À medida que vou mergulhando na bibliografia sobre a Restauração, vou-me dando cada vez mais conta de que a historiografia actual desconhece em absoluto as fontes de que estou a trabalhar apenas uma parte (embora já ultrapasse as 500 páginas de texto editado). Essa convicção tenho-a quer pelo que está escrito, quer pela omissão da referência às fontes nas bibliografias apresentadas. Há uma ou outra excepção, que indica e refere um ou outro das largas centenas de documentos inéditos e aparentemente não lidos - e não me refiro apenas aos que estão nos arquivos do Vaticano.
sábado, agosto 15, 2009
quinta-feira, agosto 13, 2009
Quanto pior melhor
Juntamente com a França e a Alemanha, Portugal está no grupo dos países da Zona Euro que primeiro acabou com a recessão e reiniciou o crescimento económico, para consternação da oposição, que assim vê escapar um importante trunfo eleitoral. Consternação bem visível na fronha dos seus dirigentes, do CDS ao BE, que, com ar fúnebre, comentaram este importante facto. Resta saber se, tal como responsabilizaram o governo pela crise internacional (!), vão agora dar-lhe crédito por ter terminado a recessão (ainda não a crise, infelizmente).
terça-feira, agosto 11, 2009
Da preguiça
A mim, que sou fraco de entendimento, custa-me muito perceber o que leva uma pessoa de aspecto saudável e jovem a subir dois ou três andares de elevador; mas o que me deixa deveras perplexo é ver uma pessoa de aspecto saudável e jovem DESCER dois, três ou mais andares de elevador.
quinta-feira, agosto 06, 2009
À vontadinha
Ontem levei, excepcionalmente, o carro para Lisboa (como não sou rico, e tenho algumas preocupações ambientais, vou sempre de autocarro), por motivos que não interessam para o caso. Ia estacionar em frente à FLUL, e olhei a ver se tinha alguma coisa de valor à vista. Por momentos achei que era arriscado deixar o "Ulysses" ali no porta-luvas, ao léu. Mas depois bati na testa e pensei que na FLUL a reacção mais normal a um livro, sobretudo se for bom, é mais de fuga do que de tentação para roubar. E fui-me embora descansado.
quarta-feira, agosto 05, 2009
Outra virgem ofendida
A propósito dos saneamentos políticos no PSD por ordem da sua presidente, não deixa de ser curioso que seja a José Sócrates que se apelida de arrogante e autoritário, apesar de ele manter nas suas listas os seus adversários, e até ter sondado Manuel Alegre (mesmo dando de barato que sabia que a resposta seria negativa).
Por outro lado, Manuela Ferreira Leite mostra de novo que é uma política exímia e implacável, como de resto já tinha dado provas quando foi Ministra de Estado e das Finanças e deixou o país no estado em que se sabe, no que respeita a contas públicas, graças a medidas autoritárias e altamente nocivas às classes baixas e médias. Uma política exímia e implacável, bem longe da cândida e ingénua imagem que inventou à última da hora, para aparecer aos de memória curta como uma senhora que não percebe nada destas coisas da política, a tal ponto que nem sabe falar (Pacheco Pereira dixit).
Por outro lado, Manuela Ferreira Leite mostra de novo que é uma política exímia e implacável, como de resto já tinha dado provas quando foi Ministra de Estado e das Finanças e deixou o país no estado em que se sabe, no que respeita a contas públicas, graças a medidas autoritárias e altamente nocivas às classes baixas e médias. Uma política exímia e implacável, bem longe da cândida e ingénua imagem que inventou à última da hora, para aparecer aos de memória curta como uma senhora que não percebe nada destas coisas da política, a tal ponto que nem sabe falar (Pacheco Pereira dixit).
terça-feira, agosto 04, 2009
Do conhecimento
«L'antiquité a cela de commun auec la renommée, qu'elle se cache dans les nuës, ou si elle se laisse voir, ce n'est que par des especes confuses, & en la mesme sorte que les obiects qui sont fort esloignez, paroissent à nos yeux. De tant de choses, dont elle auoit voulu informer la posterité, les connoissances nous en viennent si foibles, & si imparfaites, qu'elles ne font que nous laisser des doutes, pour des resolutions.»
Observations sur un livre intitulé Philippes le prudent, fils de Charles de Quint, verifié Roy legitime de Portugal, des Algarues, des Indes & du Bresil composé en latin par D. Iean Caramuel Lobkovvitz, religieux de l'ordre de Cisteaux, Docteur de Louvain, & Abbé de Melrose.
Antuérpia-Paris, 1640 (p. 131)
Este excerto retirei-o de um livro publicado em Antuérpia e Paris, em 1640, antes da Restauração, como se percebe com clareza. Sem indicação de autoria, apresenta-se como comentário à publicação em 1639 do "Philippus Prudens" de Caramuel Lobkowitz, o grande teórico das teses espanholistas.
habîbî yâ nûr 'aynaya
Acho que ando a exagerar na Umm Kulthum, no leitor de CD do carro: hoje a Carolina pôs-se a dançar a dança do ventre na praia. Juro. A esticar e a encolher a barriga, de braços no ar. À minha mãe ia-lhe dando ali mesmo uma pataleta.
segunda-feira, agosto 03, 2009
Well I never!
Na SIC-N Manuela Ferreira Leite diz-se chocada com as condições dos tribunais portugueses. É pena não se ter sentido igualmente chocada quando foi Secretária de Estado e Ministra de Cavaco Silva e de Durão Barroso, em 2 governos PSD. Ironia cruel, MFL tinha atrás de si João Aguiar Branco, com ar de virgem ofendida (pose bastante apreciada no partido). Sim, esse mesmo João Aguiar Branco, que foi o último Ministro da Justiça do PSD, e de quem não se tem notícia que tenha feito alguma coisa para resolver o que tanto agora choca a sua correlegionária, nem que ostentasse o mesmo fácies compungido quando tinha a seu cargo os tribunais portugueses.
domingo, agosto 02, 2009
Eu também não me lembro de um dia 2 de Agosto de 2009 como o deste ano

O sr. Cavaco diz que não se lembra de ter levado tantos diplomas para analisar, em final de legislatura. Não é de espantar, tendo em conta de que é apenas o primeiro final de legislatura do seu mandato, já que foi eleito já decorria esta legislatura. Não há pachorra para este homem.
sexta-feira, julho 31, 2009
Um, dois, três, maltês
quinta-feira, julho 30, 2009
De senectute
Passei hoje por um cartaz publicitário qualquer que dizia qualquer coisa do tipo "e se voltasse a ter 17 anos". Eu, como tenho uma mente demasiado ociosa, pus-me a pensar e veio-me imediatamente a imagem do puto-eu de há 20 anos, de cabelo no ar uns bons 10 centímetros encharcados em gel, brincos às dúzias a escorrer das orelhas esticadas pelo peso (juro), expressão permanentemente enfadada debaixo das borbulhas, as t-shirts pretas, as calças rotas e os joelhos sempre à mostra, as botas militares ou de biqueira de aço ou de plataforma, o andar encurvado. Depois lembrei-me da escola, de como toda a gente olhava para mim com um misto de medo e perplexidade (eram os anos 80, não se viam coisas destas na província), dos intervalos entornados com outros 2 ou 3 "outcasts" nas traseiras da escola a fumar cigarros e a murmurar como a sociedade era injusta e não nos percebia. E de quando fui fazer as provas específicas de Latim e de Grego à FLUL, no Verão de '89, e de como os outros examinandos me olhavam de lado e eu percebi que tinha de apresentar um ar mais civilizado quando as aulas começassem para não ser outra vez um "outcast".
Lembrei-me disto tudo e rosnei um "irra deusmalivre". Depois reparei no que significava aquilo que tinha acabado de praguejar, e fiquei deprimido para o resto do ano.
Lembrei-me disto tudo e rosnei um "irra deusmalivre". Depois reparei no que significava aquilo que tinha acabado de praguejar, e fiquei deprimido para o resto do ano.
domingo, julho 26, 2009
It is meet to be here. Let us construct a watercloset.

