terça-feira, março 24, 2009

Asma nas teclas



Quando me diagnosticou asma, a alergologista pediu-me que fizesse uma série de exames. Um deles media a minha capacidade respiratória. Quando lho entreguei, despejou o nariz na papelada e regougou se por acaso sentia dificuldades respiratórias. Respondi-lhe que não, que sempre tinha respirado bem. Alvejou-me com um dos olhos, e berrou triunfante que eu sempre tinha tido problemas respiratórios, mas que como não tinha uma referência de comparação, achava que respirava bem. Era como se sempre tivesse visto o mundo a 2 dimensões e alguém me tentasse explicar como é o mundo a 3 dimensões. Apenas poderia fazer uma pequeníssima ideia.

Vem isto a propósito de mais uma aventura a utilizar um computador com Windows. Familiares e amigos não conseguem compreender porque é que bufo, resmungo, suo e às vezes até grito quando tenho de ser submetido a tal prova. Aos meus desesperados "esta merda nunca mais abre" respondem com "mas até está a abrir depressa" perplexos. Quando ao fim de 10 segundos de espera para encerrar o computador me impaciento, não conseguem entender o meu bufar irado. Se um programa deixa de responder e rebenta, parece-lhes tão natural como lavar os dentes ao deitar, e não concebem a razão do meu espanto e revolta.

No fundo é como eu com a minha asma: não tendo ponto de referência, achei sempre que respirava tão bem como um atleta de alta competição, e no fim tinha pouco mais do que a capacidade respiratória de um velho de 90 anos.

Lembrei-me de novo de tudo isto quando tentava em desespero consultar o meu email, no Windows da minha irmã. Ao fim de várias tentativas e murros furibundos no teclado consegui, não sem antes ter sido forçado a reiniciar o Firefox e o IE duas ou três vezes. Eu estou habituado, no meu Linux, a carregar no ícone do Firefox e ele abrir sem que eu tenha tido tempo de largar o rato. Depois de conseguir por fim que o IE estabilizasse, abri o Blogger para começar a escrever esta entrada. Desisti a meio da segunda linha, exasperado com o rosnar constante do disco, com o folclore das luzinhas de actividade a cegar-me, com o cursor a bloquear regularmente durante alguns segundos. Carreguei então várias vezes na cruzinha para fechar a janela e bater com a porta do escritório da mana. Quando por fim o sistema se dignou obedecer-me, fui mastigar o bolo de anos do meu cunhado e ruminar irritações.

Agora, já no meu Linux, tudo obedece, em fracções de segundo. As luzinhas de actividade estão numa modorra imperturbável. O cursor não pára. O Firefox abriu tão depressa que quase podia jurar que ainda antes de clicar já estava aberto. E não consigo entender (e juro que me esforço) como é que há quem ainda prefira sistemas operativos caros ou pirateados, e que demoram o triplo, às vezes o quíntuplo, do tempo a fazer as mesmas coisas. Nem sempre com a mesma eficiência.

A minha mãe, que vai a caminho dos 63 anos, era uma dessas pessoas. Encarava os vírus, os programas bloqueados e a rebentarem sem explicação aparente, a lentidão exasperante, a gordura mastodôntica, encarava tudo isso com a mesma naturalidade com que sorve o seu chá nocturno. Um dia, e sem explicação (como é de regra), o seu Windows deixou de funcionar. Propus-lhe instalar um sistema Linux, até encontrar alguém que pudesse instalar-lhe mais um Windows. Cairam-lhe os olhos no chão de susto e bateu no peito em aflição: e o meu messenger? E o meu office? E o meu desktop?

Já se passaram vários meses. Usa o Pidgin, que faz basicamente o mesmo que o Messenger e usa a mesma lista de contactos, mas é menos pesado; o office é agora o OpenOffice, que faz a mesma coisa que o da Microsoft, mas é gratuito; o Firefox é o mesmo que já usava em Windows; o desktop, sendo diferente, faz a mesma coisa, e é mais intuitivo e configurável. Nunca mais me falou em querer o Windows de volta. E aposto que mais dia menos dia também ela bufará quando sofrer o suplício de ter de usar um sistema Windows.

Beati pauperes spiritu

Contei oito alminhas de cartazes em punho e megafone na mão à porta da ES Madeira Torres (Torres Vedras) esta manhã. As palavras de ordem eram as do costume (não às aulas de substituição, não ao regime de faltas, etc.). Depois fiquei muito deprimido. Ainda estou para perceber se por causa da indigência argumentativa e do ridículo das reivindicações daquela meia dúzia, se pela apatia generalizada dos estudantes portugueses, longe dos dias em que enchiam ruas, independentemente da justiça das causas, e eram atacados à bastonada e com cães açulados pelo actual Presidente da República.

sábado, março 07, 2009

A lapa

Quem está mal muda-se, sempre ouvi dizer. Mas o Sr. Alegre, que há muito se sente mal no PS, não se muda nem sai. Não vota com o partido de que é deputado, juntando-se à oposição, mas não se muda nem sai. Não apoia o governo que é suportado no parlamento pelo partido de que é deputado, mas não se muda nem sai. Não se candidata à liderança do partido de que é deputado e contra quem vota, mas não se muda nem sai. Não vai ao congresso do partido de que é deputado e contra cuja liderança está, mas não sai. Agora diz que, se pudesse, se candidataria contra o partido de que é deputado, cuja liderança não disputou e a cujo congresso não foi para expor as suas ideias. Mas não se muda. Nem sai.

É como uma lapa chata, agarrada à rocha do seu lugarzinho de deputado, pelo partido pelo qual foi eleito, mas contra o qual queria concorrer. E tem todo o direito de querer, deixemo-lo bem claro. O que não se percebe é porque raio se mantém deputado e filiado no partido contra o qual vota no parlamento, ao lado da oposição, a cujo congresso, onde poderia expor e discutir as suas ideias, se baldou, e contra o qual diz que se pudesse se candidatava.

Helena Roseta, que é uma grande mulher, ao menos levou a sua divergência às últimas consequências, saindo (infelizmente) do partido assim que se sentiu a mais. É que quando se é uma figura de relevo num partido e se está em rota de colisão com a direcção só há duas coisas a fazer: apresentar uma candidatura alternativa, ou sair. Roseta optou pela última solução. Alegre preferiu ficar sem ficar. Não apresentou candidatura alternativa - nem sequer foi a congresso - nem saiu. E é por isso que eu, eleitor socialista, até votaria em Helena Roseta, se se apresentasse como candidata presidencial. Mas em Alegre, em quem nas últimas eleições presidenciais até me senti tentado a votar, agora nem morto, nem com uma mola no nariz. Antes votar em branco (Cavaco nem que viesse deusnossenhor pedir pelamordedeus). É que eu não gosto de lapas.

quarta-feira, março 04, 2009

Da gorduranga

Por mais que que se invista em campanhas de prevenção da obesidade, doenças cardiovasculares, oncológicas e outras, será sempre dinheiro e latim mal gasto, enquanto as cantinas e bares de instituições públicas continuarem a servir apenas bifes a boiar em molhanga gordurosa, bacalhauzadas afogadas em natas, gordura de porco com lascas de carne agarrada e outras armas biológicas de destruição em massa. Nos bares da Faculdade de Letras da UL, por exemplo, a única hipótese para escapar aos instintos assassinos dos responsáveis pelas ementas dos vários bares é pedir para se grelhar um bife (e esperar um bom bocado...), ou então fazer como eu, e pedir um pratinho de arroz branco, uma salada que não esteja infectada com maionese, uma sopinha, e passar fome o resto da tarde.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

O anormal

Na sequência do chorrilho de asneiras que regurgitou na Figueira, o cardeal Saraiva Martins garantiu que os homossexuais não são normais. Tem todo o direito a pensar dessa forma, afinal a liberdade de pensamento é um direito. E por isso eu também tenho o direito de pensar que quem abdica da sua sexualidade para se dedicar à religião não é normal.

