quinta-feira, dezembro 04, 2008
sexta-feira, novembro 28, 2008
Mum-quê?
Tenho lido e ouvido na SIC-Notícias "Mumbai", referindo-se à cidade indiana conhecida há séculos em Portugal como Bombaim. Parece que a peregrina ideia partiu dos próprios indianos, que repudiam a forma tradicional nas línguas europeias. Eu gostava de saber como é que por lá se diz "Lisboa", para ver se são coerentes. Na SIC-N, porém, essa espantosa explicação parece ser desconhecida, pois os apresentadores falam da "antiga Bombaim, hoje Mumbai", como se tivesse havido um rebaptismo na língua local. Não houve, o nome da cidade é o mesmo há séculos. O que houve foi a paroleira de exigir que nas outras línguas se usasse uma transliteração da forma na língua local. Espero, repito, que os que o exigiram sejam coerentes e respeitem as formas vernáculas das cidades estrangeiras.
Se à paroleira dos governantes de Bombaim não podemos fazer nada, jà à SIC-N eu exijo que seja coerente, e que passe a usar o mesmo critério para todas as cidades que tenham, tal como Bombaim, formas consagradas há séculos em português. Para os ajudar, posso fazer uma listinha das cidades mais referidas nas notícias, pela ordem em que me for lembrando:
Se à paroleira dos governantes de Bombaim não podemos fazer nada, jà à SIC-N eu exijo que seja coerente, e que passe a usar o mesmo critério para todas as cidades que tenham, tal como Bombaim, formas consagradas há séculos em português. Para os ajudar, posso fazer uma listinha das cidades mais referidas nas notícias, pela ordem em que me for lembrando:
- Londres terá de passar a ser London
- Moscovo terá de passar a ser Moskva
- Cairo terá de passar a ser al-Qahira
- Bagdade terá de passar a ser Baaghdad
- Atenas terá de passar a ser Athina ou Athinè
- Viena terá de passar a ser Wien
- Praga terá de passar a ser Praha
- Belgrado terá de passar a ser Beograd
- Argel terá de passar a ser al-Jazaa'ir
- Saragoça terá de passar a ser Zaragoza
- Varsóvia terá de passar a ser Warszawa
- Trípoli terá de passar a ser Taraabulus
- Damasco terá de passar a ser Dimashq
- etc.
terça-feira, novembro 25, 2008

«Morto buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande exemplar temos entre mãos! Assim como a Madalena, cega de amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal, sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião, chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado, assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o via e lhe falava e não conhecia. Porquê? - Não só porque estava, senão porque ele era o encoberto.»
Sermão dos Bons Anos, IV
quarta-feira, novembro 19, 2008
Uma Manuela em cada esquina
Que Manuela Ferreira Leite tenha dito que se calhar mais valia uma ditadura ("sem democracia" quer dizer ditadura) durante 6 meses para pôr tudo na ordem já é lamentável, vergonhoso, escandaloso, e revelador da falta de cultura democrática que ainda perpassa largos sectores da direita portuguesa. Que o PSD venha agora torpemente tentar lançar areia para os olhos do pessoal, dizendo que a sua ditadorazeca se referia ironicamente ao governo - desculpa em que só acredita quem não tiver ouvido as horríveis palavras de Ferreira Leite - é um atentado à inteligência dos portugueses, para não dizer outra coisa.Depois das lamentáveis afirmações xenófobas sobre ucranianos e caboverdianos, eis que Ferreira Leite continua a mostrar um populismo que até aos adversários supreende.
domingo, novembro 16, 2008
Palavra e Utopia
Por razões quase profissionais pus-me há dias a ver Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira. Faço já a minha profissão de fé quanto ao estilo de cinema que me agrada: gosto dos chamados "filmes de autor"; não me aborrecem nada os grandes planos de vários minutos, muito pelo contrário; prefiro filmes sem muito texto; não me interessa nada uma boa história, o que me interessa é a forma como ela é contada. Gosto (venero) de Abbas Kiarostami, Tarkóvski, Gus Van Sant.Sinto-me portanto à vontade para dizer que não gosto do cinema de Manoel de Oliveira, sem me juntar ao coro das labregas que só querem é tiros e acção e histórias cor-de-rosa com finais felizes de preferência com lagriminha, já que deusnossenhor não lhes deu intelecto para mais. Não gosto do cinema de Manoel de Oliveira porque não é a minha estética.
Uma das coisas que me arrepia é a aparente (eu sei que é só aparente) ausência de trabalho de direcção de actores. No caso presente, o primeiro terço do filme chega a ser confrangedor, com cenas que parecem saídas de um mau teatro de província. O Ricardo Trepa que me perdoe, mas aquele Vieira jovem é aflitivo, e a coisa só não parece pior porque os amadores (são amadores, não são?) que com ele contracenam estão para além de qualquer adjectivo.
A coisa vai melhorando, a este nível, com o envelhecimento de Vieira, e a entrada do grande Luís Miguel Cintra - que ainda assim me parece longe do que lhe tenho visto na Cornucópia. Mas é com esse grande senhor, esse Actor, Lima Duarte, muito bem acompanhado pelo Miguel Guilherme, que o filme entra noutra dimensão. É por esse terço final que o filme vale a pena, quanto a mim. Porque na maior parte do tempo mais me pareceu uma manta de retalhos, um "booktrailler", como agora se diz, de (magníficos) sermões vieirinos.
Admito que me tenha escapado a essência, o segredo da obra de Oliveira. Admito-o com franqueza e convicção. Tenho a absoluta certeza de que o filme é uma fabuloso e de que fui eu que não o entendi enquanto obra de arte. Mas a verdade é essa: não o entendi, e não fosse a excelência do texto vieirino, primeiro, e a genialidade de Cintra e sobretudo Lima Duarte, depois, por mais que fossem quase profissionais as razões que me levaram a vê-lo, não teria resistido às penosas primeiras dezenas de minutos.
Pedro e o Lobo

O Manuel (faz hoje dois anos) obriga-me a ver em sessões contínuas esta extraordinária e negra versão do clássico Pedro e o Lobo. Aqui o Pedro é um menino de aspecto depressivo e neurótico. O avô é uma figura ambígua, um velho demasiado protector, carrancudo, por quem não se consegue ter simpatia. O pássaro é um corvo, crocitando rouco por cima das flautas de Prokofiev. Com uma asa ferida, não consegue voar. O pato não é um pato, é um ganso desajeitado e ligeiramente estúpido, o único verdadeiro amigo do Pedro. O gato é um psicopata esfomeado, a quem nem as moscas escapam. Os caçadores são maus e covardes, só se metendo com o lobo quando ele está enjaulado. E o lobo é um lobo. Não é mau, é selvagem, como todos os lobos. A música de Prokofiev, distribuída de forma descontínua ao longo do filme, estabelece a ligação com a história tradicional, aqui desconstruída de forma muitas vezes cruelmente irónica.
Também por isso esta animação polaca, vencedora do Óscar para a sua categoria em 2008, não é apenas mais uma versão da história musicada por Prokofiev. Longe disso. Quanto ao Manuel, obriga-me, repito, a ver em sessões contínuas "o pato e o covo", ou "o lobo mau". E eu não me importo nada. Não sei é se deva ficar orgulhoso por o meu sobrinho adorar de forma tão obsessiva um filme tão negro e neurótico (a Carolina, de 3 anos, recusa-se a vê-lo, lançando-me "eu assusto-me" e "tenho medo" aflitos), se seriamente preocupado. Até porque só deixa que o tire do leitor de DVD se a alternativa for um dos mais negros Tim Burton.
Também por isso esta animação polaca, vencedora do Óscar para a sua categoria em 2008, não é apenas mais uma versão da história musicada por Prokofiev. Longe disso. Quanto ao Manuel, obriga-me, repito, a ver em sessões contínuas "o pato e o covo", ou "o lobo mau". E eu não me importo nada. Não sei é se deva ficar orgulhoso por o meu sobrinho adorar de forma tão obsessiva um filme tão negro e neurótico (a Carolina, de 3 anos, recusa-se a vê-lo, lançando-me "eu assusto-me" e "tenho medo" aflitos), se seriamente preocupado. Até porque só deixa que o tire do leitor de DVD se a alternativa for um dos mais negros Tim Burton.
http://www.suzietempleton.com/pages/films/peter/filmspeter.html
terça-feira, novembro 11, 2008
Tenho nojo de ti

Depois de ver este programa, não sei o que me enojou mais: se o horror dos métodos de morte usados nos EUA pelo governo para assassinar cidadãos, se da beatitude repugnante do "host", defensor a pena de morte, o que já é mau, mas que, sem tomates, ainda tenta suavizar a coisa com uma procura de uma "maneira humana de matar". É que não há maneiras humanas de matar. Só há uma: a horrorosa, a definitiva. E não é por estar isento de dor e sofrimento (ainda não há nenhum método que o garanta) que um assassínio deixa de ser um assassínio. Mesmo quando cometido pelo Estado, em nome de algo a que, por descargo de consciência, chama "justiça", mas que na verdade só tem um nome: vingança. E um adjectivo: selvática.