«-- Imperium romanum, J.J. O'Molloy said gently. It sounds nobler than British or Brixton. The word reminds one somehow of fat in the fire.
Myles Crawford blew his first puff violently towards the ceiling.
-- That's it, he said. We are the fat. You and I are the fat in the fire. We haven't got the chance of a snowball in hell.
The Grandeur that was Rome
-- Wait a moment, professor MacHugh said, raising two quiet claws. We mustn't be led away by words, by sounds of words. We think of Rome, imperial, imperious, imperative.
He extended elocutionary arms from frayed stained shirtcuffs, pausing:
-- What was their civilisation? Vast, I allow: but vile. Cloacae: sewers. The Jews in the wilderness and on the mountaintop said: It is meet to be here. Let us build an altar to Jehovah. The Roman, like the Englishman who follows in his footsteps, brought to every new shore on which he set his foot (on our shore he never set it) only his cloacal obsession. He gazed about him in his toga and he said: It is meet to be here. Let us construct a watercloset.
-- Which they accordingly did do, Lenehan said. Our old ancient ancestors, as we read in the first chapter of Guinness's, were partial to the running stream.
-- They were nature's gentlemen, J.J. O'Molloy murmured. But we have also Roman law.
-- And Pontius Pilate is its prophet, professor MacHugh responded.»James Joyce, Ulysses
Humilhadas e Ofendidas

Francisco Louçã, com o seu eterno ricto de virgem ofendida a deformar-lhe o fácies clerical, acusa, naturalmente sem provas, que o PS ofereceu à independente Joana Amaral Dias o 2º lugar nas listas de deputados por Coimbra, bem como a presidência do IDT ou um cargo no governo. A dita Joana não confirma a notícia, nem desmente. A ser verdade, ela teria recusado, e tendo recusado, porque não viria agora defender ela mesma a sua honra? Enfim, mistérios insondáveis.
A audácia socialista! Atreverem-se a convidar uma cidadã independente para ser deputada! E ainda por cima oferecer-lhe um lugar de deputada, imagine-se, numa lista de candidatos a deputados! Repito: numa lista de candidatos a deputados! Pode lá ser!!!! Então convida-se alguém para integrar uma lista de deputados e em contrapartida oferece-se um lugar de deputado? Faz muito bem o sr. Loução em gemer de ofensa ofendida! O que é que virá a seguir? Oferece-se a titularidade a uma contratação de um jogador de futebol?! Deixa-se abrir uma loja alguém a quem foi dada autorização para abrir uma loja?! A pouca vergonha! O escândalo!
Diz ainda o sr. Louçã , entre lágrimas, que o alegado convite teria como alegada contrapartida a presidência do IDT. Pode lá ser, oferecer-se um lugar de confiança política a uma pessoa a quem alegadamente se deu confiança política? Até onde se chegará? O próximo Primeiro-ministro nomear como ministro da defesa uma pessoa de confiança? Ou entregar outros cargos de confiança política a pessoas em quem tem confiança política? A pouca vergonha! O escândalo!
E como se não bastasse, ainda se oferece um lugar no governo, que é formado normalmente por deputados eleitos nas listas do partido vencedor, para onde alegadamente se teria convidado a dita senhora? Oh ignomínia! O que faltará para o descrédito completo? O próximo Primeiro-ministro ser deputado do partido mais votado?! A pouca vergonha! O escândalo!
Ainda bem que temos a Vestal Louçã a denunciar estas ignomínias...
A audácia socialista! Atreverem-se a convidar uma cidadã independente para ser deputada! E ainda por cima oferecer-lhe um lugar de deputada, imagine-se, numa lista de candidatos a deputados! Repito: numa lista de candidatos a deputados! Pode lá ser!!!! Então convida-se alguém para integrar uma lista de deputados e em contrapartida oferece-se um lugar de deputado? Faz muito bem o sr. Loução em gemer de ofensa ofendida! O que é que virá a seguir? Oferece-se a titularidade a uma contratação de um jogador de futebol?! Deixa-se abrir uma loja alguém a quem foi dada autorização para abrir uma loja?! A pouca vergonha! O escândalo!
Diz ainda o sr. Louçã , entre lágrimas, que o alegado convite teria como alegada contrapartida a presidência do IDT. Pode lá ser, oferecer-se um lugar de confiança política a uma pessoa a quem alegadamente se deu confiança política? Até onde se chegará? O próximo Primeiro-ministro nomear como ministro da defesa uma pessoa de confiança? Ou entregar outros cargos de confiança política a pessoas em quem tem confiança política? A pouca vergonha! O escândalo!
E como se não bastasse, ainda se oferece um lugar no governo, que é formado normalmente por deputados eleitos nas listas do partido vencedor, para onde alegadamente se teria convidado a dita senhora? Oh ignomínia! O que faltará para o descrédito completo? O próximo Primeiro-ministro ser deputado do partido mais votado?! A pouca vergonha! O escândalo!
Ainda bem que temos a Vestal Louçã a denunciar estas ignomínias...
sábado, julho 25, 2009
O sinal de Deus

Deixo aqui mais um excerto de um sermão de um Auto da Fé seiscentista. O pregador deste foi Frei Manuel dos Anjos, e a festança deu-se em Évora, no dia 21 de Junho de 1615. Transcrevo do original, conservando grafia e pontuação.
Desenganayuos judeus que isto he castigo quereruos Deos trazer ẽnforcados como diz saõ Chrisostomo em vossas esperanças viuos, pera que assi andeis sempre em vossas conciencias mortos. Caym depois que matou a seu irmão Abel, pòslhe Deos em seu corpo hum sinal & dizem Eusberio & Chrisostomo q̃ lhe creceraõ hũs tremoros no corpo que o faziaõ andar de hũa parte pera a outra sempre com tremor, sempre conhecido: esse mesmo castigo deu Deos aos judeus depois da morte que deraõ ao innocente Abel CHRISTO IESV seu Deos & irmão, & foi que andasseis pelo mundo desterrados, eylos em Persia, eylos em França, ora em Alemanha, ora em Hespanha, & isto tão medrosos que atee da terra em q̃ poem os pees tem medo & pos nelles Deos hũ sinal, não sey que tal que logo os conhecem por gente apartada de Deos & que anda em continuas esperanças & ansias pelo Messias que naõ tendes que esperar.
quinta-feira, julho 23, 2009
Crime e sua compensação
Os lampiões invadiram o campo à pedrada, a FPF decide punir com derrota o Sporting e os lampiões, atribuindo assim o título aos lampiões. É caso para dizer que o crime compensa. Fica aqui o segredo para a próxima vez que um título depender de um empate: os adeptos da equipa que precisar do empate invadem o estádio correndo tudo à pedrada, e está o assunto resolvido.
quarta-feira, julho 22, 2009
Só não o crucificastes porque não estáveis lá, seus malandros

Parece que me estais dizendo: Padre, nòs naõ fomos os que crucificamos a Christo, nossos pays foraõ os que o puzerão na cruz, esta foi a consumação do seu pecado, elles forão os que acabaraõ de encher a medida: logo não somos peiores q elles. Ainda assi sois peoiores, porque primeiramente tal he o odio q tendes a Christo Senhor nosso, verdadeiro Redemptor, & Saluador, que entendo que estallais de raiua, & de inueja; ou porque naõ viuieis no tempo que elle andaua no mundo, para o crucificardes com vossos pays; ou porque vedes adorado, & venerado aquelle mesmo Senhor a quem vossos pays crucificáraõ.
Frei António das Chagas
Sermão pregado no Auto da Fé de
11 de Outubro de 1654, em Lisboa
Este sermão foi publicado em Lisboa, em 1654, e dedicado a D. Luísa de Gusmão, mulher de D. João IV. Pode ser consultado na BN.
terça-feira, julho 14, 2009
Anunciação
Sendo agnóstico mas respeitando o mais que posso as crenças dos outros (talvez por inveja, porque gostava de ter fé) sinto-me bastante à vontade para criticar, mas sobretudo para elogiar ou simplesmente comentar a religião dos outros. Sobretudo tenho uma tremenda curiosidade em conhecer o Deus ou os deuses dos outros. Por isso leio regularmente a Bíblia e o Alcorão - embora este mais para aperfeiçoar o meu árabe. Coisa que não fazem muitos crentes e sobretudo não crentes, alimentando com a sua ignorância o preconceito e o ódio. Isto é particularmente grave quando se trata do Islão, religião muitíssimo próxima do Cristianismo (cresce, no início, sobre uma heresia cristã), mas que tantos confundem com as paranóias de uma minoria fundamentalista.A verdade é que há secções do Alcorão que lembram inequivocamente os Evangelhos - e não é coincidência. Por exemplo, o relato da Anunciação. Pois é, é que os muçulmanos acreditam na Imaculada Conceição e veneram a Virgem como mãe de Jesus ('Iça ibn Mariyam, "Jesus filho de Maria"). O seu respeito pela Mãe de Deus dos cristãos chega ao ponto de lhe dedicarem integralmente a 19.ª sura (capítulo, livro) do Alcorão, apropriadamente chamada suratu Mariyam (Sura de Maria), que compreende nada menos do que 98 versículos.
Entre outras coisas, a suratu Mariyam relata a Anunciação, nestes termos (tradução apressada a partir do árabe, mas podem achar-se muitas na internet, bem melhores e aprovadas por quem de direito):
(15) e recorda no Livro a Maria, quando se afastou do seu povo para um lugar a Leste, (16) e escondeu-se deles com um véu, e então enviámos sobre ela o nosso Espírito, e tomou o aspecto de um homem. (17) Disse ela: refugio-me de ti no Misericordioso, se O temes. Disse ele: eu sou mensageiro do teu Senhor para te dar um filho puro. (19) Disse ela: como posso ter filho se nenhum homem me tocou e sou casta? (20)Disse ele: assim disse o teu Senhor: isso é simples para Mim, e fá-lo-ei sinal para os homens e misericórdia da Nossa parte.
segunda-feira, julho 13, 2009
A direita agradece
Esta é a grande diferença entre esquerda e direita em Portugal: a direita une-se quando está em causa evitar que a esquerda chegue ao poder ou o mantenha; a esquerda, pelo contrário, prefere manter-se desunida, até porque certa esquerda prefere mesmo é ver a direita no poder, desde que isso significa uma derrota do PS.
domingo, julho 05, 2009
The White Tiger
[Repescado do fundo do baú. Escrito em Dezembro de 2008]

