terça-feira, março 29, 2011

Livros cá de casa . XII


Gostava de ter tempo para retomar os estudos de Árabe, e sobretudo de me voltar a dedicar à literatura árabe medieval hispânica.

quinta-feira, março 17, 2011

Doping barroco

A ideia hoje era correr só um bocadinho, para regressar ao trabalho mais depressa. Só que a passadeira tem televisão, e no Mezzo estava a dar a a Missa em Si Menor de J.S. Bach. Assim, e como é mais do que óbvio, só parei a corrida quando o coro e a orquestra acabaram de entornar o Dona nobis pacem. Ou seja, em vez de uma corridinha rapída, de 4 ou 5km, foram quase 11km. Mas também, que graça tem correr só 4 ou 5km?

quarta-feira, março 16, 2011

Livros cá de casa . X


Comprado num alfarrabista de Lisboa. A edição não tem data, apenas indica ser a 4.ª. A informação contraria o que diz o catálogo da Biblioteca Nacional, segundo o qual a 4.ª edição seria dos anos 80. Não é o caso desta, claramente anterior. Pela ortografia e pelo aspecto geral, eu apontaria para os anos 40 ou, o mais tardar, 50. A primeira edição desta obra é de 1937.

domingo, março 13, 2011

Livros cá de casa . IX


Lido lá para finais dos anos 80, enrolado debaixo dos cobertores. A edição é de 1952, e a folha de rosto diz que:

Esta edição de QUO VADIS 
contém o texto integral de 
HENRYK SIENKIEWICZ 
e assinalou a estreia em Portugal, no ano 
de 1952, do filme da M. G. M. 
Colossal QUO VADIS
As ilustrações que acompanham esta edição 
foram extraídas do filme
por amável deferência da M. G. M.

sábado, março 12, 2011

Livros cá de casa . VIII


Achado num alfarrabista de Lisboa, lá pelos anos 90. Nunca percebi porque é que o autor não traduziu o Livro IV. Assim como assim era só mais um...

A edição é bilingue. O tradutor é Ruy Mayer, que também autografou este exemplar.

terça-feira, março 08, 2011

Azóia na Líbia, az-Zâwiya em Portugal

Muito falada nos últimos dias pelas piores razões, a cidade líbia de az-Zâwiya (الزاوية) tem precisamente o mesmo nome que as povoações portuguesas chamadas Azóia, cujo nome vem de az-Zâwiya, e de que a mais conhecida é Santa Iria da Azóia. A palavra significa "recanto", ou "oratório", dependendo dos contextos.

Por alguma razão obscura que não consigo descortinar, a imprensa portuguesa chama à cidade líbia "Zâwiya", roubando-lhe o artigo, que faz parte integrante do nome.

للأصدقائي العرب: في البرتغال مدن كثيرة التي أسماؤها الزاوية

domingo, março 06, 2011

Vitórias Sportinguistas, vitórias contra a xenofobia

No dia em que a equipa do futebol do Sporting voltou a vencer ao fim de muito tempo, mais dois grandes resultados sportinguistas, no atletismo: Naide Gomes e Obikwelu (sobre estes dois nacionalizados ninguém se queixa - e ainda bem - de representarem Portugal: tivessem eles nascido no Brasil, não faltariam os salazarengos anti-brasileiros do costume).

quinta-feira, março 03, 2011

A carroça e o Ferrari (volto à carga)

Resolvidos os problemas do portátil novo, configurei-o à minha medida. Instalei Linux (Ubuntu 10.10) ao lado do Windows 7, que vem de raiz. Não resisti a fazer mais uma corrida entre os dois sistemas, a ver se o Windows melhorou os anteriores e vergonhosos resultados. Ingenuidade a minha.

Os testes foram feitos com o computador a funcionar com a bateria.

A primeira corrida é a mais simples: quanto demora cada um a iniciar? Vitória esperada e retumbante do Linux, que demora apenas 38 segundos a ficar operacional, incluindo a introdução da password.
O Windows 7 demora, com a introdução da mesma password, quase o dobro do tempo: 68 segundos.

A segunda corrida consiste na abertura do Firefox (mesma versão em ambos os sistemas) pela primeira vez. Nova goleada: o Windows 7 precisa de 35 segundos para abrir; a partir daí demora 4.
O Linux demora apenas 5 segundos para abrir pela primeira vez - ou seja, 7 vezes menos tempo. A partir daí demora apenas 2 segundos - metade do equivalente em Windows 7.

A terceira corrida consiste na abertura do  processador de texto do OpenOffice (mesma versão em ambos os sistemas). O Windows 7 precisa de 18 segundos para o abrir pela primeira vez. A segunda vez precisa de 3 segundos.
Já o Linux demora 11 segundos para abrir pela primeira vez, e 3 nas subsequentes. Resultado mais equilibrado, ainda assim vantagem para o Linux.

A quarta corrida consiste no fecho do sistema. O Windows 7 precisa de uns inacreditáveis 27 segundos. O Linux faz o mesmo em 5 segundos.

Veredicto final: vitória retumbante, esmagadora do Linux, que faz o mesmo incomparavelmente mais depressa. E sem crash nem vírus. Ah, e é gratuito.

terça-feira, março 01, 2011

Linux vs. Windows (volto à carga)

Eu sou do tempo em que se dizia que o Linux era muito complicado, que era um problema com a instalação de hardware, e outras cousas do tipo, algumas das quais eram verdade há 15-20 anos. Como deixei de usar windows regularmente há uns 15 anos, fui ficando desactualizado, no que a esse sistema operativo PAGO diz respeito. Sempre que o tenho de usar, no entanto, fico com uma pilha de nervos para o resto da semana.

Nada disto é novo, toda a gente que já usou os dois sistemas sabe que o windows está para Linux como uma carroça para um ferrari.

Hoje comprei um netbook com Windows 7 instalado (queria ver se era só no aspecto que era uma cópia descarada do Linux). Queria também ver se a lentidão que verificava nos computadores com Windows 7 que conhecia era mesmo sistémica. Assim que liguei, crash. Nova tentativa. Crash. Outra. Crash. Mais outra. Crash. Às vezes nem liga. Fica ali de ecran negro e nada. Ao fim de algumas horas de tentativas infrutíferas (comprado às 13:00, primeira vez que consegui abrir sem crash foi há pouco) lá consegui. Mas demora vários minutos até ligar mesmo e ficar operacional, como de resto já tinha observado em outros computadores com este Windows 7\. Espetei-lhe uma pen. Não reconhece. Tenta instalar não sei o quê. Falha. O mesmo que já tinha verificado em vários outros computadores com windows: mesmo quando acabam por reconhecer, primeiro têm de instslar cousas estranhas. Com Linux é só prantar a pen e já está.

Para mim chega. Meu bom velho Linux, fiável, sem crash, sem vírus, rápido, eficaz!

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Da elocução

Já tinha acontecido há uns anos, e até já contei algumas vezes. Na altura estava na praia a ler um volume de contos de Dostoiévski (tinha muito mais graça se fosse o "Crime e Castigo", mas não era), e umas miúdas que teriam uns 4 ou 5 anos interromperam a brincadeira e vieram pedir-me que lhes lesse "essa história". Embasbaquei uns segundos, mas lá me decidi, e pus-me a ler Dostoiévski às miúdas. Ao fim de menos de um minuto já elas voltavam à brincadeira, e eu calei-me, para prosseguir a "minha" leitura. Elas, no entanto, voltaram-se ao mesmo tempo, e berraram "continua" (ou "não pares", não me lembro bem).

Ontem não era Dostoiévski, mas a Vida de Rómulo, de Plutarco. O Manuel (4 anos), que até então estava entretido ao colo da mãe, pediu-me que lhe lesse "essa história". Eu obedeci, e durante alguns minutos lá lhe li as malfeitorias do fundador de Roma. Passado um pouco, quis ir ouvir pela enésima vez o "Pedro e o Lobo", do Prokófiev, mas às tantas, salvo erro quando o gato perseguia o passarinho, pediu-me para lhe ler de novo "a história do Rómulo".

Como nem me parece que as miúdas entendessem a prosa russa oitocentista, nem que o Manuel seja muito sensível à historiografia grega do séc. I d.C., a única moral que posso tirar daqui é que se calhar ando a perder tempo quando tento escolher com o máximo rigor os livros infantis para oferecer aos miúdos. Parece que lhes interessa sobretudo ouvir, não importa o quê.



sábado, fevereiro 19, 2011

Livros cá de casa . VII


"Codling, snakelet, iciclist! My diaper has more life to it! Who drowned you in drears, man, or are you pillale with ink?"

