quinta-feira, setembro 17, 2009

Porém?!

São muitos os motivos que me levam a recusar-me a ler obras inglesas, francesas ou espanholas em tradução. O primeiro de todos é o da fruição estética; o que perco na inteligibilidade, ganho no contacto com a sonoridade original, a escolha das palavras, a organização do discurso. No fim de contas, ganho mais do que perco. O outro grande motivo é o económico: as traduções portuguesas têm preços obscenos, por vezes o triplo, às vezes o quádruplo do original - e não, não se trata de "pagar o tradutor": mesmo as traduções inglesas de autores de outras línguas são geralmente pelo menos metade do preço das portuguesas.

Vejamos um exemplo. Comprei há algum tempo tradução da Moby Dick, da Relógio d'Água, por recear o inglês um pouco retorcido do original. Ainda assim, arrisquei lê-la na edição inglesa da Penguin Classics. Apesar da dificuldade, não me arrependi. Mas como sou muito curioso, decidi ir ver como resolviam os tradutores da Relógio d'Água algumas situações. Por exemplo, a peculiar linguagem arcaizante dos quakers. Por exemplo, no capítulo 18:

«"Young man," said Bildad sternly, "thou art skylarking with me - explain thyself, thou young Hittite. What church dost thee mean? answer me."»
Achei sempre, antes de verificar o português, que a única opção aceitável era usar a 2.ª pessoa do plural, desrespeitando a gramática do inglês, mas conservando o sabor arcaico. Qualquer outra opção apagaria por completo a intencionalidade do original. Mas o que a mim parecia lógico, aos tradutores da Relógio d'Água pareceu retorcido, e, passando uma esponja sobre o original, verteram desta maneira no mínimo sensaborona:

« - Rapaz - observou Bildad severamente - , estás a divertir-te à minha custa. Explica-te porém, hitita. A que igreja te referes, responde.»

E se ignorar a preciosa musicalidade do texto é já grave (como entenderá o leitor a alusão explícita do narrador à peculiaridade da fala quaker, se na sua tradução não há qualquer peculiaridade?), que dizer daquele "porém" ali metido a martelo? Os tradutores claramente tomaram o pronome pessoal thou pela concessiva though. Lamentável.

Estranha, finalmente, também é a opção de representar o sinal de Queequeg (que dá o nome ao capítulo) não por uma forma redonda, como diz explicitamente o texto (e representa a edição da Penguin), mas por uma cruz. Depois há pormenores menos significativos, como a omissão da versão hebraica do nome "baleia", no início, ou a opção por não numerar os capítulos. Ainda assim, uma tradução muito superior à inenarrável e inapresentável versão publicada numa colecção do Público há uns anos, que entre gralhas e erros omitia todo o capítulo introdutório.

Por fim, o motivo financeiro. A minha edição da Penguin custa, na Amazon, 11,20$, o que dá pouco mais de 7€. A tradução da Relógio d'Água custa, na FNAC, 24€. Mais do triplo.

E não, não se pode justificar com o pagamento ao tradutor. Vejamos outro exemplo. O fabuloso "O meu nome é Vermelho", do Pamuk, custa na tradução (indirecta) da Presença, 22,50€ (via Wook). A tradução inglesa, directa, por onde o li custa, na Amazon.co.uk, 4,11£, ou seja cerca de 4,50€ - cerca de 1/5 da tradução portuguesa, e com a vantagem de ser feita sobre o original. Também o tradutor da edição inglesa terá certamente recebido pagamento.

É por estas e outras que continuarei a ler em inglês, mesmo correndo o risco de não entender algumas palavras. Antes isso do que apanhar com algum "porém" inadvertido.

sábado, setembro 12, 2009

Um pouco de sabedoria islâmica

عن أبي هُريرة: أن رجلا قال للنبي صلى الله عليه وسلم أوصني، قال:
لا تَغْضَبْ
فردد مرار، قال:
لا تَغْضَبْ

De Abû Hurayra. Disse um homem ao Profeta (que Deus o abençoe e lhe paz) que o aconselhasse. [O Profeta] disse:
- não te irrites!
E ele, de novo:
- não te irrites!

terça-feira, setembro 08, 2009

Política de verdade . 1

Asfixia democrática . 1

Linux r0x

Quando me dizem que Linux é muito difícil, eu tenho sempre muita vontade de rir, porque não só se instala mais facilmente do que o Windows como é muito mais intuitivo e eficiente. De outra maneira seria impossível um analfabeto informático como eu usá-lo vai para mais de 10 anos. Agora a minha mãe, já nos 60 e tais, também se converteu. Dei-lhe o meu velho portátil, que tem Linux e Windows, para substituir o dela, relíquia só com Linux, que lhe passei para a mão há alguns meses, depois de o dela pifar ("nunca me vou habituar a isto do Linux"). Perguntei-lhe se queria que configurasse este novo portátil para entrar automaticamente no Windows. Respondeu que não, que estava afeiçoada e habituada ao Linux, que lhe prantasse mas é o Gnome à maneira (um dos muitos ambientes gráficos do Linux), e mainada.

domingo, setembro 06, 2009

Coligação de Direita Unitária


Quando no debate de ontem Jerónimo de Sousa hesitou e acabou por não responder cabalmente à pergunta "prefere que ganhe o PS ou o PSD", voltou a confirmar uma ideia que é óbvia: CDU (e BE) estão mais interessados em derrotar o seu inimigo principal, o PS, do que a direita. Ao recusarem-se ambos a acordos pós-eleitorais, estão ainda a dizer claramente que não querem ser governo. Deviam, pois, deixar de ter autoridade moral para dizer que o PS "tem políticas de direita": quando se lhes põe a hipótese de participarem num governo de esquerda com o PS, recusam. O que não admira: o seu objectivo primeiro é, e será sempre, derrotar o PS. E só depois derrotar a direita.

Ainda e ssempre o accordo ortographico

Na Pública da semana passada, Simone de Oliveira diz que não concorda com o acordo ortográfico, e que vai continuar a *falar* como sempre falou. O que é como se alguém dissesse que não gosta de couves de bruxelas, pois prefere Beethoven.

