sábado, outubro 09, 2010

Da competência, outra vez

Enquanto lavrei a tese, a Biblioteca Apostólica Vaticana esteve fechada, durante anos e sem data prevista de reabertura (*). Tive, assim, de recorrer a cópias manhosas de microfilme, já que a Vaticana cobrava fotografias digitais a preço de ouro. Um dos documentos essenciais para o meu plano de tese só era acessível em fotocópias ou PDF feitos a partir desses microfilmes, e era praticamente ilegível. Comuniquei esse facto à Vaticana, e segui em frente. 

Choraminguei na introdução da tese e nos capítulos relevantes a impossibilidade de editar e traduzir o dito cujo documento, já que mandar vir fotografias digitais seria mais ou menos o equivalente ao défice português (o documento tem cerca de 200 páginas). Há algumas semanas recebi um email da Vaticana a dizer que tinham feito nova cópia do manuscrito e que mo iam enviar - sem eu ter pedido nada. Ainda pensei que o meu inglês torturado os tivesse levado a pensar que era o DVD que estava ilegível, e que me iriam mandar a mesma cópia ilegível. Mas não. Ontem chegou-me um DVD com uma reprodução nova, legibilíssima. E não me cobraram um cêntimo.

Demasiado tarde, porém. A tese já foi excretada nos serviços, e, a avaliar pelo desprezo a que a historiografia actual vota este período da nossa História, não me parece que haja mais ninguém interessado em 200 páginas, mais cousa menos cousa, a tentar provar que D. João IV era um aldrabão e que Filipe IV era o legítimo rei desta choldra.

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(*) Queixamo-nos da BN, mas ao menos essa tem data de reabertura marcada.

domingo, setembro 26, 2010

A praga do embaixador

A cousa conta-se, telegraficamente, assim: depois da Restauração, e até 1669, os papas Urbano VIII, Inocêncio X, Alexandre VII e Clemente IX sempre se recusaram a reconhecer a independência de Portugal. Assim, recusavam receber oicialmente os embaixadores portugueses, e a prover os bispados de Portugal, cousa que a nós nos parece hoje de nenhuma importância, mas que na altura era vital. Em Dezembro 1655, após 15 anos de fracassos, o embaixador Sousa Coutinho consegue ser recebido a título particular pelo papa Alexandre VII, e, poucas semanas depois, deixa-lhe uma chatíssima arenga com as queixas portuguesas. O papa não lhe ligou a mínima, como é natural, mais preocupado em não desagradar aos poderosos espanhóis. Das queixinhas do embaixador português retiro este naco, com a ortografia original do manuscrito que consultei, do Arquivo Secreto Vaticano, e demonstra bem o desespero a que já se tinha chegado em Portugal, perante o católico desprezo dos papas.


Mi sono steso molto in questa materia, ma non tanto, come richiedeua la di lei necessità, e così riducendo il tutto a due sole parole, dico, Beatissimo Padre, col rispetto, che deuo al uero successor di S. Pietro, ma con quella libertà Christiana, che deuo ancora alla sua Catedra, che i mali caggionati dalle durezze passate, hanno bastato à perdere tante anime, che non sò se i due predecessori immediati di Vostra Santità hauran potuto allegare al Tribunal di Dio per scusa legitima di non hauer pasciuta quella gregge si numerosa per hauerli i Ministri del Re Cattolico sollecitati a non farlo, quando il precetto di Dio è si rigoroso al contrario, che Giesù Christo si dichiarò con suo Padre di non hauer trascurata pur una dell' anime à lui commesse: Quos dedisti mihi non perdidi ex eis quemquam. Ben sò, che nel morire ne sentirono acuti stimoli di rimorso, ma non permise Iddio, che chi haueua in uila trascurato si longamente negotio di tanta importanza lo rimediasse nel fine.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Quid miraris?

Continuo nos sermões. Frei Francisco Escobar (1617-1679) justifica a cobardia de D. João IV durante as Alterações de Évora (1637), nas quais basicamente não mexeu uma palha para ajudar os revoltosos e fez o jogo espanhol, como obedecendo a desígnios divinos.