César

Ouço na RTP-N o cardeal Saraiva dizer, entre outras cavalidades e aleivosias, que o Estado devia permitir que a Igreja colaborasse na elaboração das suas leis. Pois eu acho que a Igreja devia permitir que o Estado colaborasse na elaboração dos seus cânones. Que tal, senhor cardeal?

sábado, fevereiro 14, 2009

Mumtaz

Embora os meus conhecimentos de Árabe sejam ainda incipientes, já me começa a ser possível confirmar o que alguns árabes há muito me diziam: nas reportagens feitas pelas canais noticiosos ocidentais nas ruas da Palestina, Iraque e outras paragens, às vezes o que de facto é dito e o que depois aparece nas legendas não tem qualquer relação. Há pouco ouvia uma assustadora reportagem sobre os meandros da Jihad Islâmica na Palestina, e, entre outras coisas, apanhei um "mumtaz" ("excelente") traduzido como "continua", ou um "yahûd" (judeus) traduzido como Israelitas. São pormenores sem grande importância, e o segundo exemplo até é comum na nossa comunicação social. Mas todos sabemos a importância dos pormenores e das pequenas alterações de sentido no contexto dos conflitos internacionais. E, repito, o meu Árabe ainda é incipiente, e não me permite perceber mais alterações deste género ou piores.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Acabar bem o dia . 05


Claudio Monteverdi (1567-1643), Il Lamento della Ninfa
Hespèrion XX, Jordi Savall


Ilustração: Francesco Albani - Adónis levado a Vénus por Cupidos (pormenor)

Ter ouvido isto, já lá vão uns 15 anos, ao vivo, com estes mesmos intérpretes, na Academia das Ciências de Lisboa mudou a forma como encarava a música de Monteverdi.

domingo, janeiro 25, 2009

Le con c'est moi

«A trigueirinha estudou a sua lição, e o Rei ajudou-lhe a pronunciar os ditongos. Sua Majestade sabia regularmente a língua francesa e espanhola. A italiana ensinou-lha, vinte anos depois, a actriz Petronilla, a quem deu presentes que carregaram trinta cavalgaduras quando a cantora se fez na volta de Espanha, diz o Cavalheiro de Oliveira. D. António Caetano de Sousa, na História Genealógica da Casa Real, tom. VIII, pág. 4, diz que o Rei sabia também latim com perfeita inteligência. De um sujeito que lia Horácio e Cícero, dizia Bocage: "Pena é que saiba latim, pois perdeu-se um parvo grande!" D. João V, ainda com latim, não era parvo pequeno nem perdido.»


Camilo Castelo Branco, A Caveira da Mártir, Obras Completas, Vol. VII, Lello, Porto, 1987, p. 1042

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Acabar bem o dia . 04


Ouvir música aqui

Cristóbal de Morales (1500-1553), Parce mihi Domine
The Hilliard Ensemble

Ouvir música aqui

Ilustração: Francisco de Zurbarán - Imaculada Conceição

Ora sirva-se lá deste presuntinho assado


De uma coisa não podem ser acusados os Inquisidores, nos tenebrosos anos de Seiscentos em Portugal: de falta de sentido de humor. Veja-se, por exemplo, a finíssima chalaça com que Frei Manuel dos Anjos nos presenteia logo na abertura do sermão que pregou num auto de fé em Évora, em 21 de Junho de 1615, diante dos condenados a serem queimados vivos:
E vem muito a proposito neste sancto Auto da fee este thema com o Euangelho que nesta Dominga representa a sancta Madre igreja, a qual nos propoem hũa Cea parabolica, pera a qual o verdadeiro Messias CHRISTO IESV conuida esta gente Iudayca, a si antes de se fazer homem, como depois, conuidandoos (& este sera o Sermão) com mimos, & regalos sua diuina Misericordia, & a diuina sabedoria com outro prato de explicação das scripturas que mostrão como o Messias he vindo (...).

Cota da Biblioteca Nacional: R. 21793//24 P

quarta-feira, janeiro 07, 2009

من أرهابي؟ . 03


Os terroristas israelitas bombardearam uma escola da ONU cheia de refugiados, sobretudo mulheres e crianças. Pelo menos 40 mortos.

Os defensores da barbárie apressam-se a rosnar que o Hamas usa instalações civis. Ainda que use - ainda não vi provas disso, mas ainda que use: desvaloriza-se a vida de inocentes, descarta-se deliberadamente a vida de crianças, consideram-se dispensáveis as vidas de civis inocentes com o objectivo de atingir eventuais bases inimigas, de que nem se tem a certeza que lá estejam? Ataca-se uma escola, um hospital, uma mesquita, sabendo que de certeza vão morrer inocentes, crianças incluídas, sem se ter a certeza (e mesmo que se tivesse!) de que se atinjam inimigos? Ou será que para Israel são todos inimigos?

Atingir alvos civis deliberadamente tem um nome: terrorismo. E é o que Israel se tornou: um estado terrorista. E impune, violando sistematicamente os mais elementares direitos humanos, cometendo os mais atrozes crimes de guerra, desprezando e contrariando todas as decisões da ONU em relação aos territórios ocupados.

Não vejo nenhuma diferença entre o fanático terrorista que se faz explodir num autocarro matando dezenas de inocentes e o exército de um estado que massacra deliberadamente dezenas de inocentes refugiados em escolas e mesquitas.

Afinal quem é o terrorista?
من أرهابي؟

Há ainda uma coisa que Israel parece ainda não ter aprendido: estas actividades, além de terrorismo puro, de selvajaria do mais animalesmo, são contraproducentes: tal como os ataques terroristas ao Líbano em 2006, que fortaleceram o Hizbullah e o conseguiram pela primeira vez tornar popular e apoiado entre as comunidades cristãs e muçulmanos sunitas (antes dos ataques o Hizbullah era sobretudo popular entre a minoria xiita), cada ataque a Gaza, cada morto, cada ferido significa um acréscimo de apoio popular ao Hamas e mais um potencial punhado de bombistas suicidas.
Link

Manifestação contra os ataques terroristas israelitas


Recebido por mail:

No momento em que festejamos a passagem de ano com fogos de artifício na cidade de Lisboa, o povo de Gaza vive sob o fogo real da artilharia e da aviação israelita. Nos primeiros dez minutos da ofensiva morreram mais de 200 pessoas e ficaram feridas ou estropiadas mais de 600. Alegadamente, tudo isto era resposta "proporcional" aos morteiros artesanais palestinianos, que em 7 anos mataram 20 israelitas. Na verdade, o bombardeamento israelita é um novo passo na destruição do povo palestiniano: neste momento já há outras tantas centenas de mortos e milhares de feridos; prosseguem os ataques a uma população que não tem para onde fugir nem como se defender, já que a Faixa de Gaza tem vivido sob um bloqueio que priva os seus habitantes de água potável, de energia, de alimentos, de medicamentos. O cessar-fogo que os EUA, a UE e a ONU exigem aos palestinianos seria, nessas condições, a morte lenta para um povo cercado. Se alguém aqui está a defender-se, são os palestinianos de Gaza, que elegeram democraticamente o seu governo e a quem o Estado de Israel tem invadido, ocupado e roubado as terras, as propriedades e as casas. Não vamos calar-nos diante dos crimes de guerra e do abuso de força. Apelamos à participação de todos e todas nas acções que estão a ser preparadas por várias organizações em Lisboa:

5 de Janeiro a partir das 18h

no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância
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8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na colonizada Rua António Enes, no 16, a S. Sebastião

Esta última iniciativa é apoiada por: Associação Abril - Bloco de Esquerda - CGTP - Colectivo Abu-Jamal - Colectivo Revista Rubra - Comité de Solidariedade com a Palestina - CPPC - Fórum pela Paz - MDM - Monthly Review - MPPM - Plataforma Guetto - Política Operária - Shift - SOS Racismo - SPGL - Tribunal do Iraque

terça-feira, janeiro 06, 2009

AVC informático


O meu PC teve um AVC! Felizmente nada de grave, que isto é Linux, e portanto tudo se resolve sem reinstalações nem formatações.

domingo, janeiro 04, 2009

Da ignorância . 01


Vomitando ódio, preconceito e ignorância, via-se há dias nas notícias um israelita dizendo que se deviam exterminar todos os árabes (1). Com medo de que o seu ódio bíblico não ficasse claro, ele enumerava: Hamas, Hizbu Allah (2), e Taliban.

Além dos evidentes ódio e preconceito, há aqui também uma profunda e assustadora ignorância, a habitual confusão entre árabes e muçulmanos. É que como qualquer pessoa informada sabe, uma coisa não é sinónimo da outra. De resto, dentro do mundo muçulmano os árabes são uma minoria, abafados pelos povos do sudeste asiático e do mundo indo-iraniano, onde se incluem os "taliban", que, como qualquer criança de 6 anos sabe, não são árabes. Ao querer exterminar os árabes, aquele israelita pretendia exterminar, portanto, uma etnia, o que tem um nome técnico: genocídio, ou, na terminologia política do pós-guerra, holocausto.

Mas detenhamo-nos um pouco mais na confusão entre árabes e muçulmanos. Como é evidente para qualquer pessoa que leia jornais e livros, ser árabe não implica ser muçulmano. O Ocidente, habituado a séculos de intolerância para as outras religiões, não consegue compreender isto, mas há na generalidade dos países muçulmanos, e portanto também nos árabes, importantes minorias religiosas, nomeadamente cristãos. No Líbano quase metade da população é cristã; no Iraque a minoria cristã, activa apoiante de Saddam, é tão importante que até tinha um dos seus como braço direito do ditador: Tariq Aziz; no Egipto a comunidade cristã é de cerca de 15%; na Síria de cerca de 15%; na Jordânia de cerca de 7%; na Palestina o número é significativo, embora não tenha à mão dados percentuais. E se incluir nesta lista os malteses, que falam uma língua arábica, que não está mais distante do árabe padrão moderno (que ninguém fala como língua materna) do que os chamados dialectos árabes que são as verdadeiras línguas maternas dos países árabes, então teríamos aqui uma comunidade árabe de esmagadora maioria cristã. Mas como a inclusão dos malteses nesta lista, embora legítima, feriria as consciências daqueles menos entendidos em linguística, ficam de fora.

