Na livraria uma senhora encomenda um livro porque, diz, apesar de já o ter, não o encontra nas estantes. Já estive mais longe disso. Quero dizer: já cheguei à fase de não encontrar. Só falta chegar à de comprar outra vez os já muitos que sei que tenho mas já não sei em que estante. Por outro lado, já tenho encontrado nas minhas estantes, quando me dá para as arrumar, muita cousa de que já não me lembrava que tinha, outras que podia jurar que não tinha.
sexta-feira, dezembro 03, 2010
quarta-feira, dezembro 01, 2010
Soubesse a espanholada a choldra em que isto se tornaria e não teria sido preciso andar depois à bulha quase 30 anos
RELAÇÃO DE TUDO O QUE PASSOU NA FELICE ACLAMAÇÃO DO MUI ALTO E MUI PODEROSO REI DOM JOÃO O IV
(1641)
Sexta-feira, depois de estar prevenido tudo quanto era necessário para a defensa da vida − siguindo o parecer de D. Miguel de Almeida − se confessaram todos, e se prepararam, pedindo a muitos relegiosos orações e missas, e dispondo-se como quem havia de entrar em um conflito, em um transe e em um perigo tão atroz, tão horrível, tão estupendo e tão alheio do que até agora viram quantas repúblicas hove no Universo. À tarde deste mesmo dia foram alguns dos mais autorizados do Povo a manifestar aos fidalgos que estavam com grande zelo e vigilância prevenidos para o sábado seguinte. Alegraram-se os fidalgos vendo que na ocasião era certo que o Povo os havia de siguir.
Amanheceu o desejado dia, e além de outras muitas circunstâncias que nele houve para se presumir com sólido fundamento que foi este impulso disposto e governado pela vontade divina, se considerou grande mistério em repetir então a Igreja aquelas palavras da Epístola Ad Romanos, cap.13, quando o glorioso apóstolo S. Paulo diz que é já hora de despertarmos, porque está a nossa salvação mais perto do que presumimos:
Fratres hora est iam nos de somno surgere, nunc enim propior est nostra salus, quam cum credidimus.
Que parecia que o mesmo Deus nos estava dizendo que era já chegada aquela felice hora que ele prometera a el-rei D. Afonso Henriques. Deu-se enfim o ponto para as nove horas da menhã, e deu-se ordem a todos para que, poucos a poucos, por vários caminhos, se ajuntassem no terreiro do Paço, o que se fez com recato e boa disposição, que uns em coches, outros a cavalo, outros a pé se dividiram em troços por todo aquele espaço que há desd’ o Arco dos Pregos até o Arco do Ouro. Andava já o segredo tão público, que o dia de antes ũa criada de D. Antão de Almada mandou um negro a casa de certa senhora cujo marido estava persiguido e preso por Miguel de Vasconcelos, e despois de estar o negro no pátio veio ela a ũa veranda e com muito desenfado lhe advertiu em alta e inteligível voz que dixesse àquela senhora que se não agastasse, que amenhã havia de ir o senhor D. Antão de Almada com outros fidalgos a matar ao secretário e a soltar ao senhor seu marido. E D. António Mascarenhas, encontrando no claustro de São Francisco de Enxobregas a Miguel de Vasconcelos, passou por ele sem lhe tirar o chapéu, e perguntando-lhe alguns fidalgos e alguns religiosos do mesmo convento porque não falava ao secretário, respondeu que entendia que era espécie de treição fazer cortesia a um homem a quem ele sabia de certo que havia de tirar a vida.