Iconoclasta!
- Hereje!
- Barba de piaçaba!
- Onanista!
- Sodomita!
- Maniqueu!
- Ordinário!
- Montanista!
- Fedorento!
- Papista!
- Ariano!
- Priscilianista!
- Traveca!
Mais completo aqui
sábado, novembro 08, 2008
quarta-feira, novembro 05, 2008
A madrugada
terça-feira, novembro 04, 2008
segunda-feira, novembro 03, 2008
دام - hip-hop palestino
http://www.dampalestine.com
DAM pode ser lido como acrónimo de Da Arabian MC's, mas não deixa de remeter para دام, o radical que contém a ideia de durabilidade. Estes rappers palestinos cantam em árabe, mas também em inglês e hebraico. Para os apreciadores do género, entre os quais me incluo vivamente há mais de duas décadas, a não perder, absolutamente.domingo, novembro 02, 2008
Fugiu!
O recente fascínio dos três anos da Carolina por igrejas têm-me preocupado. Muito. Não é por causa do edifício em si. Eu adoro igrejas. Por mim podia até viver numa igreja. Ou num convento. Mas sem orações. E sem ter de me levantar muito cedo. E sem frades. Só eu. Com uma boa biblioteca. Portanto não é isso que me tem preocupado. Nem é pela arte sacra. Afinal quem me tira o meu Caravaggio ou o meu Bosch tira-me tudo. O que me preocupava era que ela viesse a ser beata. Daquelas chatas de bigode e penteado parvo e muito boazinhas, tipo heroína de Júlio Dinis. No outro dia perdi o medo. Estávamos na Igreja de São Pedro, em Torres Vedras, a seu pedido. Dela, da Carolina, não do São Pedro. E depois ela disse-me com ar maroto que um dia tinha feito barulho na igreja e o Jesus tinha fugido.
Uma questão de respeito ou Kafka revisitado
Há pormenores que definem uma empresa. O respeito é um deles. Ou a falta dele. No dia 18 de Setembro deste ano, ao chegar a casa, esperava-me uma surpresa: não tinha ligação à internet. Eu não sabia ainda, mas era o início de um longo processo kafkiano, que só teria fim (espero) na semana passada, cerca de mês e meio depois. Mas vamos por partes, como se costuma dizer.
No dia seguinte dirigi-me à loja da PT em Torres Vedras, para saber o que se passava. Solícita, a funcionária disse-me que se tratava de uma desactivação por falta de pagamento. Puxando pela memória, lembrei-me que realmente 2 ou 3 dias antes tinha recebido uma carta de uma advogada que me ameaçava de processo criminal caso não pagasse naquele mesmo dia em que recebi a carta cerca de 28€ à PT. Como achei que era uma piada de mau gosto, ignorei. Afinal era verdade, a PT intimida e ameaça mesmo os clientes por dívidas ridículas. Mas que fazer, se devia, ora toca lá a pagar.
Antes fosse tudo tão simples. Já estava de notas na mão, quando a funcionária, sem corar, me garante que eu não devo nada. Estupefacto, crendo estar a ouvir mal, insisti, soletrando de forma clara que queria pagar a dívida que tinha motivado a desactivação da linha. Impávida, a senhora escandia: - O senhor não deve nada à PT. Olhei para todos os lados a ver se havia câmaras escondidas, sei lá, uma coisa de apanhados. Insisti: se me desactivaram a linha por falta de pagamento, é porque devia alguma coisa. Que não, dizia ela, revirando já os olhos, de facto a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, mas eu não devia nada, não havia nada para pagar. Sentindo-me um Josef K. da vida, virei costas, e fui para casa, na esperança de que a senhora tivesse fumado alguma coisa estranha, e de que na linha de apoio ao cliente alguém me atendesse de forma lúcida.
Do outro lado da linha a voz declinou, implacável:
- A sua linha foi desactivada por falta de pagamento. O senhor não deve nada à PT.
- Nem um cêntimo?
- Nem um cêntimo.
Tentei chamá-la à razão. Mostrar-lhe o absurdo da situação. Nada. Que eu não devia nada, que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, se me podia ser útil em mais alguma coisa. Enfardei dois calmantes e liguei ao meu psicólogo a comunicar-lhe recaída irrecuperável. Um dia ou dois depois, comuniquei à DECO o sucedido, por via das dúvidas, não fosse haver a remota hipótese de afinal haver em mim ainda alguma lucidez e isto realmente não fazer sentido.
- Nem um cêntimo.
Tentei chamá-la à razão. Mostrar-lhe o absurdo da situação. Nada. Que eu não devia nada, que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, se me podia ser útil em mais alguma coisa. Enfardei dois calmantes e liguei ao meu psicólogo a comunicar-lhe recaída irrecuperável. Um dia ou dois depois, comuniquei à DECO o sucedido, por via das dúvidas, não fosse haver a remota hipótese de afinal haver em mim ainda alguma lucidez e isto realmente não fazer sentido.
A reactivação
Talvez tenha sido coincidência. No dia 19 foi-me dito que a reactivação da linha não tinha data prevista, que era preciso esperar. No dia seguinte a contactar a DECO, a um Sábado de manhã, um senhor ligou-me a perguntar se me podia ir reinstalar a linha. Lá foi. Dias depois a PT teve o desplante de me enviar uma factura a cobrar a reinstalação. Ao mesmo tempo, a mesma advogada que me tinha ameaçado com processo criminal por dívidas inexistentes de menos de 30€ mandou-me outra carta onde, sem um pedido de desculpas, sem uma justificação, escarrava secamente que a dívida a que fazia referência na anterior carta não existia e portante a anterior carta (ameaça) se achava sem efeito. A PT no seu melhor.
Um sapo indesejado
Não estranhei não ter logo acesso ADSL. Afinal, imaginei, era preciso reactivar tudo. Pois é. Dias depois da reactivação da linha, recebo uma mensagem automática (daquelas robóticas) da PT, que parece não se dignar a falar com as pessoas, só usa máquinas, a comunicar que o meu login ao serviço SAPO ADSL era tal, e a password era tal. Acontece que eu NUNCA pedi acesso nenhum a sapo nenhum. Eu sou cliente Netcabo ADSL, e do SAPO, de que já fui cliente, quero é distância. Uma distância muito grande. Incompetência, mau atendimento, péssimo serviço. Adiante. E resumindo. Emails, telefonemas, e nada. Durante mais de uma semana protestei, gritei até, mas não consegui convencer ninguém da PT a desligar-me imediatamente do maldito sapo. Que tinha de mandar fax, que era um assunto muito específico. E eu só perguntava se tinha sido preciso algum fax para, sem o meu consentimento nem pedido, me terem feito cliente, se tinham achado muito específico sem o meu consentimento nem pedido me terem feito cliente. Mais queixas na DECO. A coisa arrastou-se. Até à semana passada. Cerca de mês e meio nisto. Sem internet em casa, por causa da incompetência e falta de respeito da PT.
Durante todo este processo, nem um telefonema a justificar ou a pedir desculpas por uma situação que manifestamente foi incompetência da PT. Aos muitos emails que enviei apenas recebi respostas-tipo, copiadas de formulários, copiadas umas das outras.
Durante todo este processo, nem um telefonema a justificar ou a pedir desculpas por uma situação que manifestamente foi incompetência da PT. Aos muitos emails que enviei apenas recebi respostas-tipo, copiadas de formulários, copiadas umas das outras.
Um bom exemplo
Agora o outro lado. Durante todo este processo, e apesar de não ter qualquer responsabilidade, a ZON TVCabo prestou-me uma assistência exemplar. Os meus telefonemas foram respondidos por gente que sabia do que estava a falar, e que, quando não sabia, prometia - e cumpria, sempre - telefonema de uma equipa técnica no espaço de 1 hora. Depois de tudo resolvido, e restabelecido a minha ligação, recebo telefonemas regulares a perguntar se está tudo estável, se a ligação está sem problemas. É evidente que a empresa o faz com um objectivo comercial em mente. Mas é aí que está toda a diferença. E é por isso que eu da PT quero distância, e recomento a ZON a toda a gente.
sábado, novembro 01, 2008
Torres Vedras . 2008.12.01
Torres Vedras
Igreja da Misericórdia
1 de Dezembro de 2008
Igreja da Misericórdia
1 de Dezembro de 2008
«E já que vai de esperanças, não deixemos passar sem ponderação aquelas palavras misteriosas da profecia: Insperate ab insperato redimeris. De propósito reparei nelas, para refutar com suas próprias armas alguma relíquia, que dizem que ainda há daquela seita ou desesperação dos que esperavam por el-rei D. Sebastião, de gloriosa e lamentável memória. Diz a profecia: Insperate ab insperato redimeris: "Que seria remido Portugal não esperadamente por um rei não esperado." Segue-se logo, evidentemente, que não podia el-rei D. Sebastião ser o libertador de Portugal, porque o libertador prometido havia de ser um rei não esperado: Insperate ab insperato; e el-rei D. Sebastião era tão esperado vulgarmente, como sabemos todos. Assim que os mesmos sequazes desta Opinião, com seu esperar, destruíram sua esperança; porque quanto o faziam mais esperado, tanto confirmavam mais que não era ele o prometido; podendo-se-lhe aplicar propriamente aquelas palavras que S. Paulo disse de Abraão: Contra spem in spem credidit; que "creram em uma esperança contrária à sua mesma esperança"; porque pelo mesmo que esperavam, tinham obrigação de não esperar.»