E já nem vou falar das importantes comunidades judaicas marroquinas, de onde saiu, por exemplo, um dos últimos líderes do Partido Trabalhista de Israel, Amir Peretz (nome árabe, Amir), e que este israelita também pretendia exterminar (são árabes, ergo...).

Portanto, ao querer exterminar todos os árabes, aquele israelita pretendia indiscriminadamente exterminar o muçulmano de Bagdade, o cristão de Beirute, o judeu de Casablanca, já sem falar dos ateus. É, portanto, um ódio étnico. E isto tem, como já disse, um nome: genocídio.

Se achar que todos os árabes são muçulmanos é, como se vê, um erro crasso, achar que todos os muçulmanos são árabes é ainda mais estúpido, tendo em conta que a grande maioria dos muçulmanos não é etnicamente árabe. Aquele israelita enfiava no saco árabe os taliban afegãos, erro muito comum mas absurdo e revelador de um desconhecimento atroz. Os afegãos são maioritariamente indo-europeus, do grupo indo-iraniano. Isto é, falam uma língua (o pastó) que partilha com o português e a quase totalidade das línguas europeias uma origem e características comuns. Em poucas palavras, e para os leigos em linguística histórica, o pastó afegão (3) são línguas aparentadas com o português, sem qualquer relação com o árabe (4). De resto há mais semelhanças entre o português e a língua dos taliban do que entre o português e o finlandês, língua não indo-europeia.

Mas que interessa isto ao igorante israelita da reportagem e a tantos outros ignorantes? O ódio é por definição ignorante, e quem odeia daquela maneira não terá nunca capacidade para entender qualquer noção ou explicação acima do nível intelectual de um chimpanzé amestrado.


Nota final: a designação "árabe" é, como se sabe, difícil e controversa. Não é simples definir o que é um árabe. A generalidade dos estudiosos aponta para uma solução de compromisso, que define como árabe aquele que usa a língua árabe e defende a cultura árabe. O que implica outras questões, como a dos dialectos árabes e de definir o que é cultura árabe. Eu gosto de apontar para uma definição mais simples, embora menos precisa, e que considera árabe aquele que usa no dia a dia a língua árabe e seus dialectos, e nasceu ou vive num país de língua oficial árabe.

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(1) "Endlösung", chamava-lhe Hitler
(2) Esta é a transcrição correcta, a forma "Hezbollah" é uma aproximação fonética de "hizbu l-lah", que é a forma como se pronuncia.
(3) Bem como o persa iraniano ou o urdu paquistanês, entre outros.
(4) Tirando alguns empréstimos, tal como o português tem muitos.

sábado, janeiro 03, 2009

Acabar bem o dia . 04



Cristóbal de Morales (1500-1553), Emendemus in melius
Gabrieli Consort, Paul McCreesh


A missa é toda ela extraordinária, e a interpretação de Paul McCreesh é excelente. Mas este motete final continua a arrepiar-me sempre que o ouço. O CD pode ser adquirido aqui.

Ouvir música aqui

Ilustração: Pedro de Campaña

Acabar bem o dia . 03

Ouvir música aqui



Tomás Luis de Victoria (1548-1611), Taedet animam meam
Gabrieli Consort, Paul McCreesh

Ilustração: El Greco - Maria Madalena em penitência

Futebol

Árbitros 1

A Liga Sagres está à procura de meninas giras (a expressão é deles) para acompanhar os árbitros no início de cada jogo. Não percebo porque se dão a tanto trabalho. Podiam muito bem ter pedido assistência técnica ao Pinto da Costa e restante aparelho portista: é verdade que são mais peritos em meninas para acompanhar os árbitros depois dos jogos, mas, até vendo pelo ar ordinarote e seminu das meninas que aparecem na página, deve ser mais ou menos a mesma coisa.

Árbitros 2

Depois da choradeira das virgens ofendidas após terem sido alegadamente prejudicadas a sério pela primeira vez nesta época, o sócio benfiquista Pedro Henriques foi avaliado negativamente. Esta é uma lição que o Sporting deveria ter em conta: talvez compense vir para os "média" (*) choramingar e chantagear emocionalmente, como fez o galinhame, em vez de amochar de bico calado os sucessivos e bem mais escandalosos roubos, jornada após jornada.


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(*) é uma palavra latina no plural, não inglesa, e portanto não faz qualquer sentido ser pronunciada à inglesa, mas à latina: "média".

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Começar bem o dia . 06


Hildegardis Bingensis (1098 - 1179), O Euchari
Gothic Voices, Emma Kirkby
Christopher Page

Música aqui.

Prefiro as interpretações da Sequentia ou do Organum, mas esta é também muitíssimo boa.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Começar bem o dia . 05 . Começar bem o ano


Martín y Coll (c. 1660-1734), Diferencias sobre las folías
Hespèrion XXI, Jordi Savall


P.S.: a Ariana Savall está igual à mãe!

Cacofonias


Se um dia me dissessem que um "cover" das Doce seria muito pior do que o original, eu diria que tal seria impossível. Até ouvir a lamentável versão do "Bem bom" pelo Rui Reininho.

Acabar bem o dia . 02 . Começar bem o ano


Jordi Savall e Hespèrion XXI, variações sobre uma "folia" quatrocentista

terça-feira, dezembro 30, 2008

Começar bem o dia . 04

Pergolesi (1710-1736), Stabat Mater (1ª secção)
Andreas Scholl, Barbara Bonney
Les Talents Lyriques, Christophe Rousset



Música aqui.

Ilustração: Franz Christoph Janneck.

Hosanna in excelsis

O mesmo Manuel (2 anos) que me massacra com sessões contínuas de Avô Cantigas e coisas do género, ontem abriu um berreiro no carro quando tive a peregrina ideia de desligar o rádio onde tocava o "Hosanna" da Missa em Si Menor de Bach. Perante a choradeira pontuada de "liga, liga", acabei por ligar de novo o rádio, e ele lá se acalmou e silenciou. Como o Manuel não é mais inteligente nem culto do que a média das crianças de 2 anos, isto demonstra de novo que a exposição a música de qualidade cria apreciadores. E quem fala de música pode falar de literatura e de televisão, contrariando o sempre duvidoso argumento de que as TV generalistas passam merda (não posso fugir à pçalavra) porque é disso que as pessoas gostam.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Então porque é que não votaram contra?

Ouvida a comunicação do Presidente da República sobre o já insuportável Estatuto dos Açores, o PSD, pela boca do seu líder parlamentar, apressa-se a dar razão ao sr. Cavaco, lamentando que o PS tenha forçado este conflito. A isto chama-se hipocrisia e desonestidade. É que o PSD, como se sabe, votou favoravelmente o dito estatuto já depois de o sr. Cavaco o ter vetado pela primeira vez, e absteve-se agora, depois do segundo veto.

Se o PSD estava tão preocupado com o conflito e se achava (como disse Paulo Rangel) o Estatuto tão incorrecto que vai pedir a sua fiscalização sucessiva, então porque é que o votou duas vezes, ao lado do PS (e de todos os outros partidos), e agora se limitou a abster-se? Hipocrisia, desonestidade, eu diria mesmo ordinarice. E interesses partidários, como bem disse o sr. Cavaco na sua comunicação: o PSD nacional refém do PSD dos Açores.

Quanto ao Presidente, há uma frase que me fica: é quando diz que na actual conjuntura de crise não havia necessidade deste conflito. É verdade, não lembra a ninguém fazer uma birra destas, com direito a comunicação ao país, na actual conjuntura de crise.

Começar bem o dia . 03


J. S. Bach (1685 - 1750), Sonata para viola da gamba e cravo BWV 1027
(2º movimento)

Sonata completa (e mais algumas coisas) aqui.

Começar bem o dia . 02


Francisco Guerrero (1528 - 1599), Ave Virgo Sanctissima

A versão do Jordi Savall é, para mim, imbatível, mas esta é também muito boa.

domingo, dezembro 28, 2008

Da ecologia

Eu separo o lixo em casa, como qualquer pessoa responsável e civilizada que se preze. Mas os responsáveis pela colocação dos ecopontos em Torres Vedras não ajudam nada este meu civismo. Os "moloc" espalhados pela cidade há vários anos insistem em dificultar ao máximo a vida a quem em casa se dá ao trabalho de separar civilizadamente o lixo. Se com os "amarelos" não há problema, pois têm uma abertura normal que permite o despejo de forma eficiente e rápida, já com os "azuis" e "verdes" a coisa não é tão simples.

