quinta-feira, junho 03, 2010

O Corpo de Deus de 1647

[reedição com alterações da publicação do ano passado]

A coisa conta-se em poucas palavras, e, apesar de quase completamente ignorada pela historiografia contemporânea, é fundamental na propaganda da Restauração. Mais, até ao século XIX ainda era fonte de inspiração de obras literárias, como "O Regicida", de Camilo Castelo Branco, e indirectamente as suas sequelas "A filha do regicida" e "A caveira da mártir".

No dia de Corpo de Deus de 1647, que nesse ano calhou a 20 de Junho, D. João IV comungou e foi à procissão, que percorria o que é hoje a Baixa de Lisboa. Alegadamente acoitado numas casas que teria alugado e cujas paredes teria derrubado para poder ter vista para os dois lados da rua, Domingos Leite Pereira esperava a passagem do rei para, alegadamente a mando de Castela, matar D. João IV (*). O rei lá foi à procissão, e voltou, imagino, para o regaço da sua Luisinha de Gusmão, no fim da dita. Então não houve tiroteio? Pois não. Alegadamente, Domingos Leite Pereira ter-se-á arrependido à última da hora, ao ver uma "majestade divina" pairando sobre o rei e que lhe teria paralisado os membros, impedindo-o de alvejar o Bragança - o que veio mesmo a calhar à propaganda quinto-imperista, que se fartou de escrever sobre isto. Confessou isto tudo em interrogatório, ou pelo menos assim diz a a crónica oficial, que acrescenta que o regicida frustrado, terá entoado loas a D. João IV, qual Saulo, aliás Paulo, depois da Estrada de Damasco.

Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo matar o homem - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).

Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.

O lugar onde não aconteceu o atentado está hoje em parte visível na Rua dos Fanqueiros, pois a rainha D. Luísa de Gusmão mandou que as casas fossem derrubadas e ali se fizesse um convento. Hoje apenas restam partes da igreja do convento, destruído em 1755.


A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.

Um dos muitos textos que então se escreveram sobre o caso foi um sermão de Frei Luís de Sá, lente na Universidade de Coimbra, e que tem este delicioso título:

«Sermão que pregou o doutor Fr. Luís de Saa religioso da ordem de S. Bernardo, Lente da Cadeira de S. Thomas, e Gabriel da Universidade de Coimbra na procissão solemne que o Reverendíssimo Cabido do próprio bispado instituiu. Pro gratiarum actione, de Deus haver livrado a sua Majestade da admirável treição, que contra ele por ordem de Castela se tinha maquinado em dia de Corpus Christi


Foi pronunciado em Coimbra em 8 de Setembro de 1647, e publicado no mesmo ano - naquela época não se brincava em serviço, não havia cá as molezas e procrastinações dos nossos dias. Transcrevo dois parágrafos, modernizando a ortografia, mas conservando os casos em que a escrita denuncia formas de pronunciar diferentes das contemporâneas.

«Eu não me espanto por não ter este Salmo Autor ao certo, porque como é de um ânimo agradecido, e há tão poucos no mundo, não é novo não se lhe saber o nome, e acrescento que visto não ter este Salmo conhecidamente Autor, levado do protentoso milagre porque vimos render hoje as graças a esta santa Sé Catedral de Coimbra, com pública procissão, tão autorizada, que são estas palavras do Anjo Custódio do nosso Rei e Reino, falando expressamente com ele no Santíssimo dia de Corpus, defronte de nossa Senhora da Palma de Lisboa, quando Castela toda sempre falsa, com parte de Portugal traidor, capitaneados ambos do Diabo merediano, intentaram fazer alvo de suas setas, e tiros no pino do meio dia, a quem ia coberto do escudo da maior verdade, a custódia e âmbula do Santíssimo Sacramento.

Querem dizer as palavras do Anjo Custódio deste Reino falando com o Sereníssimo Rei nosso senhor Dom João o IV. A verdade do Senhor vos servira de escudo em toda a vida, não tendes que temer sombras nocturnas, nem setas que se derijam contra vós todos os dias: não façais caso de conselhos, e juntas de traidores, que no segredo da noite se maquinam contra vossa pessoa, que são acções de quem vive em trevas co juízo; finalmente tende grande ânimo, quando ao pino do meio dia vos virdes cometer do Diabo merediano com incurso diabólico.»