Aravind Adiga, The White Tiger. Atlantic Books, London, 2008
ISBN 978-1-84354-720-4
Preço (Amazon.co.uk): £6,49 / €7,50
ISBN 978-1-84354-720-4
Preço (Amazon.co.uk): £6,49 / €7,50
At a time when India is going through great changes and, with China, is likely to inherit the world from the west, it is important that writers like me try to highlight the brutal injustices of society. That's what writers like Flaubert, Balzac and Dickens did in the 19th century and, as a result, England and France are better societies. That's what I'm trying to do - it's not an attack on the country, it's about the greater process of self-examination.
Quem o diz é o indiano Aravind Adiga, vencedor do Man Booker de 2008, com o romance The White Tiger, em entrevista ao The Guardian.
Munna, aliás Balram, aliás Ashok, é um empreendedor indiano de Bangalore. Pelo menos é assim que se apresenta por carta ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, de visita à Índia. Balram - chamemos-lhe assim, pois é assim que se apresenta durante a maior parte do tempo - acredita que o futuro não pertence ao Branco, mas ao Castanho e ao Amarelo. Por isso apresenta a Jiabao a sua história, como saiu de uma vida miserável numa aldeia nas margens do Ganges, e se tornou um empreendedor de sucesso, na esperança de assim ajudar a China a formar os seus próprios empreendedores. E fá-lo por meio de uma série de cartas, onde, numa escrita aparentemente simples, se traça um retrato arrepiante de uma Índia onde impera a corrupção, o caciquismo, a discriminação, a miséria e o medo. E onde a democracia não passa de um teatro de aparências. Uma Índia feia, por vezes nojenta, que se derrama no Ganges e se passeia miserável nas ruas cosmopolitas de Delhi ou Bangalore, onde para se entrar nos brilhantes centros comerciais têm de se usar roupas caras e apresentar aspecto lavado. The White Tiger é um dos grandes livros de 2008, e exige-se rapidamente uma tradução portuguesa (1). Eu já li, e garanto que é muito, muito bom.
Comecei citando uma entrevista do autor, termino citando um excerto da obra.
-----Munna, aliás Balram, aliás Ashok, é um empreendedor indiano de Bangalore. Pelo menos é assim que se apresenta por carta ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, de visita à Índia. Balram - chamemos-lhe assim, pois é assim que se apresenta durante a maior parte do tempo - acredita que o futuro não pertence ao Branco, mas ao Castanho e ao Amarelo. Por isso apresenta a Jiabao a sua história, como saiu de uma vida miserável numa aldeia nas margens do Ganges, e se tornou um empreendedor de sucesso, na esperança de assim ajudar a China a formar os seus próprios empreendedores. E fá-lo por meio de uma série de cartas, onde, numa escrita aparentemente simples, se traça um retrato arrepiante de uma Índia onde impera a corrupção, o caciquismo, a discriminação, a miséria e o medo. E onde a democracia não passa de um teatro de aparências. Uma Índia feia, por vezes nojenta, que se derrama no Ganges e se passeia miserável nas ruas cosmopolitas de Delhi ou Bangalore, onde para se entrar nos brilhantes centros comerciais têm de se usar roupas caras e apresentar aspecto lavado. The White Tiger é um dos grandes livros de 2008, e exige-se rapidamente uma tradução portuguesa (1). Eu já li, e garanto que é muito, muito bom.
Comecei citando uma entrevista do autor, termino citando um excerto da obra.
The Autobiography of a Half-Baked Indian. That’s what I ought to call my life’s story.
Me, and thousands of others in this country like me, are half-baked, because we were never allowed to complete our schooling. Open our skulls, look in with a penlight, and you’ll find an odd museum of ideas: sentences of history or mathematics remembered from school textbooks (no boy remembers his schooling like one who was taken out of school, let me assure you), sentences about politics read in a newspaper while waiting for someone to come to an office, triangles and pyramids seen on the torn pages of the old geometry textbooks which every tea shop in this country uses to wrap its snacks in, bits of All India Radio news bulletins, things that drop into your mind, like lizards from the ceiling, in the half hour before falling asleep—all these ideas, half formed and half digested and half correct, mix up with other half-cooked ideas in your head, and I guess these half-formed ideas bugger one another, and make more half-formed ideas, and this is what you act on and live with.
The story of my upbringing is the story of how a half-baked fellow is produced.
But pay attention, Mr Premier! Fully formed fellows, after twelve years of school and three years of university, wear nice suits, join companies, and take orders from other men for the rest of their lives.
Entrepreneurs are made from half-baked clay.
Aravind Adiga, The White Tiger
(1) Já saiu uma tradução, entretanto.
sábado, julho 04, 2009
sexta-feira, julho 03, 2009
Assim não brinco

Adeus ó vai-te embora! Va lá fazer birras para o Brasil que a gente já não tem pachorra para tanto amuo. Irra!
quarta-feira, julho 01, 2009
Está lá?
"Não posso garantir títulos. Se eu tivesse árbitros em minha casa, podia garantir isso. Não almoço com eles, não janto com eles em minha casa, portanto, não posso garantir isso"Pois não, de facto não os recebe em casa: escolhe-os por telefone.
Luís Filipe Lampião, no Record
sábado, junho 27, 2009
O piscar de olhos da divindade
Fui levar a minha mãe a Fátima. Enquanto ela rezava, eu sentei-me a reler um dos meus livros sagrados: Ulysses, do Joyce. E lmbrei-me daquela vez em que ia no comboio a ler a Ilíada, versão calhamaço da Cotovia, e uma senhora, depois de passar a viagem toda a olhar para mim embevecida, no fim disse "está a ler a Bíblia, que bonito".
Depois andei a ver as lojas dos vendilhões do templo, e dei com aqueles quadros ultra-kitsch que ninguém de bom gosto pode algum dia comprar, daqueles que mudam consoante a perspectiva. A Cristina já me tinha chamado em tempos a atenção para dois deles: um começa com Jesus e vai mudando para Nossa Senhora. Mas há ali um ponto intermédio em que a Nossa Senhora ainda não é Jesus mas também já não é Nossa Senhora, ficando ali a meio, com uma exuberante barba. Há outro em que Jesus abre e fecha os olhos, o que deve ser fonte de terror para visitantes incautos. Mas há ali uma fase em que um dos olhos está aberto enquanto o outro está fechado, de modo que se olharmos dessa perspectiva temos Jesus com ar lânguido a piscar-nos o olho. Lindo.
Depois andei a ver as lojas dos vendilhões do templo, e dei com aqueles quadros ultra-kitsch que ninguém de bom gosto pode algum dia comprar, daqueles que mudam consoante a perspectiva. A Cristina já me tinha chamado em tempos a atenção para dois deles: um começa com Jesus e vai mudando para Nossa Senhora. Mas há ali um ponto intermédio em que a Nossa Senhora ainda não é Jesus mas também já não é Nossa Senhora, ficando ali a meio, com uma exuberante barba. Há outro em que Jesus abre e fecha os olhos, o que deve ser fonte de terror para visitantes incautos. Mas há ali uma fase em que um dos olhos está aberto enquanto o outro está fechado, de modo que se olharmos dessa perspectiva temos Jesus com ar lânguido a piscar-nos o olho. Lindo.
domingo, junho 21, 2009
Arte nova
O que vos eu afirmarei é que, ainda que há muito tempo que não exercito esta arte, nem quero bem nem à camisa que trago no corpo, que todavia não me esqueço dela, sem necessitar dos nominativos da de Ovídio; porque, quando nisso me ponho, sei amar de ũa arte nova.
D. Francisco Manuel de Melo, Cartas Familiares.
Carta 40, Lisboa, 14 de Dezembro de 1641
Edição: INCM, 1981
sábado, junho 20, 2009
Das leituras de Verão
A minha leitura de praia está decidida: reler o "Ulysses", do Joyce, mas agora no original, na incontornável edição de 1960 da Bodley Head. Não se tome isto por uma tirada pedante. Na verdade eu tenho imensa inveja de quem consegue "desligar o cérebro" e ler coisas leves no Verão. O pretexto costuma ser o de descansar a cabeça de coisas sérias e relaxar. Aí está um conceito que, no meu fraco entendimento, não consigo alcançar, daí a minha triste sorte de só conseguir ler coisas boas e estimulantes. Eu quando quero descansar de coisas sérias, e sobretudo quando quero relaxar, pego num bom livro. Num livro a sério: num Joyce, num António Lobo Antunes, num Dostoiévski, num Jorge Luis Borges, num Umberto Eco, num Eça, num Platão, num Kafka, eu sei lá, numa coisa que me estimule. É assim que relaxo e me distraio de coisas sérias. Se pegar numa leitura levezinha - e eu já tentei, juro - , em poucos minutos a minha mente acaba por fugir, por falta de estímulo, e volta a prender-se às coisas sérias e às preocupações quotidianas. As letras deixam de fazer sílabas e palavras, e os meus olhos vão passando as páginas sem ler. Ora a única maneira de conseguir que isso não aconteça é se for uma leitura a sério. Por isso tenho imensa inveja de quem consegue "desligar" com leituras leves, de quem consegue ficar com a mente presa a uma leitura inconsequente, sem se distrair, de quem consegue embrenhar-se num Dan Brown, num Paulo Coelho, numa Margarida Rebelo Pinto ou noutros de cujos nomes, الحمد لله (deo gratias), não consigo recordar-me ou nem sequer conheço. Eu não consigo. Por isso estou condenado a só ler coisas boas, interessantes e intelectualmente estimulantes.Marcha Pride Lisboa, 1578