O moloc "azul", destinado aos papéis, desafia a paciência, já sem falar da destreza, de qualquer cidadão responsável. Num exercício de puro sadismo, os que o conceberam decidiram tapar a abertura, deixando apenas uma fresta, o que obriga o cidadão educado a perder algum do seu tempo retirando quase um a um os papéis que civilizadamente separou em casa, depositando-os com dificuldade na estreita ranhura. No caso do moloc perto do meu prédio o trabalho é ainda mais complicado pela inclinação do terreno, que obriga uma mão a segurar na tampa, enquanto a outra retira dificultosamente, um a um os papéis do saco que tem de ser espalmado entre a barriga e o moloc, pois não tive a fortuna de nascer com uma terceira mão que o segurasse, enquanto as outras duas laboram na ecológica tarefa da reciclagem. Há dias formava-se até uma fila de 3 pessoas esperando, ecológica e pacientemente, que um vizinho esvaziasse a custo o saco de papéis, uma mão a segurar a tampa, a outra a depositar a papelada, a barriga a segurar o saco, enquanto uma chuva de papéis caía do saco para o chão, perante o desespero do homem, que ainda não tem treino para os ir apanhando com um pé e repondo no saco com o outro. Lá chegaremos. Ao fim de alguns longos minutos chegou a minha reciclanda vez, e eu juro que já estou a ganhar calo na barriga de tanto a usar para segurar o saco.

O moloc "verde" destina-se aos vidros. Muito bem. O problema é que mesma mente de crueldade retorcida que concebeu o moloc supra descrito também trabalhou na concepção deste, e com inusitados requintes de malvadez: só é possível introduzir os vidros por uma mínima abertura circular, onde a custo cabe um punho fechado. Portanto, ao cidadão responsável que quiser lá prantar um vidro de uma moldura partida, um vidro de uma janela, eu sei lá, um garrafão mais largo, a esse cidadão reciclado só lhe restam duas alternativas: voltar a partir os ditos vidros em pedaços pequeninos e depois, arriscando a sua integridade física, com uma mão segurar a tampa do malfadado moloc, com a outra retirar e colocar um a um os pedaços de vidro, e com a barriga pressionar levemente o saco, arriscando ainda assim ser esventrado em nome da ecologia; ou então colocar a sua integridade física acima da nobre tarefa recicladora, mandar a ecologia às malvas, e entornar no moloc "preto" todos os vidros que não caibam no pequeno orifício do moloc "verde" sem terem de ser manuseados. Eu, como sou responsável, opto por uma terceira via: vou acumulando em casa vidros, até alguma alma caridosa decidir repor a abertura original no moloc "verde".

من إرهابي؟ - 02

O número de mortos motivados pelos ataques terroristas israelitas aumenta a cada dia que passa. E a comunidade internacional, tão lesta (e ainda bem) a condenar situações do mesmo género em outros pontos do globo, mantém-se calada, apenas com tímidas intervenções aqui e ali. Dos EUA, claro, nada se espera. Afinal o amigo israelita pode fazer tudo aquilo que criticam (por vezes militarmente...) a outros estados que de Israel só diferem numa coisa: não são amigos dos EUA.

Começar bem o dia . 01



Índios e cobois

Ressumando ódio, preconceito e iliteracia, um comentador deste blogue diz que a esquerda, onde me inclui (e onde de facto me incluo) defende o Hamas e os terroristas islâmicos - isto porque me insurgi contra a barbárie israelita nos territórios ocupados. Infelizmente não é o primeiro nem será o último sem a capacidade para discernir o mundo sem ser a preto e branco, sem o filtro texano dos índios e cobois. É que para mim, e em geral para os que denunciam as atrocidades israelitas, que viola impunemente várias resoluções da ONU e atropela os direitos humanos, estar contra o terrorismo de estado israelita não implica estar do lado do terrorismo de minorias palestinas - implica estar contra o terrorismo, contra os atropelos aos direitos humanos, contra a guerra, contra os ataques ao direito internacional. Estar contra um dos lados não implica estar a favor do outro. Ainda que isto seja claro para uma criança de 6 anos, nunca é supérfluo repeti-lo.

Por mais que possa parecer estranho a este comentador, é possível estar contra os dois lados. Pelo menos para quem já ultrapassou os vários estádios de desenvolvimento cognitivo da infância e adolescência.

sábado, dezembro 27, 2008

Tavares Rico


Passou várias vezes nos noticiários da RTP uma reportagem sobre os aumentos das reformas. Um senhor de ar aristocrático queixava-se de que a sua reforma não dava para nada, porque estava tudo muito caro, tinha acabado de pagar uma refeição num restaurante por 20€. Pois é, a frequentar restaurantes de luxo (pois em restaurantes normais uma refeição custa metade disso, se não meter vinhaças caras) não há mesmo reforma que aguente.

من إرهابي؟


Respondendo a mísseis disparados sobre Israel que não causaram qualquer vítima, os terroristas israelitas bombardearam Gaza, massacrando mais de 150 pessoas, civis e militares, incluindo numa escola (segundo a RTP, que não tem ainda disponível o vídeo). Vídeo SIC.

من إرهابي؟ (*)


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(*) man 'irhâbî? - "Quem é o terrorista?" Título de uma música da banda hip-hop palestina DAM, mal transcrita na generalidade dos vídeos do youtube consultados. A letra em inglês aqui.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Criminosos à solta

A RTP tem passado uma reportagem sobre controle de infracções na estrada, verdadeiro filme de terror bastante revelador do nosso povinho.

Um senhor pesaroso, depois de apanhado a mais de 160km/h na auto-estrada choraminga pedindo que não o considerem condutor irresponsável, pois até tem 2 crianças no carro. Ora bem. Tem duas crianças no carro e vai a mais de 160km/h. De facto não é irresponsável. É muito mais do que isso. É criminoso.

Outro senhor, apanhado a conduzir e a falar ao telemóvel, pede pelamordedeus para passarem a multa em nome da mulher (ausente), oferece um suborno ("e seu eu pagar um bocado a mais?"), e por fim chora a dizer que não pode ficar sem carta. Talvez tivesse sido melhor pensar nisso antes de colocar a sua vida e a dos outros em risco. O que eu admiro no meu disto tudo é a paciência da polícia perante a tentativa de suborno...

domingo, dezembro 21, 2008

Pelo amor da santa

Eu gosto de ver notícias, e por isso só tenho 2 verdadeiras alternativas: os noticiários da RTP e os da SIC Notícias. Os programas de variedades da SIC generalista e da TVI só com muito boa vontade cabem na categoria de noticiários. Hoje, enquanto jantava em casa da minha mãe, e porque ela não queria ver o jogo dos morcões na RTP, acabámos por ver as alegadas notícias da SIC generalista, que deram no intervalo dos anúncios. Ficámos assim a saber, entre outras parvoíces do mesmo calibre, que um panda foi operado a umas "grandes cataratas", que o batom vermelho está na moda, vimos uns putos a dançar uma dança dos anos 80 que, como são putos, pensam que é nova, vimos uns maduros a cantar karaoke numa consola de jogos, uma promoção a um filme, com entrevista a um camafeu de boca torta que alegadamente é muito sexy (a jornalista é que o disse), vimos o Herman José a armar-se em parvo, e depois mudámos de canal para ver notícias a sério.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Europa über Alles

Depois de ter ficado em 2º lugar no Europeu feminino de Corta-Mato, ouvi na RTP a Jéssica Augusto (*), a voz tremendo de evidente mau perder, temperada de mal disfarçada xenofobia, rosnar que tinha sido a melhor europeia, uma vez que a vencedora tinha nascido em África. Ficamos assim a saber que Jéssica Augusto desvaloriza igual e xenofobamente os resultados de compatriotas seus que, exactamente como Hilda Kibet, nasceram em África, tendo sido, nalguns casos já em adultos, naturalizados portugueses. Assim, para Jéssica Augusto os títulos e records europeus e mundias de Naide Gomes (nascida em São Tomé), Nélson Évora (Costa do Marfim) ou Obikwelu (Nigéria) não valem, pois nasceram em África, e o que vale são os nascidos na Europa que ficaram atrás deles.




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(*) Se não levar acento lê-se Jessíca. Este pessoal que nem o nome sabe escrever...

sábado, dezembro 13, 2008

A discoteca é definitivamente para ele

Ando a ouvir de novo isto no carro. O Manuel (2 anos) acompanha com "pum pum puns", sobretudo na excelente "Marche pour la cérémonie turque", e choraminga "põe a muxca" quando desligo. A Carolina (3 anos), pelo contrário, amua e quando lhe pergunto se gosta rosna "quero a Joana-come-a-papa".

Nisto o Manuel é como eu, a Carolina como a minha irmã. O engraçado é que, quando éramos pequenos, eu abominava as versões de clássicos para miúdos que a minha mãe nos comprava, enquanto a minha irmã adorava. Dá que pensar.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Auto, pois claro...