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Livros cá de casa . VI


Um daqueles que só podem ser lidos no original. O que se perde em uma ou oura frase menos bem entendida ganha-se na sonoridade do todo, impossível de reproduzir na tradução.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Quid suauius?

O Manuel (4 a.) e a Carolina (5 a.) discutem no carro o final de "O Pedro e o Lobo", narrado pela Eunice Muñoz e dirigido pelo Álvaro Cassuto. Dizem em coro que o avô, no fim, vai a "pensar para os seus botões". Eu pergunto o que estava ele a pensar. A resposta veio em tom, assim tipo "duhh!!!!": "estava a ver que tinha os botões desapertados!". Claro.

O traidor e o peseteiro

Dias Ferreira apresenta o Futre como "exemplo de mística sportinguista", e diz que tem o apoio do Figo. Ou seja, para o sr. Dias Ferreira a mística sportinguista consiste em trair o clube e sair em conflito para um rival, no primeiro caso, e comemorar os golos adversários contra o Sporting, como o segundo.

Livros cá de casa . V

Número 1, edição original. Comprado a custo num alfarrabista alemão do Bairro Alto, nos anos 90. Não mo queria vender, "porrrque na lôja encontrrra edições moderrrnas de melhorrr qualidade". Depois de muito implorar, aceitou vender-mo, por 200$ (1 euro, mais cousa menos cousa), porque era o preço mínimo que fazia. Vim de lá carregado de edições originais, perante o olhar comiserado do alemão, incapaz de perceber que não era bem o texto que me interessava, eu que até tinha edições "moderrrrnas" das Farpas em casa.

Livros cá de casa . IV

Recolhidos, na década de 90, em alfarrabistas de Lisboa.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Curiosidades

Há cousas curiosas. Quando o benfica, que neste século ainda só conseguiu ficar à frente do Sporting 4 vezes (já a contar com esta época), esteve dois anos seguidos sem sequer se qualificar para as provas da UEFA e andou a penar pelo 6.º lugar; quando, nos últimos anos, andou invariavelmente entre o 3.º e o 4.º lugar, sempre atrás do Sporting e do Porto, e sempre a olhar mais para baixo do que para cima, nunca se traçaram os cenários apocalípticos que agora se traçam em relação ao Sporting, que, após 4 anos seguidos a garantir o 2.º lugar, em dois deles a lutar até ao fim pelo título, de facto faz dois anos maus - mas menos maus do que os referidos do benfica. Claro que é preocupante ficar dois anos seguidos atrás do benfica, o que ainda não tinha acontecido este século. Mas não exageremos.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Monteverdi: Pur ti miro


Claudio Monteverdi, Pur ti miro
Nuria Rial, Philippe Jaroussky, Christina Pluhar
l'Arpeggiata

Das indecisões

Quando decidi passar para mp3 toda a minha discotheca, a ideia era facilitar-me a vida quando se trata de escolher a música para prantar no leitor de ditos cujos. Contudo, perante 229 pastas, verifico que não só continuo sem me conseguir lembrar de toda a música que tenho, como escolher se tornou ainda mais difícil.

Winblows

Porque é que uma porcaria de uma pen quando se usa pela primeira vez em Linux funciona logo, mas quando se usa pela primeira vez em windows tem de ser reconhecida, instalada e às vezes até se tem de reiniciar o pc? A lenda urbana, segundo a qual o Linux é uma cousa muito complicada, não diz que devia ser ao contrário? E no entanto eu das raras vezes que, como agora, uso windows fico numa pilha de nervos, porque nada funciona à primeira, e quando funciona demora o dobro ou o triplo do tempo!

domingo, fevereiro 13, 2011

Livros cá de casa . III

Da xenofobia

O Público diz que a "Judoca portuguesa Yahima Ramirez conquista bronze". No meio do texto, explica que é de ascendência cubana. Há dias noticiava-se que "o nadador olímpico português Arseniy Lavrentyev" teve um desempenho medíocre numa qualquer prova.

Por mim tudo bem. Ao contrário dos fascistas e nazis que advogam a pureza de sangue para alguém ser português, e que portanto relincham contra o Deco, o Pepe ou o Liédson (mas não contra o Bosingwa ou o Danny, que mal falam português, e também nasceram no estrangeiro), para mim qualquer pessoa com nacionalidade portuguesa pode representar as federações desportivas nacionais. Para mim o Deco é tão português como eu. Ou então voltamos a dividir os portadores de nacionalidade portuguesa em cidadãos de primeira e cidadãos de segunda?

Acho é curioso as tiradas nazis terem como alvo exclusivamente os nacionalizados brasileiros. Porque contra os nacionalizados cubanos ou ucranianos parece não haver nada (e ainda bem, sublinhe-se). O que só parece confirmar que o problema dos racistas xenófobos de serviço é exclusivamente contra os brasileiros.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

'Sapientia Nepotica': da natureza da posse da casa e das presidenciais

O Manuel (4 anos) diz que na casa da avó manda a avó. De acordo. E que na casa da mãe e do pai manda a mãe, o que não sei se será do total agrado do meu cunhado. Concluiu dizendo que na do Né (na minha) "mandamos todos". E assim é.

A Carolina (5 anos) confidenciou-me em voz baixa que não gosta do Cavaco Silva. Na TV ia dando uma reportagem sobre as presidenciais. Lembrou que "a avó escolheu o Tó Manel". Entretanto voltou ao puzzle. Até ser interrompida por uma reportagem sobre o candidato comunista, que a locutora dizia que não tinha conseguido impedir a vitória à 1.ª volta do Cavaco. A Carolina fez um ar satisfeito, e sublinhou que aquele senhor queria impedir o Cavaco Silva. As crianças têm uma sabedoria infinita.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Zelenka - "Missa Votiva" - Kyrie

Do lobo e dos cabritinhos

O Manuel (4 anos) ficou indignado quando a Carolina (5 anos) disse que o lobo era mau porque comeu os cabritinhos. É que, lembra o Manuel, o lobo não tem quem lhe dê carninha com arroz no prato, menos ainda sopa.

Sicut erat in principio


Vinha pela rua a entornar isto nos ouvidos, e ocorreu-me que se calhar não é de todo inaceitável vir a cantar "sicut erat in princiiiiiipio". Afinal há gente que anda por aí a fazer figuras muito mais tristes. E sempre é Bach. Mas depois contive-me.

P.S.: apesar de até um miúdo de 5 anos saber que isto é a secção final do Magnificat de J. S. Bach, fica aqui a informação, não vá haver algum menor de 5 anos a andar por aqui.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Sinais de luzes

O senhor na outra faixa pôs-se a fazer furiosamente sinais de luzes, à medida que nos cruzávamos. Como sou civilizado, ignorei-o. Depois da curva, percebi a histeria do homem: uma "operação stop" da polícia. Portanto, o senhor queria apenas avisar-me de que, se acaso eu estivesse a conduzir um carro roubado, ou se estivesse a conduzir sem carta, ou se fosse um assassino em fuga, ou se tivesse no banco de trás uma criança roubada, ou se estivesse embriagado ou drogado, então deveria ter cuidado, pois a polícia estava ali. Portanto, dizia com os seus sinais de luzes o senhor, mais valia raspar-me e dar meia volta, com o meu potencial carro roubado, ou com o eventual criança raptada, ou com os hipotéticos vários gramas de álcool no sangue, ou ...

Não consigo encontrar palavras educadas para qualificar este tipo de atitude criminosa que leva cidadãos (?) a avisar potenciais criminosos de que a polícia está lá à frente. Atitude que explica muito da choldra que é este país.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

e depois ela disse

Quando tenho de me sentar ao lado de alguém no autocarro, faço sempre o possível por escolher um lugar ao lado de um homem. É que assim são muito mais reduzidas as hipóteses de passar os 40 minutos da viagem ao lado de uma gralha a ligar ou a receber chamadas telefónicas que consistem essencialmente em diálogos indigentes, em voz bem alta, para toda a gente ouvir e impedir o vizinho de ler à vontade ou até de ouvir música, diálogos do tipo "liguei só para dizer olá ... e depois ela disse que ele disse que ela disse ... e eu respondi e ele disse e eu disse". Apesar disso hoje saiu-me a fava. O tipo ao lado de quem me sentei recebeu, desde que comecei a contá-los, 8 telefonemas deste género. Pronto. Era só para contar isto.

domingo, janeiro 02, 2011

Anorexia

Há quem ache que sofro de anorexia. A prova de que não sofro é que não quis ver a mensagem de ano novo do Cavaco. Se porventura fosse anoréctico, teria visto e ouvido com avidez, para a seguir ir vomitar tudo o que tinha comido ao longo do dia.