Hoje decorre em Lisboa mais uma marcha do orgulho gay. Eu, que saí do armário há duas décadas, continuo sem perceber o que há nisto para se ter orgulho. Ou vergonha. Enquanto a homossexualidade continuar a ser encarada, de dentro, desta maneira, não há qualquer esperança de vir a ser encarada, de fora, com a naturalidade que se pretende. Até lá, enquanto estes homossexuais continuarem a não encarar a sua orientação com a mesma naturalidade com que encaram a dimensão da sua barriga ou a cor dos seus olhos, até lá estas marchas continuarão a fazer o seu papel de perpetuação de estereótipos e de progressivo afastamento entre esta "comunidade gay" e o resto da sociedade, outros homossexuais incluídos.
Mas esta reflexão ensonada vem a propósito de outra marcha igualmente amaricada, há 431 anos, e de consequências não menos lamentáveis: foi num Sábado, dia 14 de Junho de 1578, e preparava-se a partida das tropas portuguesas para Alcácer Quibir. Transcrevo, a partir da edição de António Sérgio, um excerto de um relato da época, de alguém que viu a mariquice toda (modernizei a ortografia):
Aposto que hoje também vai estar o campo esmaltado de diversas boninas, em Lisboa.
Mas esta reflexão ensonada vem a propósito de outra marcha igualmente amaricada, há 431 anos, e de consequências não menos lamentáveis: foi num Sábado, dia 14 de Junho de 1578, e preparava-se a partida das tropas portuguesas para Alcácer Quibir. Transcrevo, a partir da edição de António Sérgio, um excerto de um relato da época, de alguém que viu a mariquice toda (modernizei a ortografia):
Neste Sábado, a 14 de Junho, foi el-Rei dos paços da Ribeira à Sé a benzer a bandeira real. Tanto que amanheceu, começaram a correr os fidalgos para o acompanharem: e parece que à porfia trabalharam por ir cada um mais galante e custoso. Coisa que espantou muitas gentes, ver como iam ricamente vestidos; porque, se a matéria dos vestidos era rica, a obra, feitios e invenções de mais rica sobejava: porque tudo era brocado, tela de ouro e prata, tecidos de seda mui custosos. Os veludos, damascos, todas as mais sedas perderam sua valia, e se alguma tinham era pelos muitos passamanes, rendilhas, espiguilhas, torchados e alamares de ouro, que lhe punham; mas tudo isto era de pouco gasto em comparação dos feitios, que estes destruíram os homens.
Além disto, foi espanto ver a muita pedraria que neste dia saiu; os botões de ouro, as tranças dos chapéus cheias de rubis, diamantes, esmeralda de preço infinito, entresachadas a compasso umas com as outras; os camafeus, medalhas, estampas de feitio singular; as cadeias de ouro grossíssimas aos pescoços, de dez e doze voltas, as couras borladas de ouro com botões de ouro, cristal, pedras, e demais pedraria; os gibões e coletes sobre telilha de ouro, com invenção de corte pique pesponto maravilhoso; os capotes de damasco, setim, chamalote de seda bandados com barras de veludo e torçais de ouro.
(...)
Nem era menos para ver como os fidalgos vestiram todos sua gente, uns de grã, outros de raxa de mescla de tamete, e isto assim a escudeiros e pajens como a lacaios e escravos, cada um de sua libré de suas cores; e alguns os vestiram de calças e gibões de seda da cor da sua librea, com meias de agulha, de seda.
Enfim foram os fidalgos esperar a el-Rei à sala, e de aí desceram com ele até cavalgar. Estava a este tempo o Terreiro do Paço, que é um espaço grande, muito cheio de gente, que não havia poder andar; e além disso era para ver estarem as libreas de dez em dez homens pegando nos cavalos de seus senhores, de cores diferentes todos, com muitas plumas aos pescoços, com borlas de ouro e seda, que faziam o campo esmaltado de diversas boninas.
Anónimo, Relação da jornada.
Edição de António Sérgio (1924), pp. 45-46
Aposto que hoje também vai estar o campo esmaltado de diversas boninas, em Lisboa.
quinta-feira, junho 18, 2009
It's the teeth, stupid!
Diz que a transferência do Cissokho para o Milan sofreu uma interrupção voluntária, devido a problemas dentários. Sendo por todos conhecida a importância basilar dos dentes no futebol moderno, sobretudo em lances defensivos, não se compreende como é que o FCP permitiu uma situação destas no seu plantel, na época 08/09.Bedtime story
«That ideal reader suffering from an ideal insomnia.»
James Joyce
James Joyce
Na foto: o meu afilhado Eduardo, no seu primeiro Bloomsday, 3 meses e 1 dia após o seu nascimento.
terça-feira, junho 16, 2009
Bloomsday '09