Eu tenho um dedinho que adivinha... Há dias disse aqui que me cheirava que a generalidade dos professores queria a vergonha que é uma avaliação faz de conta, sem consequências, formativa (como dizia uma senhora) ou do género da auto-avaliação que eu próprio tive de fazer quando fui professor do secundário e básico. Hoje leio no Público e ouço na TV que de facto as propostas dos sindicatos vão nesse sentido: auto-avaliação. Portanto, o que os sindicatos querem (e, presumo, a generalidade dos professores que andam em manifs) é aquela auto-avaliação à moda da que eu fazia: uma folhinha A4 onde dizia que durante aquele ano tinha feito um excelente trabalho, que tinha usado muitos recursos e muitas estratégias, que os alunos me veneravam e que eu os venerava, e adeus meus senhores que como ninguém vai ver se é verdade e isto não conta para nada eu também não me ralo muito. Ora bem. É este o ensino que querem?

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Vigaristas

Ouço na SIC-N, num daqueles programas em que os espectadores telefonam para dizer disparates e derramar populismos extremistas, um senhor culpar o "eterno estado de recessão" do país com os bancos. Acrescenta, a meio da conversa, que tinha um "gancho" por fora, não declarado. Além de aldrabão e burlão (aldraba e burla o Estado, ao não declarar impostos), não percebe que um dos nossos principais problemas é mesmo esse: os aldrabões que vigarizam o Estado - e todos nós - ao não declararem rendimentos. Enquanto mantivermos estes hábitos terceiro-mundistas o país não vai a lado nenhum.

Correio normal, por favor

Não percebo o que é que certas instituições têm contra os correios tradicionais, e as levam a usar serviços como a DHL e a UPS. Em 2006 fiz uma encomenda dos EUA, que ainda não recebi, enviada, sem o meu consentimento, via DHL. A única coisa que na verdade recebi foi um telefonema, largas semanas depois do envio, a dizer que a encomenda estava a chegar, e que teria de pagar uma pequena fortuna, se quisesse que ma entregassem em casa (80€). Ainda hoje estou à espera. Entretanto tenho recebido muitas encomendas dos EUA e Inglaterra, via correio tradicional, sem custos aberrantes, sem perdas, sem atrasos.

Vem isto a propósito de uma encomenda de que estou à espera da Biblioteca Apostolica Vaticana, que, sem o meu consentimento, decidiu enviar-ma via UPS. Mais de uma semana depois do envio, recebo finalmente um telefonema de um senhor a perguntar se hoje estaria em casa. E cá estou. A faltar a compromissos assumidos, preso em casa, porque não me sabem dizer sequer se vêm de manhã, se à tarde. Tenho recebido encomendas do Arquivo Secreto Vaticano, via correio normal, e que me chegam 2 ou 3 dias depois do envio, sem custos significativos, e independentemente de eu estar em casa ou não.

Não percebo, continuo sem perceber, o que leva instituições e empresas a usar estes serviços, que não são mais rápidos do que os correios normais, não são mais seguros do que os correios normais, e são muito, mesmo muito, mutíssimo mais caros do que os correios tradicionais.

terça-feira, dezembro 09, 2008

La cérémonie des Turcs

Começar bem o dia é ouvir e ver e recordar isto (via José Bandeira).

Não é só por isto, mas...


Anda tudo muito aflito com as dioxinas na carne de porco da Irlanda, e parece que nem as vacas escapam à crise. Quanto a mim, não estou muito preocupado. Como tenho alguma consciência e prezo a minha saúde, há muito tempo que não toco em carne de porco, a carne mais gorda, com menos proteínas e mais calórica do mercado. Quanto à de vaca, como-a, contrariado e obrigado, uma a duas vezes por mês, a mesma frequência com que como carne de aves. Faço-o contriado, porque não suporto carne, mas sei que tenho de a comer de vez em quando, porque é essencial à nossa dieta (por mais que digam os vegetarianos o contrário, sem qualquer base científica), e porque como faço ginásio não convém descurar as proteínas. Faço, portanto, uma alimentação à base de peixe e muitos vegetais. Não só por isso, mas também, perdi quase 40kg em pouco mais de 2 anos, e a cada avaliação física que faço os resultados são surpreendentemente bons para alguém a caminho dos 40. Mas isto sou eu, admito que quem gosta de enfardar nacos de gordura com carne de porco agarrada seja mais feliz. Durante menos tempo, mas mais feliz. O que é uma opção respeitável.

With a cherry on top

Nunca percebi as pessoas que afirmam gostar de estudar a ouvir música "clássica" (leia-se erudita). Eu estou há largos minutos numa luta de morte entre as variações Goldberg, em cravo, comme il faut, e gatafunhos diplomáticos vaticânicos de há 300 e tal anos. Impossível concentrar-me numa coisa só. Se alguém me explicar como se consegue não deixar o espírito saltar do estudo para a perfeição musical, eu agradeço.

sábado, dezembro 06, 2008

Avaliações

Não tenho opinião formada sobre a avaliação dos professores, porque não conheço bem a proposta do Governo. Como não gosto de dar opiniões sobre o que conheço mal, fico calado.

Digo apenas que me parece inconcebível que não haja avaliação, ou que ela se mantenha nos moldes antigos. Eu fui professor do ensino básico e secundário, antes de ser professor universitário, e sei como era feita a "avaliação": no fim de cada ano tínhamos de fazer um relatório de auto-avaliação, onde, como o nome indica, avaliávamos o nosso próprio desempenho, sem contraditório nem verificação da veracidade. Já pararam de rir? Eu ainda não.

Ontem lembrei-me disto, quando ouvi nas notícias uma professora, parece que representante sindical, a dizer que só admitia ser avaliada de forma formativa. Para quem não sabe o que é avaliação formativa, eu explico: trata-se de avaliação sem consequências, destinada apenas a auto-controle. Eu lembro-me da avaliação formativa quando era aluno. A gente não ligava muito, pois não contava para nota. É verdade que, quando me tornei professor, percebi que contava para a nota sim, embora de forma camuflada. Mas no caso da avaliação pretendida por esta senhora e tantos outros professores, isso não acontecerá, pois não implicaria progressão na carreira nem qualquer tipo de penalização.

É isto, pois, que esta senhora quer, e, pelo que tenho ouvido, é isto que a generalidade dos professores quer. Uma avaliação sem consequências. Uma avaliação faz-de-conta, que deixe tudo na mesma. Uma avaliação que não premeie os bons e que não penalize os maus.

Repito, não conheço o conteúdo da proposta governamental, por isso não me pronuncio sobre ela em concreto. Mas apoio, e veementemente, a existência de uma avaliação A SÉRIO dos professores, com consequências na progressão na carreira. Como é óbvio.



P.S: na faculdade temos um arremedo de avaliação sem quaisquer consequências. Distribuem-se uns inquéritos aos alunos, eles preenchem de forma anónima, e já está. A avaliação é feita em vários parâmetros, de 1 a 5. Eu tenho tido sempre uma média acima de 4,9. Isso não faz de mim um bom professor, nem estou convencido de que reflicta seriamente o meu trabalho. Reflecte, sim, a empatia que de facto tenho com os alunos, que me perdoam as minhas muitas falhas por causa dos disparates que lhes digo e que os fazem rir. Basta dizer que geralmente a minha classificação mais baixa é na pontualidade - quando eu entro na sala à hora marcada, e quem me conhece sabe que a minha obsessão pela pontualidade chega a ser patológica. Será esta a avaliação que os professores querem? Eu digo já que não é a que eu quero, e lamento que na faculdade onde lecciono não haja uma avaliação a sério e com consequências.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Mum-quê?

Tenho lido e ouvido na SIC-Notícias "Mumbai", referindo-se à cidade indiana conhecida há séculos em Portugal como Bombaim. Parece que a peregrina ideia partiu dos próprios indianos, que repudiam a forma tradicional nas línguas europeias. Eu gostava de saber como é que por lá se diz "Lisboa", para ver se são coerentes. Na SIC-N, porém, essa espantosa explicação parece ser desconhecida, pois os apresentadores falam da "antiga Bombaim, hoje Mumbai", como se tivesse havido um rebaptismo na língua local. Não houve, o nome da cidade é o mesmo há séculos. O que houve foi a paroleira de exigir que nas outras línguas se usasse uma transliteração da forma na língua local. Espero, repito, que os que o exigiram sejam coerentes e respeitem as formas vernáculas das cidades estrangeiras.

