domingo, janeiro 25, 2009

Le con c'est moi

«A trigueirinha estudou a sua lição, e o Rei ajudou-lhe a pronunciar os ditongos. Sua Majestade sabia regularmente a língua francesa e espanhola. A italiana ensinou-lha, vinte anos depois, a actriz Petronilla, a quem deu presentes que carregaram trinta cavalgaduras quando a cantora se fez na volta de Espanha, diz o Cavalheiro de Oliveira. D. António Caetano de Sousa, na História Genealógica da Casa Real, tom. VIII, pág. 4, diz que o Rei sabia também latim com perfeita inteligência. De um sujeito que lia Horácio e Cícero, dizia Bocage: "Pena é que saiba latim, pois perdeu-se um parvo grande!" D. João V, ainda com latim, não era parvo pequeno nem perdido.»


Camilo Castelo Branco, A Caveira da Mártir, Obras Completas, Vol. VII, Lello, Porto, 1987, p. 1042

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Acabar bem o dia . 04


Ouvir música aqui

Cristóbal de Morales (1500-1553), Parce mihi Domine
The Hilliard Ensemble

Ouvir música aqui

Ilustração: Francisco de Zurbarán - Imaculada Conceição

Ora sirva-se lá deste presuntinho assado


De uma coisa não podem ser acusados os Inquisidores, nos tenebrosos anos de Seiscentos em Portugal: de falta de sentido de humor. Veja-se, por exemplo, a finíssima chalaça com que Frei Manuel dos Anjos nos presenteia logo na abertura do sermão que pregou num auto de fé em Évora, em 21 de Junho de 1615, diante dos condenados a serem queimados vivos:
E vem muito a proposito neste sancto Auto da fee este thema com o Euangelho que nesta Dominga representa a sancta Madre igreja, a qual nos propoem hũa Cea parabolica, pera a qual o verdadeiro Messias CHRISTO IESV conuida esta gente Iudayca, a si antes de se fazer homem, como depois, conuidandoos (& este sera o Sermão) com mimos, & regalos sua diuina Misericordia, & a diuina sabedoria com outro prato de explicação das scripturas que mostrão como o Messias he vindo (...).

Cota da Biblioteca Nacional: R. 21793//24 P

quarta-feira, janeiro 07, 2009

من أرهابي؟ . 03


Os terroristas israelitas bombardearam uma escola da ONU cheia de refugiados, sobretudo mulheres e crianças. Pelo menos 40 mortos.

Os defensores da barbárie apressam-se a rosnar que o Hamas usa instalações civis. Ainda que use - ainda não vi provas disso, mas ainda que use: desvaloriza-se a vida de inocentes, descarta-se deliberadamente a vida de crianças, consideram-se dispensáveis as vidas de civis inocentes com o objectivo de atingir eventuais bases inimigas, de que nem se tem a certeza que lá estejam? Ataca-se uma escola, um hospital, uma mesquita, sabendo que de certeza vão morrer inocentes, crianças incluídas, sem se ter a certeza (e mesmo que se tivesse!) de que se atinjam inimigos? Ou será que para Israel são todos inimigos?

Atingir alvos civis deliberadamente tem um nome: terrorismo. E é o que Israel se tornou: um estado terrorista. E impune, violando sistematicamente os mais elementares direitos humanos, cometendo os mais atrozes crimes de guerra, desprezando e contrariando todas as decisões da ONU em relação aos territórios ocupados.

Não vejo nenhuma diferença entre o fanático terrorista que se faz explodir num autocarro matando dezenas de inocentes e o exército de um estado que massacra deliberadamente dezenas de inocentes refugiados em escolas e mesquitas.