Também o doutor João Pinto Ribeiro, quando esta prodigiosa menhã veio de sua casa à porta da capela a esperar que se juntassem os fidalgos, encontrou no caminho um dos amigos a quem ele havia convidado sem lhe dizer o para quê, o qual, como andava desejoso de saber este segredo, lhe rogou que lhe dixesse aonde iam, e ele lhe respondeu: «− Não é nada; imos aqui abaxo até a sala dos tudescos a tirar um rei e pôr outro, e logo nos tornamos para casa.». Mas nenhũa cousa houve de tanto assombro − em razão de andar o segredo já na praça − como haver, naquela mesma hora em que o conflito estava próximo, quem − sem saber nada do que se preparava − entrou na Secretaria e avisou a Miguel de Vasconcelos, amoestando-o que se saísse lá por aquela porta do forte que olha para o mar, e que sem demora se metesse na sua gôndola e se passasse à outra banda. Porém já neste tempo, depois de estarem unidos e resolutos, pouco importava que o segredo se não observasse com todo o rigor, porque uma vez chegado o intento àqueles termos, não podia deixar de ter efeito, quanto mais que, se era decreto de Deus, que Portugal restaurasse a perdida liberdade, que descuido, que estorvo ou que embaraço podia haver que lhe fizesse impedimento?
Neste comenos deu o relógio do Paço nove horas, e como quando o fogo de ũa mina atea na pólvora e saem num mesmo instante por várias aberturas da terra − em cópia larga, com medonho ímpeto − mil raios e mil despedaçados e abrasadores mármores, assi feros, assi terríveis e assi furiosos saíram num mesmo tempo alguns fidalgos dos coches, e logo foram em seu siguimento com a mesma deliberação os mais que, a cavalo, ou a pé, vinham para aquele efeito. Subiram todos intrépidos por ũa e outra escada do Paço, já com as armas prontas, e dispostos para ver a cara ao mais estupendo transe em que desde que hove guerras no mundo se viu o coração humano.
Felice Aclamação, ff. 13-16 (ed. Evelina Verdelho)
sexta-feira, novembro 26, 2010
mens uix sana in corpore sano
As contas batiam certo: acabar a aula e sair da FLUL às 19:40, para estar na FCSH às 20:00, para começar outra aula. Só que ao chegar ao Metro, os altifalantes vomitavam que a Linha Amarela estava interrompida. Solução? Respirar fundo e correr até à Avenida de Berna. São 19:45, mais cousa menos cousa.
Mochila com 8,4kg às costas (eu sei, demasiado peso, mas são tudo cousas essenciais), a correr pela Alameda da Universidade abaixo, Campo Grande, Entre Campos, Campo Pequeno, primeira metade da Avenida de Berna - a última metade foi feita já a passo, para não dar mau aspecto, um professor todo suado a correr à porta da faculdade.
Mas correu tudo bem. São cerca de 15 minutos, a correr, desde a Faculdade de Letras à FCSH da Universidade Nova. E quando me perguntam para que é que eu faço duas a três corridas de 10 a 15 km cada por semana, eu respondo que é também para fazer frente a circunstâncias como estas.
quarta-feira, novembro 24, 2010
O desassossego do pedante
O Filme do Desassossego não passa no circuito comercial, o que, segundo se explica na página, se justifica por não se querer que o filme passe em salas de centros comerciais - porque se pretende, diz a página oficial, dar "dignidade e carácter de acontecimento cultural" a cada exibição. Cá está a pusilanimidade, a parolice tuga no seu melhor.
Não é que me pareça mal a masturbação implícita no cerimonial descrito para cada exibição. Acho até lindamente que o filme passe em cine-teatros e que tenha em todas as exibições toda a pompa que a página descreve. Mas não vejo qualquer justificação que o impeça de passar também no circuito comercial - e se essa justificação for financeira, então que o assumam e se deixem de justificações bacocas a acusar implicitamente de bárbaros ou pelo menos de culturalmene indignos os que frequentam os cinemas nos centros comerciais.
E sou insuspeito quando tomo a defesa da passagem em circuito comercial: eu nem vou ver filmes a centros comerciais, simplesmente porque o que lá passa, com algumas excepções, não me estimula, é-me aborrecido, custa-me mesmo a entender como é que alguém pode achar graça àquilo. Nos últimos 20 anos não devo ter ido ver mais do que 5 ou 6 filmes a salas comerciais (não é exagero), e saí arrependido de quase todos. Mais ainda, acho uma falta de gosto e de civismo os ruídos e os cheiros decorrentes da mastigação e do sorver das pipocas e dos sumos. Mas daí a poder justificar com isto a não exibição deste filme, financiado pelo Estado, em salas de cinema comerciais, parece-me no mínimo uma parolice.