sexta-feira, outubro 31, 2008
Diante dos seculares se falle sempre em cousas de edificaçaõ, que causem horror, ou façam devoçaõ, confundindo-os com modestia
Escarafunchando na Biblioteca Nacional no volume das Obras Espirituais de Frei António das Chagas, edição de 1725 (cota R31349P), encontrei uma deliciosa instrução para missionários, que infelizmente o fundador do Seminário do Varatojo não chegou a terminar. Eis um excerto, para aguçar o apetite para eventual publicação em breve.Em todo o tempo fujaõ como do demonio de dizer galantarias, & ociosidades, naõ só porque, como diz Christo, de toda a palavra ociosa se ha de dar conta em juizo, senaõ porque, como diz S. Bernardo, as zombarias, que nos seculares saõ galantarias, na boca dos Sacerdotes saõ blasfemias. Diante dos seculares se falle sempre em cousas de edificaçaõ, que causem horror, ou façam devoçaõ, confundindo-os com modestia, que deve ser manifesta a todos; & com santa mortificaçaõ de olhos baixos, maõs cruzadas, como quietos, & sem movimentos; porque destas vistas ficaõ reprehendidos, & interiormente edificados. Muitas pessoas de vida estragada, & dissoluta se moveraõ à penitencia, & à confissaõ, vendo sómente a Saõ Pedro de Alcantara, & a meu Padre Saõ Francisco, a Santa Catharina de Sena, & outros Santos; & tem notavel força a compostura exterior dos Servos de Deos para a conversaõ dos peccadores: alèm de que he ordinario sinal da presença de Deos, & compostura interior.
quinta-feira, outubro 30, 2008
Manuela La Palisse
«Manuela Ferreira Leite, disse ontem que [...] considerará uma derrota qualquer resultado nas legislativas de 2009 que não seja a vitória.»
in Público
Fontes que pediram para não serem identificadas garantiram-nos que Manuela Ferreira Leite considerará também que se McCain perder as eleições americanas o vencedor será Obama. Um oráculo, esta senhora.
segunda-feira, outubro 27, 2008
Futebol na Palestina

A selecção de futebol da Palestina jogou pela primeira vez na sua terra. O adversário foi outra equipa árabe a Jordânia, e o resultado um empate, 1-1. O resumo em vídeo pode ser visto na página do Público. Fica aqui a notícia, porque este blogue também se faz disto.
segunda-feira, outubro 20, 2008
Torres Vedras . 2008.12.01
Faz sentido
O PCP considera que as eleições nos Açores, onde o PS esmagou a concorrência com cerca de 50% dos votos e deixando o PSD a cerca de 20 pontos, são um "sinal de descontentamento com o governo nacional". Hm. Faz sentido.
sábado, outubro 18, 2008
Feio!
Tentei levar a Carolina, de 3 anos, a ouvir o Samuel Úria, na Livrododia, ontem. Prometi-lhe que havia um senhor a cantar. Ela pareceu gostar da ideia. Livro e música? Muito bem. O problema é que "estava muito alto". Descobrimos ontem que a Carolina tem medo de guitarras. Ainda tentámos mais duas ou três vezes, sempre que o Samuel largava a guitarra e conversava, entre canções. Mas logo que a música recomeçava, a Carolina puxava-me a mão. A última tentativa revelou-se uma inesperada manifestação política da minha sobrinha, que me fez muito feliz. Foi quando o Samuel manifestou o seu apoio ao John McCain. A Carolina, que se preparava para lhe dar mais uma oportunidade, estacou, indignada, puxou-me a mão mais uma vez, e forçou-me a abandonar a livraria ainda antes de o Samuel voltar a dedilhar a guitarra.quinta-feira, outubro 09, 2008
Boa e saborosa!
Folheando um livro infantil com a Carolina, de 3 anos, engasguei-me quando dei com esta pérola, que cito de cor: "a mulher, como a sardinha, quer-se boa e saborosa, e só depois pequenina". Eu não acho normal. Mas também é que verdade que depois da ameaça de me paparem o bacalhau, já espero tudo em livros infantis portugueses.quarta-feira, outubro 08, 2008
Uma questão de bom senso
Tenho de fazer uma manifestação de interesse, antes de entornar aqui a minha má disposição: adoro conduzir.
Até aos finais de 2006, isto é, até aos meus 35 anos, nunca me passou pela cabeça tirar a carta. Perante o espanto incrédulo dos que me perguntavam - perdão, que me exclamavam "porquê?!", sempre respondi que não me fazia falta nenhuma, que ia a todo o lado de transportes públicos ou a pé, que não era rico para gastar rios de dinheiro em impostos, revisões, combustível, prestações e mais um enorme etc. Sempre me mostrei insensível aos batidos argumentos da independência ("ai é uma independência") e à esfarrapadíssima desculpa dos maus transportes ("ainda se Lisboa tivesse bons transportes").
Mas nos finais de 2006, pouco depois de fazer 35 resistentes anos, decidi tirar a carta. A razão foi simples: estava num processo de mudança radical de vida, e além disso parecia-me evidente a necessidade de um carro para trazer os sobrinhos da escola. Arrastei-me durante mais de um ano, com várias pausas para descompressão mental, em insuportáveis aulas de código e em ligeiramente mais animadas aulas de condução. Lá tirei a dita cuja em Janeiro deste ano da graça de 2008, e, com carro novo e baratinho nas unhas, lá me lancei à estrada, para ver se afinal ficava assim tão independente e se os transportes públicos eram assim tão maus.
Podia ainda falar dos benefícios ambientais desta opção, mas são tão óbvios que até um chimpanzé amestrado os entende, e portanto poupo o meu latim.
Até aos finais de 2006, isto é, até aos meus 35 anos, nunca me passou pela cabeça tirar a carta. Perante o espanto incrédulo dos que me perguntavam - perdão, que me exclamavam "porquê?!", sempre respondi que não me fazia falta nenhuma, que ia a todo o lado de transportes públicos ou a pé, que não era rico para gastar rios de dinheiro em impostos, revisões, combustível, prestações e mais um enorme etc. Sempre me mostrei insensível aos batidos argumentos da independência ("ai é uma independência") e à esfarrapadíssima desculpa dos maus transportes ("ainda se Lisboa tivesse bons transportes").
Mas nos finais de 2006, pouco depois de fazer 35 resistentes anos, decidi tirar a carta. A razão foi simples: estava num processo de mudança radical de vida, e além disso parecia-me evidente a necessidade de um carro para trazer os sobrinhos da escola. Arrastei-me durante mais de um ano, com várias pausas para descompressão mental, em insuportáveis aulas de código e em ligeiramente mais animadas aulas de condução. Lá tirei a dita cuja em Janeiro deste ano da graça de 2008, e, com carro novo e baratinho nas unhas, lá me lancei à estrada, para ver se afinal ficava assim tão independente e se os transportes públicos eram assim tão maus.
- A independência - Admito que o problema possa estar na definição de "independência". É que até agora eu não dei por nada. Com a excepção de duas saborosas (mas não indispensáveis) viagens ao Alentejo e Algarve num misto de trabalho e ócio, desde Janeiro ainda não dei por nenhuma independência. Ainda não fiz nada que não pudesse ter feito sem carro. Jantares de amigos, teatro, cinema. Nada. Continuei a ir de transportes públicos ou a pé, que é muito mais económico. Ainda fiz algumas experiências. Fui meia dúzia de vezes de carro para a faculdade, mas rapidamente me dei conta da tolice. Não compensa: é muito mais caro do que ir de autocarro, gasta-se o mesmo tempo a chegar lá (ou mesmo mais, em horas de ponta), e ainda se tem de procurar lugar para estacionar. Num jantar de amigos levei o carro. Sem qualquer necessidade e sem qualquer vantagem: além de ter ficado impedido de beber a belíssima vinhaça à vontade, gastei incomparavelmente mais dinheiro, perdi tempo e nervos à procura de lugar para estacionar, e no fim de contas ainda havia autocarros à hora em que me vim embora. Por isso continuo hoje, 10 meses depois de ter carta, a usar quase exclusivamente transportes públicos e a andar a pé. Abri apenas djuas excepções: primeiro, para as saídas nocturnas aqui em Torres Vedras, pois vivo a cerca de 3km do meu bar preferido, e não me apetece muito, depois da noitada, ainda fazer tal distância a pé. Independência? Nem por isso: tive de abdicar das cervejolas. É que se conduzir... A segunda excepção são as incursões ao supermercado com a minha mãe, e aí de facto é a única vantagem palpável de ter carta, e ir buscar os miúdos à escola, pois enfiar 2 pimpolhos de 2 e 3 anos num autocarro é tarefa para a qual os meus nervos não estão ainda calejados. Moral da história: não só não ganhei nenhuma independência, como perdi bastante, ao ter de deixar de beber socialmente quando uso o carro ("ai é uma independência!"), e sobretudo ao ter apertar o cinto para a prestação, para o seguro, para o combustível e para o imposto. Mas que grande independência que me saiu na rifa...