Afinal quem é o terrorista?
من أرهابي؟

Há ainda uma coisa que Israel parece ainda não ter aprendido: estas actividades, além de terrorismo puro, de selvajaria do mais animalesmo, são contraproducentes: tal como os ataques terroristas ao Líbano em 2006, que fortaleceram o Hizbullah e o conseguiram pela primeira vez tornar popular e apoiado entre as comunidades cristãs e muçulmanos sunitas (antes dos ataques o Hizbullah era sobretudo popular entre a minoria xiita), cada ataque a Gaza, cada morto, cada ferido significa um acréscimo de apoio popular ao Hamas e mais um potencial punhado de bombistas suicidas.
Link

Manifestação contra os ataques terroristas israelitas


Recebido por mail:

No momento em que festejamos a passagem de ano com fogos de artifício na cidade de Lisboa, o povo de Gaza vive sob o fogo real da artilharia e da aviação israelita. Nos primeiros dez minutos da ofensiva morreram mais de 200 pessoas e ficaram feridas ou estropiadas mais de 600. Alegadamente, tudo isto era resposta "proporcional" aos morteiros artesanais palestinianos, que em 7 anos mataram 20 israelitas. Na verdade, o bombardeamento israelita é um novo passo na destruição do povo palestiniano: neste momento já há outras tantas centenas de mortos e milhares de feridos; prosseguem os ataques a uma população que não tem para onde fugir nem como se defender, já que a Faixa de Gaza tem vivido sob um bloqueio que priva os seus habitantes de água potável, de energia, de alimentos, de medicamentos. O cessar-fogo que os EUA, a UE e a ONU exigem aos palestinianos seria, nessas condições, a morte lenta para um povo cercado. Se alguém aqui está a defender-se, são os palestinianos de Gaza, que elegeram democraticamente o seu governo e a quem o Estado de Israel tem invadido, ocupado e roubado as terras, as propriedades e as casas. Não vamos calar-nos diante dos crimes de guerra e do abuso de força. Apelamos à participação de todos e todas nas acções que estão a ser preparadas por várias organizações em Lisboa:

5 de Janeiro a partir das 18h

no Largo de S. Domingos, junto ao memorial às vítimas da intolerância
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8 de Janeiro a partir das 18h
em frente do check-point que a embaixada israelita instalou na colonizada Rua António Enes, no 16, a S. Sebastião

Esta última iniciativa é apoiada por: Associação Abril - Bloco de Esquerda - CGTP - Colectivo Abu-Jamal - Colectivo Revista Rubra - Comité de Solidariedade com a Palestina - CPPC - Fórum pela Paz - MDM - Monthly Review - MPPM - Plataforma Guetto - Política Operária - Shift - SOS Racismo - SPGL - Tribunal do Iraque

terça-feira, janeiro 06, 2009

AVC informático


O meu PC teve um AVC! Felizmente nada de grave, que isto é Linux, e portanto tudo se resolve sem reinstalações nem formatações.

domingo, janeiro 04, 2009

Da ignorância . 01


Vomitando ódio, preconceito e ignorância, via-se há dias nas notícias um israelita dizendo que se deviam exterminar todos os árabes (1). Com medo de que o seu ódio bíblico não ficasse claro, ele enumerava: Hamas, Hizbu Allah (2), e Taliban.

Além dos evidentes ódio e preconceito, há aqui também uma profunda e assustadora ignorância, a habitual confusão entre árabes e muçulmanos. É que como qualquer pessoa informada sabe, uma coisa não é sinónimo da outra. De resto, dentro do mundo muçulmano os árabes são uma minoria, abafados pelos povos do sudeste asiático e do mundo indo-iraniano, onde se incluem os "taliban", que, como qualquer criança de 6 anos sabe, não são árabes. Ao querer exterminar os árabes, aquele israelita pretendia exterminar, portanto, uma etnia, o que tem um nome técnico: genocídio, ou, na terminologia política do pós-guerra, holocausto.

