta. Mesmo sem a SportTV, a história e as dimensões dos restantes. Mesmo sendo o mais recente. Talvez por ser o único dos três que não funciona à portuguesa.

A gasolina

Quando ontem à noite fui pôr gasolina na bomba que me está mais à mão, o serviço estava em modo pré-pagamento. Tudo bem, até me dava jeito, pois tinha uma notinha de 10€ no bolso, e tinha deixado a carteira em casa. Assim poupava-me à humilhação de me distrair, pôr mais de 10€ e depois ter de explicar na caixa que de facto só tinha 10€ no bolso, e que não sabia como resolver agora a situação.

Dirigi-me, pois, à caixa, para efectuar o pré-pagamento. Tinha uma boa meia dúzia de pessoas à frente. Admirado, deitei os olhos ao início da bicha, à espera de ver alguma senhora de idade a fazer uma tremenda confusão com os trocos. Mas não: o que vi foi o empregado deitado sobre o balcão, enquanto introduzia num terminal pachorrento os números que um senhor com ar de fornecedor lhe ia ditando com calma, muita calma. Decidi esperar 30 segundos, na esperança de que fosse uma operação rápida. Mas não. Os números iam sendo lentamente debitados e reintroduzidos, à medida que o empregado se enganava e tinha de recomeçar, ignorando os clientes à espera.

Irritado com esta falta de consideração misturada com muita incompetência, lembrei-me de que nada me prendia àquela bomba, e que o que não faltava na área era precisamente bombas. Revirei os olhos ostensivamente, suspirei com mais força do que o necessário, dei meia volta e fui-me embora. Os outros clientes continuaram portuguesmente à espera de que o fornecedor e o empregado continuassem o namoro. Alguns olharam para mim com olhos que diziam "então, é assim, eles têm mesmo de acabar isto, a gente espera". Antes de me meter no carro olhei para os cartazes, para saber que companhia era. Era a Galp.

É pena que este povo seja assim, que engula tudo, que ache que tudo é normal. Num país a sério com uma educação a sério estas operações seriam feitas de modo a não prejudicar os clientes. E se não o fossem, todos sairiam e dirigir-se-iam a outra bomba, como eu fiz.


terça-feira, maio 20, 2008

Porque é que eu não mando vir coisas da FNAC.pt


Eu confesso, quando escrevia aqui que era uma vergonha (para não lhe chamar outra coisa) que a FNAC demorasse uma semana, na melhor das hipóteses, a enviar para casa encomendas feitas no seu portal quando a Amazon.co.uk demora 2 ou 3 dias, com os portes de envio a custarem basicamente o mesmo, ficava com algum remorso. Afinal a FNAC.pt é uma coisa pequenina ao pé da Amazon. Ainda assim, não deixava de achar que é uma vergonha - e passe de novo o eufemismo.

A partir de hoje, porém, perdi todos os remorsos. É que na Quarta passada, dia 14, ao fim da tarde, encomendei via internet à desconhecida Dar al-Maarifah uma edição do Alcorão monolingue (árabe). Não, não sou muçulmano, mas é-me muito útil para estudar a língua árabe. Pensava eu que a coisa ia demorar, até porque o envio seria feito da Síria, que não é propriamente uma potência industrial. Por isso foi com enorme surpresa que vi hoje, no meu cacifo da faculdade, um volumoso embrulho. Ainda pensei "não, não pode ser". Mas era. Ao 4º dia útil após a encomenda, já cá canta. Por curiosidade espreitei para a data de emissão da encomenda, e lá está, 15 de Maio. Portanto foi posto no correio poucas horas depois da encomenda.