Uma presidenta feliza e contenta a dizer adeus ao polício

A nova presidente do Brasil diz que é uma "presidenta". Pela mesma ordem de ideias, nesta fúria ignorante de pôr "a" em palavras que são invariáveis para lhes fazer o feminino, também terá de dizer "feliza", "contenta", "inteligenta", "audaza". Podemos mesmo propor que, quando se referir a mulheres, o conhecido dito passe a ser "a sorta favorece as audazas". Nada mau!

E, seguindo o mesmo raciocínio (é preciso sermos coerentes), terá de retirar o "a" para fazer o masculino de palavras invariáveis como "polícia", "guarda" ou "astronauta". Assim, Dilma (e os que vão na mesma onda) terá de dizer "o sr. polício", "o sr. guardo", "o sr. vigio" ou "o astronauto Buzz Aldrin". Porque se põe, tolamente, um "a" para fazer um feminino numa palavra invariável (ou será, a partir de agora, "invariavela"?), porque não tira o mesmo "a" para fazer o masculino de uma palavra igualmente invariável?

terça-feira, dezembro 28, 2010

Uma antena, por favor

A propósito da polémica que estalou por causa do ataque à liberdade de expressão por parte da ensitel, empresa que, depois disto, nunca verá um cêntimo meu, lembrei-me de um caso que aconteceu comigo há uns anos.

Tendo comprado um Alcatel numa loja TMN, na altura em que os telemóveis serviam para telefonar e tinham antenas externas, a dita cuja antena um belo dia deu-lhe para se descolar e cair. Dirigi-me à loja da TMN que então havia na Av. da República (Lisboa), e pedi que me pusessem uma antena nova. Dispus-me logo a pagar o arranjo, visto que imaginei que a garantia não cobrisse um acidente deste tipo. Que sim senhor, que me prantavam já uma antena nova no bicho, que esperasse só uns minutos.

Passados os prometidos minutos, voltou-me o telemóvel sem antena. A menina, penalizada, disse-me que os técnicos tinham achado "humidades" no telemóvel, e que por isso não podiam atarrachar a antena nova. Perplexo e sem entender o que tinha uma cousa que ver com a outra, protestei. Que era política da empresa, e que o próprio fabricante proibia terminantemente qualquer intervenção em telemóveis "com humidades". Vomitei a minha ira no livro de reclamações, mas não desisti.

Dirigi-me então à fábrica da Alcatel, nos arredores de Lisboa, e pedi pelamordedeus que me pespegassem a maldita antena no telemóvel. O rapaz que me atendeu não percebeu a minha ânsia, nem quis saber de "humidades". Pegou numa antena nova, e, à minha frente, lá a prantou no couso. Perguntei quanto era, respondeu que não era nada e foi à sua vida.

Resolvi fazer nova queixa da TMN, agora armado com esta inesperada ajuda da Alcatel. Fui ao Instituto do Consumidor, e expus o caso. Passadas algumas semanas, veio a resposta da TMN. Diziam que não havia prova de que na Alcatel me tivessem prantado efectivamente a antena, e que por isso partiam do princípio de que não tinha acontecido o que eu narrara. Ou seja, chamavam-me mentiroso.

Ainda pensei levar a cousa mais adiante. Mas depois lembrei-me de que, como o rapaz da Alcatel não me tinha cobrado nada, a verdade é que realmente eu não tinha provas do que dizia. Portanto amochei. Mas nunca mais comprei nada em lojas TMN. Já lá vão uns bons 10 anos.

sábado, dezembro 18, 2010

Perguntas difíceis

A Carolina (5 anos) olhou para a minha cama vazia e perguntou se eu dormia sozinho. Eu respondi que sim, e ele atacou de novo. Quis saber se eu não me sentia sozinho. Estive para responder que dava todos os dias graças aos deuses, ao levantar e ao deitar e durante o resto do dia, pela bênção que é viver sozinho, mas preferi um politicamente correcto, mesmo se mentiroso, "às vezes".

O Manuel (4 anos) perguntou se o Natal estava a chegar. Eu disse que sim. Ele quis então saber porquê. Eu respondi que era porque o tempo passa. Ele perguntou porque é que o tempo passa. Respondi que é porque o Sol se põe e se levanta todos os dias. Receei um novo "porquê", mas felizmente um pombo a voar demasiado baixo desviou-lhe a atenção.

sábado, dezembro 04, 2010

Dos futebolistas cansados

Reitero a minha perplexidade. Um jogador de futebol profissional português (só é assim em Portugal) queixa-se de cansaço e de falta de tempo de recuperação quando faz jogos 2 vezes por semana. Os jornais desportivos costumavam fazer a estatística da distância percorrida por jogo. Os jogadores que correm mais (mas só mesmo esses) fazem 9 a 10 km por jogo.

Ora, 9 a 10 km corro eu pelo menos 3 vezes por semana. Esta, por exemplo, foram cerca de 8 na Segunda; cerca de 9 na Quarta; 12 ontem; 15 hoje.  A média é entre os 9,5 e os 10 km/h. Cansaço? Bom, na meia hora seguinte.

Admito, concedo, há muitas diferenças entre um futebolista profissional e eu. Não vou escudar-me atrás disso. 

O futebolista profissional anda na casa dos 20, eu ando já com um pé nos 40. 

O futebolista profissional é profissional, vive só para aquilo, tem por obrigação contratual manter a forma. Eu sou sedentário, vou correr quando arranjo um bocadinho, e só comecei nestas vidas há uns 5 anos.

O futebolista profissional é acompanhado por especialistas, nutricionistas, é monitorizado, o esforço é todo ele doseado e prescrito. Eu vou correr com uns ténis da feira e uns calções e uma camisola das mais baratas.

O futebolista profissional tem massagistas e jacuzzis para relaxar. Eu massajo as costas só aonde chego com a minha própria mão, e é mais para coçar alguma borbulha incómoda. E jacuzzi só quando a boca do chuveiro se desenrosca sem eu dar por isso e levo com um jacto mais forte do que estava à espera.

O futebolista profissional tem uma dieta rica e energética. Eu vivo de bróculos cozidos e pescada cozida e alguma fruta e dois pãezinhos por dia, porque mais do que isso e a balança dispara.

Ainda assim estes rapazolas com metade da minha idade, com dietas energéticas, com exercício físico prescrito, com uma condição física invejável, ainda assim queixam-se de cansaço quando jogam duas vezes por semana e correm, no total, mais ou menos o mesmo que eu corri há bocadito, e já estou pronto para outra.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Das bibliocousas

Na livraria uma senhora encomenda um livro porque, diz, apesar de já o ter, não o encontra nas estantes. Já estive mais longe disso. Quero dizer: já cheguei à fase de não encontrar. Só falta chegar à de comprar outra vez os já muitos que sei que tenho mas já não sei em que estante. Por outro lado, já tenho encontrado nas minhas estantes, quando me dá para as arrumar, muita cousa de que já não me lembrava que tinha, outras que podia jurar que não tinha.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Soubesse a espanholada a choldra em que isto se tornaria e não teria sido preciso andar depois à bulha quase 30 anos

RELAÇÃO DE TUDO O QUE PASSOU NA FELICE ACLAMAÇÃO DO MUI ALTO E MUI PODEROSO REI DOM JOÃO O IV
(1641)

Sexta-feira, depois de estar prevenido tudo quanto era necessário para a defensa da vida − siguindo o parecer de D. Miguel de Almeida − se confessaram todos, e se prepararam, pedindo a muitos relegiosos orações e missas, e dispondo-se como quem havia de entrar em um conflito, em um transe e em um perigo tão atroz, tão horrível, tão estupendo e tão alheio do que até agora viram quantas repúblicas hove no Universo. À tarde deste mesmo dia foram alguns dos mais autorizados do Povo a manifestar aos fidalgos que estavam com grande zelo e vigilância prevenidos para o sábado seguinte. Alegraram-se os fidalgos vendo que na ocasião era certo que o Povo os havia de siguir.

Amanheceu o desejado dia, e além de outras muitas circunstâncias que nele houve para se presumir com sólido fundamento que foi este impulso disposto e governado pela vontade divina, se considerou grande mistério em repetir então a Igreja aquelas palavras da Epístola Ad Romanos, cap.13, quando o glorioso apóstolo S. Paulo diz que é já hora de despertarmos, porque está a nossa salvação mais perto do que presumimos:

Fratres hora est iam nos de somno surgere, nunc enim propior est nostra salus, quam cum credidimus.