Mas detenhamo-nos um pouco mais na confusão entre árabes e muçulmanos. Como é evidente para qualquer pessoa que leia jornais e livros, ser árabe não implica ser muçulmano. O Ocidente, habituado a séculos de intolerância para as outras religiões, não consegue compreender isto, mas há na generalidade dos países muçulmanos, e portanto também nos árabes, importantes minorias religiosas, nomeadamente cristãos. No Líbano quase metade da população é cristã; no Iraque a minoria cristã, activa apoiante de Saddam, é tão importante que até tinha um dos seus como braço direito do ditador: Tariq Aziz; no Egipto a comunidade cristã é de cerca de 15%; na Síria de cerca de 15%; na Jordânia de cerca de 7%; na Palestina o número é significativo, embora não tenha à mão dados percentuais. E se incluir nesta lista os malteses, que falam uma língua arábica, que não está mais distante do árabe padrão moderno (que ninguém fala como língua materna) do que os chamados dialectos árabes que são as verdadeiras línguas maternas dos países árabes, então teríamos aqui uma comunidade árabe de esmagadora maioria cristã. Mas como a inclusão dos malteses nesta lista, embora legítima, feriria as consciências daqueles menos entendidos em linguística, ficam de fora.

E já nem vou falar das importantes comunidades judaicas marroquinas, de onde saiu, por exemplo, um dos últimos líderes do Partido Trabalhista de Israel, Amir Peretz (nome árabe, Amir), e que este israelita também pretendia exterminar (são árabes, ergo...).

Portanto, ao querer exterminar todos os árabes, aquele israelita pretendia indiscriminadamente exterminar o muçulmano de Bagdade, o cristão de Beirute, o judeu de Casablanca, já sem falar dos ateus. É, portanto, um ódio étnico. E isto tem, como já disse, um nome: genocídio.

Se achar que todos os árabes são muçulmanos é, como se vê, um erro crasso, achar que todos os muçulmanos são árabes é ainda mais estúpido, tendo em conta que a grande maioria dos muçulmanos não é etnicamente árabe. Aquele israelita enfiava no saco árabe os taliban afegãos, erro muito comum mas absurdo e revelador de um desconhecimento atroz. Os afegãos são maioritariamente indo-europeus, do grupo indo-iraniano. Isto é, falam uma língua (o pastó) que partilha com o português e a quase totalidade das línguas europeias uma origem e características comuns. Em poucas palavras, e para os leigos em linguística histórica, o pastó afegão (3) são línguas aparentadas com o português, sem qualquer relação com o árabe (4). De resto há mais semelhanças entre o português e a língua dos taliban do que entre o português e o finlandês, língua não indo-europeia.

Mas que interessa isto ao igorante israelita da reportagem e a tantos outros ignorantes? O ódio é por definição ignorante, e quem odeia daquela maneira não terá nunca capacidade para entender qualquer noção ou explicação acima do nível intelectual de um chimpanzé amestrado.


Nota final: a designação "árabe" é, como se sabe, difícil e controversa. Não é simples definir o que é um árabe. A generalidade dos estudiosos aponta para uma solução de compromisso, que define como árabe aquele que usa a língua árabe e defende a cultura árabe. O que implica outras questões, como a dos dialectos árabes e de definir o que é cultura árabe. Eu gosto de apontar para uma definição mais simples, embora menos precisa, e que considera árabe aquele que usa no dia a dia a língua árabe e seus dialectos, e nasceu ou vive num país de língua oficial árabe.

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(1) "Endlösung", chamava-lhe Hitler
(2) Esta é a transcrição correcta, a forma "Hezbollah" é uma aproximação fonética de "hizbu l-lah", que é a forma como se pronuncia.
(3) Bem como o persa iraniano ou o urdu paquistanês, entre outros.
(4) Tirando alguns empréstimos, tal como o português tem muitos.

sábado, janeiro 03, 2009

Acabar bem o dia . 04



Cristóbal de Morales (1500-1553), Emendemus in melius
Gabrieli Consort, Paul McCreesh


A missa é toda ela extraordinária, e a interpretação de Paul McCreesh é excelente. Mas este motete final continua a arrepiar-me sempre que o ouço. O CD pode ser adquirido aqui.