Fonte: impresso na Biblioteca Nacional, com a cota TR5661/19p

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(*) Portugal estava, recorde-se, em estado de guerra com Espanha, na sequência do 1.º de Dezembro de 1640, situação que se arrastaria por mais dois reinados, e só terminaria com a paz de 1668, e o reconhecimento da independência por parte de Espanha.

quinta-feira, maio 27, 2010

Da mortificação do tacto

Frei António das Chagas (1631-1682)

Exercicio de Mortificação para toda a Semana

Sexta feira


Mortifique o sentido do Tacto, pondo pela manhaã cilicio atè o jantar, se tiver saude; à noite disciplina por espaço de hum Miserere. Não se toque, nem se coce de advertencia. Não se veja ao espelho, nem parte alguma sua. Jejue, se puder, a pão, & agua; & visite tres vezes o Santissimo Sacramento, fazendo por ter dor de seus pecados; faça por andar cuidando este dia nas dores de meu Senhor Jesu Christo Crucificado.



Obras Espirituaes Posthumas do Veneravel Padre Fr. Antonio das Chagas ...
Lisboa, 1684.

Transcrevo respeitando a orthographia do impresso original, que consultei com reverência. Sobre este injustamente esquecido frade franciscano seiscentista, cuja biografia resumida se pode ler aqui, e cuja sepultura se pode pisar no convento do Varatojo, em Torres Vedras, escreve o seu contemporâneo Pe. António Vieira, em carta a Duarte Ribeiro de Macedo, datada de 1 de Janeiro de 1675:

"... e é que, poucos dias antes do último correio, partido aos 13 de Novembro, se tinha ouvido em Lisboa um Jonas pregando:
Adhuc quadraginta dies et Niniue subuertetur. Este homem, que pode ser que seja conhecido de V. S.ª, é um capitão, grande poeta vulgar, chamado antigamente António da Fonseca, o qual se meteu frade de S. Francisco haverá oito ou dez anos, e hoje se chama frei António das Chagas. Haverá dois ou três anos começou a pregar apostolicamente, exortando a penitência, mas com cerimónias não usadas dos Apóstolos, como mostrar do púlpito uma caveira, tocar uma campainha, tirar muitas vezes um Cristo, dar-se bofetadas, e outras demonstrações semelhantes, com as quais, e com a opinião de santo, leva após si toda Lisboa"


António Vieira, Cartas, ed. J. Lúcio de Azevedo, vol. III, INCM, 1997.
p. 144

quarta-feira, maio 26, 2010

Historiarum Lusitanarum ab anno MDCXL usque ad MDCLVII Libri Decem

D. Fernando de Meneses (1614-1699), 2.º Conde da Ericeira, foi irmão do autor da História de Portugal Restaurado, D. Luís de Meneses, 3.º Conde da Ericeira. Tal como o irmão mais novo, também D. Fernando escreveu uma História do período da Restauração, mas teve o azar de o fazer em Latim; publicados só em 1734, em dois volumes, os Historiarum Lusitanarum ab anno MDCXL usque ad MDCLVII Libri Decem sofrem uma sina ainda mais triste do que a obra do mano mais novo, que mal por mal ainda é citada e lida por alguns excêntricos, e teve uma edição nos anos 40 do século XX - já os Historiarum libri por estarem em latim, permanecem inéditos e desconhecidos. E tendo em conta que D. Fernando participou activamente no processo da Restauração, é escusado lembrar a importância desta obra enquanto História, mas também fonte em primeira mão. Sic transit gloria Portugalliae.

terça-feira, maio 25, 2010

Do reinar e do servir


Nas vésperas do 1.º de Dezembro de 1640 o Duque de Bragança está ainda, de acordo com a historiografia da época, indeciso, sem saber se há-de reclamar a Coroa e embarcar na revolução, ou se há-de continuar na pachorra do Paço de Vila Viçosa, de volta da caça e da música. Consulta então a sua mulher, espanhola de todos os costados, da poderosa casa dos Duques de Medina-Sidónia. D. Luísa de Gusmão ter-lhe-á então respondido mais ou menos o que conta D. Luís de Meneses, o Conde da Ericeira, na sua monumental e incontornável História de Portugal Restaurado, começada a publicar nos finais de Seiscentos, e que, precisamente por ser um marco na historiografia portuguesa, permanece esquecida e por reeditar desde os anos 40 do século XX:

"A Duquesa, que era dotada de entendimento tão claro e ânimo tão varonil, como depois acreditaram largas experiências, ponderando os perigos da sua Casa, sendo objecto do rigor do Conde-Duque, julgou generosamente por mais acertado, ainda que a morte fosse consequência da Coroa, morrer reinando que acabar servindo, e animou o Duque, dizendo que todos os vaticínios eram segurança da empresa, e que neste sentido só a dilação de se coroar podia ser prejudicial."