Que parecia que o mesmo Deus nos estava dizendo que era já chegada aquela felice hora que ele prometera a el-rei D. Afonso Henriques. Deu-se enfim o ponto para as nove horas da menhã, e deu-se ordem a todos para que, poucos a poucos, por vários caminhos, se ajuntassem no terreiro do Paço, o que se fez com recato e boa disposição, que uns em coches, outros a cavalo, outros a pé se dividiram em troços por todo aquele espaço que há desd’ o Arco dos Pregos até o Arco do Ouro. Andava já o segredo tão público, que o dia de antes ũa criada de D. Antão de Almada mandou um negro a casa de certa senhora cujo marido estava persiguido e preso por Miguel de Vasconcelos, e despois de estar o negro no pátio veio ela a ũa veranda e com muito desenfado lhe advertiu em alta e inteligível voz que dixesse àquela senhora que se não agastasse, que amenhã havia de ir o senhor D. Antão de Almada com outros fidalgos a matar ao secretário e a soltar ao senhor seu marido. E D. António Mascarenhas, encontrando no claustro de São Francisco de Enxobregas a Miguel de Vasconcelos, passou por ele sem lhe tirar o chapéu, e perguntando-lhe alguns fidalgos e alguns religiosos do mesmo convento porque não falava ao secretário, respondeu que entendia que era espécie de treição fazer cortesia a um homem a quem ele sabia de certo que havia de tirar a vida.

Também o doutor João Pinto Ribeiro, quando esta prodigiosa menhã veio de sua casa à porta da capela a esperar que se juntassem os fidalgos, encontrou no caminho um dos amigos a quem ele havia convidado sem lhe dizer o para quê, o qual, como andava desejoso de saber este segredo, lhe rogou que lhe dixesse aonde iam, e ele lhe respondeu: «− Não é nada; imos aqui abaxo até a sala dos tudescos a tirar um rei e pôr outro, e logo nos tornamos para casa.». Mas nenhũa cousa houve de tanto assombro − em razão de andar o segredo já na praça − como haver, naquela mesma hora em que o conflito estava próximo, quem − sem saber nada do que se preparava − entrou na Secretaria e avisou a Miguel de Vasconcelos, amoestando-o que se saísse lá por aquela porta do forte que olha para o mar, e que sem demora se metesse na sua gôndola e se passasse à outra banda. Porém já neste tempo, depois de estarem unidos e resolutos, pouco importava que o segredo se não observasse com todo o rigor, porque uma vez chegado o intento àqueles termos, não podia deixar de ter efeito, quanto mais que, se era decreto de Deus, que Portugal restaurasse a perdida liberdade, que descuido, que estorvo ou que embaraço podia haver que lhe fizesse impedimento?

Neste comenos deu o relógio do Paço nove horas, e como quando o fogo de ũa mina atea na pólvora e saem num mesmo instante por várias aberturas da terra − em cópia larga, com medonho ímpeto − mil raios e mil despedaçados e abrasadores mármores, assi feros, assi terríveis e assi furiosos saíram num mesmo tempo alguns fidalgos dos coches, e logo foram em seu siguimento com a mesma deliberação os mais que, a cavalo, ou a pé, vinham para aquele efeito. Subiram todos intrépidos por ũa e outra escada do Paço, já com as armas prontas, e dispostos para ver a cara ao mais estupendo transe em que desde que hove guerras no mundo se viu o coração humano.

Felice Aclamação, ff. 13-16 (ed. Evelina Verdelho)

sexta-feira, novembro 26, 2010

mens uix sana in corpore sano

As contas batiam certo: acabar a aula e sair da FLUL às 19:40, para estar na FCSH às 20:00, para começar outra aula. Só que ao chegar ao Metro, os altifalantes vomitavam que a Linha Amarela estava interrompida. Solução? Respirar fundo e correr até à Avenida de Berna. São 19:45, mais cousa menos cousa.

Mochila com 8,4kg às costas (eu sei, demasiado peso, mas são tudo cousas essenciais), a correr pela Alameda da Universidade abaixo, Campo Grande, Entre Campos, Campo Pequeno, primeira metade da Avenida de Berna - a última metade foi feita já a passo, para não dar mau aspecto, um professor todo suado a correr à porta da faculdade.

Mas correu tudo bem. São cerca de 15 minutos, a correr, desde a Faculdade de Letras à FCSH da Universidade Nova. E quando me perguntam para que é que eu faço duas a três corridas de 10 a 15 km cada por semana, eu respondo que é também para fazer frente a circunstâncias como estas.

quarta-feira, novembro 24, 2010

O desassossego do pedante

 

O Filme do Desassossego não passa no circuito comercial, o que, segundo se explica na página, se justifica por não se querer que o filme passe em salas de centros comerciais - porque se pretende, diz a página oficial, dar "dignidade e carácter de acontecimento cultural" a cada exibição. Cá está a pusilanimidade, a parolice tuga no seu melhor.

Não é que me pareça mal a masturbação implícita no cerimonial descrito para cada exibição. Acho até lindamente que o filme passe em cine-teatros e que tenha em todas as exibições toda a pompa que a página descreve. Mas não vejo qualquer justificação que o impeça de passar também no circuito comercial - e se essa justificação for financeira, então que o assumam e se deixem de justificações bacocas a acusar implicitamente de bárbaros ou pelo menos de culturalmene indignos os que frequentam os cinemas nos centros comerciais.

E sou insuspeito quando tomo a defesa da passagem em circuito comercial: eu nem vou ver filmes a centros comerciais, simplesmente porque o que lá passa, com algumas excepções, não me estimula, é-me aborrecido, custa-me mesmo a entender como é que alguém pode achar graça àquilo. Nos últimos 20 anos não devo ter ido ver mais do que 5 ou 6 filmes a salas comerciais (não é exagero), e saí arrependido de quase todos. Mais ainda, acho uma falta de gosto e de civismo os ruídos e os cheiros decorrentes da mastigação e do sorver das pipocas e dos sumos. Mas daí a poder justificar com isto a não exibição deste filme, financiado pelo Estado, em salas de cinema comerciais, parece-me no mínimo uma parolice.

Este filme, depreende-se assim do que se lê na sua página oficial, depreende-se  também desta exibição exclusiva em salas poucas e escolhidas a dedo, e depreende-se, sobretudo, da recusa em passar no circuito comercial, não é para todos, é só para os que o merecem.

Mesmo tendo sido financiado em parte com o dinheiro de todos nós, inclusive daqueles que vão ao cinema nos centros comerciais.

domingo, novembro 21, 2010

O trabalho liberta peso



Com este horário de gente douda, a correr, nem sempre de forma metafórica, entre a Cidade Universitária e a Avenida de Berna, sem um único dia de descanso, nem sequer Sábados e menos ainda Domingos, já perdi mais peso em pouco mais de dous meses do que nos três anos anteriores. Mais, a balança disse-me esta manhã que estou a pouco mais de 2kg do mínimo absoluto dos últimos 25 anos.

domingo, outubro 24, 2010

Banhoca

Depois de ouvir alguém dizer que o Liédson tinha ido tomar banho mais cedo, a filha do meu vizinho de bancada, que devia ter uns 4 ou 5 anos (ela, não ele), perguntou ao pai se o Liédson não tinha banheira em casa.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Semana da Turquia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

SEMANA  DA


  Description: porlogo


Durante a semana de 25 a 29 de Outubro 2010
terão lugar na Universidade diversas actividades
por ocasião do Dia Nacional da República da Turquia



PROGRAMA


- FÓRUM:     quem são os turcos, a actualidade turca,
a adesão da Turquia à União Europeia, etc.

Anfiteatro III
25 de Outubro 2010
16h00


- ISTAMBUL: EXPOSIÇÃO DE FOTOS

Biblioteca da Faculdade de Letras
25 a 29 de Outubro 2010


- WORKSHOP DE “EBRU”
Pintura tradicional

Entrada da Faculdade de Letras
26 de Outubro 2010


- STAND TURCO

Entrada da Faculdade de Letras
26 de Outubro 2010


- CINEMA TURCO
Consultar cartaz

Sala de Vídeo da Faculdade de Letras
26 a 28 de Outubro 2010


Informações

Prof. Muhsin Mumcu

sábado, outubro 09, 2010

Da competência, outra vez

Enquanto lavrei a tese, a Biblioteca Apostólica Vaticana esteve fechada, durante anos e sem data prevista de reabertura (*). Tive, assim, de recorrer a cópias manhosas de microfilme, já que a Vaticana cobrava fotografias digitais a preço de ouro. Um dos documentos essenciais para o meu plano de tese só era acessível em fotocópias ou PDF feitos a partir desses microfilmes, e era praticamente ilegível. Comuniquei esse facto à Vaticana, e segui em frente. 

