sexta-feira, maio 15, 2009

Notas sobre o 13 de Maio . 2


καὶ οἱ λοιποὶ τῶν ἀνθρώπων οἳ οὐκ ἀπεκτάνθησαν ἐν ταῖς πληγαῖς ταύταις οὐδὲ μετενόησαν ἐκ τῶν ἔργων τῶν χειρῶν αὐτῶν ἵνα μὴ προσκυνήσουσιν τὰ δαιμόνια καὶ τὰ εἴδωλα τὰ χρυσᾶ καὶ τὰ ἀργυρᾶ καὶ τὰ χαλκᾶ καὶ τὰ λίθινα καὶ τὰ ξύλινα, ἃ οὔτε βλέπειν δύνανται οὔτε ἀκούειν οὔτε περιπατεῖν καὶ οὐ μετενόησαν ἐκ τῶν φόνων αὐτῶν οὔτε ἐκ τῶν φαρμάκων αὐτῶν οὔτε ἐκ τῆς πορνείας αὐτῶν οὔτε ἐκ τῶν κλεμμάτων αὐτῶν

e os restantes homens, que não foram mortos por estas pragas, não fizeram penitência das obras das suas mãos, de modo a não adorarem demónios, e ídolos de ouro e de prata e de bronze e de pedra e de madeira, que não podem ver, nem ouvir, nem andar; e não fizeram penitência pelos seus crimes, nem pelos seus encantamentos, nem pela sua luxúria, nem pelos seus furtos.

Apocalipse, 9:20

A tradução é minha, admito que com falhas (o meu grego está um pouco esquecido), mas não há dúvidas: o livro santo dos cristãos não permite a adoração de estátuas. Et pourtant...

Acabar bem o dia . 10


Jean-Philippe Rameau (1683 - 1764), Pièces de Clavecin en Concert
Primeiro Concerto
Mitzi Meyerson (cravo)
Monica Huggett (violino)
Sarah Cunningham (viola da gamba)

quarta-feira, maio 13, 2009

Notas sobre o 13 de Maio . 1

Quando entrei em casa da minha mãe, lampiã contumaz, e a vi embevecida a olhar para um ecran de TV recheado de lenços brancos, pensei que estavam a repetir o final dos últimos jogos do benfica no Galinheiro. Afinal era só o 13 de Maio em Fátima, data que a nação lampiã nos últimos anos comemora ferverosamente, embora normalmente antes da data canónica.

terça-feira, maio 12, 2009

Bronco

Cinco minutos? Estava difícil? O meu amigo não fez cópias na escola? Diz que ajuda a desenvolver capacidades de escrita. De qualquer forma, um "X" talvez demorasse menos de cinco minutos, e é considerado legal como assinatura.

segunda-feira, maio 11, 2009

Acabar bem o dia . 09


Juan Cabanilles (1644-1722), Corrente Italiana
Hespèrion XX
Jordi Savall


Ouvir música


Eu ouvia isto e ouvia e tornava a ouvir e não me cansava de ouvir. Comprei o CD, se bem me lembro, na falecida Valentim de Carvalho do Rossio. Depois gravei numa cassete que me acompanhava nas viagens para Lisboa, depois para Mafra e para Caldas da Rainha, onde dei aulas nos dois primeiros anos de actividade. Mais de uma década depois ouço outra vez e não paro de ouvir.

Faz o que eu digo...

O Papa Ratzi "apela a que o Holocausto nunca seja esquecido". Eu concordo. Mas acho que o esforço de memória devia começar em casa, e o líder dos católicos devia ter puxado um bocadinho pela dita cuja antes de levantar a excomunhão ao execrável bispo negacionista.

Isso mesmo

O Manuel (2 anos e meio) ao ver a festa dos morcões no Estádio do Morcão disse "parecem cabeçudos". Eu não teria dito melhor.

domingo, maio 10, 2009

Começar bem o dia . 13

Couperin (1626-1661), Allemande et Courante Gustav Leonhardt

Ouvir música aqui

Ilustração: Philippe de Champaigne

Pavor


A Manuela diz que se vive um clima de medo em Portugal. E tem razão: depois do que passámos quando foi ministra das finanças, não há muito tempo, eu tenho um medo desesperado de que ela volte ao poder.

179


Demorou uma série de dias, até porque eu tenho mais que fazer, mas já está: passei para mp3 toda a minha colecção de CD de música antiga. São 179, desde o canto bizantino do século VII ao barroco do século XVIII. A colecção foi sendo feita sobretudo na primeira metade da década de 90 do século passado. São 179. Pensava que eram mais, fico um bocadinho desiludido.

quinta-feira, maio 07, 2009

terça-feira, maio 05, 2009

45/46


Não é que os tenha excessivamente grandes. Pelo menos quase todos os homens que conheço dizem tê-los pelo menos com o mesmo tamanho. Mas eu começo a achar que é como o velho lugar comum dos pescadores e do tamanho do peixe. Porque sempre que entro numa sapataria ou casa de artigos de desporto, a possibilidade de achar um sapato 45/46 é mais reduzida ainda do que a de o Benfica acabar um campeonato à frente do Sporting, na última década. De vez em quando lá acontece, muito raramente, mas confesso que não me lembro já da última.

Hoje fui a uma daquelas lojas de sapatos que anunciam ter tudo ao mais baixo preço. A ideia era comprar uns ténis (dos sapatos normais há muito desisti, não se fazem para o meu número). Mas nada. O costume. Lá achei, com dificuldade, uns sapatos de marca, obscenamente caros, mas com uma boa promoção. Mas não se pode ter tudo: um mísero 44. Entornei com dificuldade os pés lá dentro, e fiquei assim tipo aquelas chinesas do século passado que enfaixavam os pés para eles ficarem pequeninos. O problema é que eu ando a enfaixar os meus em sapatos de número abaixo do meu há quase 20 anos, e nada de mirrarem.

Há, porém, uma coisa que me continua a fazer imensa confusão: os miúdos de hoje são enormes, normalmente mais altos do que eu, é de supor que tenham pés proporcionais. E eles dizem que têm, mas eu nunca lá fui de régua em punho. E se é verdade, eu gostava muito de saber onde compram sapatos. Porque eu já corri tudo, desde as lojas de marca aos mercados. E para achar, na última década, sapatos que me servissem tive de mandar vir dos EUA, onde pelos vistos há mais gente como eu.

P.S.: lá comprei a porcaria dos ténis; entre esmagar os pés nos ténis velhos, já a ficarem sem sola, e esmagá-los nuns novos, as escolhas não são muitas.