D. Luís de Meneses, História de Portugal Restaurado, Vol. I
ed. António Álvaro Dória, Livraria Civilização, Porto, 1945, p. 111

segunda-feira, maio 17, 2010


this
forest pool
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of Black
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if

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more than life

must die to
merely
Know


e. e. cummings
95 poems
Liveright, 2002

domingo, maio 16, 2010

O Cardeal foi às putas

Continuo a ler, extasiado, as cartas do inigualável embaixador Francisco de Sousa Coutinho (c.1597-1660), que em 1655 conseguiu ser recebido a título particular pelo Papa Alexandre VII, quando Portugal andava desde 1641 (e andaria ainda até 1669) a tentar que os sucessivos Papas se dignassem fechar as pernas a Espanha, e reconhecer a independência conseguida em 1640.

Um dos inimigos de estimação de Sousa Coutinho era o Cardeal Protector de Portugal, de seu nome Ursino. Numa carta de 22 de Abril de 1656, diz mesmo isto ao secretário Gaspar de Faria:

"Mas o que sobretudo sinto é o espanto que toda esta Corte tem desde o Papa até o mais ínfimo, de havermos escolhido um Protector, que é o ludíbrio dos Cardeais, e homem de quem no Colégio se não faz caso algum, e me dezia nestes dias um autorizado que me não espantasse disso, que começara a vida com a caça e com as putas sem tratar de outra cousa, que assim continuava ainda, e assim havia de acabar, e tal como isto é o Protector que temos."


Retirei o texto do Corpo Diplomático Português (volume XIII, página 285) actualizando a ortografia, excepto nos casos em que reflecte a pronúncia da época. A edição é a de 1907.

quarta-feira, maio 12, 2010

Da alparca de Deus, ou de como já não se fazem frades desta qualidade


Ainda na mesma carta a D. João IV, de 28 de Janeiro de 1656, o embaixador Sousa Coutinho, em plena guerra militar mas sobretudo diplomática com Espanha, na sequência da Restauração, fala da bravura de um frade franciscano português, imaginativamente chamado Francisco de Assis, perante os ataques verbais de um frade espanhol, que chamava apenas "Duque de Bragança" a D. João IV, recusando-se assim reconhecê-lo Rei.

Estes fidalgos homiziados que aqui andam o tomaram tão pesadamente que, se os eu deixara, queriam tirar satisfação do castelhano; aquietei-os com lhes dizer que de castelhanos não podíamos esperar outro tratamento: que no que se nos não dizia em nossa presença nos não faziam agravo algum, que a ser nela, que não só deles esperaria eu a boa conta que diriam de si, mas que de qualquer dos seus criados, como havia feito frei Francisco de Assis, que é um frade franciscano da Província de Enxobregas, irmão de Manuel Alves Carrilho, português tão desatinado que um destes dias em Ara Coeli, que é o convento em que está, porque houve um frade castelhano que quis usar dos mesmos termos do Duque de Bragança, saltou nele descalçando uma alparca, e moeu com ela de maneira que se lho não tiram das mãos, houvera de sair delas em muito mau estado: o Assis esteve preso alguns dias, mas pôs os castelhanos em estado que diante dele nenhum falava.

Carta de Sousa Coutinho a D. João IV, de Agosto ou Setembro de 1656
in Corpo Diplomático Português, vol. XIII
pp. 229 & seqq.

terça-feira, maio 11, 2010

Da mama de ir a Roma


A cousa é mais ou menos assim. Estamos em fins de Janeiro de 1656, ou seja 15 anos depois da Restauração, mais cousa menos cousa. Cousa que está negra, pois a bem dizer só os estados inimigos de Espanha reconhecem a independência de Portugal (França, Holanda, Suécia, Inglaterra e pouco mais). O mais importante de todos, a Santa Sé, continua sem passar cartão a D. João IV: em Roma vamos no terceiro Papa desde 1640, primeiro Urbano VIII, depois Inocêncio X, e agora Alexandre VII, eleito no início de 1655. Todos se recusam terminantemente a receber a título oficial os embaixadores de D. João IV, e, pior, a prover os Bispados de Portugal.

O Reino está, pois, sem Bispos, sem reconhecimento internacional relevante (tirando a França), e à espera a qualquer momento que a Espanha resolva as outras guerras mais importantes, e ataque em força, de modo a recuperar isto. É neste contexto que D. João IV manda para Roma o embaixador Sousa Coutinho, então representante em Paris, para tentar que o novo Papa se dignasse recebê-lo. Inesperadamente, Sousa Coutinho, que chega a Roma em Novembro de 1655, consegue ser recebido menos de um mês depois. Mas a título particular, não oficial, o que é como quem diz: ficou tudo na mesma.