Choraminguei na introdução da tese e nos capítulos relevantes a impossibilidade de editar e traduzir o dito cujo documento, já que mandar vir fotografias digitais seria mais ou menos o equivalente ao défice português (o documento tem cerca de 200 páginas). Há algumas semanas recebi um email da Vaticana a dizer que tinham feito nova cópia do manuscrito e que mo iam enviar - sem eu ter pedido nada. Ainda pensei que o meu inglês torturado os tivesse levado a pensar que era o DVD que estava ilegível, e que me iriam mandar a mesma cópia ilegível. Mas não. Ontem chegou-me um DVD com uma reprodução nova, legibilíssima. E não me cobraram um cêntimo.

Demasiado tarde, porém. A tese já foi excretada nos serviços, e, a avaliar pelo desprezo a que a historiografia actual vota este período da nossa História, não me parece que haja mais ninguém interessado em 200 páginas, mais cousa menos cousa, a tentar provar que D. João IV era um aldrabão e que Filipe IV era o legítimo rei desta choldra.

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(*) Queixamo-nos da BN, mas ao menos essa tem data de reabertura marcada.

domingo, setembro 26, 2010

A praga do embaixador

A cousa conta-se, telegraficamente, assim: depois da Restauração, e até 1669, os papas Urbano VIII, Inocêncio X, Alexandre VII e Clemente IX sempre se recusaram a reconhecer a independência de Portugal. Assim, recusavam receber oicialmente os embaixadores portugueses, e a prover os bispados de Portugal, cousa que a nós nos parece hoje de nenhuma importância, mas que na altura era vital. Em Dezembro 1655, após 15 anos de fracassos, o embaixador Sousa Coutinho consegue ser recebido a título particular pelo papa Alexandre VII, e, poucas semanas depois, deixa-lhe uma chatíssima arenga com as queixas portuguesas. O papa não lhe ligou a mínima, como é natural, mais preocupado em não desagradar aos poderosos espanhóis. Das queixinhas do embaixador português retiro este naco, com a ortografia original do manuscrito que consultei, do Arquivo Secreto Vaticano, e demonstra bem o desespero a que já se tinha chegado em Portugal, perante o católico desprezo dos papas.


Mi sono steso molto in questa materia, ma non tanto, come richiedeua la di lei necessità, e così riducendo il tutto a due sole parole, dico, Beatissimo Padre, col rispetto, che deuo al uero successor di S. Pietro, ma con quella libertà Christiana, che deuo ancora alla sua Catedra, che i mali caggionati dalle durezze passate, hanno bastato à perdere tante anime, che non sò se i due predecessori immediati di Vostra Santità hauran potuto allegare al Tribunal di Dio per scusa legitima di non hauer pasciuta quella gregge si numerosa per hauerli i Ministri del Re Cattolico sollecitati a non farlo, quando il precetto di Dio è si rigoroso al contrario, che Giesù Christo si dichiarò con suo Padre di non hauer trascurata pur una dell' anime à lui commesse: Quos dedisti mihi non perdidi ex eis quemquam. Ben sò, che nel morire ne sentirono acuti stimoli di rimorso, ma non permise Iddio, che chi haueua in uila trascurato si longamente negotio di tanta importanza lo rimediasse nel fine.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Quid miraris?

Continuo nos sermões. Frei Francisco Escobar (1617-1679) justifica a cobardia de D. João IV durante as Alterações de Évora (1637), nas quais basicamente não mexeu uma palha para ajudar os revoltosos e fez o jogo espanhol, como obedecendo a desígnios divinos.

Bem ia já mostrando Portugal a impaciência com o governo de Rei estranho no antecipado motim da cidade de Évora, confessando que não tinha já ombros para sustentar tão grande peso: e não deixa de ser mistério, o mover-se na era de trinta e oito. Esperava Portugal na era de quarenta ver-se restituído à glória de ter pai, e rei natural, faltavam-lhe naquele tempo dous anos para chegar à era de quarenta, que muito rompesse em motins, e inquietações! Trinta e oito anos havia, que um miserável paralítico padecia na mesma casa do Remédio; vem um Anjo a mover as águas, e só pera este pobre não havia lugar naquela piscina; impaciente com a opressão de tantos males rompe em brados e suspiros: non habeo hominem! E pera que estranha tanto os males, se tão feito está a padecê‑los? Grandemente Santo Agostinho: Quid miraris, quia languebat, quia ad quadraginta duos minus annos habebat? Estava o paralítico na era de trinta e oito anos de enfermidade, faltavam-lhe dous para chegar a quarenta, esta era a causa da sua impaciência: quid miraris, etc. Na era de trinta e oito vivia Portugal sujeiro à Coroa estranha, faltava-lhe dous anos para chegar a quarenta, em que havia de lograr Rei e Pai da pátria: que muito rompesse em motins, inquietações, quid miraris?

Frei Francisco Escobar
Sermão gratulatório pelo restabelecimento da saúde de D. João IV, 1655

ed.João Francisco Marques, A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração, Quasi, Lisboa, 2007

terça-feira, setembro 14, 2010

Dos impostos

Faz hoje 368 anos que o Pe. António Vieira pronunciou o Sermão de Santo António, na igreja das Chagas, em Lisboa, a apelar à participação de todos no esforço de guerra para manter a independência do reino, restaurada ainda não havia 2 anos. Apelava concretamente a que todos participassem com os seus impostos, o que seria o tema dominante das Cortes que se reuniram no dia seguinte. É uma ideia que continua bem actual, num país onde todos tentam fugir aos impostos, sobretudo os que têm mais, e onde se instalou a prática terceiro-mundista do pagamento sem factura, sem perceber que assim não vamos a lado nenhum. Dou a palavra a Vieira.

Estes (*) são os elementos de que se compõe a república. Da maneira, pois, que aqueles três elementos naturais deixam de ser o que eram, para se converterem em uma espécie conservadora das cousas: Ex eo, quod fuit, in alteram speciem commutatur; assim estes três elementos políticos hão de deixar de ser o que são, para se reduzirem unidos a um estado que mais convenha à conservação do reino. O estado Eclesiástico deixe de ser o que é por imunidade, e anime-se a assistir com o que não deve. O estado da Nobreza deixe de ser o que é por privilégios, e alente-se a concorrer com o que não usa. O estado do Povo deixe de ser o que é por possibilidade, e esforce-se a contribuir com o que pode; e desta maneira deixando cada um de ser o que foi, alcançarão todos juntos a ser o que devem; sendo esta concorde união dos três elementos eficaz conservadora do quarto. Vos estis sal terrae.

(*) o Estado Nobreza, o Estado Eclesiástico, o Estado do Povo.

Pe. António Vieira
Sermão de Santo António (Lisboa, 14 de Setembro de 1642)

domingo, setembro 12, 2010

Pescadores de reinos


No dia 14 de Setembro de 1642, na véspera das segundas cortes após a Restauração, nas quais D. João IV ia tentar obter mais dinheiros dos impostos para financiar a guerra contra Castela, o Pe. António Vieira derrama do púlpito da igreja das Chagas, em Lisboa, um dos meus sermões preferidos, o chamado de Santo António, no qual apela aos nobres e eclesiásticos que se deixem de mariquices se decidam a contribuir também eles para o esforço de guerra, por meio do pagamento de impostos, pois de outra forma não é possível conservar o reino recentemente restaurado.

Fomos pescadores astutos, fomos pescadores venturosos; aproveitámo-nos da água envolta, lançámos as redes a tempo, e ainda que tomámos somente um peixe rei, foi o mais formoso lanço que se fez nunca, não digo nas ribeiras do Tejo, mas em quantas rodeiam as praias do Oceano. Pescou Portugal o seu Reino, pescou Portugal a sua Coroa: advirta agora Portugal, que a não pescou para comer, senão para a conservar. Foi pescador, seja sal.
Sermão de Santo António (Lisboa, 14 de Setembro de 1642)

sábado, setembro 11, 2010

Deus nosso senhor castiga


Ainda a propósito da história da mão de Cristo que se desprendeu da cruz, o primeiro número da Gazeta da Restaração, a primeira publição periódica regular portuguesa, datado de Dezembro de 1641, contra logo na primeira página um curioso caso de um céptico que não se deixava levar por histórias de fradalhada e padralhada, e a quem deusnossenhor castigou.