P.P.S.: ainda se a lenda urbana de o tamanho dos pés corresponder ao tamanho de outras secções anatómicas fosse certa, eu nem me queixava muito - mas eu garanto que é embaraçosamente errada.

Acabar bem o dia . 08



Alessandro Scarlatti (1660-1725), Folia Giannalisa Arena

Ouvir música

Mais uma soberba variação sobre as "folias".

domingo, maio 03, 2009

Começar bem o dia . 11



J. S. Bach, Cantata "Zauchzet Gott in allen Landen" (BWV 51)
English Baroque Soloists
Emma Kirkby
John Elliot Gardiner


Versões com qualidade superior:

Parte 1
Parte 2
Parte 3

Gosto especialmente da última secção (3:31 do terceiro vídeo)

Começar bem o dia . 10


Henry Purcell (1659-1695), Música para o funeral da Rainha Maria


A feira do coiso

Ir à Feira do Livro ao fim-de-semana faz-me muito mal à misantropia, maleita de que padeço desde que me conheço. Mas eu, que por conselho médico só devia lá ir durante a semana, e de preferência a horas mortas, quando há menos gente, não tenho emenda, e lá me vou içando Parque acima, arfando e bufando de impaciência no pescoço daquele gente toda que resolveu sair de casa ao mesmo tempo só para me chatear, irra, e qualquer dia passo-me como o Pepe e não respondo por mim. E vou descontando a irritação em compras, e ainda estamos no princípio do mês e o ordenado já está em grande, muito grande parte a forrar os bolsos dos senhores editores. Que ferro.

quinta-feira, abril 30, 2009

Vai desejar o Menu AVC ou o Menu Enfarte?


Agora que frequento mais assiduamente, para almoçar, os bares da FLUL e da Biblioteca Nacional, começo a dar ainda mais valor aos meus 30-40 quilos perdidos em pouco mais de 2 anos, bem como aos resultados das minhas últimas análises ("de fazer inveja, esse colestrol", disse o médico), e sobretudo a perceber o espanto generalizado por tão radical emagrecimento: realmente é difícil perder peso quando nestas instituições públicas as ementas variam entre o Porco au Colestrol, a Mixórdia Não Identificável à la Aterosclerose, e os Bifinhos AVC. Eu lá pego no tabuleiro, mas, como não tenho vocação suicida, rejeito com olhares sobranceiros aquelas armas de destruição massiva, e peço uma saladinha ofendida, acompanhada de arroz branco ("poucochinho, faxavor"). Há uma senhora de uma simpatia indescritível, no bar da Biblioteca Nacional, que me olha com compaixão e sussurra, penalizada, "ah, o senhor é vegetariano", acompanhando às vezes com um gesto a abençoar uma mixórdia afogada em molhos de aspecto suspeito, onde flutua um reconfortante papel, já transparente de gordura, a berrar "Prato vegetariano". Eu costumo explicar, de modo a que à volta me ouçam e se arrependam, enquanto é tempo, dos seus pratos de gordura polvilhados de carne ou peixe módico, que não, que não sou vegetariano, que como tudo o que me puserem à frente, desde que seja grelhado ou cozido, desde que não esteja a boiar em óleo ou estrangulado em gordura. Bom, dispenso porco, é certo, mas como estou farto de que me perguntem se é por motivos religiosos e de responder que não, que é apenas por amor à vida e respeito pelas minhas educadas e exigentes papilas gustativas, já desisti de referir a excepção, e se me puserem uma costeletazita (*) de suíno à frente ainda sou capaz de tapar o nariz, conter o vómito e engoli-la sem mastigar muito - desde que seja grelhada e eu tenha muita muita muita fome.

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(*) "Costoleta"?! Ai sim? É de onde? Da costola?

quarta-feira, abril 29, 2009

terça-feira, abril 28, 2009

Evolução


P4200020
Originally uploaded by asimoes1971
Ainda dizem que a Universidade de Lisboa está decadente. Pelo menos na qualidade das caixinhas dos diplomas nota-se uma claríssima evolução do primeiro (1993, à direita) para o último (2004, à esquerda). Os preços, por outro lado, continuam obscenos.

Prisão do Ético

segunda-feira, abril 27, 2009

Os broncos


Que se vá para o México no pico da estação dos furacões, como é prática corrente entre os portugueses, ainda consigo compreender. Afinal ainda não é crime gostar de desportos radicais, e só põem a sua própria vida em risco, e ainda têm a hipótese de ganhar os seus minutos de fama, quando são entrevistados em directo nos telejornais, enquanto se encontram barricados em hotéis ou em aeroportos. Mas lá está, não prejudicam ninguém a não ser eles próprios. Revelam apenas burrice, perdoe-se o eufemismo. Agora que se vá despreocupadamente para o México, como se viu hoje nas notícias, com a ameaça de uma pandemia de gripe que já causou mais de uma centena de mortos e que ameaça tornar-se incontrolável, e portanto candidatando-se a tornar-se responsável pela sua introdução em Portugal, isto já roça o criminoso. Fosse eu governo, e esta gentinha não tornava a entrar no país sem uma quarentena. Todos enfiados numa garagem durante 1 mesinho, a pão e água, no regresso. O portuga é mesmo bronco.

quinta-feira, abril 23, 2009

José Mário Silva na FLUL

A próxima sessão do Clube das Clássicas é já no dia 20 de Maio, e contará com a presença de José Mário Silva. Escritor e crítico literário, José Mário Silva tem na sua poesia claras referências ao mundo clássico. Editou em 2001 o seu primeiro livro de poemas, Nuvens & Labirintos (Gótica), a que se seguiu em 2008 o volume de micronarrativas Efeito Borboleta e outras histórias (Oficina do Livro). Já em 2009 sai o seu segundo livro de poemas, Luz Indecisa (Oceanos). Deste livro aqui ficam umas linhas.

geografia humana


fast forward


Por muito
que aceleres

– duas vezes,
quatro vezes –

nunca deixas
de ter pressa.