Apesar do fracasso relativo, Sousa Coutinho, que tinha um feitio dos diabos, está eufórico, e acha (e di-lo em carta ao Rei) que conseguiu num mês o que os outros não lograram em 15 anos. O que não deixa de ser verdade: tal como os outros, a bem dizer não conseguiu nada. Mas ele acha que não, acha que a cousa está arrumada (puro engano, só em 1669 se resolve o problema, já Sousa Coutinho estava morto e enterrado havia quase uma década). E numa das muitas e inflamadas cartas que escreve a D. João IV, saiu-se com esta pérola, que não lhe terá granjeado muitas simpatias entre o Clero, e que poderá explicar as más relações que manteve sempre com o Cardeal Protector do Reino, Ursino, e sobretudo o ter sido mandado regressar à base por D. João IV nesse mesmo ano:

O que [o Cardeal Ursino] escreve a Vossa Majestade que o Papa declarou, ou deu a entender que daria Bispos a Portugal, mas que não receberia Embaixador salva pace, cousa é que lhe não saiu nunca pela boca, são openiões (sic) vulgares, particularmente dos nossos frades portugueses, que como de haver Embaixador se segue por consequência infalível terem Núncio no Reino, e tirar-se-lhes a mama de virem a Roma a título de servirem a Vossa Majestade, andam apontando estes meios pelas praças, e pelas casas dos Cardeais.

Carta de Sousa Coutinho a D. João IV, de 28 de Janeiro de 1656
in Corpo Diplomático Português, vol. XIII
pp. 229 & seqq.


Modernizei a ortografia excepto quando reflecte a pronúncia da época. A edição é retirada do Corpo Diplomático Português, edição monumental, ainda que com muitos erros, que não é reeditada desde o século XIX, seguindo uma tradição muito portuguesa, de não reeditar obras de referência.

Nota: aquele senhor bem posto ali em cima é o Papa Alexandre VII (1655-1667)
Este é um blogue laico, e portanto não concede nem faz tolerância de ponto pela visita de um líder religioso.

sábado, maio 08, 2010

Dos livros que matam

Não consigo abrir um livro sem terror: acredito que a literatura mata.
Pedro Eiras

A propósito da apresentação das Substâncias Perigosas de Pedro Eiras, hoje, na Trama, e do tema da literatura que mata, lembrei-me da história de al-Jâhiz (*), grande estudioso árabe que nasceu em Baçorá, actual Iraque, por volta de 781. Foi este al-Jâhiz um tremendo estudioso, que tinha um terrível vício: ler. Ler muito. Conta-se que pagava aos livreiros de Bagdade, onde viveu grande parte da sua vida, e de Baçorá para o deixarem pernoitar nas suas livrarias, no meio dos livros, que lia horas a fio, até ser dia. O que talvez tenha vindo a ser a sua desgraça. E é com isto que regresso à frase que serve de epígrafe a esta nuga. É que não terá sido a literatura a matar, em 869, al-Jâhiz, mas, muito mais prosaicamente, uma pilha de livros mal equilibrados que se abatera sobre ele.


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(*) Correctamente a transcição é al-Jâḥiẓ (الجاحظ). O nome é, na verdade, uma alcunha. A palavra significa qualquer coisa como "de olhos esbugalhados" - mal que ataca muito boa gente que gosta de ler.

quinta-feira, maio 06, 2010

Diálogo entre Babieca y Rocinante



«Diálogo entre Babieca y Rocinante

Soneto

B. Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
R. Porque nunca se come, y se trabaja.
B. Pues qué es de la cebada y de la paja?
R. No me deja mi amo ni un bocado.

B. Andá, señor, que estáis muy mal criado,
pues vuestra lengua de asno al amo ultraja.
R. Asno se es de la cuna a la mortaja.
Queréislo ver? Miraldo enamorado.

B. Es necedad amar? R. No es gran prudencia.
B. Metafísico estáis. R. Es que no como.
B. Quejaos del escudero. R. No es bastante.

Cómo me he de quejar en mi dolencia,
si el amo y escudero o mayordomo
son tan rocines como Rocinante?»

Cervantes, Don Quijote de la Mancha

segunda-feira, maio 03, 2010

So shy shy shy(and with a
look the very boldest man
can scarcely dare to meet no matter

how he'll try to try)

So wrong(wrong wrong)and with a
smile at which the rightest man
remembers there is such a thing

as spring and wonders why

So gay gay gay and with a
wisdom not the wisest man
will partly understand(although

the wisest man am i)

So young young young and with a
something makes the oldest man
(whoever he may be) the only

man who'll never die


e. e. cummings

Boas informações

O café do Modelo de Torres Vedras informa num cartaz que de Segunda a Quinta encerra às 23:00. Já às Sextas e Sábados o cartaz lembra que encerra às 23:00. E aos Domingos e feriados o cartaz avisa, não vá alguém ir ao engano, que encerra às 23:00. É sempre bom saber.