- Os transportes são mesmo maus? Não. Só pode dizê-lo quem nunca andou neles. Vejamos. Tenho autocarros a sairem de 7 em 7 minutos à hora de ponta, de 30 em 30 nas horas mortas, para Lisboa. A paragem é a 10 metros do Metro do Campo Grande, outros tantos a pé para a Faculdade - obviamente vou a pé. O percurso demora no máximo 40 minutos, sensivelmente o mesmo que o trajecto de carro - se não houver engarrafamentos na Calçada de Carriche, que o autocarro evita elegantemente, ao usar as faixas "bus". Para voltar para casa o ritmo de passagem de autocarros é o mesmo, e vai até às 00:30. Nada mau. Podia ser melhor, mas não é nada mau. Dá para jantares, cinema, teatro. Dir-me-ão que tenho a sorte de trabalhar ao pé da paragem do autocarro. É verdade. Mas a (má) experiência de me deslocar de carro em Lisboa para ir a outros sítios, uns mais centrais outros menos, diz-me que os transportes continuam a ser a melhor opção. A não ser que se seja como uma pessoa que eu conheço, que acha que ir do Metro do Campo Pequeno à Gulbenkian a pé é uma distância inaceitável. E aí parece-me que não há muito a fazer... E ainda que não fosse assim, há sempre o aspecto económico: não há calculadora que resista à comparação entre andar de carro e andar de transportes. O meu irmão, que às vezes vai para Lisboa de carro, disse-me em tempos, quando ia todos os dias assim, que gastava mais de 100€ por semana em gasolina, fora as portagens (cerca de 5€ por dia). Ora nessa altura o passe de 30 dias para Lisboa custava pouco mais de 100€... Mais palavras para quê?
Podia ainda falar dos benefícios ambientais desta opção, mas são tão óbvios que até um chimpanzé amestrado os entende, e portanto poupo o meu latim.
terça-feira, outubro 07, 2008
Adeus ó vai-te embora
Já é público que a FNAC acabou com os descontos de 10%. Acabou assim também com o único motivo que ainda me fazia ir lá.
sábado, setembro 27, 2008
Desenvolvimentos
Desenvolvimentos do caso PT: recebi uma carta da tal advogada que, em nome da PT, me ameaçava com tribunal por dívidas inexistentes, a dizer que na verdade eu não devia nada. Assim. Nem um pedido de desculpas. É a PT que temos. Hoje já veio um senhor reinstalar a linha. E eu estou a pensar seriamente desistir de vez da PT. Farto de faltas de respeito, má criação e incompetência.
terça-feira, setembro 23, 2008
A incompetência e a falta de respeito
Cópia de email enviado à DECO e à Portugal Telecom
André Filipe V. N. Simões
Associado da DECO nº XXXXXXXXXXX
Caros senhores
Em Maio do corrente ano, cansado de receber ameaças de ida a tribunal por parte da Portugal Telecom por faltas de pagamento na ordem dos 17€, apesar de até ter débito directo activado na altura, solicitei a desactivação da minha linha. Foi-me dito, então, que o pedido só seria atendido se, após um primeiro contacto da minha parte nesse sentido, através do preenchimento de impresso, houvesse uma posterior confirmação, desta vez após contacto feito pela PT. Esse contacto existiu, mas entretanto eu tinha mudado de ideias, pois acabara de fazer contrato com um fornecedor de ADSL, e para tal necessitava de ter linha telefónica. Expliquei isso mesmo à senhora da PT que me contactou, e o pedido de desactivação ficou assim sem efeito.
A empresa fornecedora de ADSL, a ZON, assegurou-me que eu de facto deixaria de ter telefone, mas a linha ficaria activa, e por sua conta, de modo a ter ADSL. De facto nunca mais recebi facturas da PT, mas continuei a receber ameaças de ida a tribunal por dever ninharias da ordem dos 17€, que ia pagando mansamente.
A última ameaça chegou-me no dia 11 de Setembro. Uma advogada ameaçava-me com ida a tribunal se não pagasse nesse mesmo dia 11 de Setembro uma quantia de cerca de 28€. Ainda que a carta viesse datada de 3 de Setembro, a verdade é que me chegou apenas no dia 11, e os correios não se costumam atrasar na minha zona (curiosamente só se "atrasam" nestes casos). Mas adiante. Tendo contactado o serviço de contencioso da PT e explicado a situação, foi-me dito que iriam ver o que se passava, e que me iriam contactar. Naturalmente não recebi qualquer contacto... A partir de dia 18, no entanto, notei que a minha linha tinha sido desactivada. A PT, portanto, atirou primeiro e nem sequer perguntou.
Dirigi-me no dia 19 à loja PT de Torres Vedras, e expus a situação, manifestando o meu desagrado e disponibilizando-me, ainda assim, para saldar a estranha dívida. Para meu espanto, a senhora garantiu-me que eu não devia nada, aludindo a uns crípticos "acertos", que não me soube explicar. Disse-me sim, sem conseguir disfarçar o embaraço, que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, apesar de eu não dever nada. Rasgou até, teatralmente, uma factura que nem sequer tinha o valor da ameaça da advogada da PT e que alegadamente eu devia mas que misteriosamente tinha deixado de estar a dever no espaço de minutos.
Confirmou ainda que apesar de eu não dever nada, realmente a PT tinha pedido a uma advogada para me ameaçar com uma acção judicial caso eu não pagasse a dívida que não devia. Perplexo, pedi para me confirmar que a linha me tinha sido desactivada por falta de pagamento apesar de eu não dever nem um cêntimo, pois não podia acreditar no que estava a ouvir. Ela confirmou. Aludiu, em desespero de causa, ao tal pedido de desactivação que eu tinha feito há largos meses, e que, como lhe recordei, tinha sido cancelado após contacto da PT. Confirmou no meu processo que assim tinha sido, e regressou à versão inicial da falta de pagamento apesar de eu não dever nada. Monty Python? Não. PT.
Julgando-me mergulhado num enredo de Kafka, liguei para a linha de apoio da PT, onde uma solícita operadora me confirmou que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, mas que eu não devia nada, nem um cêntimo. Abstive-me de comentários e resignei-me a esperar mais uns dias, até divorciar-me de vez da PT - agora até é mais fácil, com a nova lei.
Os dias passaram, e da PT nem um contacto. Liguei de novo para o contencioso, onde a mesma versão me foi relatada, e que repito porque por tão incrível e surreal receio não me acreditem: que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, mas que eu não devia nada, nem um tostão.
Os telefonemas (feitos e pagos por mim) têm-se multiplicado, e a conversa é sempre a mesma. Que não devo nada à PT, mas que a minha linha de facto está desactivada por falta de pagamento. Da PT nem um contacto, nem uma satisfação, nada.
Hoje contactei de novo o serviço de apoio ao cliente da PT, e a história repetiu-se. O operador voltou a aludir ao pedido de desactivação de Maio, e de novo reconheceu que o mesmo tinha sido cancelado. Anunciou-me, porém, que já tinha indicação de que a linha seria reactivada, numa clara confirmação de que afinal eu tinha mesmo razão. Não me soube foi dizer quando se daria a tal reactivação, e não me garantiu que eu não tivesse de pagar as despesas de reactivação, apesar de não ter qualquer culpa numa situação que claramente se deve a falta de competência de alguém dentro da PT.
Da PT continuo sem receber um contacto que seja - eu é que tenho tomado a iniciativa, e toda a gente sabe que casamentos assim não funcionam. Não me deram cavaco quando me desactivaram sem razão a linha (tirando as ameaças da advogada), e cavaco não me deram quando decidira reactivar - mas sem data prevista.
Se eu fosse como a PT, ameaçaria com tribunal por danos morais e materiais inflingidos (afinal eles ameaçam-me com idas a tribunal por dívidas de 17€), mas eu tenho bom senso, e quero apenas dar a conhecer a situação, e solicitar junto dos senhores informações no sentido de saber o que fazer caso me sejam cobradas as despesas, e sobretudo se tenho direito a exigir compensação pelos danos causados pela empresa.
