segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Winblows

Porque é que uma porcaria de uma pen quando se usa pela primeira vez em Linux funciona logo, mas quando se usa pela primeira vez em windows tem de ser reconhecida, instalada e às vezes até se tem de reiniciar o pc? A lenda urbana, segundo a qual o Linux é uma cousa muito complicada, não diz que devia ser ao contrário? E no entanto eu das raras vezes que, como agora, uso windows fico numa pilha de nervos, porque nada funciona à primeira, e quando funciona demora o dobro ou o triplo do tempo!

domingo, fevereiro 13, 2011

Livros cá de casa . III

Da xenofobia

O Público diz que a "Judoca portuguesa Yahima Ramirez conquista bronze". No meio do texto, explica que é de ascendência cubana. Há dias noticiava-se que "o nadador olímpico português Arseniy Lavrentyev" teve um desempenho medíocre numa qualquer prova.

Por mim tudo bem. Ao contrário dos fascistas e nazis que advogam a pureza de sangue para alguém ser português, e que portanto relincham contra o Deco, o Pepe ou o Liédson (mas não contra o Bosingwa ou o Danny, que mal falam português, e também nasceram no estrangeiro), para mim qualquer pessoa com nacionalidade portuguesa pode representar as federações desportivas nacionais. Para mim o Deco é tão português como eu. Ou então voltamos a dividir os portadores de nacionalidade portuguesa em cidadãos de primeira e cidadãos de segunda?

Acho é curioso as tiradas nazis terem como alvo exclusivamente os nacionalizados brasileiros. Porque contra os nacionalizados cubanos ou ucranianos parece não haver nada (e ainda bem, sublinhe-se). O que só parece confirmar que o problema dos racistas xenófobos de serviço é exclusivamente contra os brasileiros.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

'Sapientia Nepotica': da natureza da posse da casa e das presidenciais

O Manuel (4 anos) diz que na casa da avó manda a avó. De acordo. E que na casa da mãe e do pai manda a mãe, o que não sei se será do total agrado do meu cunhado. Concluiu dizendo que na do Né (na minha) "mandamos todos". E assim é.

A Carolina (5 anos) confidenciou-me em voz baixa que não gosta do Cavaco Silva. Na TV ia dando uma reportagem sobre as presidenciais. Lembrou que "a avó escolheu o Tó Manel". Entretanto voltou ao puzzle. Até ser interrompida por uma reportagem sobre o candidato comunista, que a locutora dizia que não tinha conseguido impedir a vitória à 1.ª volta do Cavaco. A Carolina fez um ar satisfeito, e sublinhou que aquele senhor queria impedir o Cavaco Silva. As crianças têm uma sabedoria infinita.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Zelenka - "Missa Votiva" - Kyrie

Do lobo e dos cabritinhos

O Manuel (4 anos) ficou indignado quando a Carolina (5 anos) disse que o lobo era mau porque comeu os cabritinhos. É que, lembra o Manuel, o lobo não tem quem lhe dê carninha com arroz no prato, menos ainda sopa.

Sicut erat in principio


Vinha pela rua a entornar isto nos ouvidos, e ocorreu-me que se calhar não é de todo inaceitável vir a cantar "sicut erat in princiiiiiipio". Afinal há gente que anda por aí a fazer figuras muito mais tristes. E sempre é Bach. Mas depois contive-me.

P.S.: apesar de até um miúdo de 5 anos saber que isto é a secção final do Magnificat de J. S. Bach, fica aqui a informação, não vá haver algum menor de 5 anos a andar por aqui.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Sinais de luzes

O senhor na outra faixa pôs-se a fazer furiosamente sinais de luzes, à medida que nos cruzávamos. Como sou civilizado, ignorei-o. Depois da curva, percebi a histeria do homem: uma "operação stop" da polícia. Portanto, o senhor queria apenas avisar-me de que, se acaso eu estivesse a conduzir um carro roubado, ou se estivesse a conduzir sem carta, ou se fosse um assassino em fuga, ou se tivesse no banco de trás uma criança roubada, ou se estivesse embriagado ou drogado, então deveria ter cuidado, pois a polícia estava ali. Portanto, dizia com os seus sinais de luzes o senhor, mais valia raspar-me e dar meia volta, com o meu potencial carro roubado, ou com o eventual criança raptada, ou com os hipotéticos vários gramas de álcool no sangue, ou ...