Se fosse na FNAC.pt ainda agora andaria perdida a encomenda nos seus meandros burocráticos...

segunda-feira, maio 19, 2008

أنا لست إرهابيا


Quando viu a já considerável dimensão da minha secção de livros em árabe ou sobre o mundo árabe e islâmico, a minha irmã sibilou "qualquer dia prendem-te". Hoje, enquanto lia um mail recebido, em língua árabe, e me preparava para responder também em árabe, achei que ela tinha razão. Com a estupidez que por aí grassa qualquer dia acham que sou um terrorista. Sim, ainda há gente tão estúpida que associa as duas coisas.

quinta-feira, maio 15, 2008

Não há pachorra

O facto de os grandes "casos" encontrados pela opinião pública e pela imprensa contra o actual governo serem minudências do género de se saber que o PM deu umas passas num avião revelam duas coisas: por um lado a pequenez mental do país em que vivemos; por outro, que apesar de toda a contestação e de um ou outro erro, este é um bom governo. Se assim não fosse não teria tanto relevo o cigarrinho do PM.

quarta-feira, maio 07, 2008

André v. 1990

Isto sou eu em 1990, desenhado por um amigo que, na altura, nem me conhecia, mas achou que eu tinha piada e resolveu desenhar-me. Eu tinha acabado de entrar na Faculdade de Letras, no curso de Línguas e Literaturas Clássicas, e tinha 18 misantropos anos.

Antes e depois

Esta entrada foi inspirada nesta do José Bandeira.

Já aqui tenho escrito várias vezes sobre a forma como decidi que às baleias pertencia estar no oceano, e como, agindo em conformidade, perdi cerca de 40 quilos. Para não acharem que é conversa, aqui ficam duas provas. O segundo grupo de fotografias tem a particularidade de ter sido tirado no mesmo sítio, praticamente na mesma data, em anos consecutivos e na mesma ocasião. Na primeira fotografia desse par, aquela em que estou de laranja berrante, já tinha começado a dieta e já tinha perdido uns quilinhos. Não parece, eu sei.



Agora já posso ir ao Oceanário sem que apareça um engraçadinho a dizer ao pai "Tinhas dito que não havia aqui morsas, mas afinal está ali uma!". Quanto à t-shirt laranja, hoje chega-me aos joelhos. A sério.

A pedido de várias famílias acrescento uma tirada na semana passada, aqui em casa:


terça-feira, maio 06, 2008

Sítio 4

«A Sítio 4 está a chegar.
Os textos são de:
Luíz Ruffato, Ozias Filho, Natércia Pontes (Brasil), Eduardo Estevez e António Alías (Espanha), Luís Naves, Maria Sousa, Miguel Real, Sérgio Luís de Carvalho, Paulo Kellerman, Carla Cook, Fernando Esteves Pinto, Lourenço Bray, Rui Matoso, André Simões, Luís Ene, José Magalhães e Nuno Travasso (Portugal).
As imagens de:
António Bártolo, Manuel Guerra Pereira e Vanessa Fernandes (Portugal)
A edição é de Luís Filipe Cristóvão e o design da Slingshot.

Na sessão de apresentação que se realiza na Livraria Trama, seguir-se-á um concerto do pianista Fernando M. Dinis.»

quinta-feira, abril 17, 2008

As crianças são cada vez mais espertas

A Carolina diz que a fada de um dos livros dela sou eu. A sério. Diz que é a "Fada Né". Eu contava só lhe explicar que o tio tem um estilo de vida alternativo lá mais daqui a uns 15 anos, mas ela pelos vistos já percebeu.

domingo, abril 06, 2008

Ainda o accordo orthographico

Em relação ao coiso ortográfico, eu não tenho, como já disse, uma posição apaixonada. No entanto tendo para o apoiar. Por várias razões, que tentarei esquematizar, recorrendo a alguns dos argumentos contra mais utilizados.

Argumento 1 - as consoantes mudas ("inspecção") servem para abrir a vogal pré-tónica. É falso. De facto o português europeu tem tendência para fechar as pré-tónicas (isto é: as sílabas antes da acentuada), mas não são as consoantes mudas que as abrem. Vejamos alguns exemplos:

- "actual" tem a pré-tónica fechada (ac-), apesar da consoante muda;
- "inflação" tem a pré-tónica aberta (-fla-), apesar de não ter qualquer consoante muda.