A referência da carta com as ameaças da PT é: XXXXXXXXXXX
O meu número de telefone (desactivado...): XXXXXXXXXXX
Com os meus melhores cumprimentos,
André Filipe V. N. Simões
quarta-feira, setembro 17, 2008
Os russos
Eu dizia que a música me tinha acabado na primeira metade do século XVIII. Ouvia especialmente os séculos XVI e XVII. Victoria, Monteverdi, Palestrina, J. S. Bach, Caccini, Morales, Guerrero, Haendel, Purcell, Lully, Charpentier, eu sei lá, tantos outros. Vá lá, mesmo sainda da barreira cronológica, ainda admitia um Mozart ou um Beethoven ou um Bomtempo. Eram as excepções, as tais que fazem a regra. Até dar uma segunda oportunidade a Tchaikovski, a Prokofiev, a Stravinski. Agora já não só os escritores.sábado, setembro 13, 2008
Dress you up
Eu gostava dela nos anos 80, quando revolucionou a pop feminina, e usava rendas e crucifixos. Tinha o quarto forrado de posters, numa altura em que poucos assumiam gostar dela e muitos não a conheciam. Comprei-lhe todos os LP até ao True Blue. Comemorava-lhe o aniversário a cada 16 de Agosto. Fiquei desgostoso com a fase menos atrevida, exultei como se fosse uma ressurreição com o monumental clip Justify my love, na altura proibido em quase todo o mundo, hoje perfeitamente banal.Agora tenho-lhe um tremendo respeito. Ao contrário de outras estrelas da sua época, não é cadente, não faz sempre a mesma coisa, não usa sempre a mesma receita. Ela é uma estrela em contínua ascenção, há mais de um quarto de século. Não gosto hoje da música dela, se calhar nem nunca gostei a sério, já não lhe compro os discos. Mas um dia destes volto a ter um poster dela em casa. Dos dos anos 80.
domingo, setembro 07, 2008
Uma questão de funcionalidade e estética
Uma das coisas que me levam ao desespero quando sou forçado a usar um computador com Windows (*) é a impossibilidade de alterar as configurações (só nos deixam mexer, e com cuidadinho, nas coisas mais básicas), mas também o aspecto. Não me refiro a mudar as cores ou outras minudências. Refiro-me mesmo a alterar radicalmente o aspecto e o funcionamento do sistema gráfico. O sistema Linux, pelo contrário, uma vez que separa com muita clareza o sistema gráfico do modo texto, permite que o utilizador escolha o sistema gráfico que lhe der na gana - ou nem escolha nenhum. E não estamos a falar de mudar cores e sons, repito. Estamos a falar de sistemas gráficos diferentes, com gestores de janelas diferentes, definições diferentes, filosofias diferentes - e que se podem alternar fazendo um simples "logout". Ainda que neste caso a imagem seja muito redutora, mostro o aspecto do meu ambiente de trabalho agora e há poucos dias, usando o sistema KDE e usando o sistema Gnome, ambos livres e gratuitos:

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(*) Na faculdade, por exemplo, onde se gastam milhões em licenças todos os anos, quando há alternativas gratuitas que fazem o mesmo e melhor.
sexta-feira, setembro 05, 2008
Já lhe chamaram tanta coisa
Certamente devido a denúncia de algum(a) amante despeitado(a), as minhas caixas de correio electrónico são bombardeadas diariamente com promessas de "penis enlargement". Quer dizer, não chego a vê-las na altura, pois o servidor trata de arrumá-las na caixa de "spam", silenciosamente. Isto é bom porque assim não me chateio, mas tem o inconveniente de o servidor, volta e meia, despejar nessa caixa emails sérios e até importantes. Como aquele de uma respeitável funcionária do Vaticano, que talvez por ter nome de actriz porno acabou apertada entre promessas de virilidade acrescida, sem que eu tivesse dado por isso a não ser demasiado tarde. Já com o Gonçalo M. Tavares me tinha acontecido o mesmo: o primeiro email que me enviou foi impiedosamente escondido pelo meu servidor entre os insultos à minha virilidade - concretamente à sua dimensão.Para evitar situações deste género, uma vez por semana passo os olhos pela pasta de "spam", não vá ter de novo algum email importante mal arrumado. Calhou fazer hoje uma dessas incursões, e por entre as muitas gargalhadas indirectas à minha pobreza viril desobri um mimo, que prometia dimensões equinas para o meu "dinosaur". Já tinha lido muitos eufemismos nestes emails - e repito: recebo dezenas por dia - mas "dinossauro" é a primeira vez.
Uma questão de rapidez

Uso Linux desde meados dos anos 90, primeiro num computador com arranque duplo (escolhia se queria Linux ou Windows), mais tarde apenas com Linux. Deixei de usar Windows durante muitos anos, até começar a ouvir maravilhas do XP e do Vista. Assim, no portátil que comprei no ano passado mantive o Vista, com Linux em alternativa. Rapidamente me desiludi com o caos do menu iniciar, feito a pensar em iniciados, não em utilizadores comuns. Depois vieram as habituais quebras, as falhas, e toda uma procissão de maleitas informáticas, tão típicas do Windows, e que só quem está habituado à eficiência de outros sistemas nota como inadmissíveis. Quando me vê a lutar em desespero com o seu Windows XP, a minha mãe diz "mas isso é normal", e eu não consigo convencê-la de que não é. Afinal ela sempre viu as coisas assim. É como dizer a uma pessoa que só visse a preto e branco que o mundo a cores é muito melhor. Mas isto são contas de outro rosário, e eu há muito deixei de ser proselitista no que respeita a sistemas operativos. Fiquem lá com o vosso lixo microsoft, see if I care.
Hoje, no entanto, apeteceu-me fazer uma experiência. É consensual que o Linux é mais seguro do que o Windows, toda a gente sabe que aquela lenda urbana de ser muito complicado é menos credível do que o monstro de Loch Ness, e o mito de ser difícil de instalar baseia-se não sei muito bem em quê, pois sempre foi mais simples de instalar do que o Windows - sobretudo agora, em que as distribuições mais populares se instalam rapidamente sem "reboots" e com 3 ou 4 cliques de rato. Faltava-me, porém, ter dados sobre a rapidez. Sempre me pareceu que o Windows era como um elefante centenário com artroses, em termos de rapidez e agilidade, mas sempre admiti que fosse por preconceito. Por isso hoje de cronómetro em punho resolvi fazer contas.
A experiência foi feita no meu portátil com processador Intel Core Duo a 2GHz, memória de 1G. De um lado Windows Vista, do outro Linux Ubuntu 8.04. Resolvi cronometrar apenas as acções comparáveis:
- arranque, desde que se carrega no botão de ligação até o indicador de actividade de disco ficar inactivo;
- tempo que demora a desligar;
- abertura do Firefox (a mesma versão em ambos os sistemas);
- abertura do OpenOffice Writer (a mesma versão em ambos os sistemas).
- O Windows demorou, sem introdução de login nem password, 2:58 minutos até o indicador de actividade do disco parar, e 1:20 minutos até a actividade ficar reduzida a ponto de conseguir abrir um programa. O Linux Ubuntu demorou incluindo introdução de login e password 1:03 até o indicador de actividade parar por completo. Vitória do Linux por knock out.
- O Windows demorou 32 segundos a desligar o computador. O Linux Ubuntu demorou 12 segundos. Vitória do Linux por abada das antigas.
- O Windows demorou 10 segundos a abrir o Firefox. O Linux Ubuntu demorou 2 segundos. Vitória do Linux por goleada.
- O Windows demorou 12 segundos a abrir o OpenOffice Writer. O Linux Ubuntu demorou 1 segundo. Vitória do Linux por humilhação.
Por isso fiquei cá a pensar: se faz a mesma coisa em muito, mas mesmo muito mesmo tempo, se é mais fácil de instalar, se é mais simples de usar, se é mais seguro, se não tem vírus., se é gratuito e livre.. então porque é que o pessoal ainda insiste no Windows?
N.B.: a imagem é do meu computador de secretária, não do portátil, mas para o caso tanto faz.
terça-feira, setembro 02, 2008
domingo, agosto 31, 2008
sábado, agosto 30, 2008
Karénina
Quevedo?
quarta-feira, agosto 27, 2008
Autos de Fé
"Novo partido MMS quer polícia a usar armas de fogo sem tabus". Os extremistas querem também, entre outras cavalidades, que as vítimas tenham uma palavra a dizer nas condenações, transformando portanto a justiça em vingança. O que virá a seguir? Linchamento? Forca? Execuções sumárias em praça pública?quinta-feira, agosto 21, 2008
Literatura de WC
As minhas frequentes visitas aos WC da Biblioteca Nacional têm-me permitido verificar que entre a chamada "literatura de WC" da BN e a de outros espaços públicos só há uma diferença assinalável: nas portas e paredes dos WC da BN não se encontra ordinarices com erros ortográficos.
quarta-feira, agosto 20, 2008
Que te papa o quê?!
Comprei um livro de lengalengas para ler à Carolina e ao Manuel, mas fiquei um pouco alarmado quando logo à sexta página dou com estes versos:
Vem aí
O bicho mau
Que te papa
O bacalhau
Valhamedeus!
terça-feira, agosto 19, 2008
Enformação das Cousas da China
Brio
«Marco Fortes (lançamento do peso) disse, após a eliminação, que não se adaptou ao horário matinal da sua prova. "De manhã só é bom é na caminha, pelo menos comigo", disse o lançador do Sporting, de 25 anos, eliminado no passado dia 15, com dois lançamentos nulos e um lançamento a 18,05m, bem longe do seu melhor (20,13m).»in Público
Talvez o senhor Marco Fortes devesse ter ficado em casa, sempre podia dormir mais um bocadinho na cama. É que eu também gosto muito de dormir de manhã, de preferência até à hora do almoço. Mas é quando não tenho compromissos. Porque no dia em que o meu trabalho fosse prejudicado por eu gostar mais de ficar na caminha de manhã, então estaria na altura de mudar de trabalho.
terça-feira, agosto 12, 2008
I beg your pardon?