Não consigo encontrar palavras educadas para qualificar este tipo de atitude criminosa que leva cidadãos (?) a avisar potenciais criminosos de que a polícia está lá à frente. Atitude que explica muito da choldra que é este país.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

e depois ela disse

Quando tenho de me sentar ao lado de alguém no autocarro, faço sempre o possível por escolher um lugar ao lado de um homem. É que assim são muito mais reduzidas as hipóteses de passar os 40 minutos da viagem ao lado de uma gralha a ligar ou a receber chamadas telefónicas que consistem essencialmente em diálogos indigentes, em voz bem alta, para toda a gente ouvir e impedir o vizinho de ler à vontade ou até de ouvir música, diálogos do tipo "liguei só para dizer olá ... e depois ela disse que ele disse que ela disse ... e eu respondi e ele disse e eu disse". Apesar disso hoje saiu-me a fava. O tipo ao lado de quem me sentei recebeu, desde que comecei a contá-los, 8 telefonemas deste género. Pronto. Era só para contar isto.

domingo, janeiro 02, 2011

Anorexia

Há quem ache que sofro de anorexia. A prova de que não sofro é que não quis ver a mensagem de ano novo do Cavaco. Se porventura fosse anoréctico, teria visto e ouvido com avidez, para a seguir ir vomitar tudo o que tinha comido ao longo do dia.

Uma presidenta feliza e contenta a dizer adeus ao polício

A nova presidente do Brasil diz que é uma "presidenta". Pela mesma ordem de ideias, nesta fúria ignorante de pôr "a" em palavras que são invariáveis para lhes fazer o feminino, também terá de dizer "feliza", "contenta", "inteligenta", "audaza". Podemos mesmo propor que, quando se referir a mulheres, o conhecido dito passe a ser "a sorta favorece as audazas". Nada mau!

E, seguindo o mesmo raciocínio (é preciso sermos coerentes), terá de retirar o "a" para fazer o masculino de palavras invariáveis como "polícia", "guarda" ou "astronauta". Assim, Dilma (e os que vão na mesma onda) terá de dizer "o sr. polício", "o sr. guardo", "o sr. vigio" ou "o astronauto Buzz Aldrin". Porque se põe, tolamente, um "a" para fazer um feminino numa palavra invariável (ou será, a partir de agora, "invariavela"?), porque não tira o mesmo "a" para fazer o masculino de uma palavra igualmente invariável?

terça-feira, dezembro 28, 2010

Uma antena, por favor

A propósito da polémica que estalou por causa do ataque à liberdade de expressão por parte da ensitel, empresa que, depois disto, nunca verá um cêntimo meu, lembrei-me de um caso que aconteceu comigo há uns anos.

Tendo comprado um Alcatel numa loja TMN, na altura em que os telemóveis serviam para telefonar e tinham antenas externas, a dita cuja antena um belo dia deu-lhe para se descolar e cair. Dirigi-me à loja da TMN que então havia na Av. da República (Lisboa), e pedi que me pusessem uma antena nova. Dispus-me logo a pagar o arranjo, visto que imaginei que a garantia não cobrisse um acidente deste tipo. Que sim senhor, que me prantavam já uma antena nova no bicho, que esperasse só uns minutos.

Passados os prometidos minutos, voltou-me o telemóvel sem antena. A menina, penalizada, disse-me que os técnicos tinham achado "humidades" no telemóvel, e que por isso não podiam atarrachar a antena nova. Perplexo e sem entender o que tinha uma cousa que ver com a outra, protestei. Que era política da empresa, e que o próprio fabricante proibia terminantemente qualquer intervenção em telemóveis "com humidades". Vomitei a minha ira no livro de reclamações, mas não desisti.

Dirigi-me então à fábrica da Alcatel, nos arredores de Lisboa, e pedi pelamordedeus que me pespegassem a maldita antena no telemóvel. O rapaz que me atendeu não percebeu a minha ânsia, nem quis saber de "humidades". Pegou numa antena nova, e, à minha frente, lá a prantou no couso. Perguntei quanto era, respondeu que não era nada e foi à sua vida.

Resolvi fazer nova queixa da TMN, agora armado com esta inesperada ajuda da Alcatel. Fui ao Instituto do Consumidor, e expus o caso. Passadas algumas semanas, veio a resposta da TMN. Diziam que não havia prova de que na Alcatel me tivessem prantado efectivamente a antena, e que por isso partiam do princípio de que não tinha acontecido o que eu narrara. Ou seja, chamavam-me mentiroso.

Ainda pensei levar a cousa mais adiante. Mas depois lembrei-me de que, como o rapaz da Alcatel não me tinha cobrado nada, a verdade é que realmente eu não tinha provas do que dizia. Portanto amochei. Mas nunca mais comprei nada em lojas TMN. Já lá vão uns bons 10 anos.

sábado, dezembro 18, 2010

Perguntas difíceis

A Carolina (5 anos) olhou para a minha cama vazia e perguntou se eu dormia sozinho. Eu respondi que sim, e ele atacou de novo. Quis saber se eu não me sentia sozinho. Estive para responder que dava todos os dias graças aos deuses, ao levantar e ao deitar e durante o resto do dia, pela bênção que é viver sozinho, mas preferi um politicamente correcto, mesmo se mentiroso, "às vezes".