Outros exemplos:

- Com consoante muda mas pré-tónica fechada: actualizar, actividade, actriz, etc. Expliquem-me lá o que está a fazer ali o "c" que não se pronuncia nem abre coisíssima nenhuma. Alguém diz "àtualizar"?

- Sem consoante muda mas com pré-tónica aberta: corar, pegada (marca de pé), pregar (predicar), pregador, pregação, etc. Foi precisa alguma consoante muda? Alguém diz "curar" ou "pgada" ou "prgar" ou "prgador" ou "prgação", naqueles contextos?

Já agora, porquê o apego ao "p" mudo de "óptimo"? Não é pronunciado, nem preciso para abrir nada. É etimológico? Pois é. Tal como era o "p" de "esculptura" e saiu da escrita. O que é que tem o "p" de "óptimo" a mais que o "p" de "esculptura"? A atual ortografia é incoerente, nestes e noutros casos.


Argumento 1a - As consoantes mudas são vestígios etimológicos. Certo. Mas então porque é que não pedem que as restituam em palavras como "condução", que até ao século XX se escreveu "conducção"? E já agora, porque não retomar os "y", "th", "ch", consoantes duplas, etc - afinal são também eles vestígios etimológicos.

Argumento 1b - As pessoas vão passar a pronunciar "âtor" por falta do "c" mudo. Falsíssimo. Não só pelo que em cima se escreveu e em baixo se escreverá, mas porque a experiência o desmente: é o mesmo argumento que os brasileiros usam para não quererem acabar com o trema, dizendo que as pessoas vão passar a dizer "linghiça". Ora nós todos sabemos que isso é falso, nós não usamos trema e nunca ouvi ninguém pronunciar dessa forma.

Argumento 2 - A língua deve evoluir naturalmente. Certíssimo. Mas um acordo ortográfico não muda a língua, nem nunca mudou. Aliás, a ortografia é uma mera convenção mais política do que linguística. A ortografia que usamos hoje não tem nem 100 anos, pois foi estabelecida em 1911, tendo até sofrido várias alterações entretanto (eu ainda aprendi a escrever "fàcilmente", o que hoje é errado). O próprio alfabeto é uma convenção, no nosso caso com motivações culturais. Porquê o latino e não o grego, o cirílico, o árabe? O persa, língua indo-europeia fortemente vocalizada (como a nossa) usa um alfabeto baseado no árabe, que nem sequer grafa as vogais breves - porque está pensado para uma língua semita, o árabe, onde as vogais não têm o relevo que têm nas línguas indo-europeias. Porquê então o alfabeto árabe? Porque a religião oficial é o Islão. De resto as línguas indo-paquistanesas, quase todas indo-europeias, escrevem-se com pelo menos 3 alfabetos diferentes, de acordo, em geral, com a religião. O urdu paquistanês, que é uma variante do hindi indiano, escreve-se num alfabeto arábico, enquanto o hindi se escreve com os "devanagari" já usados no sânscrito. Outras línguas indianas, como o concanim, usam o alfabeto latino, por razões históricas. O romeno, língua latina, escreveu-se durante muito tempo com alfabeto cirílico, tendo depois passado para latino - sem que a língua, obviamente, mudasse.

Argumento 3 - Vamos passar a escrever "fato". Falso. O acordo prevê apenas a queda das consoantes mudas. Ora, em "facto" o "c" é pronunciado, e, como o texto do acordo prevê, vai lá ficar.

Argumento 4 - O acordo é uma cedência aos brasileiros. Falso. Apesar de realmente mudar mais (mas a diferença é insignificante) a ortografia portuguesa, na prática é ela por ela.