Se se tivesse dado ao trabalho de se informar um bocadinho, a Simone saberia que é precisamente o inverso: o novo acordo procura aproximar mais a escrita da fala, eliminando letras que só servem para enfeitar. E não me venham com a etimologia, que se assim fosse então teríamos de escrever "instrucção", já sem falar de consoantes dobradas, "y" e quejandos: o "c" de "acção" faz tanta falta como o "p" de "esculptura". E não, não, não abre vogal nenhuma, não só porque isso seria um absurdo, do ponto de vista da nossa tradição ortográfica, mas sobretudo porque o que não falta na nossa escrita são pretónicas abertas sem necessidade de penduricalhos obsoletos, como "inflação", "corar", "pregador", "pegada", "colação", etc. - um enorme etc. Por outro lado, não são poucas as palavras com penduricalho que não só não se pronuncia, como não abre vogal nenhuma, como "actuar" e "actriz", só para mencionar duas palavras de utilização frequente. E não, não há nenhuma incongruência na alteração de radical de palavras da mesma família, como já ouvi argumentar, a propósito do par "Egito"/"Egípcio": já acontece em muitas palavras, como o par "esculpir" / "escultura" (que já se escreveu "esculptura", e ninguém morreu por cair o "p").

E não se pense que sou contra a conservação de vestígios etimológicos na escrita: pelo contrário, nem que seja pela minha formação, sou um adepto incondicional da escrita etimológica. O que acho é que das duas uma: ou se opta por uma escrita etimológica, à maneira francesa ou grega, ou se avança para uma escrita fonética, à maneira italiana. Este nem carne nem peixe que é a nossa ortografia é que não.

A afirmação da cantante Simone revela, portanto, que, salvo raras e honrosas exceções, os ataques ao acordo ortográfico são geralmente desprovidos de qualquer sentido, pois misturam duas coisas que pouco têm que ver: a língua, com a sua gramática, e a escrita, que não passa de uma convenção extralinguística, mais política do que outra coisa.

A oposição ao acordo, com notáveis e poucas exceções, faz-se valer mais da emoção do que da razão: é-se contra o acordo porque sim, porque não se gosta. Mesmo quando se trata de pessoas tão cultas e dotadas de inteligência superior, como o Eduardo Lourenço, que afirma sem corar que vai continuar a escrever como foi alfabetizado. O que quer dizer que, tendo em conta a sua idade e a altura em que foi alfabetizado, continuará a escrever "êle", "flôr", "mãi", "quasi", e outras coisas do mesmo género.

N.B.: texto escrito de acordo com o acordo, tendo sido necessário mudar apenas uma palavra.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Um OVNI na Restauração


«Con vna notable obseruacion Astrologica se puede tambien confirmar la Corona deste nuebo Rey, interpretandola en su fauor haciendo juizio del globo de fuego resplandeciente con vna larga cola, o lança, que el año de 1631. se leuantò de la parte Occidental del mar Oceano, y corriẽdo sobre la tierra el Sabado seis de Nouiẽbre quasi al anochecer parò sobre la corona de vna imagen de piedra de elRey Don Alfonso Henriquez, que los religiosos de Alcobaça auiam colocado en vn nicho por memoria de auer sido fundador, y dotador de aquel Real Combento. Y aunque el Doctor Frai Antonio Blandon discursò con acertado juizio sobre este prodigio, fue acomodãdole a su intẽto, deuiendo entenderse, & interpretarse de la aclamacion delRey Don Iuan acreditada con milagros, y prodigios, que la confirman.

Es el Cometa en la diffinicion de Aristoteles (a que siguen todos los modernos) vna junta, o congregacion de exhalaciones viscosas leuantadas de la tierra por fuerça de las estrellas asta la suprema region del aire, adonde se inflaman, y encienden; y a esta inflamacion llaman Cometa. Y aunque a este globo com cola de fuego, no se pueda aplicar nombre semejante, porque no se leuantò asta la media, ni suprema region del aire, no se puede dudar de que engẽdrado de las mismas exhalaciones, q́ los demas Cometas acabãdo cõ tãta velocidad por falta de materia. Y resueluẽ todos los Astrologos, q́ para ser buena la significacion de semejantes Cometas, ande parecer muy resplandecientes, y de la parte meridional, como esta grande exhalacion.»

El principe encubierto, manifestado en quatro discursos politicos, exclamados al Rey Don Phelippe IIII. de Castilla... escrivelos Lucindo Lusitano... - Em Lisboa : na officina de Domingos Lopes da Rosa : a custa de Lourenço de Queirós livreiro do Estado de Bragança, 1642
Fólios 30r-30v

quinta-feira, setembro 03, 2009

Não era bem que ficasse reservado


"A moderação foy tal, como se pòde arguir, de que animos tão justamente indignados, & irritados, se abstiverão de violencias em acto, que permitia as mayores liberdades. A nenhum Castelhano se tocou, esquecendose o nobre, & altivo intẽto dos animos, dos aggravos, que em differentes occasioẽs receberão nossos lugares desta gente; guardarãose os decoros às pessoas, que aqui estavão por elRey de Castella, conforme ao que se devia à condição de cada hũa. Ninguẽ tratou de vingarse de seu inimigo, cousa facil em semelhantes occasioẽs, antes muytos, que o erão, ficarão reconciliados. Sò pagou com a vida o Vasconcellos, que por traydor à Patria, não era bem, que ficasse reservado."