Acabar bem o dia . 07

[Caspar David Friedrich - Monge junto ao mar]

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, abril 20, 2009

Ele há coisas do diabo ou O homem da conspiração

Há dias, numa das minhas aulas de árabe via conferência áudio, a minha professora egípcia resolveu dar a aula quase toda em árabe, em vez do usual inglês. Tudo correu bem até ao momento em que começou a perguntar a raiz dos verbos que iam aparecendo. Ora, em árabe a raiz verbal, ou base, diz-se القاعدة , o que se transcreve al-qâʿida (acentuação na sílaba -qâ-), o mesmo nome usado para a infame rede terrorista (*). Na altura brinquei, dizendo-lhe que tivesse cuidado, não fosse ser surpreendida pela visita de espiões americanos que a tivessem sob escuta. Ela não respondeu, e eu pensei que tivesse levado a mal. Minutos depois o seu nome desapareceu da lista da conferência. Quando voltou, pediu muitas desculpas, mas a sua ligação tinha sido cortada durante aqueles minutos. E eu já estou como o Sancho, que não acreditava em bruxas, mas...


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(*) E que os media portugueses parolamente transcrevem à inglesa, quando a forma aportuguesada seria aquela que indiquei, ou, no limite, alcaida.

Paulo Rodrigues Ferreira

O Clube das Clássicas regressou, trazendo agora autores jovens ao nosso convívio. O primeiro é Paulo Rodrigues Ferreira, que lança o seu primeiro livro, com a chancela Livrododia Editores. É já no dia 22, no átrio da Biblioteca da FLUL. Confirmada está também a visita, ainda durante este semestre, de José Mário Silva e Luís Filipe Cristóvão.



Começar bem o dia . 09



Anómimo (s. X/XI), O canto da Sibila
Hespèrion XX, Jordi Savall

quarta-feira, abril 15, 2009

Verba aliena . 01

nothing is more exactly terrible than
to be alone in the house,with somebody and
with something)
.........................You are gone. ..there is laughter

and despair impersonates a street

i lean from the window,behold ghosts,
......................... ......................... .... ..... a man
hugging a woman in a park. .. Complete.

and slightly(why?or lest we understand)
slightly i am hearing somebody
coming up stairs,carefully
(carefully climbing carpeted flight after
carpeted fight. .. in stillness,climbing
the carpeted stairs of terror)

and continually i am seeing something,

inhaling gently a cigarrette(in a mirror

e. e. cummings

quinta-feira, abril 02, 2009

Já basto eu, ḥabîbî

Esforço-me por contribuir de forma positiva para a educação dos meus sobrinhos (nascidos em finais de 2005 e de 2006), já que os vou buscar à escola e passo com eles várias horas por dia. Assim, no carro ouvem quase exclusivamente a Antena 2 (o Manuel às vezes pede para ouvir a Umm Kulthûm, e parece convertido aos ritmos árabes). Já obtive resultados interessantes, e são ambos, sobretudo ele, admiradores devotos de Mozart, não dispensando a Flauta Mágica com regularidade. Também tento expô-los a literatura infantil de qualidade, e volta e meia introduzo leitura de autores menos infantis, mas com sonoridades atractivas. Além disso vou introduzindo palavras e frases em línguas estrangeiras, com insistência no árabe, língua a que estão menos sujeitos mediaticamente. O Manuel já responde a "ḥabîbî" (meu querido), que é como o trato, e até já repete de vez em quando, com bom sotaque.

Mas nem tudo corre bem, e começo a questionar se serei boa influência, no fim de contas. Além de continuarem lampiões ferrenhos, há dias o Manuel insistiu em que lhe comprasse um livro da Anita. Não satisfeito, ao chegar a casa quis pôr a tiara roxa com fitinhas da irmã. Depois disse que era uma rainha, perante a consternação da minha mãe e o meu embaraço. Lá o convencemos de que não era uma rainha, que quando muito seria um rei. Ele acabou por concordar que não era rainha, mas não deu tempo a que respirássemos de alívio: afirmou ser uma fada. E eu não sei se será da Antena 2, se da boa literatura, se dos meus brincos...

O macho


Já todos vimos - pelos menos nós, os que vemos coisas interessantes na TV - aquelas imagens de bandos de leões depois da caça: o macho dominante afocinha na barriga da zebra, enfarda até arrotar de fastio, e depois permite que as fêmeas, os machos ainda adolescentes e as crias comam o que sobrou. À volta, os abutres esperam que os leões se retirem, para, por sua vez, debicarem ossos, peles e os restos de tripas deixados.

Eu, a quem a natureza não deu atributos que me façam sobressair dos outros machos no que realmente interessa, sempre tive muita inveja destes leões dominadores. Sempre achei que não teria nunca o prazer de sujeitar machos rivais a terem de esperar pelos meus restos. Aliás, nunca achei que poderia ter machos rivais. Sempre achei que me estaria eternamente reservado o papel do macho de categoria inferior (e, nos piores pesadelos, de fêmea), no que toca aos despojos seja do que for. Até que, quem sabe fruto da velhice que não perdoa, comecei a acordar cedo, e a ir debicar a dose matinal de cafeína no café aqui do prédio.

A ideia é enfardar o cafezinho (não, não leva acento), mas também rebolar os olhos pelo jornal desportivo do dia. Dantes, quando me arrastava escadas abaixo já a meio da tarde e me entornava sem forças no balcão, na melhor das hipóteses encontrava o jornal já amarrotado e babado de dezenas de dedos lambuzados que o tinham desflorado ao longo da manhã. Já toda a gente o tinha lido, menos eu. Ossos e pele!

Agora apanho-o ainda rijinho (no pun intended), virgem ou quase. E agora acontece.

Agora acontece. Ainda agora aconteceu. Enquanto patinava os olhos pelas páginas do Record, notei nas mesas à minha volta os olhares invejosos de uns quantos machos. Perdi há décadas as ilusões de que essa inveja possa ser de alguma forma freudiana. Portanto tem de ser do jornal. De ser eu, nem que seja por minutos, o macho dominante do café. Ou pelo menos um dos de categoria superior. Eu não sou esquisito, satisfaço-me com pouco. O ar impaciente enquanto viro as páginas pachorrentas. Os olhares de coito interrompido quando pretendo ter acabado mas ainda me detenho, afinal, na inútil última página, fingindo ler não sei o quê. E depois quando o dobro e pouso perto de mim. Os primeiros movimentos nervosos dos machos inferiores (oh, que prazer poder dizê-lo), os rabos que hesitam a meio caminho entre o levantar e o ficar sentado. Os olhares trocados a aferir da categoria de cada um, para ver quem tem direito aos meus restos em primeiro lugar.

Depois levanto-me, vomitando olhares de desprezo pelo café. E há um ou dois ou três machos inferiores (ui!!!) que se levantam hesitantes, e de repente aceleram em direcção à minha mesa, e disputam o que resta da minha leitura matinal.