Este filme, depreende-se assim do que se lê na sua página oficial, depreende-se também desta exibição exclusiva em salas poucas e escolhidas a dedo, e depreende-se, sobretudo, da recusa em passar no circuito comercial, não é para todos, é só para os que o merecem.
Mesmo tendo sido financiado em parte com o dinheiro de todos nós, inclusive daqueles que vão ao cinema nos centros comerciais.
domingo, novembro 21, 2010
O trabalho liberta peso
Com este horário de gente douda, a correr, nem sempre de forma metafórica, entre a Cidade Universitária e a Avenida de Berna, sem um único dia de descanso, nem sequer Sábados e menos ainda Domingos, já perdi mais peso em pouco mais de dous meses do que nos três anos anteriores. Mais, a balança disse-me esta manhã que estou a pouco mais de 2kg do mínimo absoluto dos últimos 25 anos.
domingo, outubro 24, 2010
Banhoca
Depois de ouvir alguém dizer que o Liédson tinha ido tomar banho mais cedo, a filha do meu vizinho de bancada, que devia ter uns 4 ou 5 anos (ela, não ele), perguntou ao pai se o Liédson não tinha banheira em casa.
quinta-feira, outubro 21, 2010
Semana da Turquia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
SEMANA DA
Durante a semana de 25 a 29 de Outubro 2010
terão lugar na Universidade diversas actividades
por ocasião do Dia Nacional da República da Turquia
PROGRAMA
- FÓRUM: quem são os turcos, a actualidade turca,
a adesão da Turquia à União Europeia, etc.
Anfiteatro III
25 de Outubro 2010
16h00
- ISTAMBUL: EXPOSIÇÃO DE FOTOS
Biblioteca da Faculdade de Letras
25 a 29 de Outubro 2010
- WORKSHOP DE “EBRU”
Pintura tradicional
Entrada da Faculdade de Letras
26 de Outubro 2010
- STAND TURCO
Entrada da Faculdade de Letras
26 de Outubro 2010
- CINEMA TURCO
Consultar cartaz
Sala de Vídeo da Faculdade de Letras
26 a 28 de Outubro 2010
Informações
Prof. Muhsin Mumcu
sábado, outubro 09, 2010
Da competência, outra vez
Enquanto lavrei a tese, a Biblioteca Apostólica Vaticana esteve fechada, durante anos e sem data prevista de reabertura (*). Tive, assim, de recorrer a cópias manhosas de microfilme, já que a Vaticana cobrava fotografias digitais a preço de ouro. Um dos documentos essenciais para o meu plano de tese só era acessível em fotocópias ou PDF feitos a partir desses microfilmes, e era praticamente ilegível. Comuniquei esse facto à Vaticana, e segui em frente.
Choraminguei na introdução da tese e nos capítulos relevantes a impossibilidade de editar e traduzir o dito cujo documento, já que mandar vir fotografias digitais seria mais ou menos o equivalente ao défice português (o documento tem cerca de 200 páginas). Há algumas semanas recebi um email da Vaticana a dizer que tinham feito nova cópia do manuscrito e que mo iam enviar - sem eu ter pedido nada. Ainda pensei que o meu inglês torturado os tivesse levado a pensar que era o DVD que estava ilegível, e que me iriam mandar a mesma cópia ilegível. Mas não. Ontem chegou-me um DVD com uma reprodução nova, legibilíssima. E não me cobraram um cêntimo.
Demasiado tarde, porém. A tese já foi excretada nos serviços, e, a avaliar pelo desprezo a que a historiografia actual vota este período da nossa História, não me parece que haja mais ninguém interessado em 200 páginas, mais cousa menos cousa, a tentar provar que D. João IV era um aldrabão e que Filipe IV era o legítimo rei desta choldra.