Se à paroleira dos governantes de Bombaim não podemos fazer nada, jà à SIC-N eu exijo que seja coerente, e que passe a usar o mesmo critério para todas as cidades que tenham, tal como Bombaim, formas consagradas há séculos em português. Para os ajudar, posso fazer uma listinha das cidades mais referidas nas notícias, pela ordem em que me for lembrando:

  • Londres terá de passar a ser London
  • Moscovo terá de passar a ser Moskva
  • Cairo terá de passar a ser al-Qahira
  • Bagdade terá de passar a ser Baaghdad
  • Atenas terá de passar a ser Athina ou Athinè
  • Viena terá de passar a ser Wien
  • Praga terá de passar a ser Praha
  • Belgrado terá de passar a ser Beograd
  • Argel terá de passar a ser al-Jazaa'ir
  • Saragoça terá de passar a ser Zaragoza
  • Varsóvia terá de passar a ser Warszawa
  • Trípoli terá de passar a ser Taraabulus
  • Damasco terá de passar a ser Dimashq
  • etc.
Porque se Bombaim passou a ser Mumbai, então porque raio não há-de a capital do ex-inimigo agora amigo Qadaafi ser chamada no seu nome local, Taraabulus? é até muito mais giro, sobretudo se se respeitar o "t" enfático.

terça-feira, novembro 25, 2008

cartaz

«Morto buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande exemplar temos entre mãos! Assim como a Madalena, cega de amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal, sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião, chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado, assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o via e lhe falava e não conhecia. Porquê? - Não só porque estava, senão porque ele era o encoberto
Sermão dos Bons Anos, IV

quarta-feira, novembro 19, 2008

Uma Manuela em cada esquina

Que Manuela Ferreira Leite tenha dito que se calhar mais valia uma ditadura ("sem democracia" quer dizer ditadura) durante 6 meses para pôr tudo na ordem já é lamentável, vergonhoso, escandaloso, e revelador da falta de cultura democrática que ainda perpassa largos sectores da direita portuguesa. Que o PSD venha agora torpemente tentar lançar areia para os olhos do pessoal, dizendo que a sua ditadorazeca se referia ironicamente ao governo - desculpa em que só acredita quem não tiver ouvido as horríveis palavras de Ferreira Leite - é um atentado à inteligência dos portugueses, para não dizer outra coisa.

Depois das lamentáveis afirmações xenófobas sobre ucranianos e caboverdianos, eis que Ferreira Leite continua a mostrar um populismo que até aos adversários supreende.

domingo, novembro 16, 2008

Palavra e Utopia

Por razões quase profissionais pus-me há dias a ver Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira. Faço já a minha profissão de fé quanto ao estilo de cinema que me agrada: gosto dos chamados "filmes de autor"; não me aborrecem nada os grandes planos de vários minutos, muito pelo contrário; prefiro filmes sem muito texto; não me interessa nada uma boa história, o que me interessa é a forma como ela é contada. Gosto (venero) de Abbas Kiarostami, Tarkóvski, Gus Van Sant.


Sinto-me portanto à vontade para dizer que não gosto do cinema de Manoel de Oliveira, sem me juntar ao coro das labregas que só querem é tiros e acção e histórias cor-de-rosa com finais felizes de preferência com lagriminha, já que deusnossenhor não lhes deu intelecto para mais. Não gosto do cinema de Manoel de Oliveira porque não é a minha estética.

Uma das coisas que me arrepia é a aparente (eu sei que é só aparente) ausência de trabalho de direcção de actores. No caso presente, o primeiro terço do filme chega a ser confrangedor, com cenas que parecem saídas de um mau teatro de província. O Ricardo Trepa que me perdoe, mas aquele Vieira jovem é aflitivo, e a coisa só não parece pior porque os amadores (são amadores, não são?) que com ele contracenam estão para além de qualquer adjectivo.

A coisa vai melhorando, a este nível, com o envelhecimento de Vieira, e a entrada do grande Luís Miguel Cintra - que ainda assim me parece longe do que lhe tenho visto na Cornucópia. Mas é com esse grande senhor, esse Actor, Lima Duarte, muito bem acompanhado pelo Miguel Guilherme, que o filme entra noutra dimensão. É por esse terço final que o filme vale a pena, quanto a mim. Porque na maior parte do tempo mais me pareceu uma manta de retalhos, um "booktrailler", como agora se diz, de (magníficos) sermões vieirinos.

Admito que me tenha escapado a essência, o segredo da obra de Oliveira. Admito-o com franqueza e convicção. Tenho a absoluta certeza de que o filme é uma fabuloso e de que fui eu que não o entendi enquanto obra de arte. Mas a verdade é essa: não o entendi, e não fosse a excelência do texto vieirino, primeiro, e a genialidade de Cintra e sobretudo Lima Duarte, depois, por mais que fossem quase profissionais as razões que me levaram a vê-lo, não teria resistido às penosas primeiras dezenas de minutos.

Pedro e o Lobo


O Manuel (faz hoje dois anos) obriga-me a ver em sessões contínuas esta extraordinária e negra versão do clássico Pedro e o Lobo. Aqui o Pedro é um menino de aspecto depressivo e neurótico. O avô é uma figura ambígua, um velho demasiado protector, carrancudo, por quem não se consegue ter simpatia. O pássaro é um corvo, crocitando rouco por cima das flautas de Prokofiev. Com uma asa ferida, não consegue voar. O pato não é um pato, é um ganso desajeitado e ligeiramente estúpido, o único verdadeiro amigo do Pedro. O gato é um psicopata esfomeado, a quem nem as moscas escapam. Os caçadores são maus e covardes, só se metendo com o lobo quando ele está enjaulado. E o lobo é um lobo. Não é mau, é selvagem, como todos os lobos. A música de Prokofiev, distribuída de forma descontínua ao longo do filme, estabelece a ligação com a história tradicional, aqui desconstruída de forma muitas vezes cruelmente irónica.

Também por isso esta animação polaca, vencedora do Óscar para a sua categoria em 2008, não é apenas mais uma versão da história musicada por Prokofiev. Longe disso. Quanto ao Manuel, obriga-me, repito, a ver em sessões contínuas "o pato e o covo", ou "o lobo mau". E eu não me importo nada. Não sei é se deva ficar orgulhoso por o meu sobrinho adorar de forma tão obsessiva um filme tão negro e neurótico (a Carolina, de 3 anos, recusa-se a vê-lo, lançando-me "eu assusto-me" e "tenho medo" aflitos), se seriamente preocupado. Até porque só deixa que o tire do leitor de DVD se a alternativa for um dos mais negros Tim Burton.

http://www.suzietempleton.com/pages/films/peter/filmspeter.html

terça-feira, novembro 11, 2008

Tenho nojo de ti


Depois de ver este programa, não sei o que me enojou mais: se o horror dos métodos de morte usados nos EUA pelo governo para assassinar cidadãos, se da beatitude repugnante do "host", defensor a pena de morte, o que já é mau, mas que, sem tomates, ainda tenta suavizar a coisa com uma procura de uma "maneira humana de matar". É que não há maneiras humanas de matar. Só há uma: a horrorosa, a definitiva. E não é por estar isento de dor e sofrimento (ainda não há nenhum método que o garanta) que um assassínio deixa de ser um assassínio. Mesmo quando cometido pelo Estado, em nome de algo a que, por descargo de consciência, chama "justiça", mas que na verdade só tem um nome: vingança. E um adjectivo: selvática.

Iconoclasta!



- Hereje!
- Barba de piaçaba!
- Onanista!
- Sodomita!
- Maniqueu!
- Ordinário!
- Montanista!
- Fedorento!
- Papista!
- Ariano!
- Priscilianista!
- Traveca!


Mais completo aqui

Que é que tu queres?


pb110024
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quarta-feira, novembro 05, 2008

A madrugada


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, novembro 03, 2008

دام - hip-hop palestino


http://www.dampalestine.com

DAM pode ser lido como acrónimo de Da Arabian MC's, mas não deixa de remeter para دام, o radical que contém a ideia de durabilidade. Estes rappers palestinos cantam em árabe, mas também em inglês e hebraico. Para os apreciadores do género, entre os quais me incluo vivamente há mais de duas décadas, a não perder, absolutamente.

domingo, novembro 02, 2008

Fugiu!

O recente fascínio dos três anos da Carolina por igrejas têm-me preocupado. Muito. Não é por causa do edifício em si. Eu adoro igrejas. Por mim podia até viver numa igreja. Ou num convento. Mas sem orações. E sem ter de me levantar muito cedo. E sem frades. Só eu. Com uma boa biblioteca. Portanto não é isso que me tem preocupado. Nem é pela arte sacra. Afinal quem me tira o meu Caravaggio ou o meu Bosch tira-me tudo. O que me preocupava era que ela viesse a ser beata. Daquelas chatas de bigode e penteado parvo e muito boazinhas, tipo heroína de Júlio Dinis. No outro dia perdi o medo. Estávamos na Igreja de São Pedro, em Torres Vedras, a seu pedido. Dela, da Carolina, não do São Pedro. E depois ela disse-me com ar maroto que um dia tinha feito barulho na igreja e o Jesus tinha fugido.

Uma questão de respeito ou Kafka revisitado

A dívida que não era

Há pormenores que definem uma empresa. O respeito é um deles. Ou a falta dele. No dia 18 de Setembro deste ano, ao chegar a casa, esperava-me uma surpresa: não tinha ligação à internet. Eu não sabia ainda, mas era o início de um longo processo kafkiano, que só teria fim (espero) na semana passada, cerca de mês e meio depois. Mas vamos por partes, como se costuma dizer.