Assim é que se começa bem o dia. Até porque daqui a pouco vou para o ginásio, depois o duche no balneário, e lá se vai toda esta ilusão de macho superior.

domingo, março 29, 2009

A prisão do ético


É no dia 4 de Abril, às 16:00, o lançamento na Livrododia (Torres Vedras) do livro A prisão do ético, de Paulo Rodrigues Ferreira. A edição é da Livrododia Editores, e eu, que já o tenho, posso garantir que é imperdível.

sexta-feira, março 27, 2009

A cidade e as bestas

Quando li As Cidades e as Serras a minha simpatia e compreensão recairam desde as primeiras linhas em Jacinto, o homem da cidade. E foi com uma mistura de tristeza e coração atraiçoado que o vi evoluir no sentido da rejeição da vida urbana. A mim o campo põe-me doente. Física, mas sobretudo mentalmente. O isolamento, a apatia, a inanição intelectual. Um horror. Há pouco tempo descobri mais um defeito: a absoluta falta de civismo dos condutores. Estou habituado a conduzir apenas em aglomerados urbanos ou próximo de centros urbanos. Apesar da tradicional falta de consideração do condutor português, que se traduz sobretudo em carros mal estacionados e em segundas filas, vigora apesar de tudo o civismo e um mínimo de educação. Mas quando comecei a conduzir para casa da minha irmã, em pleno Oeste rural, comecei a perceber os números assutadores da sinistralidade rodoviária: excesso de velocidade, ultrapassagens delirantes, total falta de respeito pelas mais elementares regras de segurança, e uma enorme, tremenda má criação. É este o campo português? Minha rica cidade!

terça-feira, março 24, 2009

Asma nas teclas



Quando me diagnosticou asma, a alergologista pediu-me que fizesse uma série de exames. Um deles media a minha capacidade respiratória. Quando lho entreguei, despejou o nariz na papelada e regougou se por acaso sentia dificuldades respiratórias. Respondi-lhe que não, que sempre tinha respirado bem. Alvejou-me com um dos olhos, e berrou triunfante que eu sempre tinha tido problemas respiratórios, mas que como não tinha uma referência de comparação, achava que respirava bem. Era como se sempre tivesse visto o mundo a 2 dimensões e alguém me tentasse explicar como é o mundo a 3 dimensões. Apenas poderia fazer uma pequeníssima ideia.

Vem isto a propósito de mais uma aventura a utilizar um computador com Windows. Familiares e amigos não conseguem compreender porque é que bufo, resmungo, suo e às vezes até grito quando tenho de ser submetido a tal prova. Aos meus desesperados "esta merda nunca mais abre" respondem com "mas até está a abrir depressa" perplexos. Quando ao fim de 10 segundos de espera para encerrar o computador me impaciento, não conseguem entender o meu bufar irado. Se um programa deixa de responder e rebenta, parece-lhes tão natural como lavar os dentes ao deitar, e não concebem a razão do meu espanto e revolta.

No fundo é como eu com a minha asma: não tendo ponto de referência, achei sempre que respirava tão bem como um atleta de alta competição, e no fim tinha pouco mais do que a capacidade respiratória de um velho de 90 anos.

Lembrei-me de novo de tudo isto quando tentava em desespero consultar o meu email, no Windows da minha irmã. Ao fim de várias tentativas e murros furibundos no teclado consegui, não sem antes ter sido forçado a reiniciar o Firefox e o IE duas ou três vezes. Eu estou habituado, no meu Linux, a carregar no ícone do Firefox e ele abrir sem que eu tenha tido tempo de largar o rato. Depois de conseguir por fim que o IE estabilizasse, abri o Blogger para começar a escrever esta entrada. Desisti a meio da segunda linha, exasperado com o rosnar constante do disco, com o folclore das luzinhas de actividade a cegar-me, com o cursor a bloquear regularmente durante alguns segundos. Carreguei então várias vezes na cruzinha para fechar a janela e bater com a porta do escritório da mana. Quando por fim o sistema se dignou obedecer-me, fui mastigar o bolo de anos do meu cunhado e ruminar irritações.

Agora, já no meu Linux, tudo obedece, em fracções de segundo. As luzinhas de actividade estão numa modorra imperturbável. O cursor não pára. O Firefox abriu tão depressa que quase podia jurar que ainda antes de clicar já estava aberto. E não consigo entender (e juro que me esforço) como é que há quem ainda prefira sistemas operativos caros ou pirateados, e que demoram o triplo, às vezes o quíntuplo, do tempo a fazer as mesmas coisas. Nem sempre com a mesma eficiência.

A minha mãe, que vai a caminho dos 63 anos, era uma dessas pessoas. Encarava os vírus, os programas bloqueados e a rebentarem sem explicação aparente, a lentidão exasperante, a gordura mastodôntica, encarava tudo isso com a mesma naturalidade com que sorve o seu chá nocturno. Um dia, e sem explicação (como é de regra), o seu Windows deixou de funcionar. Propus-lhe instalar um sistema Linux, até encontrar alguém que pudesse instalar-lhe mais um Windows. Cairam-lhe os olhos no chão de susto e bateu no peito em aflição: e o meu messenger? E o meu office? E o meu desktop?

Já se passaram vários meses. Usa o Pidgin, que faz basicamente o mesmo que o Messenger e usa a mesma lista de contactos, mas é menos pesado; o office é agora o OpenOffice, que faz a mesma coisa que o da Microsoft, mas é gratuito; o Firefox é o mesmo que já usava em Windows; o desktop, sendo diferente, faz a mesma coisa, e é mais intuitivo e configurável. Nunca mais me falou em querer o Windows de volta. E aposto que mais dia menos dia também ela bufará quando sofrer o suplício de ter de usar um sistema Windows.

Beati pauperes spiritu

Contei oito alminhas de cartazes em punho e megafone na mão à porta da ES Madeira Torres (Torres Vedras) esta manhã. As palavras de ordem eram as do costume (não às aulas de substituição, não ao regime de faltas, etc.). Depois fiquei muito deprimido. Ainda estou para perceber se por causa da indigência argumentativa e do ridículo das reivindicações daquela meia dúzia, se pela apatia generalizada dos estudantes portugueses, longe dos dias em que enchiam ruas, independentemente da justiça das causas, e eram atacados à bastonada e com cães açulados pelo actual Presidente da República.

sábado, março 07, 2009

A lapa

Quem está mal muda-se, sempre ouvi dizer. Mas o Sr. Alegre, que há muito se sente mal no PS, não se muda nem sai. Não vota com o partido de que é deputado, juntando-se à oposição, mas não se muda nem sai. Não apoia o governo que é suportado no parlamento pelo partido de que é deputado, mas não se muda nem sai. Não se candidata à liderança do partido de que é deputado e contra quem vota, mas não se muda nem sai. Não vai ao congresso do partido de que é deputado e contra cuja liderança está, mas não sai. Agora diz que, se pudesse, se candidataria contra o partido de que é deputado, cuja liderança não disputou e a cujo congresso não foi para expor as suas ideias. Mas não se muda. Nem sai.