O Manuel (4 anos) perguntou se o Natal estava a chegar. Eu disse que sim. Ele quis então saber porquê. Eu respondi que era porque o tempo passa. Ele perguntou porque é que o tempo passa. Respondi que é porque o Sol se põe e se levanta todos os dias. Receei um novo "porquê", mas felizmente um pombo a voar demasiado baixo desviou-lhe a atenção.

sábado, dezembro 04, 2010

Dos futebolistas cansados

Reitero a minha perplexidade. Um jogador de futebol profissional português (só é assim em Portugal) queixa-se de cansaço e de falta de tempo de recuperação quando faz jogos 2 vezes por semana. Os jornais desportivos costumavam fazer a estatística da distância percorrida por jogo. Os jogadores que correm mais (mas só mesmo esses) fazem 9 a 10 km por jogo.

Ora, 9 a 10 km corro eu pelo menos 3 vezes por semana. Esta, por exemplo, foram cerca de 8 na Segunda; cerca de 9 na Quarta; 12 ontem; 15 hoje.  A média é entre os 9,5 e os 10 km/h. Cansaço? Bom, na meia hora seguinte.

Admito, concedo, há muitas diferenças entre um futebolista profissional e eu. Não vou escudar-me atrás disso. 

O futebolista profissional anda na casa dos 20, eu ando já com um pé nos 40. 

O futebolista profissional é profissional, vive só para aquilo, tem por obrigação contratual manter a forma. Eu sou sedentário, vou correr quando arranjo um bocadinho, e só comecei nestas vidas há uns 5 anos.

O futebolista profissional é acompanhado por especialistas, nutricionistas, é monitorizado, o esforço é todo ele doseado e prescrito. Eu vou correr com uns ténis da feira e uns calções e uma camisola das mais baratas.

O futebolista profissional tem massagistas e jacuzzis para relaxar. Eu massajo as costas só aonde chego com a minha própria mão, e é mais para coçar alguma borbulha incómoda. E jacuzzi só quando a boca do chuveiro se desenrosca sem eu dar por isso e levo com um jacto mais forte do que estava à espera.

O futebolista profissional tem uma dieta rica e energética. Eu vivo de bróculos cozidos e pescada cozida e alguma fruta e dois pãezinhos por dia, porque mais do que isso e a balança dispara.

Ainda assim estes rapazolas com metade da minha idade, com dietas energéticas, com exercício físico prescrito, com uma condição física invejável, ainda assim queixam-se de cansaço quando jogam duas vezes por semana e correm, no total, mais ou menos o mesmo que eu corri há bocadito, e já estou pronto para outra.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Das bibliocousas

Na livraria uma senhora encomenda um livro porque, diz, apesar de já o ter, não o encontra nas estantes. Já estive mais longe disso. Quero dizer: já cheguei à fase de não encontrar. Só falta chegar à de comprar outra vez os já muitos que sei que tenho mas já não sei em que estante. Por outro lado, já tenho encontrado nas minhas estantes, quando me dá para as arrumar, muita cousa de que já não me lembrava que tinha, outras que podia jurar que não tinha.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Soubesse a espanholada a choldra em que isto se tornaria e não teria sido preciso andar depois à bulha quase 30 anos

RELAÇÃO DE TUDO O QUE PASSOU NA FELICE ACLAMAÇÃO DO MUI ALTO E MUI PODEROSO REI DOM JOÃO O IV
(1641)

Sexta-feira, depois de estar prevenido tudo quanto era necessário para a defensa da vida − siguindo o parecer de D. Miguel de Almeida − se confessaram todos, e se prepararam, pedindo a muitos relegiosos orações e missas, e dispondo-se como quem havia de entrar em um conflito, em um transe e em um perigo tão atroz, tão horrível, tão estupendo e tão alheio do que até agora viram quantas repúblicas hove no Universo. À tarde deste mesmo dia foram alguns dos mais autorizados do Povo a manifestar aos fidalgos que estavam com grande zelo e vigilância prevenidos para o sábado seguinte. Alegraram-se os fidalgos vendo que na ocasião era certo que o Povo os havia de siguir.

Amanheceu o desejado dia, e além de outras muitas circunstâncias que nele houve para se presumir com sólido fundamento que foi este impulso disposto e governado pela vontade divina, se considerou grande mistério em repetir então a Igreja aquelas palavras da Epístola Ad Romanos, cap.13, quando o glorioso apóstolo S. Paulo diz que é já hora de despertarmos, porque está a nossa salvação mais perto do que presumimos:

Fratres hora est iam nos de somno surgere, nunc enim propior est nostra salus, quam cum credidimus.