No dia seguinte dirigi-me à loja da PT em Torres Vedras, para saber o que se passava. Solícita, a funcionária disse-me que se tratava de uma desactivação por falta de pagamento. Puxando pela memória, lembrei-me que realmente 2 ou 3 dias antes tinha recebido uma carta de uma advogada que me ameaçava de processo criminal caso não pagasse naquele mesmo dia em que recebi a carta cerca de 28€ à PT. Como achei que era uma piada de mau gosto, ignorei. Afinal era verdade, a PT intimida e ameaça mesmo os clientes por dívidas ridículas. Mas que fazer, se devia, ora toca lá a pagar.

Antes fosse tudo tão simples. Já estava de notas na mão, quando a funcionária, sem corar, me garante que eu não devo nada. Estupefacto, crendo estar a ouvir mal, insisti, soletrando de forma clara que queria pagar a dívida que tinha motivado a desactivação da linha. Impávida, a senhora escandia: - O senhor não deve nada à PT. Olhei para todos os lados a ver se havia câmaras escondidas, sei lá, uma coisa de apanhados. Insisti: se me desactivaram a linha por falta de pagamento, é porque devia alguma coisa. Que não, dizia ela, revirando já os olhos, de facto a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, mas eu não devia nada, não havia nada para pagar. Sentindo-me um Josef K. da vida, virei costas, e fui para casa, na esperança de que a senhora tivesse fumado alguma coisa estranha, e de que na linha de apoio ao cliente alguém me atendesse de forma lúcida.

Do outro lado da linha a voz declinou, implacável:

- A sua linha foi desactivada por falta de pagamento. O senhor não deve nada à PT.
- Nem um cêntimo?
- Nem um cêntimo.

Tentei chamá-la à razão. Mostrar-lhe o absurdo da situação. Nada. Que eu não devia nada, que a linha tinha sido desactivada por falta de pagamento, se me podia ser útil em mais alguma coisa. Enfardei dois calmantes e liguei ao meu psicólogo a comunicar-lhe recaída irrecuperável. Um dia ou dois depois, comuniquei à DECO o sucedido, por via das dúvidas, não fosse haver a remota hipótese de afinal haver em mim ainda alguma lucidez e isto realmente não fazer sentido.

A reactivação

Talvez tenha sido coincidência. No dia 19 foi-me dito que a reactivação da linha não tinha data prevista, que era preciso esperar. No dia seguinte a contactar a DECO, a um Sábado de manhã, um senhor ligou-me a perguntar se me podia ir reinstalar a linha. Lá foi. Dias depois a PT teve o desplante de me enviar uma factura a cobrar a reinstalação. Ao mesmo tempo, a mesma advogada que me tinha ameaçado com processo criminal por dívidas inexistentes de menos de 30€ mandou-me outra carta onde, sem um pedido de desculpas, sem uma justificação, escarrava secamente que a dívida a que fazia referência na anterior carta não existia e portante a anterior carta (ameaça) se achava sem efeito. A PT no seu melhor.

Um sapo indesejado

Não estranhei não ter logo acesso ADSL. Afinal, imaginei, era preciso reactivar tudo. Pois é. Dias depois da reactivação da linha, recebo uma mensagem automática (daquelas robóticas) da PT, que parece não se dignar a falar com as pessoas, só usa máquinas, a comunicar que o meu login ao serviço SAPO ADSL era tal, e a password era tal. Acontece que eu NUNCA pedi acesso nenhum a sapo nenhum. Eu sou cliente Netcabo ADSL, e do SAPO, de que já fui cliente, quero é distância. Uma distância muito grande. Incompetência, mau atendimento, péssimo serviço. Adiante. E resumindo. Emails, telefonemas, e nada. Durante mais de uma semana protestei, gritei até, mas não consegui convencer ninguém da PT a desligar-me imediatamente do maldito sapo. Que tinha de mandar fax, que era um assunto muito específico. E eu só perguntava se tinha sido preciso algum fax para, sem o meu consentimento nem pedido, me terem feito cliente, se tinham achado muito específico sem o meu consentimento nem pedido me terem feito cliente. Mais queixas na DECO. A coisa arrastou-se. Até à semana passada. Cerca de mês e meio nisto. Sem internet em casa, por causa da incompetência e falta de respeito da PT.

Durante todo este processo, nem um telefonema a justificar ou a pedir desculpas por uma situação que manifestamente foi incompetência da PT. Aos muitos emails que enviei apenas recebi respostas-tipo, copiadas de formulários, copiadas umas das outras.

Um bom exemplo

Agora o outro lado. Durante todo este processo, e apesar de não ter qualquer responsabilidade, a ZON TVCabo prestou-me uma assistência exemplar. Os meus telefonemas foram respondidos por gente que sabia do que estava a falar, e que, quando não sabia, prometia - e cumpria, sempre - telefonema de uma equipa técnica no espaço de 1 hora. Depois de tudo resolvido, e restabelecido a minha ligação, recebo telefonemas regulares a perguntar se está tudo estável, se a ligação está sem problemas. É evidente que a empresa o faz com um objectivo comercial em mente. Mas é aí que está toda a diferença. E é por isso que eu da PT quero distância, e recomento a ZON a toda a gente.

sábado, novembro 01, 2008

Torres Vedras . 2008.12.01

Torres Vedras
Igreja da Misericórdia
1 de Dezembro de 2008
«E já que vai de esperanças, não deixemos passar sem ponderação aquelas palavras misteriosas da profecia: Insperate ab insperato redimeris. De propósito reparei nelas, para refutar com suas próprias armas alguma relíquia, que dizem que ainda há daquela seita ou desesperação dos que esperavam por el-rei D. Sebastião, de gloriosa e lamentável memória. Diz a profecia: Insperate ab insperato redimeris: "Que seria remido Portugal não esperadamente por um rei não esperado." Segue-se logo, evidentemente, que não podia el-rei D. Sebastião ser o libertador de Portugal, porque o libertador prometido havia de ser um rei não esperado: Insperate ab insperato; e el-rei D. Sebastião era tão esperado vulgarmente, como sabemos todos. Assim que os mesmos sequazes desta Opinião, com seu esperar, destruíram sua esperança; porque quanto o faziam mais esperado, tanto confirmavam mais que não era ele o prometido; podendo-se-lhe aplicar propriamente aquelas palavras que S. Paulo disse de Abraão: Contra spem in spem credidit; que "creram em uma esperança contrária à sua mesma esperança"; porque pelo mesmo que esperavam, tinham obrigação de não esperar.»

sexta-feira, outubro 31, 2008

Diante dos seculares se falle sempre em cousas de edificaçaõ, que causem horror, ou façam devoçaõ, confundindo-os com modestia

Escarafunchando na Biblioteca Nacional no volume das Obras Espirituais de Frei António das Chagas, edição de 1725 (cota R31349P), encontrei uma deliciosa instrução para missionários, que infelizmente o fundador do Seminário do Varatojo não chegou a terminar. Eis um excerto, para aguçar o apetite para eventual publicação em breve.
Em todo o tempo fujaõ como do demonio de dizer galantarias, & ociosidades, naõ só porque, como diz Christo, de toda a palavra ociosa se ha de dar conta em juizo, senaõ porque, como diz S. Bernardo, as zombarias, que nos seculares saõ galantarias, na boca dos Sacerdotes saõ blasfemias. Diante dos seculares se falle sempre em cousas de edificaçaõ, que causem horror, ou façam devoçaõ, confundindo-os com modestia, que deve ser manifesta a todos; & com santa mortificaçaõ de olhos baixos, maõs cruzadas, como quietos, & sem movimentos; porque destas vistas ficaõ reprehendidos, & interiormente edificados. Muitas pessoas de vida estragada, & dissoluta se moveraõ à penitencia, & à confissaõ, vendo sómente a Saõ Pedro de Alcantara, & a meu Padre Saõ Francisco, a Santa Catharina de Sena, & outros Santos; & tem notavel força a compostura exterior dos Servos de Deos para a conversaõ dos peccadores: alèm de que he ordinario sinal da presença de Deos, & compostura interior.

Bandeirada


Voltou à carga um dos blogues mais inteligentes e divertidos, Bandeira ao Vento. Aleluia!!!

quinta-feira, outubro 30, 2008

Manuela La Palisse

«Manuela Ferreira Leite, disse ontem que [...] considerará uma derrota qualquer resultado nas legislativas de 2009 que não seja a vitória.»
in Público

Fontes que pediram para não serem identificadas garantiram-nos que Manuela Ferreira Leite considerará também que se McCain perder as eleições americanas o vencedor será Obama. Um oráculo, esta senhora.