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(*) Queixamo-nos da BN, mas ao menos essa tem data de reabertura marcada.
domingo, setembro 26, 2010
A praga do embaixador
A cousa conta-se, telegraficamente, assim: depois da Restauração, e até 1669, os papas Urbano VIII, Inocêncio X, Alexandre VII e Clemente IX sempre se recusaram a reconhecer a independência de Portugal. Assim, recusavam receber oicialmente os embaixadores portugueses, e a prover os bispados de Portugal, cousa que a nós nos parece hoje de nenhuma importância, mas que na altura era vital. Em Dezembro 1655, após 15 anos de fracassos, o embaixador Sousa Coutinho consegue ser recebido a título particular pelo papa Alexandre VII, e, poucas semanas depois, deixa-lhe uma chatíssima arenga com as queixas portuguesas. O papa não lhe ligou a mínima, como é natural, mais preocupado em não desagradar aos poderosos espanhóis. Das queixinhas do embaixador português retiro este naco, com a ortografia original do manuscrito que consultei, do Arquivo Secreto Vaticano, e demonstra bem o desespero a que já se tinha chegado em Portugal, perante o católico desprezo dos papas.
Mi sono steso molto in questa materia, ma non tanto, come richiedeua la di lei necessità, e così riducendo il tutto a due sole parole, dico, Beatissimo Padre, col rispetto, che deuo al uero successor di S. Pietro, ma con quella libertà Christiana, che deuo ancora alla sua Catedra, che i mali caggionati dalle durezze passate, hanno bastato à perdere tante anime, che non sò se i due predecessori immediati di Vostra Santità hauran potuto allegare al Tribunal di Dio per scusa legitima di non hauer pasciuta quella gregge si numerosa per hauerli i Ministri del Re Cattolico sollecitati a non farlo, quando il precetto di Dio è si rigoroso al contrario, che Giesù Christo si dichiarò con suo Padre di non hauer trascurata pur una dell' anime à lui commesse: Quos dedisti mihi non perdidi ex eis quemquam. Ben sò, che nel morire ne sentirono acuti stimoli di rimorso, ma non permise Iddio, che chi haueua in uila trascurato si longamente negotio di tanta importanza lo rimediasse nel fine.
quinta-feira, setembro 16, 2010
Quid miraris?
Continuo nos sermões. Frei Francisco Escobar (1617-1679) justifica a cobardia de D. João IV durante as Alterações de Évora (1637), nas quais basicamente não mexeu uma palha para ajudar os revoltosos e fez o jogo espanhol, como obedecendo a desígnios divinos.
Bem ia já mostrando Portugal a impaciência com o governo de Rei estranho no antecipado motim da cidade de Évora, confessando que não tinha já ombros para sustentar tão grande peso: e não deixa de ser mistério, o mover-se na era de trinta e oito. Esperava Portugal na era de quarenta ver-se restituído à glória de ter pai, e rei natural, faltavam-lhe naquele tempo dous anos para chegar à era de quarenta, que muito rompesse em motins, e inquietações! Trinta e oito anos havia, que um miserável paralítico padecia na mesma casa do Remédio; vem um Anjo a mover as águas, e só pera este pobre não havia lugar naquela piscina; impaciente com a opressão de tantos males rompe em brados e suspiros: non habeo hominem! E pera que estranha tanto os males, se tão feito está a padecê‑los? Grandemente Santo Agostinho: Quid miraris, quia languebat, quia ad quadraginta duos minus annos habebat? Estava o paralítico na era de trinta e oito anos de enfermidade, faltavam-lhe dous para chegar a quarenta, esta era a causa da sua impaciência: quid miraris, etc. Na era de trinta e oito vivia Portugal sujeiro à Coroa estranha, faltava-lhe dous anos para chegar a quarenta, em que havia de lograr Rei e Pai da pátria: que muito rompesse em motins, inquietações, quid miraris?
Frei Francisco Escobar
Sermão gratulatório pelo restabelecimento da saúde de D. João IV, 1655
ed.João Francisco Marques, A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração, Quasi, Lisboa, 2007
terça-feira, setembro 14, 2010
Dos impostos
Faz hoje 368 anos que o Pe. António Vieira pronunciou o Sermão de Santo António, na igreja das Chagas, em Lisboa, a apelar à participação de todos no esforço de guerra para manter a independência do reino, restaurada ainda não havia 2 anos. Apelava concretamente a que todos participassem com os seus impostos, o que seria o tema dominante das Cortes que se reuniram no dia seguinte. É uma ideia que continua bem actual, num país onde todos tentam fugir aos impostos, sobretudo os que têm mais, e onde se instalou a prática terceiro-mundista do pagamento sem factura, sem perceber que assim não vamos a lado nenhum. Dou a palavra a Vieira.