É como uma lapa chata, agarrada à rocha do seu lugarzinho de deputado, pelo partido pelo qual foi eleito, mas contra o qual queria concorrer. E tem todo o direito de querer, deixemo-lo bem claro. O que não se percebe é porque raio se mantém deputado e filiado no partido contra o qual vota no parlamento, ao lado da oposição, a cujo congresso, onde poderia expor e discutir as suas ideias, se baldou, e contra o qual diz que se pudesse se candidatava.

Helena Roseta, que é uma grande mulher, ao menos levou a sua divergência às últimas consequências, saindo (infelizmente) do partido assim que se sentiu a mais. É que quando se é uma figura de relevo num partido e se está em rota de colisão com a direcção só há duas coisas a fazer: apresentar uma candidatura alternativa, ou sair. Roseta optou pela última solução. Alegre preferiu ficar sem ficar. Não apresentou candidatura alternativa - nem sequer foi a congresso - nem saiu. E é por isso que eu, eleitor socialista, até votaria em Helena Roseta, se se apresentasse como candidata presidencial. Mas em Alegre, em quem nas últimas eleições presidenciais até me senti tentado a votar, agora nem morto, nem com uma mola no nariz. Antes votar em branco (Cavaco nem que viesse deusnossenhor pedir pelamordedeus). É que eu não gosto de lapas.

quarta-feira, março 04, 2009

Da gorduranga

Por mais que que se invista em campanhas de prevenção da obesidade, doenças cardiovasculares, oncológicas e outras, será sempre dinheiro e latim mal gasto, enquanto as cantinas e bares de instituições públicas continuarem a servir apenas bifes a boiar em molhanga gordurosa, bacalhauzadas afogadas em natas, gordura de porco com lascas de carne agarrada e outras armas biológicas de destruição em massa. Nos bares da Faculdade de Letras da UL, por exemplo, a única hipótese para escapar aos instintos assassinos dos responsáveis pelas ementas dos vários bares é pedir para se grelhar um bife (e esperar um bom bocado...), ou então fazer como eu, e pedir um pratinho de arroz branco, uma salada que não esteja infectada com maionese, uma sopinha, e passar fome o resto da tarde.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

O anormal

Na sequência do chorrilho de asneiras que regurgitou na Figueira, o cardeal Saraiva Martins garantiu que os homossexuais não são normais. Tem todo o direito a pensar dessa forma, afinal a liberdade de pensamento é um direito. E por isso eu também tenho o direito de pensar que quem abdica da sua sexualidade para se dedicar à religião não é normal.

César

Ouço na RTP-N o cardeal Saraiva dizer, entre outras cavalidades e aleivosias, que o Estado devia permitir que a Igreja colaborasse na elaboração das suas leis. Pois eu acho que a Igreja devia permitir que o Estado colaborasse na elaboração dos seus cânones. Que tal, senhor cardeal?

sábado, fevereiro 14, 2009

Mumtaz

Embora os meus conhecimentos de Árabe sejam ainda incipientes, já me começa a ser possível confirmar o que alguns árabes há muito me diziam: nas reportagens feitas pelas canais noticiosos ocidentais nas ruas da Palestina, Iraque e outras paragens, às vezes o que de facto é dito e o que depois aparece nas legendas não tem qualquer relação. Há pouco ouvia uma assustadora reportagem sobre os meandros da Jihad Islâmica na Palestina, e, entre outras coisas, apanhei um "mumtaz" ("excelente") traduzido como "continua", ou um "yahûd" (judeus) traduzido como Israelitas. São pormenores sem grande importância, e o segundo exemplo até é comum na nossa comunicação social. Mas todos sabemos a importância dos pormenores e das pequenas alterações de sentido no contexto dos conflitos internacionais. E, repito, o meu Árabe ainda é incipiente, e não me permite perceber mais alterações deste género ou piores.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Acabar bem o dia . 05


Claudio Monteverdi (1567-1643), Il Lamento della Ninfa
Hespèrion XX, Jordi Savall


Ilustração: Francesco Albani - Adónis levado a Vénus por Cupidos (pormenor)

Ter ouvido isto, já lá vão uns 15 anos, ao vivo, com estes mesmos intérpretes, na Academia das Ciências de Lisboa mudou a forma como encarava a música de Monteverdi.

domingo, janeiro 25, 2009

Le con c'est moi

«A trigueirinha estudou a sua lição, e o Rei ajudou-lhe a pronunciar os ditongos. Sua Majestade sabia regularmente a língua francesa e espanhola. A italiana ensinou-lha, vinte anos depois, a actriz Petronilla, a quem deu presentes que carregaram trinta cavalgaduras quando a cantora se fez na volta de Espanha, diz o Cavalheiro de Oliveira. D. António Caetano de Sousa, na História Genealógica da Casa Real, tom. VIII, pág. 4, diz que o Rei sabia também latim com perfeita inteligência. De um sujeito que lia Horácio e Cícero, dizia Bocage: "Pena é que saiba latim, pois perdeu-se um parvo grande!" D. João V, ainda com latim, não era parvo pequeno nem perdido.»


Camilo Castelo Branco, A Caveira da Mártir, Obras Completas, Vol. VII, Lello, Porto, 1987, p. 1042

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Acabar bem o dia . 04


Ouvir música aqui

Cristóbal de Morales (1500-1553), Parce mihi Domine
The Hilliard Ensemble

Ouvir música aqui

Ilustração: Francisco de Zurbarán - Imaculada Conceição

Ora sirva-se lá deste presuntinho assado


De uma coisa não podem ser acusados os Inquisidores, nos tenebrosos anos de Seiscentos em Portugal: de falta de sentido de humor. Veja-se, por exemplo, a finíssima chalaça com que Frei Manuel dos Anjos nos presenteia logo na abertura do sermão que pregou num auto de fé em Évora, em 21 de Junho de 1615, diante dos condenados a serem queimados vivos:
E vem muito a proposito neste sancto Auto da fee este thema com o Euangelho que nesta Dominga representa a sancta Madre igreja, a qual nos propoem hũa Cea parabolica, pera a qual o verdadeiro Messias CHRISTO IESV conuida esta gente Iudayca, a si antes de se fazer homem, como depois, conuidandoos (& este sera o Sermão) com mimos, & regalos sua diuina Misericordia, & a diuina sabedoria com outro prato de explicação das scripturas que mostrão como o Messias he vindo (...).