Num lugar da Beira se afirma que ouue hum homẽ, que ouuindo dizer numa cõuersação que na felice aclamação delRey nosso Senhor fizera o crucifixo da Sè o milagre, que a todos he notorio: disse que podia a caso a imagem do Senhor despregar o braço; & assim como acabou de dizer estas palauras cahio huma parede junto da qual estauão todos os da cõuersação, & sò a elle matou.

Gazeta em que se relatam as novas todas, que ouve nesta Corte, e que vieram de varias partes no mes de Novembro de 1641

domingo, agosto 29, 2010

O levantamento de Portugal

O caso deu-se, segundo uns, no próprio dia 1 de Dezembro de 1640, segundo outros, terá ocorrido apenas no dia da aclamação de D. João IV, a 15 de Dezembro. Seja como for, o caso deu brado na época, e aparece referido em vários textos de propaganda a favor da Restauração de Portugal. Transcrevo da Restauração de Portugal Prodigiosa, que relata os milagres e prodígios associados à Restauração. É uma obra fundamental para o entendimento desta época crucial da nossa História, bem como da temática do Quinto Império, e por isso permanece inédita e desconhecida fora dos meios académicos, tal como a generalidade das outras do mesmo período.

Transcrevo respeitando a ortografia original, excepto nos casos de manifesto erro tipográfico.


Sahindo o Arcebispo da Sè na manhaã do Sabbado com os Conegos, fidalgos, & innumerauel gente, que se ajuntou em hum momento, leuaua diante hum clerigo a Cruz Archiepiscopal, chegãdo a jũto da porta da Igreja de Sancto Antonio, lhe pediraõ algũas pessoas lãçasse a bençã, elle pondo os olhos no Crucifixo lhe pedio quizesse bendiçoar aquelle Pouo. Dizẽ algũas pessoas que então despregou o Sancto Crucifixo a mão direita que tinha pregada na Cruz.

Porém o que todos viraõ olhando pera o Senhor neste passo, foi, que a mão direita estaua despregada, & com o braço em algũa distancia da Cruz, do que dantes ninguem dera fè, sabendose, que da Sé sahiraõ pregadas ambas as mãos com tarraxas. Com esta admirauel demonstraçaõ do Senhor, conceberaõ os prezẽtes mui grande consolaçaõ em suas almas, & a tiueram por claras prendas de o Senhor os auer de defender, & perpetuar na liberdade principiada.

Nos campos de Ourique mostrou Christo Senhor nosso claramente, que o leuantamento de Portugal a Reyno era obra sua, como dissemos no capitulo quinto da primeira parte, quando escolheo o Inuictissimo Rey Dom Affonso Henriquez para Rey de Portugal, e empenhou sua diuina palaura, que nele, & seus descẽdentes estabeleceria seu Imperio, & na decima sexta geraçam attenuada tornaria a por os olhos de sua misericordia.

Nesta Cidade de Lisboa, cabeça do Reyno desprega da Cruz o mesmo Senhor em publico sua mão direita leuantando com ella a Portugal attenuado, caido, & prostrado por terra, desempenhando desta sorte a palaura, que dera a seu primeiro Rey, pois em Principe Portuguez herdeiro de seu Real sangue, de nouo vẽ seus diuinos olhos estabelecendo, & confirmando nelle o Imperio Lusitano, conforme o prometera pelo Sancto Iob, operi manuum tuarum porriges dexteram.

(...)

A este admirauel sinal da mão direita do Senhor podemos atribuir a paz, & quietaçaõ, em que tudo ficou despois de Sua Magestade acclamado Rey, & naõ auer mais sangue, nem mais morte em hũa tam subita & nunca vista mudança de hum Reyno, estando viuo o possuidor delle.


Gregório de Almeida, Restauração de Portugal Prodigiosa, Lisboa, 1643
Parte II, cap. IV, pp.272-273.


domingo, agosto 22, 2010

Made in Portugal

Isto de vir trabalhar para a esplanada tem destas cousas. A menina da mesa ao lado vomita cavalidades xenófobas e nazis há largos minutos a propósito de umas chinelas que se partiram e garante serem feitas na China. Depois pega na malfadada chinela e diz, numa antecipação vitoriosa, "querem ver? olha, made in" - e depois fecha o sorriso e diz rapidamente "Portugal" e muda de assunto.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Uma questão de açúcar

Duas senhoras no café, esta tarde. Uma sugere à outra que peça um sumo de fruta. Ela torce o nariz, arrepanha os lábios e responde "não, filha, por causa do açúcar, tem muito açúcar". Depois desenrola os olhos ao longo da vitrine, leva o dedo porcino ao lábio e pede à menina "um bolinho daqueles, não, daqueles, sim, desses". Depois pede um café com adoçante, e enquanto afocinha no creme do bolo de chocolate aponta para o dito cujo adoçante e vai dizendo "é que eu o açúcar não posso". Parece mentira mas eu juro que é verdade.

terça-feira, agosto 17, 2010

Luz, & Calor


Agora que vai a morrer o dia em que se lembram os 300 anos da morte do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), um excerto da Luz e Calor, com imagem da capa de um exemplar que veio da biblioteca do 'meu' convento do Varatojo (Torres Vedras), onde declinei as minhas palavras de grego clássico, lá para os anos 80 do século passado, e onde, se bem me lembro, há uma tela antiga que o representa.

Lavra às vezes o lapidario hum diamante com muytas facetas miudas por cima (chamãolhe rosa): & de qualquer parte que bulís com elle está scintillãdo differentes brilhos. Tal me parece o ineffavel mysterio de Deos feyto Homem: hum diamante de valor inestimavel, que Deos amante meteo no dedo de sua Esposa a Igreja Santa; diamante tão fermoso, & claro, tão sem jaça, nem cabello, que tem dentro em si mesmo todo hum Sol de justiça: Orietur vobis Sol justitiae: & por qualquer parte que o consideremos, fere os olhos do entendimento com differentes luzes, todas manifestações da Divina, & ineffavel Caridade.

Luz e Calor, II Parte, Op. I, Estímulos de Amor Divino: Estímulo V (p. 309 da edição de 1696)

Existe uma edição da Lello, de 1991, desta obra. Achei-a na Feira do Livro, mas nunca vi em nenhuma livraria.

Pe. Manuel Bernardes


Comemoram-se hoje os 300 anos da morte do Pe. Manuel Bernardes, nascido a 20 de Agosto de 1644, e falecido a 17 desse mesmo mês, em 1710. É uma das figuras maiores, um dos expoentes da Literatura Portuguesa, e por isso mesmo continua praticamente sem edições contemporâneas, tirando algumas selectas e edições nas primeiras décadas do século XX, e completamente esquecido e ignorada no ensino.

domingo, agosto 15, 2010

Das referências

Há muitas cousas insuportáveis nas obras académicas, mas poucas mais do que aquele infame hábito de, num livro de 400 ou 500 páginas, citar uma única vez uma obra de um autor, que depois passa a ser referida como "op. cit." ou "loc. cit.", o que, nos casos em que o mesmo autor tem mais do que uma obra, só pode dizer alguma cousa a quem tem memória de elefante ou anda munido de lapinhos e folha de papel volante para ir apontando os nomes das obras. Ainda agora tive recuar 12 páginas de sucessivos "loc. cit." até dar finalmente com o raio que a partisse da referência completa de um manuscrito.

Felizmente vai-se impondo o hábito mais inteligente de nomear sempre o autor, e substituir a obra pela data de publicação, o que permite identificar rapidamente com uma ida à bibliografia. Isto no caso de obras impressas, pois nos manuscritos parece que se mantém a mesma técnica sádica. Quanto a mim, e correndo o risco de ser atacado por isso na defesa, na minha tese as citações são todas referidas ou pela data, ou, no caso de manuscritos ou impressos antigos, pela referência completa. Ah, e não há cá "idem, ibidem": mesmo em notas de rodapé seguidas, a referência vem sempre completa.

sábado, agosto 14, 2010

Só mesmo as que caíram no chão

No dia 2 de Abril de 1645 o embaixador espanhol em Roma preparou uma soberba recepção ao embaixador da Igreja de Portugal (e, às escondidas, também embaixador de Portugal): à meia noite, um grupo de militares varreu a tiros e à pancada a comitiva portuguesa, repetindo igual tratamento fornecido, a 20 de Agosto de 1642, ao bispo de Lamego, embaixador de Portugal. Assim se fazia, também, a diplomacia naqueles tempos em que Portugal e Espanha estavam em guerra aberta, após o 1,º de Dezembro de 1640. E eu estou tão farto deles todos que se pudesse também pegava numa escopeta ou num arcabuz, e corria com eles todos da minha frente.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Da transfusão dos sonhos


O Manuel, que tem quási 4 anos, contou-me que montava um golfinho no mar, mas que veio uma senhora e o empurrou, e o golfinho foi-se embora, e ele chorou muito. Appressou-se a esclarecer que aquilo não tinha accontecido mesmo, que tinha sido só um sonho. Mas que mesmo assim tinha chorado. A Carolina, que se achega aos 5 anos, confirmou tudo. Talvez tenha notado algum scepticismo no meu olhar, e explicou que quando o mano está a sonhar e ela o abbraça, os sonhos delle passam para ella, e sonham os dois a mesma cousa.