Da felicidade dos homens


Borges, em 1978, já cego.
«Yo sigo jugando a no ser ciego, yo sigo comprando libros, yo sigo llenando mi casa de libros. Los otros días me regalaron una edición del año 1966 de la Enciclopedia de Brokhause. Yo sentí la presencia de ese libro en mi casa, la sentí como una suerte de felicidad. Ahí estaban los veintitantos volúmenes con una letra gótica que no puedo leer, con los mapas y grabados que no puedo ver; y sin embargo, el libro estaba ahí. Yo sentía como una gravitación amistosa del libro. Pienso que el libro es una de las posibilidades de felicidad que tenemos los hombres.»
Jorge Luis Borges, Borges Oral, Alianza Editorial, 2006

quarta-feira, abril 28, 2010

Das opções

Trabalhar a ouvir Corelli no Mezzo é uma péssima ideia. No entanto, se tivesse de optar entre as cada vez mais insuportáveis intrigas vaticânicas seiscentistas e a música barroca sei que não precisava sequer de pensar. Por isso, e porque este maldito doutoramento tem mesmo de ser cuspido rapidamente, lá terei de trabalhar a ouvir Corelli no Mezzo.

Das Senhoras do Caravaggio

Gostava de que os saudosistas do Scolari e da Sr.ª do Caravaggio explicassem como é que a selecção da Federação Portuguesa de Futebol chega ao 3.º lugar do ranking da FIFA sem o dito cujo e sem a dita cuja.

terça-feira, abril 27, 2010

______to stand(alone)in some

____ autumnal afternoon:
___ breathing a fatal
__ stillness;while

_ enormous this how

_patient creature(who's
never by never robbed of
_day)puts always on by always

_ dream,is to

___taste
____not(beyond
_____death and

______life)imaginable mysteries


e. e. cummings, 95 poems
Liveright, 2002

domingo, abril 25, 2010

Madrugada


25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia

sábado, abril 24, 2010

Da colheita da Verdade


Nos 'meus' documentos do Arquivo Secreto Vaticano, um autor português responde ao um espanhol, no contexto da guerra diplomática que se seguiu à Restauração de 1640:
(...) ipsum tabellarium a Te adductum diligenter inspiciemus, ut mundo pateat quod Tu ex luce nebulas, non autem ex nebula lucem emergere facis, et ad instar illius emblematis unius floris in quo considentes apem et araneum iste uenenum, et altera uero mel haurit, Tu non solum e Tabellario, sed ex omnibus scripturis uenenum mendacii, et ambagum non autem ueritatis mel expromere curas.

O que é como quem diz, em linguagem:

(...) examinemos atentamente o próprio tabelário por ti aduzido, de modo a que fique patente ao Mundo que tu fazes nascer da luz as névoas, não da névoa a luz, e à semelhança daquela imagem de uma flor, na qual estando uma abelha e uma aranha, esta sorve veneno, a outra mel, tu tratas de retirar não só do tabelário, mas de todas as escrituras, o veneno da mentira e das ambiguidades, mas não o mel da verdade.


Toma lá que é para aprenderes.

Do infantil politicamente correcto

Com as recentemente adquiridas funções de tio e as suas agregadas obrigações de contador de histórias e cantadeiro, tenho notado que as histórias e canções infantis têm sofrido um processo de revisão politicamente correcta. Assim, por exemplo, na história do Capuchinho Vermelho o lobo já não come a avó, e o caçador já não lhe abre a barriga (ao lobo) para a encher de pedras, como no meu tempo. Agora a avozinha foge e esconde-se no armário, enquanto o caçador se limita a enxotar o lobo. Perdeu a graça toda. Na história do João e da Maria, os meninos em algumas versões já não são abandonados, antes se perdem sem que se perceba muito bem porquê. A bruxa continua a ser metida no forno, mas desconfio que também isso venha a mudar.

Agora acabo de ouvir uma menina a cantar o clássico "atirei o pau ao gato". Ainda cantou a versão que eu sempre conheci. Mas a mãe ia cantando ao mesmo tempo, e insistindo nas correcções politicamente correctas que tornam a canção impossível de cantar, e que a filha ia rejeitando (abençoada). A nova e absurda versão por enquanto ofende apenas os dois primeiros versos, e é assim: "atirei o carapau ao gato mais o gato não comeu".

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