Happy. Happier then. Snug little room that was with the red wallpaper, Dockrell’s, one and ninepence a dozen. Milly’s tubbing night. American soap I bought: elderflower. Cosy smell of her bathwater. Funny she looked soaped all over. Shapely too. Now photography. Poor papa’s daguerreotype atelier he told me of. Hereditary tast.
Ulysses. Bodley Head, 1966. Página 196.
segunda-feira, junho 15, 2009
Vlad: a saga continua
O Manuel (a caminho dos 3 anos) estava a chorar quando o fui buscar à creche. A educadora disse-me que o Vlad o tinha mordido de novo. E apontava, penalizada, as marcas da dentadura do menino Vlad. Eu voltei a dizer algo como "está-lhe no sangue, e pelo menos desta vez aparou os caninos", e a educadora voltou a não perceber a fina alusão cultural, e despejou-me um sorriso comiserado. Vou deixar-me de piadas intelectuais, é o que é.sábado, junho 13, 2009
Futebol
Passei parte da tarde a jogar à bola. Isto seria uma actividade muito máscula, não fosse a bola ser cor de rosa com Minnies e Margaridas.
quinta-feira, junho 11, 2009
O Corpo de Deus de 1647 . 01
O dia de Corpo de Deus, feriado móvel cristão neste país laico, foi hoje. Ter-me-ia passado ao lado, não fosse ter notado as lojas fechadas. No ano de 1647, em Lisboa, o dia de Corpo de Deus teve todos os condimentos para ser muito mais animado.
Passavam menos de 7 anos da revolta que pôs fim à união dinástica que juntou os reinos de Portugal e Castela em 1580, e a guerra contra Filipe IV fazia-se no campo de batalha, mas sobretudo, nesta década de 40, no campo diplomático. Importava sobretudo aos Braganças ter o reconhecimento da Santa Sé, que, ontem como hoje, preferia jogar pelo seguro, de preferência alinhando com o lado mais forte. E o lado mais forte era, sem dúvida, Castela, ainda que acossada em várias frentes, no contexto da Guerra dos 30 Anos - sem a qual, como reconhecia Vieira logo em 1642, a Restauração seria impossível (1). Interessava, pois, ao partido português qualquer pretexto que deslustrasse a ortodoxia do Rei Católico.
A ocasião apresentou-se, alegadamente, no dia 20 de Junho de 1647, dia de Corpo de Deus. O rei D. João IV ia na procissão, que percorria a actual baixa pombalina, e passava ali mais ou menos onde é hoje a Rua dos Fanqueiros. A procissão deve ter sido bonita. As procissões costumam ser bonitas, sobretudo as barrocas. Mas aparentemente foi apenas mais uma procissão, ainda que barroca. Não foi senão em Julho que se revelou que por pouco não entrou essa procissão do Corpo de Deus de 1647 para a História, pelas piores razões.
A história, inexplicavelmente ignorada pela historiografia do século XX, mas que no século XIX ainda era tão conhecida que Camilo lhe dedicou um romance com duas sequelas (2), conta-se rapidamente. Domingos Leite Pereira, alegadamente a soldo de Filipe IV, ter-se-ia emboscado numas casas, cujas paredes derrubou para ficar com vista para os dois lados da rua, ali para a zona da actual Rua dos Fanqueiros. Não é que lhe interessasse ter uma boa vista por causa da beleza da procissão. Armado de uma escopeta, cujas balas tinham sido banhadas em veneno, o seu objectivo era, ao que parece, atingir D. João IV, de modo a acabar com a rebelião portuguesa, e fazer regressar a coroa de Portugal aos domínios dos Áustrias de Madrid. Não chegou, porém, sequer a disparar. Terá dito, nos interrogatórios a que poucos meses depois foi sujeito, que a visão de uma majestade divina sobre o rei lhe tinha paralisado os membros, e que tinha gritado louvores ao Bragança. Que nem ginjas, para a propaganda do Quinto Império.
Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).
Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.
Os teóricos do Quinto Império não perderam tempo, vendo na tal visão da majestade divina sobre D. João IV um sinal da preferência de Deus pelo partido português. De resto achavam já desde há muito tempo muitas evidências disso, e até pessoas seriíssimas como o Padre António Vieira escreveram longamente sobre o assunto (3).
Mas isto caiu que nem ginjas também para a guerra diplomática que se travava na Santa Sé, tendo em vista o reconhecimento do Duque de Bragança como novo e legítimo rei de Portugal (o que só veio a acontecer já depois da paz com Espanha de 1668). Uns mais entusiásticos, outros mais racionais, todos os textos portugueses contemporâneos insistiram num ponto essencial: o Rei Católico, ao ter ordenado o assassínio em plena procissão do Corpo de Deus, cometia sacrilégio. Por outro lado, D. João IV, tendo escapado, protegido na procissão por intervenção divina, como o próprio regicida frustrado teria admitido nos interrogatórios, revelara ter Deus do seu lado. Assim, apenas restava à Santa Sé deixar-se de coisas, e dignar-se receber os embaixadores portugueses, prover os bispados, e assim reconhecer de facto a nova dinastia reinante em Lisboa. A Santa Sé, porém, não se comoveu com tanta conveniência junta, e só veio a reconhecer os Braganças três décadas depois de 1º de Dezembro.
A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.
-----
(1) "Se Portugal se levantara enquanto Castela estava vitoriosa, ou, quando menos, enquanto estava pacífica, segundo o miserável estado em que nos tinham posto, era a empresa mui arriscada. eram os dias críticos e perigosos; mas como a Providência Divina cuidava tão particularmente de nosso bem, por isso ordenou que se dilatasse nossa restauração tanto tempo, e que se esperasse a ocasião oportuna do ano de quarenta, em que Castela estava tão embaraçada com inimigos, tão apertada com guerras de dentro e de fora; para que, na diversão de suas impossibilidades, se lograsse mais segura a nossa resolução. Dilatou-se o remédio, mas segurou-se o perigo. Quando os Filisteus se quiseram levantar contra Sansão, aguardaram a que Dalila lhe tivesse presas e atadas as mãos, e então deram sobre ele. Assim o fizeram os Portugueses bem advertidos. Aguardaram a que Catalunha atasse as mãos ao Sansão que os oprimia, e como o tiveram assim embaraçado e preso. então se levantaram contra ele tão oportuna como venturosamente." Padre António Vieira, Sermão dos Bons Anos, Janeiro de 1642.
(2) "O regicida", "A filha do regicida", "A caveira da mártir". Embora só o primeiro diga respeito ao não-acontecimento de 20 de Junho de 1647, os dois últimos dependem dele na sua construção.
(3) De resto o nosso actual Presidente da República, que já nos exortou a todos a seguir as recomendações do Padre António Vieira na História do Futuro, parece querer continuar a segurar a chama do Quinto Império, e não na sua versão inócua e muito incompleta, que é a mais conhecida: como as recomendações de Vieira vão no sentido de reconhecer que os portugueses são o novo povo eleito de Deus e que deverão esmagar os espanhóis, eu espera francamente que o Presidente nunca tenha lido o livro e que se tenha limitado a regurgitar o que algum assessor lhe passou para as mãos.
Passavam menos de 7 anos da revolta que pôs fim à união dinástica que juntou os reinos de Portugal e Castela em 1580, e a guerra contra Filipe IV fazia-se no campo de batalha, mas sobretudo, nesta década de 40, no campo diplomático. Importava sobretudo aos Braganças ter o reconhecimento da Santa Sé, que, ontem como hoje, preferia jogar pelo seguro, de preferência alinhando com o lado mais forte. E o lado mais forte era, sem dúvida, Castela, ainda que acossada em várias frentes, no contexto da Guerra dos 30 Anos - sem a qual, como reconhecia Vieira logo em 1642, a Restauração seria impossível (1). Interessava, pois, ao partido português qualquer pretexto que deslustrasse a ortodoxia do Rei Católico.
A ocasião apresentou-se, alegadamente, no dia 20 de Junho de 1647, dia de Corpo de Deus. O rei D. João IV ia na procissão, que percorria a actual baixa pombalina, e passava ali mais ou menos onde é hoje a Rua dos Fanqueiros. A procissão deve ter sido bonita. As procissões costumam ser bonitas, sobretudo as barrocas. Mas aparentemente foi apenas mais uma procissão, ainda que barroca. Não foi senão em Julho que se revelou que por pouco não entrou essa procissão do Corpo de Deus de 1647 para a História, pelas piores razões.
A história, inexplicavelmente ignorada pela historiografia do século XX, mas que no século XIX ainda era tão conhecida que Camilo lhe dedicou um romance com duas sequelas (2), conta-se rapidamente. Domingos Leite Pereira, alegadamente a soldo de Filipe IV, ter-se-ia emboscado numas casas, cujas paredes derrubou para ficar com vista para os dois lados da rua, ali para a zona da actual Rua dos Fanqueiros. Não é que lhe interessasse ter uma boa vista por causa da beleza da procissão. Armado de uma escopeta, cujas balas tinham sido banhadas em veneno, o seu objectivo era, ao que parece, atingir D. João IV, de modo a acabar com a rebelião portuguesa, e fazer regressar a coroa de Portugal aos domínios dos Áustrias de Madrid. Não chegou, porém, sequer a disparar. Terá dito, nos interrogatórios a que poucos meses depois foi sujeito, que a visão de uma majestade divina sobre o rei lhe tinha paralisado os membros, e que tinha gritado louvores ao Bragança. Que nem ginjas, para a propaganda do Quinto Império.
Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).
Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.
Os teóricos do Quinto Império não perderam tempo, vendo na tal visão da majestade divina sobre D. João IV um sinal da preferência de Deus pelo partido português. De resto achavam já desde há muito tempo muitas evidências disso, e até pessoas seriíssimas como o Padre António Vieira escreveram longamente sobre o assunto (3).
Mas isto caiu que nem ginjas também para a guerra diplomática que se travava na Santa Sé, tendo em vista o reconhecimento do Duque de Bragança como novo e legítimo rei de Portugal (o que só veio a acontecer já depois da paz com Espanha de 1668). Uns mais entusiásticos, outros mais racionais, todos os textos portugueses contemporâneos insistiram num ponto essencial: o Rei Católico, ao ter ordenado o assassínio em plena procissão do Corpo de Deus, cometia sacrilégio. Por outro lado, D. João IV, tendo escapado, protegido na procissão por intervenção divina, como o próprio regicida frustrado teria admitido nos interrogatórios, revelara ter Deus do seu lado. Assim, apenas restava à Santa Sé deixar-se de coisas, e dignar-se receber os embaixadores portugueses, prover os bispados, e assim reconhecer de facto a nova dinastia reinante em Lisboa. A Santa Sé, porém, não se comoveu com tanta conveniência junta, e só veio a reconhecer os Braganças três décadas depois de 1º de Dezembro.
A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.
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(1) "Se Portugal se levantara enquanto Castela estava vitoriosa, ou, quando menos, enquanto estava pacífica, segundo o miserável estado em que nos tinham posto, era a empresa mui arriscada. eram os dias críticos e perigosos; mas como a Providência Divina cuidava tão particularmente de nosso bem, por isso ordenou que se dilatasse nossa restauração tanto tempo, e que se esperasse a ocasião oportuna do ano de quarenta, em que Castela estava tão embaraçada com inimigos, tão apertada com guerras de dentro e de fora; para que, na diversão de suas impossibilidades, se lograsse mais segura a nossa resolução. Dilatou-se o remédio, mas segurou-se o perigo. Quando os Filisteus se quiseram levantar contra Sansão, aguardaram a que Dalila lhe tivesse presas e atadas as mãos, e então deram sobre ele. Assim o fizeram os Portugueses bem advertidos. Aguardaram a que Catalunha atasse as mãos ao Sansão que os oprimia, e como o tiveram assim embaraçado e preso. então se levantaram contra ele tão oportuna como venturosamente." Padre António Vieira, Sermão dos Bons Anos, Janeiro de 1642.
(2) "O regicida", "A filha do regicida", "A caveira da mártir". Embora só o primeiro diga respeito ao não-acontecimento de 20 de Junho de 1647, os dois últimos dependem dele na sua construção.
(3) De resto o nosso actual Presidente da República, que já nos exortou a todos a seguir as recomendações do Padre António Vieira na História do Futuro, parece querer continuar a segurar a chama do Quinto Império, e não na sua versão inócua e muito incompleta, que é a mais conhecida: como as recomendações de Vieira vão no sentido de reconhecer que os portugueses são o novo povo eleito de Deus e que deverão esmagar os espanhóis, eu espera francamente que o Presidente nunca tenha lido o livro e que se tenha limitado a regurgitar o que algum assessor lhe passou para as mãos.
quarta-feira, junho 10, 2009
Começar bem o dia . 16
Y así como uno tuviera injusta vanidad de haber nacido falto de una vista, de un pie tullido, o árido de un brazo, así es injustísimo lo que de sí presumen algunos, leyendo mal y escribiendo peor.
D. Francisco Manuel de Melo, Cartas familiares.
Carta 35, Dezembro de 1639
segunda-feira, junho 08, 2009
domingo, junho 07, 2009
Europeias 04
A sondagem da SIC para as legislativas confirma o que escrevi logo no início da noite. Se fossem legislativas, os resultados da noite teriam sido muito diferentes, e só por ingenuidade se pode achar que, em condições normais, o PS não vence com relativa facilidade as eleições do Outono.
Europeias 03
Além da boa notícia da manutenção da Manuela, há ainda a registar a derrota da parvalhona da Laurinda Alves, que não foi eleita.
Europeias 02
A eventual vitória tangencial do PSD permite, por outro lado, conservar a Manuela na liderança, além de agitar à esquerda o fantasma do regresso do PSD ao poder, o que são boas notícias para todos os apoiantes do PS.
Europeias 01
As primeiras projecções das eleições europeias apontam para um resultado muito próximo entre PS e PSD. Como seria de esperar, e como previam todas as sondagens. Ainda que naturalmente preferisse uma vitória do PS, e por boa margem, não deixa de ser interessante verificar que, mesmo com um mau candidato que debitava à média de uma gaffe por dia, mesmo sofrendo o desgaste normal de mais de 4 anos de governo, mesmo sofrendo o tradicional voto de protesto em eleições europeias, canalizado sobretudo para o BE e que regressará em grande parte, não deixa de ser interessante verificar que se eventualmente o PS perder estas eleições, será por uma margem muito reduzida, que em nada beliscará a convicção de que, se não acontecer nada de extraordinário até lá, o PS vencerá com maior ou menor dificuldade as eleições gerais de Outubro.
Por outro lado, o PSD, confirmando-se a vitória tangencial, sobe apenas ligeiramente em relação às legislativas de 2005, não capitalizando o voto de protesto contra o governo, que foi para a esquerda.
Por outro lado, o PSD, confirmando-se a vitória tangencial, sobe apenas ligeiramente em relação às legislativas de 2005, não capitalizando o voto de protesto contra o governo, que foi para a esquerda.
Da democracia
quinta-feira, junho 04, 2009
Parkinson?
4 minutos? Mas havia algum problema com a caneta? Ou é algum problema do sistema nervoso central? Definitivamente há um problema com as assinaturas no porto. Embora as melhorias sejam notórias.quarta-feira, junho 03, 2009
uf
Ao passar hoje pelo estádio de Alvalade achei aquilo muito mal frequentado, com muito mau aspecto, assim uma gente desgrenhada comunicando por monossílabos e gesticulações exageradas. Quando já pensava que me tinha enganado e estava perto do estádio da Luz e que havia lá jogo, lembrei-me de que hoje era o concerto de AC/DC. Uf. Por momentos...
segunda-feira, junho 01, 2009
Lidos . 01