Lido na primeira página do Público de hoje:
George W. Bush acusa Moscovo de "acto inaceitável no século XXI".
George W. Bush acusa Moscovo de "acto inaceitável no século XXI".
Isto dito por um homem que, no decorrer dos primeiros 3 anos do século XXI, invadiu e derrubou, com milhares de vítimas inocentes, o governo de dois países soberanos, por acaso (ou não) apoiados, acarinhados e fortalecidos durante muitos anos pelos seus antecessores, e ainda apoiou explicitamente a invasão e agressão de outro país (Líbano) por um aliado a quem tudo permite, isto dito por este homem é de uma ironia trágica.
domingo, agosto 03, 2008
Epifania

Lembro-me de quando entendi as minhas primeiras frases em Latim, há mais de 20 anos. O arrepio no estômago, a revelação uma língua que me parecia amar desde os primeiros vislumbres da consciência. E um ano depois a emoção das primeiras palavras soletradas em Grego antigo, a voz profunda do meu futuro colega e amigo, o já falecido Victor Jabouille, declinando sílabas olímpicas no gravador ferrugento.
Não voltei a sentir nada de parecido. Ainda que tenha andado lá perto há dois anos, quando comecei os estudos de Árabe clássico e moderno. Havia aquele alfabeto novo. Havia sobretudo a minha primeira língua não indo-europeia. Limpar a cabeça de conceitos que de forma consciente e não consciente me guiaram no processo linguístico desde que bolsei as primeiras palavras. A paixão foi à primeira vista.
Uma língua para mim, no entanto, não se pode reduzir a diálogos mais ou menos surreais. Nunca pretendi aprender línguas para comunicar. O Inglês e o Francês qui-los para os desmontar como se faz a um brinquedo, para ver como eram por dentro, como funcionavam. Aos 9 anos comecei a dissecar o Inglês, aos 13 o Francês. Aos 19 passei olhos desiludidos pelo insípido Esperanto, que de tão simplificado não tem qualquer interesse que não seja o comunicativo - e quanto a esse tenho cada vez mais sérias dúvidas. Houve ainda o Grego Moderno, sempre para ver como eram as suas entranhas.
Com a idade adulta veio a motivação cultural e literária, e com ela o Espanhol. Conhecer os vizinhos do lado através do veículo primeiro (ou segundo, em muitos casos) das suas culturas. Olhadelas vagas pelo Catalão antigo, lambidelas distraídas no Provençal medieval. Esquecidos os últimos, espalhado o primeiro em páginas pasmadas de Cervantes e Borges.
O Árabe clássico era paixão antiga. Correspondida desde os primeiros momentos de aprendizagem. Enquanto subiam e desciam os olhos num ziguezage ora cima ora abaixo na vogal breve, ora ao meio na consoante e na vogal longa. Mas não me tinha tocado ainda como as primeiras leituras engasgadas de Xenofonte ou Luciano ou Fedro. Nem quando comecei a apanhar palavras soltas, sintagmas, pequenas frases na al-Jazîra ou na BBC Arabic.
Até ouvir Mahmûd Darwish ler a sua poesia em árabe, e entender o meu primeiro verso completo. Mais de 20 anos depois lá estava outra vez aquele arrepio no estômago.
Não voltei a sentir nada de parecido. Ainda que tenha andado lá perto há dois anos, quando comecei os estudos de Árabe clássico e moderno. Havia aquele alfabeto novo. Havia sobretudo a minha primeira língua não indo-europeia. Limpar a cabeça de conceitos que de forma consciente e não consciente me guiaram no processo linguístico desde que bolsei as primeiras palavras. A paixão foi à primeira vista.
Uma língua para mim, no entanto, não se pode reduzir a diálogos mais ou menos surreais. Nunca pretendi aprender línguas para comunicar. O Inglês e o Francês qui-los para os desmontar como se faz a um brinquedo, para ver como eram por dentro, como funcionavam. Aos 9 anos comecei a dissecar o Inglês, aos 13 o Francês. Aos 19 passei olhos desiludidos pelo insípido Esperanto, que de tão simplificado não tem qualquer interesse que não seja o comunicativo - e quanto a esse tenho cada vez mais sérias dúvidas. Houve ainda o Grego Moderno, sempre para ver como eram as suas entranhas.
Com a idade adulta veio a motivação cultural e literária, e com ela o Espanhol. Conhecer os vizinhos do lado através do veículo primeiro (ou segundo, em muitos casos) das suas culturas. Olhadelas vagas pelo Catalão antigo, lambidelas distraídas no Provençal medieval. Esquecidos os últimos, espalhado o primeiro em páginas pasmadas de Cervantes e Borges.
O Árabe clássico era paixão antiga. Correspondida desde os primeiros momentos de aprendizagem. Enquanto subiam e desciam os olhos num ziguezage ora cima ora abaixo na vogal breve, ora ao meio na consoante e na vogal longa. Mas não me tinha tocado ainda como as primeiras leituras engasgadas de Xenofonte ou Luciano ou Fedro. Nem quando comecei a apanhar palavras soltas, sintagmas, pequenas frases na al-Jazîra ou na BBC Arabic.
Até ouvir Mahmûd Darwish ler a sua poesia em árabe, e entender o meu primeiro verso completo. Mais de 20 anos depois lá estava outra vez aquele arrepio no estômago.
segunda-feira, julho 21, 2008
Arquivo Secreto
Começo a ter uma ideia muito mais clara da desinformação criada por best-sellers esotéricos e conspiracionistas, como os do Dan Brown e amigos, quando o carteiro me olha de lado ao pedir-me para assinar o registo e entregar-me um DVD remetido do nada secreto Arquivo Secreto Vaticano. Se ele soubesse que o DVD contém 612 imagens digitalizadas de documentos inéditos desse Arquivo, que me foram feitas a pedido (mediante pagamento régio, é certo), como o fariam a qualquer outra pessoa, imagino então que o seu olhar ficaria tão de lado que me naufragaria algures na entrada do prédio.
quinta-feira, julho 17, 2008
Vlad Tepes
Quando hoje fui buscar os meus sobrinhos à creche, dei com o Manuel retorcendo-se em pranto aflitivo no colo de uma auxiliar. Esta, pesarosa, comunicou-me que o Vlad o tinha mordido, e que lhe ia lavar o braço, onde se destacava o baixo relevo de uma dentadura completa e em bom estado. Ainda pensei dizer-lhe que talvez fosse melhor esfregar com alho, mas depois lembrei-me de que o perigo só era real se o Manuel lhe tivesse bebido o sangue. Conhecedor da impossibilidade de fazer o Manuel beber seja o que for sem ficar mais na roupa do que na boca, e tendo observado que ela se achava imaculada, pelo menos no que a sangue diz respeito, achei que estava tudo bem. Pelo sim pelo não, vou passar a ir à creche armado de dentes de alho e crucifixo. Não vá o diabo tecê-las, nunca se sabe o que nos pode fazer uma criança chamada Vlad.sábado, julho 12, 2008
Nunca digas nunca
Se alguém me tivesse dito, há 2 ou 3 anos atrás, que um dia na minha casa andariam trepando pelos móveis desordenados rebanhos de fraldas, toalhetes, cremes hidratantes, chuchas, roupas de criança, bonecos de peluche (sem ser os leões do Sporting), carrinhos de brincar e livros do Ruca, e sobretudo que eu teria um carro e que o banco traseiro desse carro estaria permanentemente ocupado com cadeirinhas de criança, eu riria alarvemente e mandaria a pessoa tratar-se no Miguel Bombarda. Et pourtant...
Bocejo
quarta-feira, julho 09, 2008
A vitória das Livrarias

Há uma diferença fundamental entre livrarias e mercados de livros. Os mercados de livros dispõem estética e estrategicamente os livros, com "tops" de vendas. Normalmente é fácil encontrar as novidades e, sobretudo, os grandes êxitos de vendas. São geridas muitas vezes por pessoas que de livros percebem pouco, e acima das letras colocam os números. É legítimo. Eu não penso assim, e se calhar eu é que estou errado, pois chego ao fim do mês e vejo, desesperado, que gastei dezenas (às vezes centenas) de euros em livros, e falta-me o carcanhol para o passe ou para uma ida ao teatro.
Depois há as livrarias, geridas por bibliófilos (o ideal é quando são também bibliómanos), que têm as letras em conta pelo menos igual à dos números (porque é preciso pagar as contas no fim de mês). Nas livrarias há a mesma coisa que nos mercados de livros, e normalmente até há mais. Há aqueles autores que vendem pouco, e são bons. Há aqueles livros com pouca saída, mas muitíssimo bons. E há aqueles que são verdadeiras preciosidades, impossíveis de achar nas fnacs ou na generalidade das bertrands. Porque vendem pouco. São espaços de qualidade. Os livros estão organizados de forma inteligente, não mercantilista. É o livreiro que decide o que fica onde e durante quanto tempo, não as editoras. Os "tops", se existem, são de facto baseados no número de exemplares vendidos.