Tarquinio Merula





Tarquinio Merula (1595-1665)
Interp: Jordi Savall

في ظل الكلام



(13 de Março de 1941 – 9 de Agosto de 2008)

sábado, julho 31, 2010

CSI: Bagdade

Um pescador deita as redes ao rio e em vez de peixe pesca um saco de pano. Lá dentro, uma mão. O chefe da polícia manda investigar, e aparece outro saco, agora com um pé. Procura-se saber quem é o fabricante daqueles sacos. Depois, pede-se a lista de compradores, até se chegar ao assassino, que é preso e condenado.

Não é o argumento de mais um CSI. É uma narrativa árabe medieval, retirada da edição bilingue Nouvelles policières du monde abbasside أخبار بوليسية من العصر العباسي , que recolhe pequenas histórias (verdadeiras micronarrativas) de autores do período abássida, desde al-Mas'udî (m. 956) a Ibn Arabshâh (m. 1450).


O título é, no entanto, enganador, pois na generalidade não são histórias policiais tal como as entendemos hoje, apesar do exemplo dado. São pequenas histórias que têm em comum o tema do crime, mas em poucas se desenrola verdadeiramente um argumento policial. O título é ainda mais enganador em árabe, ao recorrer a um francesismo ("bûlîsîya") em vez do radical árabe tradicional.

Apesar de tudo, é um livrinho a não perder, mais ainda quando se é estudante de árabe. O texto original está profusamente anotado e vocalizado, e no final há um apêndice gramatical e lexical. Melhor ainda, os textos são reapresentados em anexo, agora sem notas nem vocalização.

segunda-feira, julho 26, 2010

Da ignorância

Na televisão ligada na sala ouço a dobragem de um documentário do canal Odisseia dizer duas vezes que os crocodilos de Cuba comiam "gigantes preguiçosos", "entretanto extintos". Mais do que uma aflitiva ignorância na língua original do documentário, revela-se uma escandalosa, inacreditável estupidez que ultrapassa os limites do razoável. Até a Carolina, com os seus quase 5 anos, sabe que o original de certeza dizia "preguiças gigantes", animal que de facto, como qualquer chimpanzé de QI médio sabe, existiu mas que entretanto se extinguiu. Agora "gigantes preguiçosos"?! O que virá a seguir? Leões a comer ogres malcheirosos? Tigres a comer gnomos zangados? Lobos a desfazer fadas sorridentes? Mas quem é que contrata - e, pior, quem é que paga a estes gajos para fazerem traduções deste calibre?

Da competência

Mandei vir do Arquivo Secreto Vaticano cópias dos fólios finais de um documento de 1656, que achava que me tinha esquecido de pedir da última vez. Para o pedido bastou, tal como das outras vezes, um email. Hoje recebo resposta a dizer que os fólios pedidos estão em branco, e se quero na mesma. Respondo a dizer que não, que apenas se confirma que o documento está incompleto, e dei o título do dito cujo. Menos de uma hora depois, novo email, a dizer que foram verificar o códice, e que se quiser podem copiar-me o que resta do documento. Já no meu último pedido fotografaram documentos inteiros de que eu não sabia a foliação. Ou seja, deram-se ao trabalho de verem eles onde começavam e onde acabavam. Seria difícil encontrar em Portugal igual gentileza e competência. Eu pelo menos não tenho tido a mesma receptividade na BN, e na Torre do Tombo, apesar da extrema gentileza do pessoal da referência, também ainda não obtive nada de parecido.

sábado, julho 24, 2010

Da caligraphia

Desabituado a escrever à mão em caracteres latinos mais do que uma ou duas linhas esporadicamente, desde que terminei a licenciatura, em 1993 (as "pedagógicas" e o mestrado já os fiz fingindo apenas que tirava appontamentos, para não offender os professores), a minha caligraphia em caracteres latinos há muito que perdeu o "cali", que a bem dizer nunca foi evidente, e se transformou em cacographia. Assim, no início de cada anno recommendo aos alunos que frequentem aulas de paleographia em simultâneo, de modo a entenderem o que escrevo (passe o euphemismo) no quadro. A caligraphia árabe, pello contrário, merece rasgados elogios de todos os árabes que lhe passam os olhos por cima, e vai melhorando a cada dia.

Por isso, depois de escrever 16 páginas à mão, para a tese, ontem e hoje, estou com três problemas graves. Primo, um calo doloroso no cotovelo direito, de o apoiar na cadeira enquanto escrevo. Secundo, uma vaga mas persistente moinha em todas as articulações da mão e braço direitos. Tertio et praesertim, 16 páginas pintalgadas de traços a lápis, que às vezes se parecem vagamente com lettras latinas, mas que rapidamente descambam para uma linha contínua com arrebiques, ondinhas e pintinhas, que vou ter uma tremenda difficuldade em entender, quando daqui a pouco começar a passá-las para o OpenOffice (eu cá não sou rico nem pyrata, só uso programmas gratuitos).

sexta-feira, julho 23, 2010

Dies Dominicus

Ainda que admita ser falha minha, nunca entendi os argumentos para proibir que abram ao Domingo as poucas superfícies comerciais que ainda não o fazem. Não consigo entender sobretudo aqueles que dizem que é para defender o comércio tradicional (proteccionismo, portanto). Mas defender como? Alguém no seu perfeito juízo acha que quem for impedido de ir ao Jumbo ou ao Continente ao Domingo à tarde vai esperar pela Segunda de manhã para ir às compras? E o mesmo argumento não deveria impor o encerramento de todos os estabelecimentos e serviços à mesma hora (que nunca se lembrem dessa)?

Depois há os argumentos religiosos e morais, que se prendem com a ideia de que o Domingo é o dia do Senhor e que é para estar com a família. Ou seja, só o é para os trabalhadores de hipermercado, pois não vejo - FELIZMENTE - os mesmos argumentos serem utilizados para impor o encerramento de TODOS os estabelecimentos e serviços ao Domingo. Mas bastaria ser um argumento religioso a impor regras à sociedade civil, incluindo aos que, como eu, não são religiosos, bastaria isso para me opor frontalmente.

Há ainda o argumento de que se sacrificam os trabalhadores. Também aí há algo que não entendo. Partindo do princípio (não garantido) de que trabalham mais horas, não ganham mais também? E, de novo, por coerência não se devia aplicar a mesma objecção a todos os estabelecimentos e serviços abertos todos os dias?

Nada disto faz sentido para mim.

quarta-feira, julho 21, 2010

Do Serviço Nacional de Saúde

Ontem fui à consulta do otorrino, no Hospital público (não sou rico e não alimento seguradoras senão no que é obrigatório por lei). A marcação da primeira consulta já tinha sido relativamente rápida, cousa de 1 mês - pouco mais que das vezes a que tive de recorrer ao privado, na ilusão de que seria mais rápido.

A sentença do médico foi peremptória: o meu nariz por dentro tem mais curvas do que a A8, é preciso operar. Pensei que não seria necessário dizer-lhe que não me dava jeito para já, que tinha uma merda de uma tese para entregar até Outubro. Achei que como era "no público" ia para uma lista de espera de meses ou anos, sendo uma intervenção sem qualquer urgência. Ainda assim, por descargo de consciência, disse a medo que não me dava jeito que fosse antes do fim do ano.

Achei que ele se ia rir na minha cara, e dizer qualquer cousa como "qual ano, 2011, 2012?". Mas não. Abanou a cabeça e disse que então não podia marcar já, porque o mais provável é que a operação fosse para dentro de um mês ou dois. Pasmei, e lá deixámos a cousa em águas de bacalhau da Terra Nova. No fim trocámos bacalhauzada, desejou-me boa sorte para o doutoramento, e acrescentou que no caso dele nem pensava em doutoramentos, pois queria era que o deixassem trabalhar. Eu assenti vigorosamente e lá me fui.

domingo, julho 11, 2010

Ainda a carroça e o Ferrari

Missão: instalar uma Canon MP270 em Windows XP e em Linux (ubuntu), recorrendo aos drivers fornecidos pelo fabricante.