Argumento 5 - O inglês também se escreve de maneira diferente nos países anglófonos. Sim, é verdade. E? Este acordo na prática deixa tudo na mesma. O léxico brasileiro afetado é menos de 1%, o luso-africano pouco mais de 1%. As grandes diferenças mantêm-se. Nós continuaremos a escrever "prémio", eles "prêmio". Nós continuaremos a escrever "facto", eles "fato". A única grande mudança é a queda das inúteis consoantes mudas. Portanto, continuará a haver uma ortografia brasileira diferente da luso-africana.

Argumento 6 - A ortografia é também uma questão afetiva. Certo. Mas estamos a discutir ortografia ou afetos? O grande pensador português Eduardo Lourenço, na casa dos 80 e muitos anos, escrevia há não muito tempo que continuaria a escrever "como aprendeu". Bom, suponho então que escreverá "êle", "mãi", "pae", "côr" e outras coisas que tais, que eram norma quando ele foi alfabetizado. Já sem falar dos acentos dos advérbios de modo, eliminados nos anos 70. Como não acredito que ele, com tanto livro publicado, escreva "êle é o pae do Victor, indiscutìvelmente um bom rapaz" (a não ser que depois lhe emendem os erros na tipografia), parece-me que há muita insensatez naquela afirmação (ou "affirmação"? ou "affirmaçom"? ou "afirmaçom"? ou "affirmaçam"? etc. já se escreveu destas formas todas).

Argumento 7 - Este acordo interessa às editoras. Não. Este acordo interessa a todos. Não foi feito por editores nem por políticos. Foi feito por pessoas sérias, linguistas e filólogos (e eu nem gosto muito de linguistas, mas o seu a seu dono). Pelo contrário, as editoras foram as primeiras a insurgir-se contra ele. Agora estão conformadas, e adaptaram-se rapidamente.

Argumento 8 - Este acordo é fruto de políticos, não se pode legislar sobre a língua. Falso. Vide supra, argumentos 2 e 7, sobretudo.

Este texto foi escrito usando a nova ortografia, como certamente notaram (ou, como se escrevia ainda no século XIX, "notarão").

sábado, abril 05, 2008

As senhoras da depuralina

A história das alegadas intoxicações com depuralina (podiam ter arranjado um nome menos piroso) leva-me de novo à questão dos emagrecimentos e dos engordanços, assunto de que feliz e infelizmente sei bastante. Eu já tinha visto os anúncios à dita cuja, insistindo na história dos detritos acumulados pelo corpo. Portanto, a depuralina, como a generalidade dos remédios miraculosos, baseia-se na perda de peso em virtude da expulsão de líquidos e "toxinas", não na perda de massa gorda. Hã? Isto faz sentido para alguém?

Desde miúdo que tenho vivido em sucessivas fases de obesidade que vão do cetácico ao bovino, passando pelo elefantíaco e pelo texuguino. Estas fases são alternadas por breves períodos de estado assim-assim, que normalmente são apenas o prelúdio para novo ataque adiposo. Até que, aos 35 anos, decidi que a minha simpatia pelas baleias não justificava destruir a minha saúde.

Antes disso, eu era como as senhoras da depuralina e afins: queria emagrecer, mas assim, sem muito trabalho, de preferência com uns comprimidos que me permitissem enfardar um fantástico bacalhau com natas - com saladinha - seguido de uma gulosa baba de camelo, tudo isto sem grandes pesos na consciência. Afinal havia o tal comprimidinho. Claro que nunca fui na cantiga dos comprimidos, nunca cheguei a tal ponto. Já na dos bacalhaus com natas...

Depois, tal como as senhoras da depuralina, lamentava a minha triste sorte, enquanto enchia o bandulho com um ovo estrelado a nadar em óleo de batatas. "Eu hoje nem tinha comido nada ainda", suspirava, enquanto me ensopava em chocolate. E era verdade. Eu realmente comia pouco. E roía as minhas bolachinhas de água e sal, essa bomba calórica que inexplicavelmente é considerada dietética pelas senhoras da depuralina (segundo uma nutricionista que uma vez li, uma bolachinha é equivalente a um pastel de nata).