As livrarias são acolhedoras. São casas de livros. Os mercados de livros são estantes e caixas registadoras. Vendem os livros um bocadinho mais baratos, às vezes. Mas valerá a pena?
Há, finalmente, pequenos pormenores que fazem a diferença. Há os lançamentos e as tertúlias e as sessões de poesia. Os mercados do livro também os têm, mas normalmente só se garantirem um número significativo de participantes e um encaixe financeiro agradável. As livrarias também preferem que isso aconteça. Mas não é isso o mais importante. Por isso não se importam de convidar autores pouco ou nada conhecidos.
Há também o espaço para as crianças, aspecto a que só desde que me tornei "babysitter" dos meus sobrinhos comecei a dar a devida importância. E desses espaços eu não posso falar muito, pois o que a mim, adulto, parece bom a uma criança pode parecer uma imensa maçada. Por isso quem melhor do que as crianças para decidir? A Carolina já conhecia a Bertrand de Torres Vedras (a "uoja dos uivros"), e tinha já o seu território, junto da mesa cheia de livros muito bem empilhadinhos, sem espaço para pôr mais nada. Já tinha até marcado o território com uma valente xixizada como já tive oportunidade de contar. Ontem levei-a à LIVROdoDIA, onde ia decorrer o lançamento do livro Portugal e os Portugueses, de D. Manuel Clemente. E ela notou bem a diferença em relação à Bertrand. Não há mesas com arrumadinhas pilhas de livros, mas há brinquedos, há bonecos, há jogos, há bancos confortáveis. Eu prometo ao Luís Cristóvão que a ponho a fazer xixi antes, não vá ela querer marcar de novo o território, mas a verdade é que a Carolina já se decidiu: agora já não quer a "uoja dos uivros" (Bertrand), agora quer a "outra uoja dos uivros" (a LIVROdoDIA).

Depois há as livrarias, geridas por bibliófilos (o ideal é quando são também bibliómanos), que têm as letras em conta pelo menos igual à dos números (porque é preciso pagar as contas no fim de mês). Nas livrarias há a mesma coisa que nos mercados de livros, e normalmente até há mais. Há aqueles autores que vendem pouco, e são bons. Há aqueles livros com pouca saída, mas muitíssimo bons. E há aqueles que são verdadeiras preciosidades, impossíveis de achar nas fnacs ou na generalidade das bertrands. Porque vendem pouco. São espaços de qualidade. Os livros estão organizados de forma inteligente, não mercantilista. É o livreiro que decide o que fica onde e durante quanto tempo, não as editoras. Os "tops", se existem, são de facto baseados no número de exemplares vendidos.
As livrarias são acolhedoras. São casas de livros. Os mercados de livros são estantes e caixas registadoras. Vendem os livros um bocadinho mais baratos, às vezes. Mas valerá a pena?
Há, finalmente, pequenos pormenores que fazem a diferença. Há os lançamentos e as tertúlias e as sessões de poesia. Os mercados do livro também os têm, mas normalmente só se garantirem um número significativo de participantes e um encaixe financeiro agradável. As livrarias também preferem que isso aconteça. Mas não é isso o mais importante. Por isso não se importam de convidar autores pouco ou nada conhecidos.
Há também o espaço para as crianças, aspecto a que só desde que me tornei "babysitter" dos meus sobrinhos comecei a dar a devida importância. E desses espaços eu não posso falar muito, pois o que a mim, adulto, parece bom a uma criança pode parecer uma imensa maçada. Por isso quem melhor do que as crianças para decidir? A Carolina já conhecia a Bertrand de Torres Vedras (a "uoja dos uivros"), e tinha já o seu território, junto da mesa cheia de livros muito bem empilhadinhos, sem espaço para pôr mais nada. Já tinha até marcado o território com uma valente xixizada como já tive oportunidade de contar. Ontem levei-a à LIVROdoDIA, onde ia decorrer o lançamento do livro Portugal e os Portugueses, de D. Manuel Clemente. E ela notou bem a diferença em relação à Bertrand. Não há mesas com arrumadinhas pilhas de livros, mas há brinquedos, há bonecos, há jogos, há bancos confortáveis. Eu prometo ao Luís Cristóvão que a ponho a fazer xixi antes, não vá ela querer marcar de novo o território, mas a verdade é que a Carolina já se decidiu: agora já não quer a "uoja dos uivros" (Bertrand), agora quer a "outra uoja dos uivros" (a LIVROdoDIA).

terça-feira, julho 08, 2008
Voltando a bater no ceguinho
Às vezes sou muito duro para as pastelonas empresas portuguesas (ou dependências portuguesas de multinacionais), que demoram eternidades bíblicas para enviar por correio encomendas feitas pela internet. A FNAC portuguesa, por exemplo. Fiz lá duas encomendas que demoraram entre 1 e 2 semanas a chegar. Como tenho contado, as encomendas através da Amazon.co.uk ou Amazon.fr demoram 2 ou 3 dias a chegar, o que diz muito das razões que levam a Inglaterra e a França a serem países prósperos, e Portugal esta apagada e vil tristeza. Quando uma encomenda demora menos a chegar de Londres ou Paris do que de Lisboa, parece-me que está tudo dito, quando à competência, organização e respeito pelos consumidores. E não, obviamente o problema não é dos correios: os correios que me entregam as encomendas da Amazon, a partir do momento em que desembarcam em Lisboa, são os mesmíssimos que me entregam os da FNAC. A diferença é que a Amazon põe-nos no correio poucas horas depois de a encomenda estar feita, a FNAC fá-lo vários dias depois.Não tenho tido, no entanto, o hábito de mandar vir da Amazon.com, porque com as taxas fica mais caro, e confesso que não tenho muita paciência para esperar (normalmente vêm de barco, e demora umas semanitas). Por isso quando no dia 24 de Junho, aproveitando o dólar baixo, encomendei o Arabic-English Dictionary: The Hans Wehr Dictionary of Modern Written Arabic, imprescindível para o avanço dos meus estudos na língua árabe padrão e clássica, não contava com ele antes do fim de Julho, como de resto a própria Amazon.com me informava, prevendo a chegada a Lisboa no dia 24 de Julho. Por isso já se pode imaginar a minha surpresa quando ontem, dia 7 de Julho, duas semanas depois de feita a encomenda, já lá estava no cacifo da faculdade o meu precioso dicionariozinho. Como já não punha os pés na faculdade há mais de 1 semana, nada me garante que não tivesse chegada há mais tempo. É por estas e outras que eu continuo a fazer compras via internet na Amazon. Na FNAC, não.
domingo, julho 06, 2008
A ignoranta
Lido no Público:
«"Só os ignorantes é que me chamam presidente [em vez de presidenta]. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta."
Pilar del Río, "Diário de Notícias", 06-07-2008»
Eu, ignorante, continuarei a chamar-lhe "presidente" (de quê, já agora?). A não ser que ela me deixe aplicar-lhe adjectivos como "contenta", "confianta", "granda", "importanta", e, sobretudo, "ignoranta". Porque eu sou muito democrático, e se ela quer arranjar forma feminina para um substantivo invariável, eu não vejo porque é que não se poderia então arranjar feminino para todos os substantivos e adjectivos invariáveis quanto ao género. Estas obsessões quanto ao género sempre me fizeram muita confusão.
sábado, julho 05, 2008
O machado
Tendo-me prometido, sob pena de abdicar da herança da minha biblioteca, que desta vez não faria xixi no chão, lá levei de novo a sobrinha Carolina, de quase 3 anos, à Bertrand de Torres Vedras. Perdão, à "uoja dos uivros". Nunca fiando, porém, antes de sairmos enfiei-a na sanita e de lá não saiu enquanto não fez a sua xixizada, perante o meu aplauso e entusiásticos "linda menina", que estes pequenos progressos têm de ser incentivados. Espero é que a miúda não venha a desenvolver, quando mais velhinha, nenhuma perversão por causa destes xixis aplaudidos e ovacionados. Depois do Poe e do Joyce, a minha irmã nunca me perdoaria. Mas dizia eu que lá a levei de novo à Bertrand de Torres Vedras. Francamente preferia ter ficado a fazer levantamento de sobrinhos em casa (*), pois nem estava, para escândalo da Carolina, calçado nem decentemente vestido. Mas que fazer diante dos imperativamente escandidos "que-ro ir à uo-ja dos ui-vros" acompanhados de categóricos franzir de sobrancelhas e furiosos enrugar de lábios? Lá me arrastei até ao carro e fiz os 5 minutos de viagem com o José Barata Moura a dar a papa à Joana no leitor de CDs (a alternativa é cantar eu o Avô Cantigas ou a Floribella brasileira). Depois entrámos, eu timidamente, a ver se alguém me apontava o dedo e me rosnava "lá está o da menina que fez xixi no chão", ela gritando de alegria - e isto compensa tudo. A visita foi, porém, rápida. Atraída talvez pelo verde vivo da capa (eu bem tento instruí-la nas virtudes do verde e dos leões e das camisolas às riscas horizontais), a Carolina parou ainda antes de chegar à secção infantil, e pegou no Crime e Castigo. Aliviado embora por não ter sido o livro das dietas da Oprah, que ameaçava mesmo ao lado, qual Adamastor de papel, imediatamente lho tirei das mãos, peguei nela e saí, sussurrando-lhe ao ouvido "o Ródia é um menino feio! A Carolina nunca vai namorar com meninos feios que matam velhotas à machadada". Ela disse que sim, eu fiquei mais descansado, levei-a a ver as iguanas (perdão, os "uagartos") na loja de animais, e acabou-se a história.-----
Já tem largos meses, a foto; agora estão bastante maiores, e muito mais colófilos :|
A especificidade de um número de fax
Lê-se e não se acredita. A "especificidade do assunto" que coloquei foi o número de fax para onde enviar o pedido de cancelamento do serviço Sapo ADSL.