Ouvir música aqui

Ilustração: Pedro de Campaña

Acabar bem o dia . 03

Ouvir música aqui



Tomás Luis de Victoria (1548-1611), Taedet animam meam
Gabrieli Consort, Paul McCreesh

Ilustração: El Greco - Maria Madalena em penitência

Futebol

Árbitros 1

A Liga Sagres está à procura de meninas giras (a expressão é deles) para acompanhar os árbitros no início de cada jogo. Não percebo porque se dão a tanto trabalho. Podiam muito bem ter pedido assistência técnica ao Pinto da Costa e restante aparelho portista: é verdade que são mais peritos em meninas para acompanhar os árbitros depois dos jogos, mas, até vendo pelo ar ordinarote e seminu das meninas que aparecem na página, deve ser mais ou menos a mesma coisa.

Árbitros 2

Depois da choradeira das virgens ofendidas após terem sido alegadamente prejudicadas a sério pela primeira vez nesta época, o sócio benfiquista Pedro Henriques foi avaliado negativamente. Esta é uma lição que o Sporting deveria ter em conta: talvez compense vir para os "média" (*) choramingar e chantagear emocionalmente, como fez o galinhame, em vez de amochar de bico calado os sucessivos e bem mais escandalosos roubos, jornada após jornada.


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(*) é uma palavra latina no plural, não inglesa, e portanto não faz qualquer sentido ser pronunciada à inglesa, mas à latina: "média".

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Começar bem o dia . 06


Hildegardis Bingensis (1098 - 1179), O Euchari
Gothic Voices, Emma Kirkby
Christopher Page

Música aqui.

Prefiro as interpretações da Sequentia ou do Organum, mas esta é também muitíssimo boa.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Começar bem o dia . 05 . Começar bem o ano


Martín y Coll (c. 1660-1734), Diferencias sobre las folías
Hespèrion XXI, Jordi Savall


P.S.: a Ariana Savall está igual à mãe!

Cacofonias


Se um dia me dissessem que um "cover" das Doce seria muito pior do que o original, eu diria que tal seria impossível. Até ouvir a lamentável versão do "Bem bom" pelo Rui Reininho.

Acabar bem o dia . 02 . Começar bem o ano


Jordi Savall e Hespèrion XXI, variações sobre uma "folia" quatrocentista

terça-feira, dezembro 30, 2008

Começar bem o dia . 04

Pergolesi (1710-1736), Stabat Mater (1ª secção)
Andreas Scholl, Barbara Bonney
Les Talents Lyriques, Christophe Rousset



Música aqui.

Ilustração: Franz Christoph Janneck.

Hosanna in excelsis

O mesmo Manuel (2 anos) que me massacra com sessões contínuas de Avô Cantigas e coisas do género, ontem abriu um berreiro no carro quando tive a peregrina ideia de desligar o rádio onde tocava o "Hosanna" da Missa em Si Menor de Bach. Perante a choradeira pontuada de "liga, liga", acabei por ligar de novo o rádio, e ele lá se acalmou e silenciou. Como o Manuel não é mais inteligente nem culto do que a média das crianças de 2 anos, isto demonstra de novo que a exposição a música de qualidade cria apreciadores. E quem fala de música pode falar de literatura e de televisão, contrariando o sempre duvidoso argumento de que as TV generalistas passam merda (não posso fugir à pçalavra) porque é disso que as pessoas gostam.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Então porque é que não votaram contra?

Ouvida a comunicação do Presidente da República sobre o já insuportável Estatuto dos Açores, o PSD, pela boca do seu líder parlamentar, apressa-se a dar razão ao sr. Cavaco, lamentando que o PS tenha forçado este conflito. A isto chama-se hipocrisia e desonestidade. É que o PSD, como se sabe, votou favoravelmente o dito estatuto já depois de o sr. Cavaco o ter vetado pela primeira vez, e absteve-se agora, depois do segundo veto.

Se o PSD estava tão preocupado com o conflito e se achava (como disse Paulo Rangel) o Estatuto tão incorrecto que vai pedir a sua fiscalização sucessiva, então porque é que o votou duas vezes, ao lado do PS (e de todos os outros partidos), e agora se limitou a abster-se? Hipocrisia, desonestidade, eu diria mesmo ordinarice. E interesses partidários, como bem disse o sr. Cavaco na sua comunicação: o PSD nacional refém do PSD dos Açores.