Estes (*) são os elementos de que se compõe a república. Da maneira, pois, que aqueles três elementos naturais deixam de ser o que eram, para se converterem em uma espécie conservadora das cousas: Ex eo, quod fuit, in alteram speciem commutatur; assim estes três elementos políticos hão de deixar de ser o que são, para se reduzirem unidos a um estado que mais convenha à conservação do reino. O estado Eclesiástico deixe de ser o que é por imunidade, e anime-se a assistir com o que não deve. O estado da Nobreza deixe de ser o que é por privilégios, e alente-se a concorrer com o que não usa. O estado do Povo deixe de ser o que é por possibilidade, e esforce-se a contribuir com o que pode; e desta maneira deixando cada um de ser o que foi, alcançarão todos juntos a ser o que devem; sendo esta concorde união dos três elementos eficaz conservadora do quarto. Vos estis sal terrae.
(*) o Estado Nobreza, o Estado Eclesiástico, o Estado do Povo.
Pe. António Vieira
Sermão de Santo António (Lisboa, 14 de Setembro de 1642)
domingo, setembro 12, 2010
Pescadores de reinos

No dia 14 de Setembro de 1642, na véspera das segundas cortes após a Restauração, nas quais D. João IV ia tentar obter mais dinheiros dos impostos para financiar a guerra contra Castela, o Pe. António Vieira derrama do púlpito da igreja das Chagas, em Lisboa, um dos meus sermões preferidos, o chamado de Santo António, no qual apela aos nobres e eclesiásticos que se deixem de mariquices se decidam a contribuir também eles para o esforço de guerra, por meio do pagamento de impostos, pois de outra forma não é possível conservar o reino recentemente restaurado.
Fomos pescadores astutos, fomos pescadores venturosos; aproveitámo-nos da água envolta, lançámos as redes a tempo, e ainda que tomámos somente um peixe rei, foi o mais formoso lanço que se fez nunca, não digo nas ribeiras do Tejo, mas em quantas rodeiam as praias do Oceano. Pescou Portugal o seu Reino, pescou Portugal a sua Coroa: advirta agora Portugal, que a não pescou para comer, senão para a conservar. Foi pescador, seja sal.
Sermão de Santo António (Lisboa, 14 de Setembro de 1642)
sábado, setembro 11, 2010
Deus nosso senhor castiga

Ainda a propósito da história da mão de Cristo que se desprendeu da cruz, o primeiro número da Gazeta da Restaração, a primeira publição periódica regular portuguesa, datado de Dezembro de 1641, contra logo na primeira página um curioso caso de um céptico que não se deixava levar por histórias de fradalhada e padralhada, e a quem deusnossenhor castigou.
Num lugar da Beira se afirma que ouue hum homẽ, que ouuindo dizer numa cõuersação que na felice aclamação delRey nosso Senhor fizera o crucifixo da Sè o milagre, que a todos he notorio: disse que podia a caso a imagem do Senhor despregar o braço; & assim como acabou de dizer estas palauras cahio huma parede junto da qual estauão todos os da cõuersação, & sò a elle matou.
Gazeta em que se relatam as novas todas, que ouve nesta Corte, e que vieram de varias partes no mes de Novembro de 1641
domingo, agosto 29, 2010
O levantamento de Portugal
O caso deu-se, segundo uns, no próprio dia 1 de Dezembro de 1640, segundo outros, terá ocorrido apenas no dia da aclamação de D. João IV, a 15 de Dezembro. Seja como for, o caso deu brado na época, e aparece referido em vários textos de propaganda a favor da Restauração de Portugal. Transcrevo da Restauração de Portugal Prodigiosa, que relata os milagres e prodígios associados à Restauração. É uma obra fundamental para o entendimento desta época crucial da nossa História, bem como da temática do Quinto Império, e por isso permanece inédita e desconhecida fora dos meios académicos, tal como a generalidade das outras do mesmo período.