Que parecia que o mesmo Deus nos estava dizendo que era já chegada aquela felice hora que ele prometera a el-rei D. Afonso Henriques. Deu-se enfim o ponto para as nove horas da menhã, e deu-se ordem a todos para que, poucos a poucos, por vários caminhos, se ajuntassem no terreiro do Paço, o que se fez com recato e boa disposição, que uns em coches, outros a cavalo, outros a pé se dividiram em troços por todo aquele espaço que há desd’ o Arco dos Pregos até o Arco do Ouro. Andava já o segredo tão público, que o dia de antes ũa criada de D. Antão de Almada mandou um negro a casa de certa senhora cujo marido estava persiguido e preso por Miguel de Vasconcelos, e despois de estar o negro no pátio veio ela a ũa veranda e com muito desenfado lhe advertiu em alta e inteligível voz que dixesse àquela senhora que se não agastasse, que amenhã havia de ir o senhor D. Antão de Almada com outros fidalgos a matar ao secretário e a soltar ao senhor seu marido. E D. António Mascarenhas, encontrando no claustro de São Francisco de Enxobregas a Miguel de Vasconcelos, passou por ele sem lhe tirar o chapéu, e perguntando-lhe alguns fidalgos e alguns religiosos do mesmo convento porque não falava ao secretário, respondeu que entendia que era espécie de treição fazer cortesia a um homem a quem ele sabia de certo que havia de tirar a vida.

Também o doutor João Pinto Ribeiro, quando esta prodigiosa menhã veio de sua casa à porta da capela a esperar que se juntassem os fidalgos, encontrou no caminho um dos amigos a quem ele havia convidado sem lhe dizer o para quê, o qual, como andava desejoso de saber este segredo, lhe rogou que lhe dixesse aonde iam, e ele lhe respondeu: «− Não é nada; imos aqui abaxo até a sala dos tudescos a tirar um rei e pôr outro, e logo nos tornamos para casa.». Mas nenhũa cousa houve de tanto assombro − em razão de andar o segredo já na praça − como haver, naquela mesma hora em que o conflito estava próximo, quem − sem saber nada do que se preparava − entrou na Secretaria e avisou a Miguel de Vasconcelos, amoestando-o que se saísse lá por aquela porta do forte que olha para o mar, e que sem demora se metesse na sua gôndola e se passasse à outra banda. Porém já neste tempo, depois de estarem unidos e resolutos, pouco importava que o segredo se não observasse com todo o rigor, porque uma vez chegado o intento àqueles termos, não podia deixar de ter efeito, quanto mais que, se era decreto de Deus, que Portugal restaurasse a perdida liberdade, que descuido, que estorvo ou que embaraço podia haver que lhe fizesse impedimento?

Neste comenos deu o relógio do Paço nove horas, e como quando o fogo de ũa mina atea na pólvora e saem num mesmo instante por várias aberturas da terra − em cópia larga, com medonho ímpeto − mil raios e mil despedaçados e abrasadores mármores, assi feros, assi terríveis e assi furiosos saíram num mesmo tempo alguns fidalgos dos coches, e logo foram em seu siguimento com a mesma deliberação os mais que, a cavalo, ou a pé, vinham para aquele efeito. Subiram todos intrépidos por ũa e outra escada do Paço, já com as armas prontas, e dispostos para ver a cara ao mais estupendo transe em que desde que hove guerras no mundo se viu o coração humano.

Felice Aclamação, ff. 13-16 (ed. Evelina Verdelho)

sexta-feira, novembro 26, 2010

mens uix sana in corpore sano

As contas batiam certo: acabar a aula e sair da FLUL às 19:40, para estar na FCSH às 20:00, para começar outra aula. Só que ao chegar ao Metro, os altifalantes vomitavam que a Linha Amarela estava interrompida. Solução? Respirar fundo e correr até à Avenida de Berna. São 19:45, mais cousa menos cousa.

Mochila com 8,4kg às costas (eu sei, demasiado peso, mas são tudo cousas essenciais), a correr pela Alameda da Universidade abaixo, Campo Grande, Entre Campos, Campo Pequeno, primeira metade da Avenida de Berna - a última metade foi feita já a passo, para não dar mau aspecto, um professor todo suado a correr à porta da faculdade.

Mas correu tudo bem. São cerca de 15 minutos, a correr, desde a Faculdade de Letras à FCSH da Universidade Nova. E quando me perguntam para que é que eu faço duas a três corridas de 10 a 15 km cada por semana, eu respondo que é também para fazer frente a circunstâncias como estas.