Manifesto do Reyno de Portugal. No qual se declara o direyto, as causas, & o modo, que teve para exemirse da obediencia del Rey de Castella, & tomar a voz do Serenissimo Dom Joam IV. do nome, & XVIII. entre os reys verdadeyros deste Reyno. Em Lisboa : por Paulo Craesbeeck, 1641
38r-38v

quarta-feira, setembro 02, 2009

Ora toma lá que é para aprenderes


«Num lugar da Beira se afirma que ouue hum homẽ, que ouuindo dizer numa cõuersação de amigos que na felice aclamação delRey nosso Senhor fizera o crucifixo da Sè o milagre, que a todos he notorio: disse que podia a caso a imagem do Senhor despregar o braço; & assim como acabou de dizer estas palauras cahio huma parede junto da qual estauão todos os da cõuersação, & sò a elle matou»

Gazeta em que se relatam as novas todas, que ouve nesta Corte, e que vieram de varias partes no mes de Nouembro de 1641.
Lisboa, 1641.
Fólio 2r.

Lucta de Gigantes

O esforço de editar os nossos grandes autores é sempre de louvar, sobretudo quando a tendência é deixá-los caídos no esquecimento, ao contrário das boas práticas de outros países - basta ir a Badajoz para ver a diferença (não nas lojas de caramelos, claro). Um dos grandes esquecidos tem sido Camilo Castelo Branco, um dos mais abundantes escritores da nossa literatura, mas também, paradoxalmente, um dos difíceis de se achar nas livrarias, com a notável excepção do Amor de Perdição, cânone escolar oblige. Por isso é meritória e digna de aplauso a iniciativa da Fronteira do Caos em editar esta Luta de Gigantes. Pedia-se, porém, era um bocadinho mais de cuidado na edição, com gralhas e, o que é um bocadinho mais aborrecido, muitos erros de leitura, devidos certamente a desconhecimento dos hábitos tipográficos do século XIX, mas que um bom trabalho de edição teria detectado. Eu que sou muito embirrante com estas coisas fico um bocadinho aborrecido com a falta de acentos, ou com o estropear de nomes como o do Pedro Baeça, que aqui passou a chamar-se Pedro Bacça. Não era flor que se cheirasse, a gente já sabe, mas não lhe bastou ter sido executado por traição em 1641, tem de ter também o nome degolado?

terça-feira, setembro 01, 2009

Ó pai, não se amofine, ele não é ele, é ela

«A ideia de que existe uma fronteira bem definida entre um homem e uma mulher acabou por ser abandonada pelos organismos internacionais de desporto, com o fim das averiguações do sexo obrigatórias - primeiro pela IAAF, em 1992, depois pelo COI em 1999. "Os geneticistas mostraram que vários defeitos genéticos na síntese e reconhecimento das hormonas podem resultar num indivíduo que anatomicamente é XY e fisiologicamente é uma mulher. Rotular estas mulheres como 'homens' causou-lhes danos irreparáveis", reconhece-se no manual médico da IAAF, no capítulo dedicado aos assuntos especiais das atletas femininas. »
in Público, 30 de Agosto de 2009

Há dias o Público trazia uma reportagem, a propósito da Caster Semenya, que dizia que não basta a configuração dos genitais, nem mesmo os cromossomas, para definir o sexo de alguém. Dizia mesmo que essa definição é neste momento impossível. São excelentes notícias para quem não consegue assumir a sua homossexualidade. Pode sempre levar o/a parceiro/a a conhecer os pais, e dizer "não, por favor, não se deixem enganar pelas aparências".

sexta-feira, agosto 28, 2009

quarta-feira, agosto 26, 2009

Das ralações de D. Sebastião

[Os que tenham a desdita de não saber Latim não desesperem: a tradução está lá em baixo.]

«Post Sebastiani pulchram, & generosam mortem, quem hodie non pauci somniant superstitem, & regnaturum; plurimi in variis mundi locis conturbauerunt Lusitanorum animos nomine mentito Sebastiani. Inter reliquos, celebrior Madrigalensis quispiam; qui, postea conuictus, condemnatur. Regi defuncto erat simillimus faciei constitutione, & membrorum dispositione organica; prae se ferebat tamen aetatem maiorem quam deberet, si fuisset reuera Sebastianus. Species vultus fracta quodammodo apparebat: hoc populus attribuebat laboribus, sed non aetati. Vere fefellit plurimos; quia Sebastiani Confessario (hic enim sententiae vltimae rigori subiacuit) instruente, secretissima arcana Regni percallebat, & omnes eius actiones simia ignobilis imitabatur. Examinatus de rebus minutissimis, quas Philippus Prudens cum Sebastiano egerat Guadalippi, ostendit se pollere memoria felicissima: addebat circumstantias quarum Philippus immemor; sed, examine adhibito, repertae verae. Ceterum ab aliquibus Madrigaliae ciuitatis incolis tandem cognitus, confessus est, se ambitione regnandi ductum acquieuisse instructioni Regii Confessarii, & Sebastiani difficilem vere personam, sed tragice, simulauisse. Instructor capitur; qui aperte exposuit, qua inficiebatur, inuidiam atque maleuolentiam, non solum in Philippus Prudentem, sed etiam in omnes Castellanos. Bifariam erat proditor in hoc facinore. Volebat primo turbare Lusitaniam, & eliminare, imo delere Hispanos; secundo, Antonium accersire, vt, fictione detecta, iterato discrimine clauum teneret Portugalliae.»

Juan Caramuel Lobkowitz
Philippus prudens Caroli V. Imp. Filius Lusitaniae Algarbiae, Indiae, Brasiliae legitimus rex demonstratus
Livro I, p. 77.
Edição de 1639.