«C'est pourquoi le parc est peuplé d'hommes qui se suicident et de danseurs qui tombent. C'est ainsi que le marquis de Fronteira tira vengeance de la vengeance de Madame d'Oeiras. C'est pourquoi les animaux sur les azulejos ont pris le visage des hommes. C'est pourquoi au coin des fresques, à l'angle de ces murs, on voit des figures accroupies qui relèvent leur jupe et excrètent dans l'ombre»
sexta-feira, maio 29, 2009
Ignomínia

Eu continuo solteiro, ninguém me pega. E desconfio que um grande obstáculo é não ter paciência para a bicharada, mas sobretudo o facto de andar com um carro com duas cadeirinhas de criança. Há dias dei a última machadada na minha imagem de solteirão, já sem falar na dignidade do meu carro, ao prantar este pára-sol com a Hello Kitty. Do outro lado está o Noddy, que sempre é um pouco mais másculo, mas não menos aviltante do meu celibato forçado.
quinta-feira, maio 28, 2009
quarta-feira, maio 27, 2009
Campions!

Catalunya triomfant,
tornarà a ser rica i plena.
Endarrera aquesta gent
tan ufana i tan superba.
…
(Hino da Catalunha)
tornarà a ser rica i plena.
Endarrera aquesta gent
tan ufana i tan superba.
…
(Hino da Catalunha)
Quando se diz que “o Porto é uma nação” esquece-se de que nação a sério é a Catalunha, com língua, cultura e história próprias, e o Barça é o seu representantes máximo. E não estou a falar de futebol. Comparar o bairrismo portuense, legítimo mas não menos provinciano por isso, com o nacionalismo catalão, alicerçado, repito, em língua, cultura e história próprias, só revela pouco conhecimento da realidade espanhola no que respeita às diferentes nacionalidades que a compõem. Mais do que uma equipa de futebol, o Barça é o grande embaixador do nacionalismo catalão, como se viu recentemente na final da Taça do Rei, onde os seus adeptos – juntamente com os adeptos do Athletic, o equivalente basco – vaiaram e assobiaram o hino espanhol.
Assim, como todas as vitórias do Barça, a desta noite é não uma vitória espanhola, mas uma vitória da Catalunha, simbolizada nas inúmeras bandeiras catalãs do Olímpico de Roma, e na bandeira catalã que o Piqué tem ao pescoço quando a taça é levantada (que só por distracção pode ser confundida com a espanhola, apesar de as cores serem parecidas) e, antes disso, na conferência de imprensa que antecedeu o jogo, onde Guardiola fez questão de falar em catalão (e numa língua que de início me pareceu basco, mas afinal era inglês mesmo). O mesmo Guardiola que gostava de dizer que “la meva selecció ets el Barça” (a minha selecção é o Barça).
A história da Catalunha está, além disso, intimamente ligada à de Portugal, nomeadamente à Restauração de 1640. Na verdade, o êxito da revolta portuguesa só foi possível porque poucos meses antes a Catalunha se tinha levantado contra os espanhóis. Ambas as revoltas, a portuguesa e a catalã, foram prestavelmente patrocinadas pela França, que se envolvia numa guerra sem quartel contra Espanha, no contexto da Guerra dos 30 Anos, e a quem interessava desestabilizar eternamente o inimigo. Aproveitando a deslocação de efectivos militares espanhóis para a Catalunha, foi relativamente fácil aos apoiantes do Duque de Bragança levarem a bom termo a revolta. E, claro, ajudou muito o facto de Filipe IV ter sido forçado a optar entre Portugal e Catalunha, não podendo acudir aos dois lados ao mesmo tempo. Assim optou, obviamente, pela Catalunha, e só quando a conseguiu pacificar, em 1652, e sobretudo com o fim da guerra com a França, em 1659, é que decidiu avançar em força para Portugal. Demasiado tarde. Quase 20 anos apenas com escaramuças fronteiriças e uma batalha importante, em 1644, na localidade espanhola de Montijo, Portugal tinha tido mais que tempo para se reorganizar, e vencer categoricamente as outras 4 grandes batalhas, e ficar em posição de força para a assinatura da paz em 1668. Os apoiantes da Restauração, de resto, bem cedo reconheceram o papel fundamental da Catalunha, como já dizia o Pe. António Vieira no Sermão dos Bons Anos (1 de Janeiro de 1642):
E já chega de cultura, que hoje é dia de festa. Visca el Barça! Visca Catalunya!
P.S.: o actual hino da Catalunha, de que coloquei no início os primeiros versos, é parte de um texto do século XVIII que relata, precisamente, a revolta de 1640. As partes mais sangrentas e anti-espanholas não são cantadas hoje.
Assim, como todas as vitórias do Barça, a desta noite é não uma vitória espanhola, mas uma vitória da Catalunha, simbolizada nas inúmeras bandeiras catalãs do Olímpico de Roma, e na bandeira catalã que o Piqué tem ao pescoço quando a taça é levantada (que só por distracção pode ser confundida com a espanhola, apesar de as cores serem parecidas) e, antes disso, na conferência de imprensa que antecedeu o jogo, onde Guardiola fez questão de falar em catalão (e numa língua que de início me pareceu basco, mas afinal era inglês mesmo). O mesmo Guardiola que gostava de dizer que “la meva selecció ets el Barça” (a minha selecção é o Barça).
A história da Catalunha está, além disso, intimamente ligada à de Portugal, nomeadamente à Restauração de 1640. Na verdade, o êxito da revolta portuguesa só foi possível porque poucos meses antes a Catalunha se tinha levantado contra os espanhóis. Ambas as revoltas, a portuguesa e a catalã, foram prestavelmente patrocinadas pela França, que se envolvia numa guerra sem quartel contra Espanha, no contexto da Guerra dos 30 Anos, e a quem interessava desestabilizar eternamente o inimigo. Aproveitando a deslocação de efectivos militares espanhóis para a Catalunha, foi relativamente fácil aos apoiantes do Duque de Bragança levarem a bom termo a revolta. E, claro, ajudou muito o facto de Filipe IV ter sido forçado a optar entre Portugal e Catalunha, não podendo acudir aos dois lados ao mesmo tempo. Assim optou, obviamente, pela Catalunha, e só quando a conseguiu pacificar, em 1652, e sobretudo com o fim da guerra com a França, em 1659, é que decidiu avançar em força para Portugal. Demasiado tarde. Quase 20 anos apenas com escaramuças fronteiriças e uma batalha importante, em 1644, na localidade espanhola de Montijo, Portugal tinha tido mais que tempo para se reorganizar, e vencer categoricamente as outras 4 grandes batalhas, e ficar em posição de força para a assinatura da paz em 1668. Os apoiantes da Restauração, de resto, bem cedo reconheceram o papel fundamental da Catalunha, como já dizia o Pe. António Vieira no Sermão dos Bons Anos (1 de Janeiro de 1642):
“Se Portugal se levantara enquanto Castela estava vitoriosa, ou, quando menos, enquanto estava pacífica, segundo o miserável estado em que nos tinham posto, era a empresa mui arriscada. Eram os dias críticos e perigosos; mas como a Providência Divina cuidava tão particularmente de nosso bem, por isso ordenou que se dilatasse nossa restauração tanto tempo, e que se esperasse a ocasião oportuna do ano de quarenta, em que Castela estava tão embaraçada com inimigos, tão apertada com guerras de dentro e de fora; para que, na diversão de suas impossibilidades, se lograsse mais segura a nossa resolução. Dilatou-se o remédio, mas segurou-se o perigo. Quando os Filisteus se quiseram levantar contra Sansão, aguardaram a que Dalila lhe tivesse presas e atadas as mãos, e então deram sobre ele. Assim o fizeram os Portugueses bem advertidos. Aguardaram a que Catalunha atasse as mãos ao Sansão que os oprimia, e como o tiveram assim embaraçado e preso. então se levantaram contra ele tão oportuna como venturosamente.”
E já chega de cultura, que hoje é dia de festa. Visca el Barça! Visca Catalunya!
P.S.: o actual hino da Catalunha, de que coloquei no início os primeiros versos, é parte de um texto do século XVIII que relata, precisamente, a revolta de 1640. As partes mais sangrentas e anti-espanholas não são cantadas hoje.
[em simultâneo no Facciosos]
Acabar bem o dia . 12
Acabar bem o dia . 11