Bem ia já mostrando Portugal a impaciência com o governo de Rei estranho no antecipado motim da cidade de Évora, confessando que não tinha já ombros para sustentar tão grande peso: e não deixa de ser mistério, o mover-se na era de trinta e oito. Esperava Portugal na era de quarenta ver-se restituído à glória de ter pai, e rei natural, faltavam-lhe naquele tempo dous anos para chegar à era de quarenta, que muito rompesse em motins, e inquietações! Trinta e oito anos havia, que um miserável paralítico padecia na mesma casa do Remédio; vem um Anjo a mover as águas, e só pera este pobre não havia lugar naquela piscina; impaciente com a opressão de tantos males rompe em brados e suspiros: non habeo hominem! E pera que estranha tanto os males, se tão feito está a padecê‑los? Grandemente Santo Agostinho: Quid miraris, quia languebat, quia ad quadraginta duos minus annos habebat? Estava o paralítico na era de trinta e oito anos de enfermidade, faltavam-lhe dous para chegar a quarenta, esta era a causa da sua impaciência: quid miraris, etc. Na era de trinta e oito vivia Portugal sujeiro à Coroa estranha, faltava-lhe dous anos para chegar a quarenta, em que havia de lograr Rei e Pai da pátria: que muito rompesse em motins, inquietações, quid miraris?

Frei Francisco Escobar
Sermão gratulatório pelo restabelecimento da saúde de D. João IV, 1655

ed.João Francisco Marques, A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração, Quasi, Lisboa, 2007

terça-feira, setembro 14, 2010

Dos impostos

Faz hoje 368 anos que o Pe. António Vieira pronunciou o Sermão de Santo António, na igreja das Chagas, em Lisboa, a apelar à participação de todos no esforço de guerra para manter a independência do reino, restaurada ainda não havia 2 anos. Apelava concretamente a que todos participassem com os seus impostos, o que seria o tema dominante das Cortes que se reuniram no dia seguinte. É uma ideia que continua bem actual, num país onde todos tentam fugir aos impostos, sobretudo os que têm mais, e onde se instalou a prática terceiro-mundista do pagamento sem factura, sem perceber que assim não vamos a lado nenhum. Dou a palavra a Vieira.

Estes (*) são os elementos de que se compõe a república. Da maneira, pois, que aqueles três elementos naturais deixam de ser o que eram, para se converterem em uma espécie conservadora das cousas: Ex eo, quod fuit, in alteram speciem commutatur; assim estes três elementos políticos hão de deixar de ser o que são, para se reduzirem unidos a um estado que mais convenha à conservação do reino. O estado Eclesiástico deixe de ser o que é por imunidade, e anime-se a assistir com o que não deve. O estado da Nobreza deixe de ser o que é por privilégios, e alente-se a concorrer com o que não usa. O estado do Povo deixe de ser o que é por possibilidade, e esforce-se a contribuir com o que pode; e desta maneira deixando cada um de ser o que foi, alcançarão todos juntos a ser o que devem; sendo esta concorde união dos três elementos eficaz conservadora do quarto. Vos estis sal terrae.

(*) o Estado Nobreza, o Estado Eclesiástico, o Estado do Povo.

Pe. António Vieira
Sermão de Santo António (Lisboa, 14 de Setembro de 1642)

domingo, setembro 12, 2010

Pescadores de reinos


No dia 14 de Setembro de 1642, na véspera das segundas cortes após a Restauração, nas quais D. João IV ia tentar obter mais dinheiros dos impostos para financiar a guerra contra Castela, o Pe. António Vieira derrama do púlpito da igreja das Chagas, em Lisboa, um dos meus sermões preferidos, o chamado de Santo António, no qual apela aos nobres e eclesiásticos que se deixem de mariquices se decidam a contribuir também eles para o esforço de guerra, por meio do pagamento de impostos, pois de outra forma não é possível conservar o reino recentemente restaurado.