Quem é como quem diz, em linguagem:

«Após a honrosa e generosa morte de Sebastião, o qual hoje não poucos sonham que vive e há-de reinar, muitos, em várias partes do mundo, agitaram os espíritos dos portugueses, com o falso nome de Sebastião. Entre outros, o mais conhecido foi um tal de Madrigalense, que, mais tarde desmascarado, é condenado. Era muito parecido com o falecido Rei, na constituição da cara e na disposição dos membros. Contra si tinha, no entanto, a idade, maior do que deveria, se de facto fosse Sebastião. A cara tinha um aspecto de certa maneira enrugado. O povo atribuía isso às ralações, não à idade. A verdade é que enganou muitos, pois instruindo-o confessor de Sebastião (esse, na verdade, foi submetido ao rigor da sentença capital), sabia muito bem os mais secretos arcanos do Reino, e, ignóbil macaco, imitava todas as suas acções. Examinado sobre coisas muito miúdas que Filipe o Prudente tratara com Sebastião em Guadalupe, mostrou-se dotado de uma memória riquíssima: acrescentava circunstâncias das quais Filipe não se recordava, mas que, tendo sido examinadas, se acharam verdadeiras. Porém, tendo sido por fim reconhecido por alguns habitantes da cidade do Madrigal, confessou que havia consentido na instrução do confessor régio levado pela ambição de reinar, e que imitara verdadeira mas tragicamente a difícil pessoa de Sebastião. O que o instruiu foi preso. Este revelou abertamente o ódio e a malevolência de que estava impregnado, não só contra Filipe o Prudente, mas ainda contra todos os castelhanos. Era duplamente traidor: queria, em primeiro lugar agitar Portugal, e eliminar – mais ainda: destruir os espanhóis; e, em segundo lugar, chamar António, para, revelada a ficção, com renovada contenda tomar o leme de Portugal.»

Pagamento Especial por Coerência

Diz que o programa do PSD prevê o fim do Pagamento Especial por Conta. Resta saber porque raio a Manuel não acabou com ele quando era Ministra das Finanças, se já então o achava injusto (a não ser que tenha mudado de ideias radicalmente). De qualquer forma, esta e outras promessas de reduzir impostos devem ser tão verdadeiras como o "choque fiscal" de 2002, que, apesar de a situação encontrada ser melhor do que a propalada na campanha, ficou na gaveta, assistindo-se pelo contrário a uma subida de impostos.

terça-feira, agosto 25, 2009

Figo


O Figo vota PS. Eu sempre gostei deste rapaz.

Da coerência

O ocupante do Palácio de Belém promulgou a lei que alarga a escolaridade obrigatória até aos 12.º ano. A esquerda votou a lei, como seria desejável. A direita absteve-se. Podia ser apenas mais um sintoma de que a direita está pouco interessada no melhoramento do país, se isso significar melhorar o acesso à educação e à cultura. Mas é mais do que isso: é sinal de incoerência e, como é costume, de fazer na oposição o oposto que fez no governo. É que o governo PSD-CDS liderado pelo Durão Barroso, e de que Manuela Ferreira Leite era o n.º 2, tinha anunciado com tremenda pompa e circunstância que ia alargar a escolaridade até ao 12.º ano - o que, pelos vistos, era mentira. No entanto agora, poucos anos depois, abstêm-se os dois partidos. Seria motivo para dizer que há mistérios insondáveis, não fosse o PSD há muito nos ter habituado a dizer uma coisa hoje e o seu oposto amanhã, desde que sirva os seus interesses eleitorais mais imediatos.

sábado, agosto 22, 2009

Never mind

Dantes quando eu entrava no meu quarto havia em cima da mesa de cabeceira um Joyce, um Dostoiévski, eu sei lá, um Camilo, um Eça, um Gógol, um Borges. Agora mesmo, ao deitar-me, entornei como habitualmente a mão em cima da dita mesa de cabeceira, para pescar o Lawrence ou o Camilo (ando a namoriscar os dois), e em vez disso saem-me estes, que o Manuel tratou de lá plantar esta tarde, para eu lhos ler (já tentei Joyce e até D. Francisco Manuel de Melo, mas ele não se comoveu).

O mais preocupante nisto tudo é que saí da cama para vir até aqui escrever isto.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Da banha da cobra


Ministra de Estado e das Finanças do governo PSD/CDS (2002-2004), Manuela Ferreira Leite vem agora dizer que se for governo não só não aumenta impostos, como até os reduz. Para quem não tem memória curta, trata-se da mesma senhora que era responsável pelas Finanças de um governo que assim que entrou em funções se pôs a aumentar o IVA, depois de prometer um famoso "choque fiscal".

É certo que alegaram que a situação que encontraram os obrigou a mudar de ideias. E tinham razão: nos cartazes de propaganda afirmavam que o défice era de 5% (vá-se lá saber baseados em quê...), e o que encontraram era de 4,5%. Nunca ficou foi muito bem explicado como é que iam baixar impostos com um alegado défice de 5%, mas ao encontrarem um de 4,5% tiveram de os aumentar.

Portanto das duas uma: ou o PSD e a sua líder virgem ofendida estão de novo a mentir e a apostar na memória curta, ou então decidiram que isso de controlar o défice já não é prioritário. De outra maneira não estou bem a ver qual é o objctivo desta promessa. A não ser que a MFL pretenda, se for governo, fazer o mesmo que fez quando foi governo pela última vez: aumentar impostos e vender o património do Estado, para no fim o défice ficar muito mais elevado do que quando ela tomou posse.

O Príncipe

«Es prudencia (aconsejada ya del Espiritosanto) recelar tal vez, del hijo, y mirar al subdito; porque el Principe, ó es bueno, ó malo, ó no es malo, ni bueno: si es bueno, es formidable a los malos, y de esso aborrecido: si es malo, es enojoso a los buenos, y por esso desamado: si ni bueno ni malo, ni es temido, ni es querido, de malos, ni buenos.»


Dezengaños offrecidos al Catolico Principe D. Phelippe el IV. Rey de Castilla, en razon del intento injusto con que sus Ministros procuran en Roma impedir applauzos al recebimiento de la embaxada del Serenissimo Principe D. Juan el IV natural, y ligitimo Rey de Portugal dedicados, y consagrados a la Alteza Serenissima del Señor D. Theodozio Principe Heredero de las Coronas de Portugal, Algarves, y sus conquistas Señor nuestro / por Juan Monis de Carvalho Abbad de la Iglezia Parrochial de Revoredo, Commissario del S. Officio de la Inquisicion, Jues commissario de la S. Cruzada, y Vicario General en la comarca de Valencia, Arçobispado de Braga.
Antuérpia, 1642.

quinta-feira, agosto 20, 2009

A Idade de Ouro

«E deuese fazer mençaõ, do que se escreue na chronica de S. Francisco, que o santo hauia profetizado, q hauia de hauer separaçam para sempre das Coroas de Portugal, & Castella, & de outra profecia de S. Frey Egidio da Ordem de S. Domingos, que diz o seguinte. Portugal priuado de seus Reys gemerà por algũs tempos, mas sendolhe Deus propicio, serà restaurádo, quando menos se espere, Africa serà vencida, cahirá o Imperio Othomano, a Terra santa se recuperará, renouarsehá a idade de ouro, & auera paz uniuersal.»