Até que um dia achei que se em 35 anos nunca tinha conseguido ser magro sem esforço (tirando os loucos anos da licenciatura, em que saía de casa às 10 da noite e entrava às 10 da manhã, e não era para estudar), então se calhar era preciso mudar hábitos de vida. Afinal nunca me chegou notícia de alguém que emagrecesse de forma consistente sem fazer exercício e sem uma alimentação racional (o que não é, muito pelo contrário, igual a passar fome). Eu estava já numa situação de obesidade grau 2 (seja lá o que isso for, mas soa mal), não conseguia comprar roupa a não ser nos armazéns de roupa desportiva americana (já vestia o XXXXL, tenho provas no meu armário), não tinha muito a perder.

A receita é simples, lógica e resulta. Em vez de comer que nem um alarve 2 ou 3 vezes por dia, passando o resto do tempo cheio de fome, passei a comer pequenas quantidades várias vezes ao dia - truque bem conhecido, mas muito pouco praticado. Cortei com as gorduras, passei a um regime de carne e peixe grelhados, arroz, batata cozida, e muitos, muitos vegetais. Tudo em pequenas quantidades. Numa primeira fase cortei mesmo com o pão, o que foi um disparate, mas eu precisava de um tratamento de choque. Mas isto, obviamente, não chegava. Tinha de haver exercício físico. Não necessariamente num ginásio.

Em vez de andar de transportes urbanos aqui na minha Torres Vedras, passei a fazer a pé o caminho que vai da minha casa à paragem do autocarro para Lisboa. Eram 30 minutos a pé (que hoje faço em 20, em dias de maior preguiça). Deixei de cometer o absurdo que era ir de metro do Campo Grande para a Cidade Universitária, o que são mais uns 10 minutos (na altura uns 15). Só isto. Parece uma perda de tempo? Bem, entre esperar o auocarro urbano à porta de casa e depois o trajecto propriamente dito até à paragem para Lisboa eram pelo menos 15 minutos. O mesmo que hoje demoro a pé, se estiver com pressa. E menos do que se for de carro, pois entre fazer o trajecto e procurar lugar, demoro bem mais de 15 minutos.

De vez em quando fazia umas corridinhas. Das primeiras vezes a coisa custava, ao fim de 1 minuto estava com os bofes de fora, como soi dizer-se. Mas depois a coisa foi andando. Hoje faço sem grandes dramas 8 km, ou 50 minutos sem parar. Mas note-se, não foi preciso correr tanto, só comecei a fazê-lo depois de perder o peso todo que queria. Quanto?

No primeiro mês foram-se 10 quilos. Depois mais 10. E depois outros 10. Trinta. Em cerca de 1 ano. Só fazendo o que descrevi em cima. Sem dramas. Com esforço, claro. Mas sem esforço, só mesmo as dietas da depuralina... Depois achei que era boa ideia ir para um ginásio, para estabilizar e consolidar. Apesar de me terem prevenido de um eventual ganho de peso por causa do aumento da massa muscular, não hesitei. E a verdade é que aumentei espectacularmente a massa muscular (hoje tenho músculos que desconhecia em sítios inimagináveis), que reduzi a massa gorda a números normais, e além disso continuei a perder peso. Muito mais devagar, mas continuei. Perdi mais 5 quilos.

Portanto, 35 (trinta e cinco) quilos, mais coisa menos coisa, desde que decidi que as baleias são boas para estar no mar. Já lá vão 2 anos. Sem depuralinas nem outras mezinhas. Com esforço, mas sem esforço não se tem nada na vida. E tenho hoje uma qualidade de vida, uma energia, uma força e uma resistência que nem com 20 anos. Antes deste processo, chegava ao cimo da escadaria do estádio de Alvalade (a interior, aquela com cerca de 100 degraus...) com o coração aos saltos e a respiração cortada (tenho asma). Agora subo-as a correr, e chego ao cimo sem que a respiração tenha a mínima alteração. Além disso, nunca na minha vida tinha estado tanto tempo em estado não-obeso.