Windows: depois de alguns cliques e várias janelas de diálogo, o software diz que vai demorar 16 minutos. No fim foi coisa de 5 ou 6.

Linux: um clique, dois cliques, alguns segundos (nem 20). Já está.

sexta-feira, julho 02, 2010

As tetas da loba

«O latim é uma língua muito subtil, toda de sons e de sentidos condensados, rebelde à grosseira tendência perifrástica das nossas línguas vulgares, que têm a mania de trocar tudo em miúdos. O célebre 'dente de coelho' dos padres-mestres não passa de um atestado da sua ignorância e preguiça. Bem dizia o meu mestre de latinidade, em Liège: "O latim não está no Magnum Lexicon: é cá uma coisa do sangue". Nem parece senão que o estou a ouvir: "La Louve tend ses tétines. Prends-y ton bien".»

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal

quinta-feira, julho 01, 2010

A fada dos arrotos

Já tinha reparado que os desenhos animados andam muito escatológicos. São cada vez mais comuns aqueles em que os bonecos - mesmo os bonzinhos - se desfazem em ventosidades por cima e por baixo. Mas a cousa está mais grave do que pensava. Hoje a Carolina estava a jogar um jogo de fadas - FADAS, notai bem - no computador, que consistia em pôr as ditas fadas - fadas, pelamordedeus - a comer cerejas. E sim, a cada duas ou três cerejas as fadas - fadas, senhores!!! - arrotavam com estrondo, para gáudio dos miúdos (vede o filme até ao fim). O tempora!

quarta-feira, junho 30, 2010

As carroças e os ferrari

Em minha casa sempre, em casa da minha mãe quase sempre, a Carolina e o Manuel estão habituados a computadores com Linux. Por isso, das raras vezes em que, como hoje, dão com o computador da minha mãe ligado no Windows, não param de perguntar "porque é que demora tanto?", "porque é que o rato não mexe?", "porque é que nunca mais começa?". E eu não tenho outra resposta senão "é windows, tem paciência".

terça-feira, junho 29, 2010

Das tempestades humanas

A Restauração dera-se em 1 de Dezembro de 1640. Estamos em 1653, e o Papa Inocêncio X, tal como o seu antecessor, Urbano VIII (e como o seu sucessor, Alexandre VII...), continua firme na sua recusa em reconhecer o novo rei de Portugal. A recusa, motivada sobretudo pelo receio de represálias por parte da poderosíssima Espanha, traduz-se quer em não receber os embaixadores que D. João IV lhe envia para manifestar a sua obediência, quer sobretudo em não prover de Bispos as Sés portuguesas. É neste contexto que surgem os Balidos das Igrejas de Portugal ao Supremo Pastor Summo Pontifice Romano... (Paris, 1653), onde se explanam as teses portuguesas sobre o assunto, e se implora ao Papa a resolução do problema. O passo transcrito leva a ortografia modernizada, excepto nos casos em que o original reflecte a pronúncia da época.

9. Arribar da viagem só pela inspecção das selagens não sucede ao Piloto de experiência. Os ameaços de algũa paixão não devem atemorizar a Nau de São Pedro, a fim de que se não dirija às importantes resoluções. Pode flutuar nas maiores ondas, mas não se pode perder nas tempestades humanas.

Balidos das Igrejas de Portugal ao Supremo Pastor Summo Pontifice Romano. Pellos tres Estados do Reyno, Paris, 1653

segunda-feira, junho 28, 2010

Brabos gigantes

Chafurdando quase ao acaso nos microfilmes da BN com impressos do século XVII dei com um papel delicioso, impresso em Lisboa em 1642, e com o promissor título Cartel de Desafio, y Protestacion Cavalleresca de Don Quixote de la Mancha Cauallero de la triste figura en defension de sus Castellanos. Na primeira página, uma ilustração com dois cavaleiros a disparar um contra o outro. Infelizmente o cartão de fotocópias chegou ao fim quando faltava imprimir a última página. Mas isto promete. Para os mais distraídos, isto insere-se, naturalmente, no contexto da Guerra da Restauração.

Um cheirinho do início:

El Cauallero de la triste Figura DON QVIXOTE DE LA MANCHA, &c. Digo que como es notorio al mundo mi valor inuencible, lo sea tambien la Protestacion, y Reto, que por la presente hago, y es que despues del miserable castigo, que el Cielo ha dado a mi nacion Castellana en pena justa de su soberbia, embustes, y tirannias, reduziendola al mayor extremo de couardia, que jà mas ha encontrado Cauallero andante en la redondez de la tierra, con que vergonçosamente ha perdido su monarchia, y en particular despues de la misteriosa libertad de los Portuguezes nuestros aduersarios antigos, y increible corage, con que el Verano passado estos brabos gigantes, sin receber daño alguno, han por todas partes talado nuestros campos, quemado nuestros lugares, y muerto nuestras gentes ...

domingo, junho 27, 2010

Notas sobre o Mundial . III . Heil Lobo

O comentador desportivo Luís Freitas Lobo tem rosnado xenofobicamente contra os brasileiros naturalizados (os outros não, o problema dele, tal como o da generalidade dos tugas, é exclusivamente contra os naturalizados brasileiros, não contra os congoleses ou sãotomenses ou outros). Gostava de saber o que tem ele a dizer sobre o Klose ou o Podolsky na selecção alemã. Embora, lá está, como não são naturalizados brasileiros é natural que não se importe.

Notas sobre o Mundial . II . Senhoras do Caravaggio

A selecção da FPF (talvez a mais fraca das últimas duas décadas) desta vez, ao contrário de 2006, teve adversários a sério na fase de grupos. Mesmo assim passou com facilidade. Ao Carlos Queirós, no entanto, tem faltado a vaca leiteira da Senhora do Caravaggio de Bigode, que, com a melhor selecção de sempre calhou sempre com fases de grupos de caca, e grupos de qualificação da treta (é que ficar em segundo lugar à rasquinha, abaixo da Polónia e à frente da Finlânda, não é bem o mesmo que ficar em segundo lugar à rasquinha, abaixo da Dinamarca e à frente da Suécia).

Notas sobre o Mundial . I . Antena 2

A Antena 2 está a ficar desempoeirada. E cada vez melhor. Está cheia de gente nova e boa, abriu-se a novos géneros e até passa música electrónica. E é por isso que cada vez mais a ouço (*). Por isso não me espantei por, na Sexta de manhã (creio que aqui), se aludir ao jogo do mundial entre a selecção da FPF e a da Confederação Brasileira de Futebol, que serviu de pretexto para sugestões musicais e literárias de qualidade. É bom ver que se começam a abandonar aqueles preconceitos bacocos, absurdos, ridículos, segundo os quais futebol e cultura são incompatíveis. E é por isso que digo e repito: a Antena 2 está a ficar desempoeirada. E cada vez melhor.

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(*) Aliás, é a única rádio que ouço, apenas com excepção da Antena 1 para os relatos de futebol.

sábado, junho 19, 2010

Das lombadas


Não era dos meus autores preferidos, muito longe disso. Mas estes encheram-me as medidas, como podem testemunhar as lombadas manchadas e partidas de leituras e releituras. A Jangada viajou comigo entre Lisboa e Milão em três comboios pachorrentos e duas longas mudanças para cada lado.

Da ordinarice

O Sr. Cavaco lamenta a morte de José Saramago. Esse mesmo Sr. Cavaco, que liderava o Governo que, pela mão do inadmissível Sousa Lara, censurou por motivos religiosos o concurso do Evangelho segundo Jesus Cristo a um prémio literário europeu. É o que se chama despudor. Para não dizer falta de vergonha na cara.

quarta-feira, junho 16, 2010

Bloomsday 2010



He rested an innocent book on the edge of the desk, smiling his defiance. His private papers in the original. Ta an bad ar an tir. Taim imo shagart. Put beurla on it, littlejohn.

Quoth littlejohn Eglinton:
- I was prepared for paradoxes from what Malachi Mulligan told us but I may as well warn you that if you want to shake my belief that Shakespeare is Hamlet you have a stern task before you.

Bear with me.
Stephen withstood the bane of miscreant eyes, glinting stern under wrinkled brows. A basilisk. E quando vede l'uomo l'attosca. Messer Brunetto, I thank thee for the word.

James Joyce, Ulysses