Manifesto do Reyno de Portugal, presẽtado a Santidade de Urbano VIII. N. S. pelas tres nações, portuguesa, francesa, catalan em que se mostra o direito com que el Rey Dom João IIII. Nosso Senhor possue seus Reynos, & Senhorios de Portugal, e as rezões, que ha para se receber por seu Embayxador o Illustrissimo Bispo de Lamego: dividido em doze demonstraçoẽs: traduzido de italiano em portuguez, Lisboa, 1643
(pp. 28)

O fundamento


«Com toda a verdade se conta que elRey de Portugal D. Affonso Henriquez no Campo de Ourique, estãdo para dar a batalha a innumerauel multidam de Mouros, hum Hermitam insigne em santidade, como precursor do proximo aparecimento de Cristo nosso senhor veyo ter com elle, & lhe disse estas palauras. Sois amado de Deus, porque sobre vòs tem posto os seus olhos de misericordia, & depois de vós em vossa descendencia, atè a decima sexta geraçam, na qual se adelgaçarà a descendencia, mas a esta adelgaçada voltarà os seus olhos, & verà.
[...]
Computandose bem a geraçam delRey Affonso Henriquez serà manifesto a todos, como esta profecia falaua da moderna restituiçam delRey Dom Ioam o IV se o mesmo Rey D. Affonso se incluir na primeira geraçam, em elRey D. Sebastiam se acha a descendencia adelgaçada, & se começa de seu filho elRey dom Sancho, quem negarà que ficou atenuadissima em elRey Dom Henrique, com que, ou na pessoa delRey D. Sebastiam, ou na delRey D. Henrique ficou a descendencia atenuada. E somente na restituiçam delRey Dom Ioam o IV se acha que Deus nosso senhor voltou os olhos, & vio, & constituio o nouo fundamento para a firmeza perpetua do Imperio Portugues.»

Manifesto do Reyno de Portugal, presẽtado a Santidade de Urbano VIII. N. S. pelas tres nações, portuguesa, francesa, catalan em que se mostra o direito com que el Rey Dom João IIII. Nosso Senhor possue seus Reynos, & Senhorios de Portugal, e as rezões, que ha para se receber por seu Embayxador o Illustrissimo Bispo de Lamego: dividido em doze demonstraçoẽs: traduzido de italiano em portuguez, Lisboa, 1643
(pp. 26-27)

quarta-feira, agosto 19, 2009

Repugnância


«Mas elRey Phelippe Principe Catolico, prudente, & riquissimo, mal aconselhado de algũs, & impaciente de toda a detença, desprezando os rogos do reyno, & a persuaçam do Pontifice, por authoridade propria, com força, & com mão armada subio ao trono real de Portugal, porem com contradiçaõ, & repugnancia do reyno, que se queixaua de ser esbulhado de seu direito, & com lamentos da senhora dona Catherina, que humildemente pedia socorro ao cèo, que hoje alcançou em fauor de seu neto.»


Manifesto do Reyno de Portugal, presẽtado a Santidade de Urbano VIII. N. S. pelas tres nações, portuguesa, francesa, catalan em que se mostra o direito com que el Rey Dom João IIII. Nosso Senhor possue seus Reynos, & Senhorios de Portugal, e as rezões, que ha para se receber por seu Embayxador o Illustrissimo Bispo de Lamego: dividido em doze demonstraçoẽs: traduzido de italiano em portuguez, Lisboa, 1643
(p. 19)

domingo, agosto 16, 2009

Linux vs. Windows: Uma questão de rapidez (2)


As coisas melhoraram ligeiramente para o Windows, no que respeita a carregar o sistema, talvez fruto das actualizações, mas continua muito, muito abaixo do Linux, que melhorou também substancialmente.

A experiência foi feita recorrendo ao mesmo computador (portátil com processador Intel Core Duo a 2GHz, memória de 1G), com arranque duplo: Windows Vista, Linux (Ubuntu 9.04). O Windows tem uma instalação mínima, com poucos programas. O Linux está todo artilhado, pois é o que uso mesmo. Por enquanto apenas fiz 3 provas.
1. Arranque do sistema

  • Windows Vista: 52 segundos, até o indicador de actividade do disco parar.
  • Linux: 32 segundos, até o indicador de actividade do disco parar.
2. Encerrar o sistema
  • Windows Vista: 32 segundos
  • Linux: 11 segundos
3. Abrir o OpenOffice, mesmíssima versão, clicando no mesmíssimo documento
  • Windows Vista: 21 segundos
  • Linux: 10 segundos

Em relação ao teste do ano passado, o Windows melhora bastante o arranque, talvez por ter desinstalado algumas coisas, como anti-vírus. Mas o Linux melhorou muito, também. O Linux continua a demorar pouco mais de metade do tempo a abrir, portanto.

No que respeita ao encerramento, não há diferença em relação ao ano passado. O Linux continua a demorar 1/3 do tempo a desligar.

Abrir o mesmíssimo documento na mesmíssima versão do OpenOffice demora o dobro do tempo em Windows. No ano passado a experiência era feita abrindo o OOo pelo menu, e não clicando num documento, portanto não se pode estabelecer comparação.