Transcrevo respeitando a ortografia original, excepto nos casos de manifesto erro tipográfico.
Sahindo o Arcebispo da Sè na manhaã do Sabbado com os Conegos, fidalgos, & innumerauel gente, que se ajuntou em hum momento, leuaua diante hum clerigo a Cruz Archiepiscopal, chegãdo a jũto da porta da Igreja de Sancto Antonio, lhe pediraõ algũas pessoas lãçasse a bençã, elle pondo os olhos no Crucifixo lhe pedio quizesse bendiçoar aquelle Pouo. Dizẽ algũas pessoas que então despregou o Sancto Crucifixo a mão direita que tinha pregada na Cruz.
Porém o que todos viraõ olhando pera o Senhor neste passo, foi, que a mão direita estaua despregada, & com o braço em algũa distancia da Cruz, do que dantes ninguem dera fè, sabendose, que da Sé sahiraõ pregadas ambas as mãos com tarraxas. Com esta admirauel demonstraçaõ do Senhor, conceberaõ os prezẽtes mui grande consolaçaõ em suas almas, & a tiueram por claras prendas de o Senhor os auer de defender, & perpetuar na liberdade principiada.
Nos campos de Ourique mostrou Christo Senhor nosso claramente, que o leuantamento de Portugal a Reyno era obra sua, como dissemos no capitulo quinto da primeira parte, quando escolheo o Inuictissimo Rey Dom Affonso Henriquez para Rey de Portugal, e empenhou sua diuina palaura, que nele, & seus descẽdentes estabeleceria seu Imperio, & na decima sexta geraçam attenuada tornaria a por os olhos de sua misericordia.
Nesta Cidade de Lisboa, cabeça do Reyno desprega da Cruz o mesmo Senhor em publico sua mão direita leuantando com ella a Portugal attenuado, caido, & prostrado por terra, desempenhando desta sorte a palaura, que dera a seu primeiro Rey, pois em Principe Portuguez herdeiro de seu Real sangue, de nouo vẽ seus diuinos olhos estabelecendo, & confirmando nelle o Imperio Lusitano, conforme o prometera pelo Sancto Iob, operi manuum tuarum porriges dexteram.
(...)
A este admirauel sinal da mão direita do Senhor podemos atribuir a paz, & quietaçaõ, em que tudo ficou despois de Sua Magestade acclamado Rey, & naõ auer mais sangue, nem mais morte em hũa tam subita & nunca vista mudança de hum Reyno, estando viuo o possuidor delle.
Gregório de Almeida, Restauração de Portugal Prodigiosa, Lisboa, 1643
Parte II, cap. IV, pp.272-273.

domingo, agosto 22, 2010
Made in Portugal
Isto de vir trabalhar para a esplanada tem destas cousas. A menina da mesa ao lado vomita cavalidades xenófobas e nazis há largos minutos a propósito de umas chinelas que se partiram e garante serem feitas na China. Depois pega na malfadada chinela e diz, numa antecipação vitoriosa, "querem ver? olha, made in" - e depois fecha o sorriso e diz rapidamente "Portugal" e muda de assunto.
sexta-feira, agosto 20, 2010
Uma questão de açúcar
Duas senhoras no café, esta tarde. Uma sugere à outra que peça um sumo de fruta. Ela torce o nariz, arrepanha os lábios e responde "não, filha, por causa do açúcar, tem muito açúcar". Depois desenrola os olhos ao longo da vitrine, leva o dedo porcino ao lábio e pede à menina "um bolinho daqueles, não, daqueles, sim, desses". Depois pede um café com adoçante, e enquanto afocinha no creme do bolo de chocolate aponta para o dito cujo adoçante e vai dizendo "é que eu o açúcar não posso". Parece mentira mas eu juro que é verdade.
terça-feira, agosto 17, 2010
Luz, & Calor

Agora que vai a morrer o dia em que se lembram os 300 anos da morte do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), um excerto da Luz e Calor, com imagem da capa de um exemplar que veio da biblioteca do 'meu' convento do Varatojo (Torres Vedras), onde declinei as minhas palavras de grego clássico, lá para os anos 80 do século passado, e onde, se bem me lembro, há uma tela antiga que o representa.