Deus

segunda-feira, outubro 27, 2008

Futebol na Palestina


A selecção de futebol da Palestina jogou pela primeira vez na sua terra. O adversário foi outra equipa árabe a Jordânia, e o resultado um empate, 1-1. O resumo em vídeo pode ser visto na página do Público. Fica aqui a notícia, porque este blogue também se faz disto.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Torres Vedras . 2008.12.01


«Por duas razões se persuadem mal os homens a crer algumas cousas: ou por muito dificultosas, ou por muito desejadas; o desejo e a dificuldade fazem as cousas pouco críveis.»

Faz sentido

O PCP considera que as eleições nos Açores, onde o PS esmagou a concorrência com cerca de 50% dos votos e deixando o PSD a cerca de 20 pontos, são um "sinal de descontentamento com o governo nacional". Hm. Faz sentido.

sábado, outubro 18, 2008

Feio!

Tentei levar a Carolina, de 3 anos, a ouvir o Samuel Úria, na Livrododia, ontem. Prometi-lhe que havia um senhor a cantar. Ela pareceu gostar da ideia. Livro e música? Muito bem. O problema é que "estava muito alto". Descobrimos ontem que a Carolina tem medo de guitarras. Ainda tentámos mais duas ou três vezes, sempre que o Samuel largava a guitarra e conversava, entre canções. Mas logo que a música recomeçava, a Carolina puxava-me a mão. A última tentativa revelou-se uma inesperada manifestação política da minha sobrinha, que me fez muito feliz. Foi quando o Samuel manifestou o seu apoio ao John McCain. A Carolina, que se preparava para lhe dar mais uma oportunidade, estacou, indignada, puxou-me a mão mais uma vez, e forçou-me a abandonar a livraria ainda antes de o Samuel voltar a dedilhar a guitarra.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Boa e saborosa!

Folheando um livro infantil com a Carolina, de 3 anos, engasguei-me quando dei com esta pérola, que cito de cor: "a mulher, como a sardinha, quer-se boa e saborosa, e só depois pequenina". Eu não acho normal. Mas também é que verdade que depois da ameaça de me paparem o bacalhau, já espero tudo em livros infantis portugueses.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Uma questão de bom senso

Tenho de fazer uma manifestação de interesse, antes de entornar aqui a minha má disposição: adoro conduzir.

Até aos finais de 2006, isto é, até aos meus 35 anos, nunca me passou pela cabeça tirar a carta. Perante o espanto incrédulo dos que me perguntavam - perdão, que me exclamavam "porquê?!", sempre respondi que não me fazia falta nenhuma, que ia a todo o lado de transportes públicos ou a pé, que não era rico para gastar rios de dinheiro em impostos, revisões, combustível, prestações e mais um enorme etc. Sempre me mostrei insensível aos batidos argumentos da independência ("ai é uma independência") e à esfarrapadíssima desculpa dos maus transportes ("ainda se Lisboa tivesse bons transportes").

Mas nos finais de 2006, pouco depois de fazer 35 resistentes anos, decidi tirar a carta. A razão foi simples: estava num processo de mudança radical de vida, e além disso parecia-me evidente a necessidade de um carro para trazer os sobrinhos da escola. Arrastei-me durante mais de um ano, com várias pausas para descompressão mental, em insuportáveis aulas de código e em ligeiramente mais animadas aulas de condução. Lá tirei a dita cuja em Janeiro deste ano da graça de 2008, e, com carro novo e baratinho nas unhas, lá me lancei à estrada, para ver se afinal ficava assim tão independente e se os transportes públicos eram assim tão maus.

  1. A independência - Admito que o problema possa estar na definição de "independência". É que até agora eu não dei por nada. Com a excepção de duas saborosas (mas não indispensáveis) viagens ao Alentejo e Algarve num misto de trabalho e ócio, desde Janeiro ainda não dei por nenhuma independência. Ainda não fiz nada que não pudesse ter feito sem carro. Jantares de amigos, teatro, cinema. Nada. Continuei a ir de transportes públicos ou a pé, que é muito mais económico. Ainda fiz algumas experiências. Fui meia dúzia de vezes de carro para a faculdade, mas rapidamente me dei conta da tolice. Não compensa: é muito mais caro do que ir de autocarro, gasta-se o mesmo tempo a chegar lá (ou mesmo mais, em horas de ponta), e ainda se tem de procurar lugar para estacionar. Num jantar de amigos levei o carro. Sem qualquer necessidade e sem qualquer vantagem: além de ter ficado impedido de beber a belíssima vinhaça à vontade, gastei incomparavelmente mais dinheiro, perdi tempo e nervos à procura de lugar para estacionar, e no fim de contas ainda havia autocarros à hora em que me vim embora. Por isso continuo hoje, 10 meses depois de ter carta, a usar quase exclusivamente transportes públicos e a andar a pé. Abri apenas djuas excepções: primeiro, para as saídas nocturnas aqui em Torres Vedras, pois vivo a cerca de 3km do meu bar preferido, e não me apetece muito, depois da noitada, ainda fazer tal distância a pé. Independência? Nem por isso: tive de abdicar das cervejolas. É que se conduzir... A segunda excepção são as incursões ao supermercado com a minha mãe, e aí de facto é a única vantagem palpável de ter carta, e ir buscar os miúdos à escola, pois enfiar 2 pimpolhos de 2 e 3 anos num autocarro é tarefa para a qual os meus nervos não estão ainda calejados. Moral da história: não só não ganhei nenhuma independência, como perdi bastante, ao ter de deixar de beber socialmente quando uso o carro ("ai é uma independência!"), e sobretudo ao ter apertar o cinto para a prestação, para o seguro, para o combustível e para o imposto. Mas que grande independência que me saiu na rifa...

  2. Os transportes são mesmo maus? Não. Só pode dizê-lo quem nunca andou neles. Vejamos. Tenho autocarros a sairem de 7 em 7 minutos à hora de ponta, de 30 em 30 nas horas mortas, para Lisboa. A paragem é a 10 metros do Metro do Campo Grande, outros tantos a pé para a Faculdade - obviamente vou a pé. O percurso demora no máximo 40 minutos, sensivelmente o mesmo que o trajecto de carro - se não houver engarrafamentos na Calçada de Carriche, que o autocarro evita elegantemente, ao usar as faixas "bus". Para voltar para casa o ritmo de passagem de autocarros é o mesmo, e vai até às 00:30. Nada mau. Podia ser melhor, mas não é nada mau. Dá para jantares, cinema, teatro. Dir-me-ão que tenho a sorte de trabalhar ao pé da paragem do autocarro. É verdade. Mas a (má) experiência de me deslocar de carro em Lisboa para ir a outros sítios, uns mais centrais outros menos, diz-me que os transportes continuam a ser a melhor opção. A não ser que se seja como uma pessoa que eu conheço, que acha que ir do Metro do Campo Pequeno à Gulbenkian a pé é uma distância inaceitável. E aí parece-me que não há muito a fazer... E ainda que não fosse assim, há sempre o aspecto económico: não há calculadora que resista à comparação entre andar de carro e andar de transportes. O meu irmão, que às vezes vai para Lisboa de carro, disse-me em tempos, quando ia todos os dias assim, que gastava mais de 100€ por semana em gasolina, fora as portagens (cerca de 5€ por dia). Ora nessa altura o passe de 30 dias para Lisboa custava pouco mais de 100€... Mais palavras para quê?
Repito o que disse no início: adoro conduzir. Adoro. Por mim fazia viagens de 300km todas as semanas. No entanto ainda tenho algum siso. Pouco, mas tenho. E pouco dinheiro. E prezo a minha saúde. Por isso, se tiver de optar entre uma despesa insuportável em combustível e portagens, uma pilha de nervos diária com o pára-arranca, uma "renda" de prestação do carro e do seguro, uma barriga a crescer de sedentarismo, com os problemas de saúde daí decorrentes, por um lado; e uma despesa fixa e relativamente reduzida em passes, viagens descansadas a dormitar ou a ler, caminhadas a pé (as tais que me ajudaram a perder quase 40 kg em dois anos), então eu não hesito: o carro fica estacionado em casa, para ser usado só em ocasiões restritas e bem definidas. É por isso que pus 15€ de gasolina já não me lembro há quantas semanas, e o depósito continua confortavelmente fornecido.

Podia ainda falar dos benefícios ambientais desta opção, mas são tão óbvios que até um chimpanzé amestrado os entende, e portanto poupo o meu latim.

terça-feira, outubro 07, 2008

Adeus ó vai-te embora

Já é público que a FNAC acabou com os descontos de 10%. Acabou assim também com o único motivo que ainda me fazia ir lá.

sábado, setembro 27, 2008

تحدث معي بالعربية

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Desenvolvimentos

Desenvolvimentos do caso PT: recebi uma carta da tal advogada que, em nome da PT, me ameaçava com tribunal por dívidas inexistentes, a dizer que na verdade eu não devia nada. Assim. Nem um pedido de desculpas. É a PT que temos. Hoje já veio um senhor reinstalar a linha. E eu estou a pensar seriamente desistir de vez da PT. Farto de faltas de respeito, má criação e incompetência.