Fomos pescadores astutos, fomos pescadores venturosos; aproveitámo-nos da água envolta, lançámos as redes a tempo, e ainda que tomámos somente um peixe rei, foi o mais formoso lanço que se fez nunca, não digo nas ribeiras do Tejo, mas em quantas rodeiam as praias do Oceano. Pescou Portugal o seu Reino, pescou Portugal a sua Coroa: advirta agora Portugal, que a não pescou para comer, senão para a conservar. Foi pescador, seja sal.
Sermão de Santo António (Lisboa, 14 de Setembro de 1642)

sábado, setembro 11, 2010

Deus nosso senhor castiga


Ainda a propósito da história da mão de Cristo que se desprendeu da cruz, o primeiro número da Gazeta da Restaração, a primeira publição periódica regular portuguesa, datado de Dezembro de 1641, contra logo na primeira página um curioso caso de um céptico que não se deixava levar por histórias de fradalhada e padralhada, e a quem deusnossenhor castigou.

Num lugar da Beira se afirma que ouue hum homẽ, que ouuindo dizer numa cõuersação que na felice aclamação delRey nosso Senhor fizera o crucifixo da Sè o milagre, que a todos he notorio: disse que podia a caso a imagem do Senhor despregar o braço; & assim como acabou de dizer estas palauras cahio huma parede junto da qual estauão todos os da cõuersação, & sò a elle matou.

Gazeta em que se relatam as novas todas, que ouve nesta Corte, e que vieram de varias partes no mes de Novembro de 1641

domingo, agosto 29, 2010

O levantamento de Portugal

O caso deu-se, segundo uns, no próprio dia 1 de Dezembro de 1640, segundo outros, terá ocorrido apenas no dia da aclamação de D. João IV, a 15 de Dezembro. Seja como for, o caso deu brado na época, e aparece referido em vários textos de propaganda a favor da Restauração de Portugal. Transcrevo da Restauração de Portugal Prodigiosa, que relata os milagres e prodígios associados à Restauração. É uma obra fundamental para o entendimento desta época crucial da nossa História, bem como da temática do Quinto Império, e por isso permanece inédita e desconhecida fora dos meios académicos, tal como a generalidade das outras do mesmo período.

Transcrevo respeitando a ortografia original, excepto nos casos de manifesto erro tipográfico.


Sahindo o Arcebispo da Sè na manhaã do Sabbado com os Conegos, fidalgos, & innumerauel gente, que se ajuntou em hum momento, leuaua diante hum clerigo a Cruz Archiepiscopal, chegãdo a jũto da porta da Igreja de Sancto Antonio, lhe pediraõ algũas pessoas lãçasse a bençã, elle pondo os olhos no Crucifixo lhe pedio quizesse bendiçoar aquelle Pouo. Dizẽ algũas pessoas que então despregou o Sancto Crucifixo a mão direita que tinha pregada na Cruz.

Porém o que todos viraõ olhando pera o Senhor neste passo, foi, que a mão direita estaua despregada, & com o braço em algũa distancia da Cruz, do que dantes ninguem dera fè, sabendose, que da Sé sahiraõ pregadas ambas as mãos com tarraxas. Com esta admirauel demonstraçaõ do Senhor, conceberaõ os prezẽtes mui grande consolaçaõ em suas almas, & a tiueram por claras prendas de o Senhor os auer de defender, & perpetuar na liberdade principiada.

Nos campos de Ourique mostrou Christo Senhor nosso claramente, que o leuantamento de Portugal a Reyno era obra sua, como dissemos no capitulo quinto da primeira parte, quando escolheo o Inuictissimo Rey Dom Affonso Henriquez para Rey de Portugal, e empenhou sua diuina palaura, que nele, & seus descẽdentes estabeleceria seu Imperio, & na decima sexta geraçam attenuada tornaria a por os olhos de sua misericordia.

Nesta Cidade de Lisboa, cabeça do Reyno desprega da Cruz o mesmo Senhor em publico sua mão direita leuantando com ella a Portugal attenuado, caido, & prostrado por terra, desempenhando desta sorte a palaura, que dera a seu primeiro Rey, pois em Principe Portuguez herdeiro de seu Real sangue, de nouo vẽ seus diuinos olhos estabelecendo, & confirmando nelle o Imperio Lusitano, conforme o prometera pelo Sancto Iob, operi manuum tuarum porriges dexteram.

(...)

A este admirauel sinal da mão direita do Senhor podemos atribuir a paz, & quietaçaõ, em que tudo ficou despois de Sua Magestade acclamado Rey, & naõ auer mais sangue, nem mais morte em hũa tam subita & nunca vista mudança de hum Reyno, estando viuo o possuidor delle.