Da burrice


Na casa da minha mãe, que, apesar de ser uma mulher formada e culta, vê a TVI, vejo nas alegadas notícias desse canal que "Tomar tem segredos com 2000 anos". Isto dizia em rodapé. Fiquei curioso e agucei o ouvido. O repórter repetia que "Tomar tem segredos com 2000 anos, já que no século XII os Templários...". Aqui eu parei de ouvir, porque a estupidez e a burrice põem-me doente. Que quem escreveu o texto seja um analfabeto que desconhece operações aritméticas básicas já é escandaloso. Que nem o repórter, nem o apresentador, nem quem introduziu o texto em rodapé se tivessem dado conta da da da do (estou à procura de uma palavra, não encontro nenhuma) de quem escreveu o texto original, isso então ultrapassa todos os limites.

sábado, agosto 15, 2009

A sibila


Ouvi o presidente Cavaco dizer que não se "prenuncia" sobre questões políticas em período pré-eleitoral. Ficamos, portanto, a saber que o presidente Cavaco não é vidente nem astrólogo.

Uma questão de higiene

Que fique desde já claro que sou ateu, e estou-me nas tintas para a maneira como os outros vivem e manifestam a sua religião, desde que não me prejudiquem. É a velha história de a minha liberdade terminar onde começa a do outro. Mais, não vejo mal nenhum em que mulheres muçulmanas usem se dor de livre vontade véus, burcas, o que bem lhes aprouver. De resto, das muçulmanas que conheço só duas usam véu, e fazem-no de livre vontade e por convicção (uma delas até é portuguesa).

Vem isto a propósito de uma notícia que vi ontem na televisão, enquanto bebia café. Era o caso de uma senhora muçulmana num país francófono (havia coisas em francês), que de um dia para o outro viu ser-lhe vedado o acesso a uma piscina, por usar fato de banho completo. Sem coragem para assumir as suas xeno e islamofobia, o director dizia que o fazia por questões de higiene.

Ora vamos lá ver se eu entendo isto. Segundo esse senhor, a utilização de um fato de banho que cobre na íntegra o corpo, com excepção da cara, e portanto impede o contacto de fluidos corporais (suor, por exemplo) e da pele com a água, viola as normas de higiene. Já a utilização de fatos de banho normais, que permitem o contacto de fluidos corporais e uma maior superfície de pele com a água, esses permitem uma utilização higiénica do espaço. Não estou a perceber.

Ora essa, não serve para nada

À medida que vou mergulhando na bibliografia sobre a Restauração, vou-me dando cada vez mais conta de que a historiografia actual desconhece em absoluto as fontes de que estou a trabalhar apenas uma parte (embora já ultrapasse as 500 páginas de texto editado). Essa convicção tenho-a quer pelo que está escrito, quer pela omissão da referência às fontes nas bibliografias apresentadas. Há uma ou outra excepção, que indica e refere um ou outro das largas centenas de documentos inéditos e aparentemente não lidos - e não me refiro apenas aos que estão nos arquivos do Vaticano.

Talvez por estarem em latim, língua que, como toda a gente sabe, não serve para nada, e não faz qualquer sentido nos curricula de História, pardon my latin.


quinta-feira, agosto 13, 2009

Quanto pior melhor

Juntamente com a França e a Alemanha, Portugal está no grupo dos países da Zona Euro que primeiro acabou com a recessão e reiniciou o crescimento económico, para consternação da oposição, que assim vê escapar um importante trunfo eleitoral. Consternação bem visível na fronha dos seus dirigentes, do CDS ao BE, que, com ar fúnebre, comentaram este importante facto. Resta saber se, tal como responsabilizaram o governo pela crise internacional (!), vão agora dar-lhe crédito por ter terminado a recessão (ainda não a crise, infelizmente).

terça-feira, agosto 11, 2009

Da preguiça

A mim, que sou fraco de entendimento, custa-me muito perceber o que leva uma pessoa de aspecto saudável e jovem a subir dois ou três andares de elevador; mas o que me deixa deveras perplexo é ver uma pessoa de aspecto saudável e jovem DESCER dois, três ou mais andares de elevador.

quinta-feira, agosto 06, 2009

À vontadinha

P6160012

Ontem levei, excepcionalmente, o carro para Lisboa (como não sou rico, e tenho algumas preocupações ambientais, vou sempre de autocarro), por motivos que não interessam para o caso. Ia estacionar em frente à FLUL, e olhei a ver se tinha alguma coisa de valor à vista. Por momentos achei que era arriscado deixar o "Ulysses" ali no porta-luvas, ao léu. Mas depois bati na testa e pensei que na FLUL a reacção mais normal a um livro, sobretudo se for bom, é mais de fuga do que de tentação para roubar. E fui-me embora descansado.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Outra virgem ofendida

A propósito dos saneamentos políticos no PSD por ordem da sua presidente, não deixa de ser curioso que seja a José Sócrates que se apelida de arrogante e autoritário, apesar de ele manter nas suas listas os seus adversários, e até ter sondado Manuel Alegre (mesmo dando de barato que sabia que a resposta seria negativa).

Por outro lado, Manuela Ferreira Leite mostra de novo que é uma política exímia e implacável, como de resto já tinha dado provas quando foi Ministra de Estado e das Finanças e deixou o país no estado em que se sabe, no que respeita a contas públicas, graças a medidas autoritárias e altamente nocivas às classes baixas e médias. Uma política exímia e implacável, bem longe da cândida e ingénua imagem que inventou à última da hora, para aparecer aos de memória curta como uma senhora que não percebe nada destas coisas da política, a tal ponto que nem sabe falar (Pacheco Pereira dixit).

terça-feira, agosto 04, 2009

Do conhecimento



«L'antiquité a cela de commun auec la renommée, qu'elle se cache dans les nuës, ou si elle se laisse voir, ce n'est que par des especes confuses, & en la mesme sorte que les obiects qui sont fort esloignez, paroissent à nos yeux. De tant de choses, dont elle auoit voulu informer la posterité, les connoissances nous en viennent si foibles, & si imparfaites, qu'elles ne font que nous laisser des doutes, pour des resolutions.»
Observations sur un livre intitulé Philippes le prudent, fils de Charles de Quint, verifié Roy legitime de Portugal, des Algarues, des Indes & du Bresil composé en latin par D. Iean Caramuel Lobkovvitz, religieux de l'ordre de Cisteaux, Docteur de Louvain, & Abbé de Melrose.
Antuérpia-Paris, 1640 (p. 131)