Entretanto afrouxei a dieta, mas mantendo sempre as gordurangas de fora, afrouxei o ritmo e intensidade de exercício físico, passei a ir mais vezes de carro até à paragem do autocarro. O peso estabilizou, nem para cima nem para baixo. Como nunca fui guloso, nunca comi bolos regularmente, nunca comi chocolates regularmente, carne sempre evitei (como por obrigação), em minha casa nunca se comeram refogados nem outras bombas cardíacas, posso afirmar com certeza que tenho tendência para engordar. Apesar disso, perdi 35 quilos sem grande trabalho, regulando apenas os hábitos alimentares e de vida. Para quem enfarda doces e carnongas a boiar em molhanga - mas que depois põe adoçante no café - seria ainda mais fácil perder peso. Bastaria fazer uma alimentação racional e deixar de querer levar o carro para dentro de casa e do trabalho.

Com quase 37 anos não tenho esperanças de vir a ser finalmente magro. Mas com 1,80 e 84k, dou-me por satisfeito. Sem depuralinas.

quinta-feira, março 27, 2008

IVA

Numa medida mais simbólica do que prática, o Governo resolveu descer a taxa máxima do IVA de 21% para 20%. A oposição, fazendo o seu papel, tratou imediatamente de atacar a medida. O PSD disse uma série de irrelevâncias e momices histriónicas, habituais nesta liderança menezíaca. O CDS disse que o motivo que motivou esta descida, a descida do défice público, se conseguiu à custa de aumento de receitas. E disse isto em tom de crítica, o que é espantoso. Queriam que descesse como? Com receitas extraordinárias, como fizeram, sem qualquer resultado, no seu tempo de desgoverno? O PCP não sei o que disse, mas não é difícil imaginar. O BE recordou que esta redução é insignificante, e que não afecta os bens essenciais. Pois é. É verdade. Do mesmo modo, quando o Governo aumentou a taxa máxima do IVA, em 2005, foi também um aumento insignificante. É que, precisamente como a redução de agora, o aumento de 2005 não afectou os bens essenciais, reflectindo-se apenas em coisas como carros, máquina de filmar, roupas ou jóias. Mas na altura o discurso do BE foi ligeiramente diferente...

quarta-feira, março 26, 2008

De quem?!

O Dário de Notícias publicita um dos seus "cursos de línguas" com uma menina em cima de uma bandeira israelita, e uns dizeres do género "Venha aprender a língua de Ulisses". A não ser que este Ulisses seja alguma outra personalidade que agora me esteja a escapar, há por aqui alguma confusão. Não me consta que, a ter existido, falasse hebraico. Também não falaria grego moderno, certamente, se a frase se referisse a um passado ou futuro CD de um "curso de grego". A não ser que o DN esteja a vender cursos de grego homérico, o que me parece improvável.

Seja como for, espero que os cursos de hebraico ou grego do DN tenham menos erros do que o de árabe (mais seria complicado). O "livro de exercícios" era um atentado à língua e cultura árabes difícil de imaginar. Começava por não ligar as letras, o que é a base da ortografia árabe. É um pouco como se apresentassem um curso de português em que as palavras se escrevessem de cima para baixo. Absurdo e injustificável. Por exemplo, a palavra para "sim" (na'am) aparecia escrita ن ع م em vez do correcto نعم . Convenhamos, qualquer semelhança entre uma coisa e outra é mera coincidência.

terça-feira, março 25, 2008

Voilà

Quando me perguntam como é possível um rapaz jeitoso como eu estar em permanente estado de solteiro, costumo responder que se por um lado não quero quem ache que Anton Tchékhov é um jogador de futebol, por outro também não quero quem ache que Marat Izmáilov é um realista russo ou aquele senhor de turbante morto na banheira - ou, pior, um costureiro em ascensão.