Gregório de Almeida, Restauração de Portugal Prodigiosa, Lisboa, 1643
Parte II, cap. IV, pp.272-273.


domingo, agosto 22, 2010

Made in Portugal

Isto de vir trabalhar para a esplanada tem destas cousas. A menina da mesa ao lado vomita cavalidades xenófobas e nazis há largos minutos a propósito de umas chinelas que se partiram e garante serem feitas na China. Depois pega na malfadada chinela e diz, numa antecipação vitoriosa, "querem ver? olha, made in" - e depois fecha o sorriso e diz rapidamente "Portugal" e muda de assunto.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Uma questão de açúcar

Duas senhoras no café, esta tarde. Uma sugere à outra que peça um sumo de fruta. Ela torce o nariz, arrepanha os lábios e responde "não, filha, por causa do açúcar, tem muito açúcar". Depois desenrola os olhos ao longo da vitrine, leva o dedo porcino ao lábio e pede à menina "um bolinho daqueles, não, daqueles, sim, desses". Depois pede um café com adoçante, e enquanto afocinha no creme do bolo de chocolate aponta para o dito cujo adoçante e vai dizendo "é que eu o açúcar não posso". Parece mentira mas eu juro que é verdade.

terça-feira, agosto 17, 2010

Luz, & Calor


Agora que vai a morrer o dia em que se lembram os 300 anos da morte do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), um excerto da Luz e Calor, com imagem da capa de um exemplar que veio da biblioteca do 'meu' convento do Varatojo (Torres Vedras), onde declinei as minhas palavras de grego clássico, lá para os anos 80 do século passado, e onde, se bem me lembro, há uma tela antiga que o representa.

Lavra às vezes o lapidario hum diamante com muytas facetas miudas por cima (chamãolhe rosa): & de qualquer parte que bulís com elle está scintillãdo differentes brilhos. Tal me parece o ineffavel mysterio de Deos feyto Homem: hum diamante de valor inestimavel, que Deos amante meteo no dedo de sua Esposa a Igreja Santa; diamante tão fermoso, & claro, tão sem jaça, nem cabello, que tem dentro em si mesmo todo hum Sol de justiça: Orietur vobis Sol justitiae: & por qualquer parte que o consideremos, fere os olhos do entendimento com differentes luzes, todas manifestações da Divina, & ineffavel Caridade.

Luz e Calor, II Parte, Op. I, Estímulos de Amor Divino: Estímulo V (p. 309 da edição de 1696)

Existe uma edição da Lello, de 1991, desta obra. Achei-a na Feira do Livro, mas nunca vi em nenhuma livraria.

Pe. Manuel Bernardes


Comemoram-se hoje os 300 anos da morte do Pe. Manuel Bernardes, nascido a 20 de Agosto de 1644, e falecido a 17 desse mesmo mês, em 1710. É uma das figuras maiores, um dos expoentes da Literatura Portuguesa, e por isso mesmo continua praticamente sem edições contemporâneas, tirando algumas selectas e edições nas primeiras décadas do século XX, e completamente esquecido e ignorada no ensino.

domingo, agosto 15, 2010

Das referências

Há muitas cousas insuportáveis nas obras académicas, mas poucas mais do que aquele infame hábito de, num livro de 400 ou 500 páginas, citar uma única vez uma obra de um autor, que depois passa a ser referida como "op. cit." ou "loc. cit.", o que, nos casos em que o mesmo autor tem mais do que uma obra, só pode dizer alguma cousa a quem tem memória de elefante ou anda munido de lapinhos e folha de papel volante para ir apontando os nomes das obras. Ainda agora tive recuar 12 páginas de sucessivos "loc. cit." até dar finalmente com o raio que a partisse da referência completa de um manuscrito.