Este excerto retirei-o de um livro publicado em Antuérpia e Paris, em 1640, antes da Restauração, como se percebe com clareza. Sem indicação de autoria, apresenta-se como comentário à publicação em 1639 do "Philippus Prudens" de Caramuel Lobkowitz, o grande teórico das teses espanholistas.

habîbî yâ nûr 'aynaya

Acho que ando a exagerar na Umm Kulthum, no leitor de CD do carro: hoje a Carolina pôs-se a dançar a dança do ventre na praia. Juro. A esticar e a encolher a barriga, de braços no ar. À minha mãe ia-lhe dando ali mesmo uma pataleta.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Well I never!

Na SIC-N Manuela Ferreira Leite diz-se chocada com as condições dos tribunais portugueses. É pena não se ter sentido igualmente chocada quando foi Secretária de Estado e Ministra de Cavaco Silva e de Durão Barroso, em 2 governos PSD. Ironia cruel, MFL tinha atrás de si João Aguiar Branco, com ar de virgem ofendida (pose bastante apreciada no partido). Sim, esse mesmo João Aguiar Branco, que foi o último Ministro da Justiça do PSD, e de quem não se tem notícia que tenha feito alguma coisa para resolver o que tanto agora choca a sua correlegionária, nem que ostentasse o mesmo fácies compungido quando tinha a seu cargo os tribunais portugueses.

domingo, agosto 02, 2009

sexta-feira, julho 31, 2009

Um, dois, três, maltês


A Carolina e o Manuel deliram com este livro de absoluto nonsense, e que me obrigam a ler repetidamente:
Nadia Budde, Um Dois Três Maltês
Editor: A Cobra Laranja
ISBN: 9789729881817

quinta-feira, julho 30, 2009

De senectute

eu, em 1990, aos 18 anos, segundo um amigo que quando fez o desenho só me conhecia de vista

Passei hoje por um cartaz publicitário qualquer que dizia qualquer coisa do tipo "e se voltasse a ter 17 anos". Eu, como tenho uma mente demasiado ociosa, pus-me a pensar e veio-me imediatamente a imagem do puto-eu de há 20 anos, de cabelo no ar uns bons 10 centímetros encharcados em gel, brincos às dúzias a escorrer das orelhas esticadas pelo peso (juro), expressão permanentemente enfadada debaixo das borbulhas, as t-shirts pretas, as calças rotas e os joelhos sempre à mostra, as botas militares ou de biqueira de aço ou de plataforma, o andar encurvado. Depois lembrei-me da escola, de como toda a gente olhava para mim com um misto de medo e perplexidade (eram os anos 80, não se viam coisas destas na província), dos intervalos entornados com outros 2 ou 3 "outcasts" nas traseiras da escola a fumar cigarros e a murmurar como a sociedade era injusta e não nos percebia. E de quando fui fazer as provas específicas de Latim e de Grego à FLUL, no Verão de '89, e de como os outros examinandos me olhavam de lado e eu percebi que tinha de apresentar um ar mais civilizado quando as aulas começassem para não ser outra vez um "outcast".

Lembrei-me disto tudo e rosnei um "irra deusmalivre". Depois reparei no que significava aquilo que tinha acabado de praguejar, e fiquei deprimido para o resto do ano.

domingo, julho 26, 2009

It is meet to be here. Let us construct a watercloset.


«-- Imperium romanum, J.J. O'Molloy said gently. It sounds nobler than British or Brixton. The word reminds one somehow of fat in the fire.

Myles Crawford blew his first puff violently towards the ceiling.

-- That's it, he said. We are the fat. You and I are the fat in the fire. We haven't got the chance of a snowball in hell.

The Grandeur that was Rome
-- Wait a moment, professor MacHugh said, raising two quiet claws. We mustn't be led away by words, by sounds of words. We think of Rome, imperial, imperious, imperative.

He extended elocutionary arms from frayed stained shirtcuffs, pausing:

-- What was their civilisation? Vast, I allow: but vile. Cloacae: sewers. The Jews in the wilderness and on the mountaintop said: It is meet to be here. Let us build an altar to Jehovah. The Roman, like the Englishman who follows in his footsteps, brought to every new shore on which he set his foot (on our shore he never set it) only his cloacal obsession. He gazed about him in his toga and he said: It is meet to be here. Let us construct a watercloset.

-- Which they accordingly did do, Lenehan said. Our old ancient ancestors, as we read in the first chapter of Guinness's, were partial to the running stream.

-- They were nature's gentlemen, J.J. O'Molloy murmured. But we have also Roman law.

-- And Pontius Pilate is its prophet, professor MacHugh responded.»

James Joyce, Ulysses

Acabar bem o dia . 13



Inozzenzo Alberti (1535-1615), Pavana & Gallarda
Hespèrion XXI, Jordi Savall

Humilhadas e Ofendidas


Francisco Louçã, com o seu eterno ricto de virgem ofendida a deformar-lhe o fácies clerical, acusa, naturalmente sem provas, que o PS ofereceu à independente Joana Amaral Dias o 2º lugar nas listas de deputados por Coimbra, bem como a presidência do IDT ou um cargo no governo. A dita Joana não confirma a notícia, nem desmente. A ser verdade, ela teria recusado, e tendo recusado, porque não viria agora defender ela mesma a sua honra? Enfim, mistérios insondáveis.

A audácia socialista! Atreverem-se a convidar uma cidadã independente para ser deputada! E ainda por cima oferecer-lhe um lugar de deputada, imagine-se, numa lista de candidatos a deputados! Repito: numa lista de candidatos a deputados! Pode lá ser!!!! Então convida-se alguém para integrar uma lista de deputados e em contrapartida oferece-se um lugar de deputado? Faz muito bem o sr. Loução em gemer de ofensa ofendida! O que é que virá a seguir? Oferece-se a titularidade a uma contratação de um jogador de futebol?! Deixa-se abrir uma loja alguém a quem foi dada autorização para abrir uma loja?! A pouca vergonha! O escândalo!