Cota da Biblioteca Nacional: R. 21793//24 P

quarta-feira, janeiro 07, 2009

من أرهابي؟ . 03


Os terroristas israelitas bombardearam uma escola da ONU cheia de refugiados, sobretudo mulheres e crianças. Pelo menos 40 mortos.

Os defensores da barbárie apressam-se a rosnar que o Hamas usa instalações civis. Ainda que use - ainda não vi provas disso, mas ainda que use: desvaloriza-se a vida de inocentes, descarta-se deliberadamente a vida de crianças, consideram-se dispensáveis as vidas de civis inocentes com o objectivo de atingir eventuais bases inimigas, de que nem se tem a certeza que lá estejam? Ataca-se uma escola, um hospital, uma mesquita, sabendo que de certeza vão morrer inocentes, crianças incluídas, sem se ter a certeza (e mesmo que se tivesse!) de que se atinjam inimigos? Ou será que para Israel são todos inimigos?

Atingir alvos civis deliberadamente tem um nome: terrorismo. E é o que Israel se tornou: um estado terrorista. E impune, violando sistematicamente os mais elementares direitos humanos, cometendo os mais atrozes crimes de guerra, desprezando e contrariando todas as decisões da ONU em relação aos territórios ocupados.

Não vejo nenhuma diferença entre o fanático terrorista que se faz explodir num autocarro matando dezenas de inocentes e o exército de um estado que massacra deliberadamente dezenas de inocentes refugiados em escolas e mesquitas.

Afinal quem é o terrorista?
من أرهابي؟

Há ainda uma coisa que Israel parece ainda não ter aprendido: estas actividades, além de terrorismo puro, de selvajaria do mais animalesmo, são contraproducentes: tal como os ataques terroristas ao Líbano em 2006, que fortaleceram o Hizbullah e o conseguiram pela primeira vez tornar popular e apoiado entre as comunidades cristãs e muçulmanos sunitas (antes dos ataques o Hizbullah era sobretudo popular entre a minoria xiita), cada ataque a Gaza, cada morto, cada ferido significa um acréscimo de apoio popular ao Hamas e mais um potencial punhado de bombistas suicidas.
Link

Manifestação contra os ataques terroristas israelitas


Recebido por mail:

No momento em que festejamos a passagem de ano com fogos de artifício na cidade de Lisboa, o povo de Gaza vive sob o fogo real da artilharia e da aviação israelita. Nos primeiros dez minutos da ofensiva morreram mais de 200 pessoas e ficaram feridas ou estropiadas mais de 600. Alegadamente, tudo isto era resposta "proporcional" aos morteiros artesanais palestinianos, que em 7 anos mataram 20 israelitas. Na verdade, o bombardeamento israelita é um novo passo na destruição do povo palestiniano: neste momento já há outras tantas centenas de mortos e milhares de feridos; prosseguem os ataques a uma população que não tem para onde fugir nem como se defender, já que a Faixa de Gaza tem vivido sob um bloqueio que priva os seus habitantes de água potável, de energia, de alimentos, de medicamentos. O cessar-fogo que os EUA, a UE e a ONU exigem aos palestinianos seria, nessas condições, a morte lenta para um povo cercado. Se alguém aqui está a defender-se, são os palestinianos de Gaza, que elegeram democraticamente o seu governo e a quem o Estado de Israel tem invadido, ocupado e roubado as terras, as propriedades e as casas. Não vamos calar-nos diante dos crimes de guerra e do abuso de força. Apelamos à participação de todos e todas nas acções que estão a ser preparadas por várias organizações em Lisboa:

5 de Janeiro a partir das 18h

no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância
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8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na colonizada Rua António Enes, no 16, a S. Sebastião

Esta última iniciativa é apoiada por: Associação Abril - Bloco de Esquerda - CGTP - Colectivo Abu-Jamal - Colectivo Revista Rubra - Comité de Solidariedade com a Palestina - CPPC - Fórum pela Paz - MDM - Monthly Review - MPPM - Plataforma Guetto - Política Operária - Shift - SOS Racismo - SPGL - Tribunal do Iraque

terça-feira, janeiro 06, 2009

AVC informático


O meu PC teve um AVC! Felizmente nada de grave, que isto é Linux, e portanto tudo se resolve sem reinstalações nem formatações.

domingo, janeiro 04, 2009

Da ignorância . 01


Vomitando ódio, preconceito e ignorância, via-se há dias nas notícias um israelita dizendo que se deviam exterminar todos os árabes (1). Com medo de que o seu ódio bíblico não ficasse claro, ele enumerava: Hamas, Hizbu Allah (2), e Taliban.

Além dos evidentes ódio e preconceito, há aqui também uma profunda e assustadora ignorância, a habitual confusão entre árabes e muçulmanos. É que como qualquer pessoa informada sabe, uma coisa não é sinónimo da outra. De resto, dentro do mundo muçulmano os árabes são uma minoria, abafados pelos povos do sudeste asiático e do mundo indo-iraniano, onde se incluem os "taliban", que, como qualquer criança de 6 anos sabe, não são árabes. Ao querer exterminar os árabes, aquele israelita pretendia exterminar, portanto, uma etnia, o que tem um nome técnico: genocídio, ou, na terminologia política do pós-guerra, holocausto.

Mas detenhamo-nos um pouco mais na confusão entre árabes e muçulmanos. Como é evidente para qualquer pessoa que leia jornais e livros, ser árabe não implica ser muçulmano. O Ocidente, habituado a séculos de intolerância para as outras religiões, não consegue compreender isto, mas há na generalidade dos países muçulmanos, e portanto também nos árabes, importantes minorias religiosas, nomeadamente cristãos. No Líbano quase metade da população é cristã; no Iraque a minoria cristã, activa apoiante de Saddam, é tão importante que até tinha um dos seus como braço direito do ditador: Tariq Aziz; no Egipto a comunidade cristã é de cerca de 15%; na Síria de cerca de 15%; na Jordânia de cerca de 7%; na Palestina o número é significativo, embora não tenha à mão dados percentuais. E se incluir nesta lista os malteses, que falam uma língua arábica, que não está mais distante do árabe padrão moderno (que ninguém fala como língua materna) do que os chamados dialectos árabes que são as verdadeiras línguas maternas dos países árabes, então teríamos aqui uma comunidade árabe de esmagadora maioria cristã. Mas como a inclusão dos malteses nesta lista, embora legítima, feriria as consciências daqueles menos entendidos em linguística, ficam de fora.