Já se tinha ouvido isto por aqui. Agora vai a primeira versão que ouvi. Não no filme, que ainda não vi, mas num belíssimo CD (com uma capa medonha) comprado na Valentim de Carvalho no início dos anos 90.
Martín y Coll (c. 1660-1734), Diferencias sobre las folías Hespèrion XXI, Jordi Savall
Ouvir música aqui
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terça-feira, maio 26, 2009
segunda-feira, maio 25, 2009
A prisão do ético
Mais uma grande crítica a A prisão do ético, do Paulo Rodrigues Ferreira, agora do valter hugo mãe. E eu fiquei outra vez feliz e orgulhoso quase como se fosse eu.
Palinódia
Uma das cartas mais divertidas da Correspondência de Fradique Mendes, que li no início dos anos 90 numa edição de 1919, comprada num alfarrabista lisboeta, vem-se sempre à memória quando ouço tugas a falar portunhol convencidos de que estão a fazer um brilharete. Lembrei-me dela, por exemplo, quando o Queiroz era treinador do Real Madrid, ou quando o Durão Barroso (a. k. a. José Manuel Barroso) era líder do PSD e berrou apopléctico "Viva Espanha" num comício do Aznar, ou depois da lamentável figura do Sócrates ontem, num comício do PSOE. Neste último caso a releitura da carta teve um efeito catártico, na medida em que me vai permitir votar no PS descansado, sem ser assombrado pela recordação daqueles minutos humilhantes.
Deixo aqui algũs excerptos, na orthographia original, para os resistentes ao accordo orthographico (nos quaes, como se sabe, nam me incluo).
Deixo aqui algũs excerptos, na orthographia original, para os resistentes ao accordo orthographico (nos quaes, como se sabe, nam me incluo).
A MADAME S.
Paris, Fevereiro.
Minha Cara Amiga -- O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sobrio, creio que com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já sabe o castelhano necessario para entender os Romanceros, o D. Quixote, alguns dos «Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo quanto basta lêr na litteratura de Hespanha, para que deseja a minha sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento, o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor? Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna, do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento intelectual, sete anos, dos onze aos dezoito) -- em quê? No luxo de apurar até a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de adquirir noções e idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são apenas instrumentos do saber, como instrumentos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente, que pareça que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que, por meio de cada uma, se pediu o primeiro pão e agua da vida -- é fazer como o lavrador que em vez de se contentar em cavar a terra com um ferro simples encabado n'um pau simples, se applicasse, durante os meses em que a horta tem de ser trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os seus pomares da Touraine?
Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança e pureza, a lingua da sua terra: -- todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com aquele accento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade; -- e quem fôr possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma desnacionalização.
Eça de Queiroz, A correspondencia de Fradique Mendes: memorias e notas. Liv. Chardon, Porto, 1900. pp. 137-139
Portanto o nosso Primeiro-ministro apenas seguiu os conselhos do Eça, e assim provou o seu patriotismo, e eu vou poder votar nele tranquilo, sem que me ecoem nos ouvidos as cacofonias portunhólicas da sua intervenção no comício do PSOE.
domingo, maio 24, 2009
Vergüenza
O portunhol do nosso Primeiro-ministro ontem em Espanha foi a maior humilhação portuguesa frente aos espanhóis, desde a batalha de Alcântara, em 1580. O tuga tem a mania de que sabe falar espanhol, e depois faz aquelas tristíssimas figuras. Vou ter de levar os fones com música bem alta, quando for votar no PS nas próximas legislativas, para não levar nos ouvidos aquela humilhação.[na foto: o Duque de Alba]
sexta-feira, maio 22, 2009
quinta-feira, maio 21, 2009
Começar bem o dia . 14
Ilustração: Johann Baptist ZimmermannJ. S. Bach (1685-1750), Toccata BWV 914
Gustav Leonhardt
Ouvir música aqui
Gustav Leonhardt
Ouvir música aqui
É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-Ihe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vé-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
Soror Maria do Céu (1658-1753)
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-Ihe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vé-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
Soror Maria do Céu (1658-1753)
quarta-feira, maio 20, 2009
Do populismo e da falta de memória
Durão Barroso, a.k.a. José Manuel Barroso, diz que "Ceder à pressão populista contra os imigrantes é mau para a Europa". Eu concordo em absoluto. Pena foi que, enquanto Primeiro-ministro de Portugal, em coligação com o populista Paulo Portas, tenha sido esse mesmo Durão Barroso, a.k.a. José Manuel Barroso, a aprovar a actual lei das quotas de imigração, que restringe a imigração de extra-comunitários. E para quem tem memória curta, era ele Primeiro-ministro quando o seu Ministro da Defesa, Paulo Portas, conhecido pelas suas posições na matéria, berrou inflamados "Imigração zero" e "Portugal aos portugueses", num comício do seu partido, então no governo liderado por Durão Barroso, a.k.a. José Manuel Barroso, que na altura não achou que tal fosse uma pressão populista.

segunda-feira, maio 18, 2009
On the Road from w20 on Vimeo.
É de graça e é imperdível. Vi-os desaparecer na noite, de Tiago Gomes e Tó Trips. Aqui.
Leituras
O José Mário Silva lembra alguns textos de A Prisão do Ético, do Paulo Rodrigues Ferreira, que me dá a honra de ser meu amigo. E eu fico contente e orgulhoso de o ver lido, quase como se fosse eu.
A estrada de Damasco (*)
Não sei se foi finalmente efeito das doses diárias de cultura, que culminaram há dias numa audição integral do Orfeu de Monteverdi, dirigido pelo Savall, mas a verdade é que o Benfica teve a primeira baixa, ainda antes do Quique: a minha sobrinha, que até nasceu no dia de uma derrota do Sporting (**), e que até ontem permanecia fiel à lampionagem por via paterna, hoje chamou-me de parte, e disse convicta "sabes, eu agora sou do Sporting". Fi-la repetir 3 vezes, não fosse algum galo cantar (***), e como só ouvi o guincho escandalizado da minha mãe lampiã, dei-me por satisfeito, enxuguei a lágrima, e amanhã vai já um equipamento completo, se me tiver sobrado alguma coisa na conta, depois da Feira do Livro.
publicado em simultâneo aqui
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(*) Pelamordeus, isto devia ser uma alusão transparente, num país onde saem milhares para a rua a celebrar os anos de uma estátua religiosa.
(**) 29 de Setembro de 2005, em casa, com o Halmstadt.
(***) Vide primeira nota.
publicado em simultâneo aqui
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(*) Pelamordeus, isto devia ser uma alusão transparente, num país onde saem milhares para a rua a celebrar os anos de uma estátua religiosa.
(**) 29 de Setembro de 2005, em casa, com o Halmstadt.
(***) Vide primeira nota.
Colheita '09
sábado, maio 16, 2009
Extraordinário

A líder do PSD acha, na entrevista à RR/Público, que o défice será superior às previsões da UE. Vindo de alguém que, quando era ministra das finanças, numa situação internacional de crescimento económico, só conseguiu (pelo menos oficialmente) controlar o défice recorrendo a medidas extraordinárias, pode-se dizer que é de uma lata também ela extraordinária.
sexta-feira, maio 15, 2009
O tempora