«Estimado Cliente,
Muito obrigado por nos ter contactado.
Dada a especificidade do assunto que nos coloca e para podermos dar seguimento ao seu pedido da melhor forma, agradecemos que nos contacte através da linha de apoio ao cliente 707 22 72 76[1], de segunda a sexta-feira, entre as 9h00 e as 22h00.
Com os melhores cumprimentos,
Paula Dias
Apoio ao Cliente»
A minha resposta:
«Caros senhores
É por essas e outras que da vossa empresa quero distância o mais depressa possível. Não consigo entender, por mais voltas que dê à cabeça, a especificidade da informação sobre um simples número de fax. Já perdi muito tempo na vossa linha de apoio ao cliente, onde, após muita conversa fiada, lá me foi dado de má vontade o número, que infelizmente perdi. Seria pedir muito que me dessem de novo por email? Não acredito que não o saibam. São só nove números.
Sem mais
André Simões»
Apoio ao Cliente»
A minha resposta:
«Caros senhores
É por essas e outras que da vossa empresa quero distância o mais depressa possível. Não consigo entender, por mais voltas que dê à cabeça, a especificidade da informação sobre um simples número de fax. Já perdi muito tempo na vossa linha de apoio ao cliente, onde, após muita conversa fiada, lá me foi dado de má vontade o número, que infelizmente perdi. Seria pedir muito que me dessem de novo por email? Não acredito que não o saibam. São só nove números.
Sem mais
André Simões»
A base

«Mas elle queria dizer se o Carlinhos já entrava com o seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...
– Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de santa malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo... Não admitte, acha que é antigo... Elle, antigo é...
– Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei que é o seu fraco, e deixe lá o latim...
O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons pedaços de ave, ia murmurando:
– Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é a basesinha!»
Eça de Queirós, Os Maias
sexta-feira, julho 04, 2008
Tanga

Voltou o discurso da tanga. E com ele a cara de pau da dama de pau. É espantoso como uma mulher que foi, como ministra de estado e das finanças, o rosto mais eminente de um dos piores governos das últimas décadas, marcado por um dramático recuo nas condições de vida das população, que em parte ainda estamos a pagar, por um total desprezo pelos mais necessitados, pela indiferença pelos graves problemas sociais criados, pela degradação da nossa economia, pelo disparar do desemprego, de que ainda estamos a vamos continuar a sofrer as consequências, é espantoso como uma mulher destas vem agora dizer que não há dinheiro para nada e que quer maioria absoluta nas próximas eleições. Uma mulher que, recordemos, não só não conseguiu conter o défice orçamental (disfarçado por medidas extraordináras e desorçamentações) como também o agravou, obrigando às políticas de contenção a que o actual governo tem sido forçado. É preciso ter lata. E muita cara de pau.
quinta-feira, junho 26, 2008
A dama de pau
Há quem chame a Manuela Ferreira Leite "dama de ferro". Injustamente. É que uma mulher que, enquanto foi ministra, demonstrou e assumiu um total desprezo pelos mais necessitados, congelando salários e proibindo renovação de contratos, entre outras malfeitorias; uma mulher que transformou uma crise orçamental numa profunda crise económica, com as suas medidas "estúpidas" (palavras da própria), de que ainda não saimos, e deixando o défice orçamental muito acima do que encontrou; uma mulher que tentou (não passou de intenções) controlar o défice com medidas extraordinárias, aumentando ao mesmo tempo a despesa pública - uma mulher dessas quando vem agora armar-se em paladina dos pobres e dizer que o que tem de se cortar (mais?!) é a despesa, uma mulher destas não é de ferro. É de pau. Como a sua cara. De pau.quarta-feira, junho 25, 2008
Xixis
Enquanto fazia xixi pernas abaixo na secção infantil da Bertrand de Torres Vedras, a minha sobrinha Carolina (a caminho dos 3 anos) manifestou hoje a sua independência em relação aos grandes grupos editoriais. Depois de bem espalhado o seu protesto na carpete, olhou para mim como se à espera de que a apoiasse, no mínimo com comportamento idêntico. Mas eu sou um vendido, e portanto peguei nela ao colo, pedindo entre dentes aos meus santinhos ateus que ninguém reparasse na conspícua poça indignada, rosnei um "amanhã no mesmo sítio à mesma hora" apressado ao Philip Roth que ando a namorar, cuspi sorrisos subservientes aos empregados, e saí, embebido em xixi contestatário, a correr em direcção ao fraldário.terça-feira, junho 24, 2008
Sit terra tibi leuis
Conta o Público que um guarda israelita se suicidou quando Sarkozy e a sua mulher subiam para o avião, depois de uma visita a Israel. Eu também não sei se me aguentaria, depois de aturar o casal mais piroso e insuportável da política internacional.
domingo, junho 22, 2008
ما شاء الله
Ouço e leio intervenções públicas do sr. Cavaco desde 1985, e ainda ando em tratamento psiquiátrico por causa disso, mas não queria deixar de assinalar as palavras que lhe li hoje. É que é a primeira vez em 23 anos que concordo com ele ponto por ponto, letra por letra. Nestes tempos de ignorância e caça às bruxas (já faltou mais para as fogueiras) é sempre bom ler palavras lúcidas e inteligentes, mesmo vindas de quem vêm.sábado, junho 21, 2008
Ensaio sobre a incompetência

Quanto pensava que já tinha visto de tudo no que respeita à inventiva de alguns tradutores portugueses, eis que me deparo com esta pérola que é o título "Ensaio sobre o ciúme" para a espantosa "Sonata Kreutzer", de Lev Tolstói (rebaptizado Leon, nesta tradução...). A coisa é editada pela "Coisas de Ler", e não vi quem traduzia.
A obra, recorde-se, é intitulada "Крейцерова соната" (Kreitserova sonata), no original russo. Não há dúvidas, não há ambiguidades. "Sonata Kreutzer". Limpinho. Apesar disso, o(a) tradutor(a) resolveu ignorar o título original e pelo qual é conhecida em todo o mundo, e inventou um "Ensaio sobre o ciúme" que é a sua interpretação pessoal do conteúdo da obra. Eu gostava de saber o que acharia o(a) tradutor(a) se, seguindo o seu exemplo, aparecesse agora uma tradução francesa de "Os Maias" intitulada "Essai sur l'Inceste". Absurdo, não? Idiota, não? Não menos do que chamar à fabulosa "Sonata Kreutzer" "Ensaio sobre o ciúme".
Há outro pormenor significativo e revelador do calibre desta edição: na ficha técnica, diz-se que o título original é "The Kreutzer sonata". Das duas uma, ou foi descoberta alguma versão inglesa escrita pelo próprio punho de Tolstói, ou então trata-se de uma pateta (mais do que patética) confissão do tradutor e/ou do editor de que, ao contrário do que manda o bom senso, a qualidade e o respeito pelos leitores, esta tradução é em segunda mão. Se uma tradução é, à partida, uma versão imperfeita do original, uma tradução de uma tradução é como uma fotocópia de uma fotocópia: acentuam-se os inevitáveis erros, afasta-se irremediavelmente do original.
Não desespere, porém, quem ainda não leu esta obra extraordinária, e, como eu, tem a desdita de não saber russo. Além de traduções inglesas de grande qualidade e quase de graça, feitas sobre o original russo e respeitando-lhe o título, há a tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, obviamente directa do russo, na Relógio d'Água. Parece-me já ter visto por aí uma tradução do António Pescada, mas não posso garantir. A Guimarães também tem uma tradução respeitando o título, talvez seja a do Pescada.
Desorientações
Enquanto beberricava ontem o meu chá matinal, no café aqui do prédio, deixei cair inadvertidamente os olhos sobre a manchete do Correio da Manhã. Escarrapachava que as "visitas íntimas" homossexuais passariam a ser permitidas nas prisões portuguesas. A ILGA veio logo toda contente aprovar a medida. Eu também aprovo, como é evidente. Mas não deixo de lamentar que tenha de haver uma lei para isto. Numa sociedade normal a lei das "visítas íntimas" não teria de explicitar a orientação sexual das pessoas. O problema parte daí. Se não o fizesse, não seria necessário vir esta nova legislação. Mas nós ainda vivemos, infelizmente, numa sociedade obcecada pela orientação sexual. E isto tanto é válido para os legisladores como as as associações do género da ILGA.
A notícia vem referida também no Público.
A notícia vem referida também no Público.
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