Felizmente vai-se impondo o hábito mais inteligente de nomear sempre o autor, e substituir a obra pela data de publicação, o que permite identificar rapidamente com uma ida à bibliografia. Isto no caso de obras impressas, pois nos manuscritos parece que se mantém a mesma técnica sádica. Quanto a mim, e correndo o risco de ser atacado por isso na defesa, na minha tese as citações são todas referidas ou pela data, ou, no caso de manuscritos ou impressos antigos, pela referência completa. Ah, e não há cá "idem, ibidem": mesmo em notas de rodapé seguidas, a referência vem sempre completa.

sábado, agosto 14, 2010

Só mesmo as que caíram no chão

No dia 2 de Abril de 1645 o embaixador espanhol em Roma preparou uma soberba recepção ao embaixador da Igreja de Portugal (e, às escondidas, também embaixador de Portugal): à meia noite, um grupo de militares varreu a tiros e à pancada a comitiva portuguesa, repetindo igual tratamento fornecido, a 20 de Agosto de 1642, ao bispo de Lamego, embaixador de Portugal. Assim se fazia, também, a diplomacia naqueles tempos em que Portugal e Espanha estavam em guerra aberta, após o 1,º de Dezembro de 1640. E eu estou tão farto deles todos que se pudesse também pegava numa escopeta ou num arcabuz, e corria com eles todos da minha frente.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Da transfusão dos sonhos


O Manuel, que tem quási 4 anos, contou-me que montava um golfinho no mar, mas que veio uma senhora e o empurrou, e o golfinho foi-se embora, e ele chorou muito. Appressou-se a esclarecer que aquilo não tinha accontecido mesmo, que tinha sido só um sonho. Mas que mesmo assim tinha chorado. A Carolina, que se achega aos 5 anos, confirmou tudo. Talvez tenha notado algum scepticismo no meu olhar, e explicou que quando o mano está a sonhar e ela o abbraça, os sonhos delle passam para ella, e sonham os dois a mesma cousa.

Tarquinio Merula





Tarquinio Merula (1595-1665)
Interp: Jordi Savall

في ظل الكلام



(13 de Março de 1941 – 9 de Agosto de 2008)

sábado, julho 31, 2010

CSI: Bagdade

Um pescador deita as redes ao rio e em vez de peixe pesca um saco de pano. Lá dentro, uma mão. O chefe da polícia manda investigar, e aparece outro saco, agora com um pé. Procura-se saber quem é o fabricante daqueles sacos. Depois, pede-se a lista de compradores, até se chegar ao assassino, que é preso e condenado.

Não é o argumento de mais um CSI. É uma narrativa árabe medieval, retirada da edição bilingue Nouvelles policières du monde abbasside أخبار بوليسية من العصر العباسي , que recolhe pequenas histórias (verdadeiras micronarrativas) de autores do período abássida, desde al-Mas'udî (m. 956) a Ibn Arabshâh (m. 1450).


O título é, no entanto, enganador, pois na generalidade não são histórias policiais tal como as entendemos hoje, apesar do exemplo dado. São pequenas histórias que têm em comum o tema do crime, mas em poucas se desenrola verdadeiramente um argumento policial. O título é ainda mais enganador em árabe, ao recorrer a um francesismo ("bûlîsîya") em vez do radical árabe tradicional.

Apesar de tudo, é um livrinho a não perder, mais ainda quando se é estudante de árabe. O texto original está profusamente anotado e vocalizado, e no final há um apêndice gramatical e lexical. Melhor ainda, os textos são reapresentados em anexo, agora sem notas nem vocalização.

segunda-feira, julho 26, 2010

Da ignorância

Na televisão ligada na sala ouço a dobragem de um documentário do canal Odisseia dizer duas vezes que os crocodilos de Cuba comiam "gigantes preguiçosos", "entretanto extintos". Mais do que uma aflitiva ignorância na língua original do documentário, revela-se uma escandalosa, inacreditável estupidez que ultrapassa os limites do razoável. Até a Carolina, com os seus quase 5 anos, sabe que o original de certeza dizia "preguiças gigantes", animal que de facto, como qualquer chimpanzé de QI médio sabe, existiu mas que entretanto se extinguiu. Agora "gigantes preguiçosos"?! O que virá a seguir? Leões a comer ogres malcheirosos? Tigres a comer gnomos zangados? Lobos a desfazer fadas sorridentes? Mas quem é que contrata - e, pior, quem é que paga a estes gajos para fazerem traduções deste calibre?