Passámos, eu e o Manuel (n. Novembro de 2006), parte da tarde a ouvir a ópera Semele, de Haendel, e pelo meio ia-lhe lendo Bocage e Almeida Garrett e D. Francisco Manuel de Melo. Não adianta. Ele diz que "gotha muito", mas por mais que o exponha a alta cultura ele continua a dizer que "o Benfica é que é bom". Talvez seja tempo de desistir de tantas óperas e literaturas. Não vá ele ficar como eu, e não me refiro às opções culturais.
P.S.: a foto é de outra exposição vã a coisas boas.
P.S.: a foto é de outra exposição vã a coisas boas.
أنت عمري
O Manuel (n. Novembro de 2006) delira com esta música, a que chama "as pandeiretas", e chora em desespero quando, chegando a casa, desligo o leitor de CD do carro. Um fã inesperado da Umm Kulthûm
Notas sobre o 13 de Maio . 2
καὶ οἱ λοιποὶ τῶν ἀνθρώπων οἳ οὐκ ἀπεκτάνθησαν ἐν ταῖς πληγαῖς ταύταις οὐδὲ μετενόησαν ἐκ τῶν ἔργων τῶν χειρῶν αὐτῶν ἵνα μὴ προσκυνήσουσιν τὰ δαιμόνια καὶ τὰ εἴδωλα τὰ χρυσᾶ καὶ τὰ ἀργυρᾶ καὶ τὰ χαλκᾶ καὶ τὰ λίθινα καὶ τὰ ξύλινα, ἃ οὔτε βλέπειν δύνανται οὔτε ἀκούειν οὔτε περιπατεῖν καὶ οὐ μετενόησαν ἐκ τῶν φόνων αὐτῶν οὔτε ἐκ τῶν φαρμάκων αὐτῶν οὔτε ἐκ τῆς πορνείας αὐτῶν οὔτε ἐκ τῶν κλεμμάτων αὐτῶν
e os restantes homens, que não foram mortos por estas pragas, não fizeram penitência das obras das suas mãos, de modo a não adorarem demónios, e ídolos de ouro e de prata e de bronze e de pedra e de madeira, que não podem ver, nem ouvir, nem andar; e não fizeram penitência pelos seus crimes, nem pelos seus encantamentos, nem pela sua luxúria, nem pelos seus furtos.
Apocalipse, 9:20
A tradução é minha, admito que com falhas (o meu grego está um pouco esquecido), mas não há dúvidas: o livro santo dos cristãos não permite a adoração de estátuas. Et pourtant...
e os restantes homens, que não foram mortos por estas pragas, não fizeram penitência das obras das suas mãos, de modo a não adorarem demónios, e ídolos de ouro e de prata e de bronze e de pedra e de madeira, que não podem ver, nem ouvir, nem andar; e não fizeram penitência pelos seus crimes, nem pelos seus encantamentos, nem pela sua luxúria, nem pelos seus furtos.
Apocalipse, 9:20
A tradução é minha, admito que com falhas (o meu grego está um pouco esquecido), mas não há dúvidas: o livro santo dos cristãos não permite a adoração de estátuas. Et pourtant...
Acabar bem o dia . 10
Jean-Philippe Rameau (1683 - 1764), Pièces de Clavecin en Concert
Primeiro Concerto
Mitzi Meyerson (cravo)
Monica Huggett (violino)
Sarah Cunningham (viola da gamba)
Primeiro Concerto
Mitzi Meyerson (cravo)
Monica Huggett (violino)
Sarah Cunningham (viola da gamba)
quarta-feira, maio 13, 2009
Notas sobre o 13 de Maio . 1
Quando entrei em casa da minha mãe, lampiã contumaz, e a vi embevecida a olhar para um ecran de TV recheado de lenços brancos, pensei que estavam a repetir o final dos últimos jogos do benfica no Galinheiro. Afinal era só o 13 de Maio em Fátima, data que a nação lampiã nos últimos anos comemora ferverosamente, embora normalmente antes da data canónica.terça-feira, maio 12, 2009
segunda-feira, maio 11, 2009
Acabar bem o dia . 09

Eu ouvia isto e ouvia e tornava a ouvir e não me cansava de ouvir. Comprei o CD, se bem me lembro, na falecida Valentim de Carvalho do Rossio. Depois gravei numa cassete que me acompanhava nas viagens para Lisboa, depois para Mafra e para Caldas da Rainha, onde dei aulas nos dois primeiros anos de actividade. Mais de uma década depois ouço outra vez e não paro de ouvir.
Faz o que eu digo...
O Papa Ratzi "apela a que o Holocausto nunca seja esquecido". Eu concordo. Mas acho que o esforço de memória devia começar em casa, e o líder dos católicos devia ter puxado um bocadinho pela dita cuja antes de levantar a excomunhão ao execrável bispo negacionista.Isso mesmo
O Manuel (2 anos e meio) ao ver a festa dos morcões no Estádio do Morcão disse "parecem cabeçudos". Eu não teria dito melhor.
domingo, maio 10, 2009
Pavor

A Manuela diz que se vive um clima de medo em Portugal. E tem razão: depois do que passámos quando foi ministra das finanças, não há muito tempo, eu tenho um medo desesperado de que ela volte ao poder.
179

Demorou uma série de dias, até porque eu tenho mais que fazer, mas já está: passei para mp3 toda a minha colecção de CD de música antiga. São 179, desde o canto bizantino do século VII ao barroco do século XVIII. A colecção foi sendo feita sobretudo na primeira metade da década de 90 do século passado. São 179. Pensava que eram mais, fico um bocadinho desiludido.
quinta-feira, maio 07, 2009
A coquilha

Sentido, talvez, por lhe ter questionado a futura virilidade, o Manuel ontem por pouco não me emasculou com um pontapé bem medido, enquanto lhe mudava a fralda. Não vá o diabo tecê-las, amanhã a ver se compro uma coquilha.
terça-feira, maio 05, 2009
45/46

Não é que os tenha excessivamente grandes. Pelo menos quase todos os homens que conheço dizem tê-los pelo menos com o mesmo tamanho. Mas eu começo a achar que é como o velho lugar comum dos pescadores e do tamanho do peixe. Porque sempre que entro numa sapataria ou casa de artigos de desporto, a possibilidade de achar um sapato 45/46 é mais reduzida ainda do que a de o Benfica acabar um campeonato à frente do Sporting, na última década. De vez em quando lá acontece, muito raramente, mas confesso que não me lembro já da última.
Hoje fui a uma daquelas lojas de sapatos que anunciam ter tudo ao mais baixo preço. A ideia era comprar uns ténis (dos sapatos normais há muito desisti, não se fazem para o meu número). Mas nada. O costume. Lá achei, com dificuldade, uns sapatos de marca, obscenamente caros, mas com uma boa promoção. Mas não se pode ter tudo: um mísero 44. Entornei com dificuldade os pés lá dentro, e fiquei assim tipo aquelas chinesas do século passado que enfaixavam os pés para eles ficarem pequeninos. O problema é que eu ando a enfaixar os meus em sapatos de número abaixo do meu há quase 20 anos, e nada de mirrarem.
Há, porém, uma coisa que me continua a fazer imensa confusão: os miúdos de hoje são enormes, normalmente mais altos do que eu, é de supor que tenham pés proporcionais. E eles dizem que têm, mas eu nunca lá fui de régua em punho. E se é verdade, eu gostava muito de saber onde compram sapatos. Porque eu já corri tudo, desde as lojas de marca aos mercados. E para achar, na última década, sapatos que me servissem tive de mandar vir dos EUA, onde pelos vistos há mais gente como eu.
P.S.: lá comprei a porcaria dos ténis; entre esmagar os pés nos ténis velhos, já a ficarem sem sola, e esmagá-los nuns novos, as escolhas não são muitas.
P.P.S.: ainda se a lenda urbana de o tamanho dos pés corresponder ao tamanho de outras secções anatómicas fosse certa, eu nem me queixava muito - mas eu garanto que é embaraçosamente errada.
Hoje fui a uma daquelas lojas de sapatos que anunciam ter tudo ao mais baixo preço. A ideia era comprar uns ténis (dos sapatos normais há muito desisti, não se fazem para o meu número). Mas nada. O costume. Lá achei, com dificuldade, uns sapatos de marca, obscenamente caros, mas com uma boa promoção. Mas não se pode ter tudo: um mísero 44. Entornei com dificuldade os pés lá dentro, e fiquei assim tipo aquelas chinesas do século passado que enfaixavam os pés para eles ficarem pequeninos. O problema é que eu ando a enfaixar os meus em sapatos de número abaixo do meu há quase 20 anos, e nada de mirrarem.
Há, porém, uma coisa que me continua a fazer imensa confusão: os miúdos de hoje são enormes, normalmente mais altos do que eu, é de supor que tenham pés proporcionais. E eles dizem que têm, mas eu nunca lá fui de régua em punho. E se é verdade, eu gostava muito de saber onde compram sapatos. Porque eu já corri tudo, desde as lojas de marca aos mercados. E para achar, na última década, sapatos que me servissem tive de mandar vir dos EUA, onde pelos vistos há mais gente como eu.
P.S.: lá comprei a porcaria dos ténis; entre esmagar os pés nos ténis velhos, já a ficarem sem sola, e esmagá-los nuns novos, as escolhas não são muitas.
P.P.S.: ainda se a lenda urbana de o tamanho dos pés corresponder ao tamanho de outras secções anatómicas fosse certa, eu nem me queixava muito - mas eu garanto que é embaraçosamente errada.
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