Quanto ao Presidente, há uma frase que me fica: é quando diz que na actual conjuntura de crise não havia necessidade deste conflito. É verdade, não lembra a ninguém fazer uma birra destas, com direito a comunicação ao país, na actual conjuntura de crise.

Começar bem o dia . 03


J. S. Bach (1685 - 1750), Sonata para viola da gamba e cravo BWV 1027
(2º movimento)

Sonata completa (e mais algumas coisas) aqui.

Começar bem o dia . 02


Francisco Guerrero (1528 - 1599), Ave Virgo Sanctissima

A versão do Jordi Savall é, para mim, imbatível, mas esta é também muito boa.

domingo, dezembro 28, 2008

Da ecologia

Eu separo o lixo em casa, como qualquer pessoa responsável e civilizada que se preze. Mas os responsáveis pela colocação dos ecopontos em Torres Vedras não ajudam nada este meu civismo. Os "moloc" espalhados pela cidade há vários anos insistem em dificultar ao máximo a vida a quem em casa se dá ao trabalho de separar civilizadamente o lixo. Se com os "amarelos" não há problema, pois têm uma abertura normal que permite o despejo de forma eficiente e rápida, já com os "azuis" e "verdes" a coisa não é tão simples.

O moloc "azul", destinado aos papéis, desafia a paciência, já sem falar da destreza, de qualquer cidadão responsável. Num exercício de puro sadismo, os que o conceberam decidiram tapar a abertura, deixando apenas uma fresta, o que obriga o cidadão educado a perder algum do seu tempo retirando quase um a um os papéis que civilizadamente separou em casa, depositando-os com dificuldade na estreita ranhura. No caso do moloc perto do meu prédio o trabalho é ainda mais complicado pela inclinação do terreno, que obriga uma mão a segurar na tampa, enquanto a outra retira dificultosamente, um a um os papéis do saco que tem de ser espalmado entre a barriga e o moloc, pois não tive a fortuna de nascer com uma terceira mão que o segurasse, enquanto as outras duas laboram na ecológica tarefa da reciclagem. Há dias formava-se até uma fila de 3 pessoas esperando, ecológica e pacientemente, que um vizinho esvaziasse a custo o saco de papéis, uma mão a segurar a tampa, a outra a depositar a papelada, a barriga a segurar o saco, enquanto uma chuva de papéis caía do saco para o chão, perante o desespero do homem, que ainda não tem treino para os ir apanhando com um pé e repondo no saco com o outro. Lá chegaremos. Ao fim de alguns longos minutos chegou a minha reciclanda vez, e eu juro que já estou a ganhar calo na barriga de tanto a usar para segurar o saco.

O moloc "verde" destina-se aos vidros. Muito bem. O problema é que mesma mente de crueldade retorcida que concebeu o moloc supra descrito também trabalhou na concepção deste, e com inusitados requintes de malvadez: só é possível introduzir os vidros por uma mínima abertura circular, onde a custo cabe um punho fechado. Portanto, ao cidadão responsável que quiser lá prantar um vidro de uma moldura partida, um vidro de uma janela, eu sei lá, um garrafão mais largo, a esse cidadão reciclado só lhe restam duas alternativas: voltar a partir os ditos vidros em pedaços pequeninos e depois, arriscando a sua integridade física, com uma mão segurar a tampa do malfadado moloc, com a outra retirar e colocar um a um os pedaços de vidro, e com a barriga pressionar levemente o saco, arriscando ainda assim ser esventrado em nome da ecologia; ou então colocar a sua integridade física acima da nobre tarefa recicladora, mandar a ecologia às malvas, e entornar no moloc "preto" todos os vidros que não caibam no pequeno orifício do moloc "verde" sem terem de ser manuseados. Eu, como sou responsável, opto por uma terceira via: vou acumulando em casa vidros, até alguma alma caridosa decidir repor a abertura original no moloc "verde".