Lavra às vezes o lapidario hum diamante com muytas facetas miudas por cima (chamãolhe rosa): & de qualquer parte que bulís com elle está scintillãdo differentes brilhos. Tal me parece o ineffavel mysterio de Deos feyto Homem: hum diamante de valor inestimavel, que Deos amante meteo no dedo de sua Esposa a Igreja Santa; diamante tão fermoso, & claro, tão sem jaça, nem cabello, que tem dentro em si mesmo todo hum Sol de justiça: Orietur vobis Sol justitiae: & por qualquer parte que o consideremos, fere os olhos do entendimento com differentes luzes, todas manifestações da Divina, & ineffavel Caridade.Existe uma edição da Lello, de 1991, desta obra. Achei-a na Feira do Livro, mas nunca vi em nenhuma livraria.
Luz e Calor, II Parte, Op. I, Estímulos de Amor Divino: Estímulo V (p. 309 da edição de 1696)
Pe. Manuel Bernardes

Comemoram-se hoje os 300 anos da morte do Pe. Manuel Bernardes, nascido a 20 de Agosto de 1644, e falecido a 17 desse mesmo mês, em 1710. É uma das figuras maiores, um dos expoentes da Literatura Portuguesa, e por isso mesmo continua praticamente sem edições contemporâneas, tirando algumas selectas e edições nas primeiras décadas do século XX, e completamente esquecido e ignorada no ensino.
domingo, agosto 15, 2010
Das referências
Há muitas cousas insuportáveis nas obras académicas, mas poucas mais do que aquele infame hábito de, num livro de 400 ou 500 páginas, citar uma única vez uma obra de um autor, que depois passa a ser referida como "op. cit." ou "loc. cit.", o que, nos casos em que o mesmo autor tem mais do que uma obra, só pode dizer alguma cousa a quem tem memória de elefante ou anda munido de lapinhos e folha de papel volante para ir apontando os nomes das obras. Ainda agora tive recuar 12 páginas de sucessivos "loc. cit." até dar finalmente com o raio que a partisse da referência completa de um manuscrito.
Felizmente vai-se impondo o hábito mais inteligente de nomear sempre o autor, e substituir a obra pela data de publicação, o que permite identificar rapidamente com uma ida à bibliografia. Isto no caso de obras impressas, pois nos manuscritos parece que se mantém a mesma técnica sádica. Quanto a mim, e correndo o risco de ser atacado por isso na defesa, na minha tese as citações são todas referidas ou pela data, ou, no caso de manuscritos ou impressos antigos, pela referência completa. Ah, e não há cá "idem, ibidem": mesmo em notas de rodapé seguidas, a referência vem sempre completa.
Felizmente vai-se impondo o hábito mais inteligente de nomear sempre o autor, e substituir a obra pela data de publicação, o que permite identificar rapidamente com uma ida à bibliografia. Isto no caso de obras impressas, pois nos manuscritos parece que se mantém a mesma técnica sádica. Quanto a mim, e correndo o risco de ser atacado por isso na defesa, na minha tese as citações são todas referidas ou pela data, ou, no caso de manuscritos ou impressos antigos, pela referência completa. Ah, e não há cá "idem, ibidem": mesmo em notas de rodapé seguidas, a referência vem sempre completa.
sábado, agosto 14, 2010
Só mesmo as que caíram no chão
No dia 2 de Abril de 1645 o embaixador espanhol em Roma preparou uma soberba recepção ao embaixador da Igreja de Portugal (e, às escondidas, também embaixador de Portugal): à meia noite, um grupo de militares varreu a tiros e à pancada a comitiva portuguesa, repetindo igual tratamento fornecido, a 20 de Agosto de 1642, ao bispo de Lamego, embaixador de Portugal. Assim se fazia, também, a diplomacia naqueles tempos em que Portugal e Espanha estavam em guerra aberta, após o 1,º de Dezembro de 1640. E eu estou tão farto deles todos que se pudesse também pegava numa escopeta ou num arcabuz, e corria com eles todos da minha frente.
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