E já nem vou falar das importantes comunidades judaicas marroquinas, de onde saiu, por exemplo, um dos últimos líderes do Partido Trabalhista de Israel, Amir Peretz (nome árabe, Amir), e que este israelita também pretendia exterminar (são árabes, ergo...).

Portanto, ao querer exterminar todos os árabes, aquele israelita pretendia indiscriminadamente exterminar o muçulmano de Bagdade, o cristão de Beirute, o judeu de Casablanca, já sem falar dos ateus. É, portanto, um ódio étnico. E isto tem, como já disse, um nome: genocídio.

Se achar que todos os árabes são muçulmanos é, como se vê, um erro crasso, achar que todos os muçulmanos são árabes é ainda mais estúpido, tendo em conta que a grande maioria dos muçulmanos não é etnicamente árabe. Aquele israelita enfiava no saco árabe os taliban afegãos, erro muito comum mas absurdo e revelador de um desconhecimento atroz. Os afegãos são maioritariamente indo-europeus, do grupo indo-iraniano. Isto é, falam uma língua (o pastó) que partilha com o português e a quase totalidade das línguas europeias uma origem e características comuns. Em poucas palavras, e para os leigos em linguística histórica, o pastó afegão (3) são línguas aparentadas com o português, sem qualquer relação com o árabe (4). De resto há mais semelhanças entre o português e a língua dos taliban do que entre o português e o finlandês, língua não indo-europeia.

Mas que interessa isto ao igorante israelita da reportagem e a tantos outros ignorantes? O ódio é por definição ignorante, e quem odeia daquela maneira não terá nunca capacidade para entender qualquer noção ou explicação acima do nível intelectual de um chimpanzé amestrado.


Nota final: a designação "árabe" é, como se sabe, difícil e controversa. Não é simples definir o que é um árabe. A generalidade dos estudiosos aponta para uma solução de compromisso, que define como árabe aquele que usa a língua árabe e defende a cultura árabe. O que implica outras questões, como a dos dialectos árabes e de definir o que é cultura árabe. Eu gosto de apontar para uma definição mais simples, embora menos precisa, e que considera árabe aquele que usa no dia a dia a língua árabe e seus dialectos, e nasceu ou vive num país de língua oficial árabe.

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(1) "Endlösung", chamava-lhe Hitler
(2) Esta é a transcrição correcta, a forma "Hezbollah" é uma aproximação fonética de "hizbu l-lah", que é a forma como se pronuncia.
(3) Bem como o persa iraniano ou o urdu paquistanês, entre outros.
(4) Tirando alguns empréstimos, tal como o português tem muitos.

sábado, janeiro 03, 2009

Acabar bem o dia . 04



Cristóbal de Morales (1500-1553), Emendemus in melius
Gabrieli Consort, Paul McCreesh


A missa é toda ela extraordinária, e a interpretação de Paul McCreesh é excelente. Mas este motete final continua a arrepiar-me sempre que o ouço. O CD pode ser adquirido aqui.

Ouvir música aqui

Ilustração: Pedro de Campaña

Acabar bem o dia . 03

Ouvir música aqui



Tomás Luis de Victoria (1548-1611), Taedet animam meam
Gabrieli Consort, Paul McCreesh

Ilustração: El Greco - Maria Madalena em penitência

Futebol

Árbitros 1

A Liga Sagres está à procura de meninas giras (a expressão é deles) para acompanhar os árbitros no início de cada jogo. Não percebo porque se dão a tanto trabalho. Podiam muito bem ter pedido assistência técnica ao Pinto da Costa e restante aparelho portista: é verdade que são mais peritos em meninas para acompanhar os árbitros depois dos jogos, mas, até vendo pelo ar ordinarote e seminu das meninas que aparecem na página, deve ser mais ou menos a mesma coisa.

Árbitros 2

Depois da choradeira das virgens ofendidas após terem sido alegadamente prejudicadas a sério pela primeira vez nesta época, o sócio benfiquista Pedro Henriques foi avaliado negativamente. Esta é uma lição que o Sporting deveria ter em conta: talvez compense vir para os "média" (*) choramingar e chantagear emocionalmente, como fez o galinhame, em vez de amochar de bico calado os sucessivos e bem mais escandalosos roubos, jornada após jornada.


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(*) é uma palavra latina no plural, não inglesa, e portanto não faz qualquer sentido ser pronunciada à inglesa, mas à latina: "média".

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Começar bem o dia . 06


Hildegardis Bingensis (1098 - 1179), O Euchari
Gothic Voices, Emma Kirkby
Christopher Page

Música aqui.

Prefiro as interpretações da Sequentia ou do Organum, mas esta é também muitíssimo boa.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Começar bem o dia . 05 . Começar bem o ano


Martín y Coll (c. 1660-1734), Diferencias sobre las folías
Hespèrion XXI, Jordi Savall


P.S.: a Ariana Savall está igual à mãe!

Cacofonias


Se um dia me dissessem que um "cover" das Doce seria muito pior do que o original, eu diria que tal seria impossível. Até ouvir a lamentável versão do "Bem bom" pelo Rui Reininho.

Acabar bem o dia . 02 . Começar bem o ano


Jordi Savall e Hespèrion XXI, variações sobre uma "folia" quatrocentista

terça-feira, dezembro 30, 2008

Começar bem o dia . 04

Pergolesi (1710-1736), Stabat Mater (1ª secção)
Andreas Scholl, Barbara Bonney
Les Talents Lyriques, Christophe Rousset



Música aqui.

Ilustração: Franz Christoph Janneck.

Hosanna in excelsis

O mesmo Manuel (2 anos) que me massacra com sessões contínuas de Avô Cantigas e coisas do género, ontem abriu um berreiro no carro quando tive a peregrina ideia de desligar o rádio onde tocava o "Hosanna" da Missa em Si Menor de Bach. Perante a choradeira pontuada de "liga, liga", acabei por ligar de novo o rádio, e ele lá se acalmou e silenciou. Como o Manuel não é mais inteligente nem culto do que a média das crianças de 2 anos, isto demonstra de novo que a exposição a música de qualidade cria apreciadores. E quem fala de música pode falar de literatura e de televisão, contrariando o sempre duvidoso argumento de que as TV generalistas passam merda (não posso fugir à pçalavra) porque é disso que as pessoas gostam.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Então porque é que não votaram contra?

Ouvida a comunicação do Presidente da República sobre o já insuportável Estatuto dos Açores, o PSD, pela boca do seu líder parlamentar, apressa-se a dar razão ao sr. Cavaco, lamentando que o PS tenha forçado este conflito. A isto chama-se hipocrisia e desonestidade. É que o PSD, como se sabe, votou favoravelmente o dito estatuto já depois de o sr. Cavaco o ter vetado pela primeira vez, e absteve-se agora, depois do segundo veto.

Se o PSD estava tão preocupado com o conflito e se achava (como disse Paulo Rangel) o Estatuto tão incorrecto que vai pedir a sua fiscalização sucessiva, então porque é que o votou duas vezes, ao lado do PS (e de todos os outros partidos), e agora se limitou a abster-se? Hipocrisia, desonestidade, eu diria mesmo ordinarice. E interesses partidários, como bem disse o sr. Cavaco na sua comunicação: o PSD nacional refém do PSD dos Açores.

Quanto ao Presidente, há uma frase que me fica: é quando diz que na actual conjuntura de crise não havia necessidade deste conflito. É verdade, não lembra a ninguém fazer uma birra destas, com direito a comunicação ao país, na actual conjuntura de crise.

Começar bem o dia . 03


J. S. Bach (1685 - 1750), Sonata para viola da gamba e cravo BWV 1027
(2º movimento)

Sonata completa (e mais algumas coisas) aqui.

Começar bem o dia . 02


Francisco Guerrero (1528 - 1599), Ave Virgo Sanctissima

A versão do Jordi Savall é, para mim, imbatível, mas esta é também muito boa.

domingo, dezembro 28, 2008

Da ecologia

Eu separo o lixo em casa, como qualquer pessoa responsável e civilizada que se preze. Mas os responsáveis pela colocação dos ecopontos em Torres Vedras não ajudam nada este meu civismo. Os "moloc" espalhados pela cidade há vários anos insistem em dificultar ao máximo a vida a quem em casa se dá ao trabalho de separar civilizadamente o lixo. Se com os "amarelos" não há problema, pois têm uma abertura normal que permite o despejo de forma eficiente e rápida, já com os "azuis" e "verdes" a coisa não é tão simples.

O moloc "azul", destinado aos papéis, desafia a paciência, já sem falar da destreza, de qualquer cidadão responsável. Num exercício de puro sadismo, os que o conceberam decidiram tapar a abertura, deixando apenas uma fresta, o que obriga o cidadão educado a perder algum do seu tempo retirando quase um a um os papéis que civilizadamente separou em casa, depositando-os com dificuldade na estreita ranhura. No caso do moloc perto do meu prédio o trabalho é ainda mais complicado pela inclinação do terreno, que obriga uma mão a segurar na tampa, enquanto a outra retira dificultosamente, um a um os papéis do saco que tem de ser espalmado entre a barriga e o moloc, pois não tive a fortuna de nascer com uma terceira mão que o segurasse, enquanto as outras duas laboram na ecológica tarefa da reciclagem. Há dias formava-se até uma fila de 3 pessoas esperando, ecológica e pacientemente, que um vizinho esvaziasse a custo o saco de papéis, uma mão a segurar a tampa, a outra a depositar a papelada, a barriga a segurar o saco, enquanto uma chuva de papéis caía do saco para o chão, perante o desespero do homem, que ainda não tem treino para os ir apanhando com um pé e repondo no saco com o outro. Lá chegaremos. Ao fim de alguns longos minutos chegou a minha reciclanda vez, e eu juro que já estou a ganhar calo na barriga de tanto a usar para segurar o saco.

O moloc "verde" destina-se aos vidros. Muito bem. O problema é que mesma mente de crueldade retorcida que concebeu o moloc supra descrito também trabalhou na concepção deste, e com inusitados requintes de malvadez: só é possível introduzir os vidros por uma mínima abertura circular, onde a custo cabe um punho fechado. Portanto, ao cidadão responsável que quiser lá prantar um vidro de uma moldura partida, um vidro de uma janela, eu sei lá, um garrafão mais largo, a esse cidadão reciclado só lhe restam duas alternativas: voltar a partir os ditos vidros em pedaços pequeninos e depois, arriscando a sua integridade física, com uma mão segurar a tampa do malfadado moloc, com a outra retirar e colocar um a um os pedaços de vidro, e com a barriga pressionar levemente o saco, arriscando ainda assim ser esventrado em nome da ecologia; ou então colocar a sua integridade física acima da nobre tarefa recicladora, mandar a ecologia às malvas, e entornar no moloc "preto" todos os vidros que não caibam no pequeno orifício do moloc "verde" sem terem de ser manuseados. Eu, como sou responsável, opto por uma terceira via: vou acumulando em casa vidros, até alguma alma caridosa decidir repor a abertura original no moloc "verde".

من إرهابي؟ - 02

O número de mortos motivados pelos ataques terroristas israelitas aumenta a cada dia que passa. E a comunidade internacional, tão lesta (e ainda bem) a condenar situações do mesmo género em outros pontos do globo, mantém-se calada, apenas com tímidas intervenções aqui e ali. Dos EUA, claro, nada se espera. Afinal o amigo israelita pode fazer tudo aquilo que criticam (por vezes militarmente...) a outros estados que de Israel só diferem numa coisa: não são amigos dos EUA.

Começar bem o dia . 01



Índios e cobois

Ressumando ódio, preconceito e iliteracia, um comentador deste blogue diz que a esquerda, onde me inclui (e onde de facto me incluo) defende o Hamas e os terroristas islâmicos - isto porque me insurgi contra a barbárie israelita nos territórios ocupados. Infelizmente não é o primeiro nem será o último sem a capacidade para discernir o mundo sem ser a preto e branco, sem o filtro texano dos índios e cobois. É que para mim, e em geral para os que denunciam as atrocidades israelitas, que viola impunemente várias resoluções da ONU e atropela os direitos humanos, estar contra o terrorismo de estado israelita não implica estar do lado do terrorismo de minorias palestinas - implica estar contra o terrorismo, contra os atropelos aos direitos humanos, contra a guerra, contra os ataques ao direito internacional. Estar contra um dos lados não implica estar a favor do outro. Ainda que isto seja claro para uma criança de 6 anos, nunca é supérfluo repeti-lo.

Por mais que possa parecer estranho a este comentador, é possível estar contra os dois lados. Pelo menos para quem já ultrapassou os vários estádios de desenvolvimento cognitivo da infância e adolescência.