Diz ainda o sr. Louçã , entre lágrimas, que o alegado convite teria como alegada contrapartida a presidência do IDT. Pode lá ser, oferecer-se um lugar de confiança política a uma pessoa a quem alegadamente se deu confiança política? Até onde se chegará? O próximo Primeiro-ministro nomear como ministro da defesa uma pessoa de confiança? Ou entregar outros cargos de confiança política a pessoas em quem tem confiança política? A pouca vergonha! O escândalo!

E como se não bastasse, ainda se oferece um lugar no governo, que é formado normalmente por deputados eleitos nas listas do partido vencedor, para onde alegadamente se teria convidado a dita senhora? Oh ignomínia! O que faltará para o descrédito completo? O próximo Primeiro-ministro ser deputado do partido mais votado?! A pouca vergonha! O escândalo!

Ainda bem que temos a Vestal Louçã a denunciar estas ignomínias...

sábado, julho 25, 2009

O sinal de Deus


Deixo aqui mais um excerto de um sermão de um Auto da Fé seiscentista. O pregador deste foi Frei Manuel dos Anjos, e a festança deu-se em Évora, no dia 21 de Junho de 1615. Transcrevo do original, conservando grafia e pontuação.

Desenganayuos judeus que isto he castigo quereruos Deos trazer ẽnforcados como diz saõ Chrisostomo em vossas esperanças viuos, pera que assi andeis sempre em vossas conciencias mortos. Caym depois que matou a seu irmão Abel, pòslhe Deos em seu corpo hum sinal & dizem Eusberio & Chrisostomo q̃ lhe creceraõ hũs tremoros no corpo que o faziaõ andar de hũa parte pera a outra sempre com tremor, sempre conhecido: esse mesmo castigo deu Deos aos judeus depois da morte que deraõ ao innocente Abel CHRISTO IESV seu Deos & irmão, & foi que andasseis pelo mundo desterrados, eylos em Persia, eylos em França, ora em Alemanha, ora em Hespanha, & isto tão medrosos que atee da terra em q̃ poem os pees tem medo & pos nelles Deos hũ sinal, não sey que tal que logo os conhecem por gente apartada de Deos & que anda em continuas esperanças & ansias pelo Messias que naõ tendes que esperar.

quinta-feira, julho 23, 2009

Crime e sua compensação

Os lampiões invadiram o campo à pedrada, a FPF decide punir com derrota o Sporting e os lampiões, atribuindo assim o título aos lampiões. É caso para dizer que o crime compensa. Fica aqui o segredo para a próxima vez que um título depender de um empate: os adeptos da equipa que precisar do empate invadem o estádio correndo tudo à pedrada, e está o assunto resolvido.

quarta-feira, julho 22, 2009

Só não o crucificastes porque não estáveis lá, seus malandros


Parece que me estais dizendo: Padre, nòs naõ fomos os que crucificamos a Christo, nossos pays foraõ os que o puzerão na cruz, esta foi a consumação do seu pecado, elles forão os que acabaraõ de encher a medida: logo não somos peiores q elles. Ainda assi sois peoiores, porque primeiramente tal he o odio q tendes a Christo Senhor nosso, verdadeiro Redemptor, & Saluador, que entendo que estallais de raiua, & de inueja; ou porque naõ viuieis no tempo que elle andaua no mundo, para o crucificardes com vossos pays; ou porque vedes adorado, & venerado aquelle mesmo Senhor a quem vossos pays crucificáraõ.
Frei António das Chagas
Sermão pregado no Auto da Fé de
11 de Outubro de 1654, em Lisboa


Este sermão foi publicado em Lisboa, em 1654, e dedicado a D. Luísa de Gusmão, mulher de D. João IV. Pode ser consultado na BN.

terça-feira, julho 14, 2009

Anunciação

Sendo agnóstico mas respeitando o mais que posso as crenças dos outros (talvez por inveja, porque gostava de ter fé) sinto-me bastante à vontade para criticar, mas sobretudo para elogiar ou simplesmente comentar a religião dos outros. Sobretudo tenho uma tremenda curiosidade em conhecer o Deus ou os deuses dos outros. Por isso leio regularmente a Bíblia e o Alcorão - embora este mais para aperfeiçoar o meu árabe. Coisa que não fazem muitos crentes e sobretudo não crentes, alimentando com a sua ignorância o preconceito e o ódio. Isto é particularmente grave quando se trata do Islão, religião muitíssimo próxima do Cristianismo (cresce, no início, sobre uma heresia cristã), mas que tantos confundem com as paranóias de uma minoria fundamentalista.

A verdade é que há secções do Alcorão que lembram inequivocamente os Evangelhos - e não é coincidência. Por exemplo, o relato da Anunciação. Pois é, é que os muçulmanos acreditam na Imaculada Conceição e veneram a Virgem como mãe de Jesus ('Iça ibn Mariyam, "Jesus filho de Maria"). O seu respeito pela Mãe de Deus dos cristãos chega ao ponto de lhe dedicarem integralmente a 19.ª sura (capítulo, livro) do Alcorão, apropriadamente chamada suratu Mariyam (Sura de Maria), que compreende nada menos do que 98 versículos.

Entre outras coisas, a suratu Mariyam relata a Anunciação, nestes termos (tradução apressada a partir do árabe, mas podem achar-se muitas na internet, bem melhores e aprovadas por quem de direito):

(15) e recorda no Livro a Maria, quando se afastou do seu povo para um lugar a Leste, (16) e escondeu-se deles com um véu, e então enviámos sobre ela o nosso Espírito, e tomou o aspecto de um homem. (17) Disse ela: refugio-me de ti no Misericordioso, se O temes. Disse ele: eu sou mensageiro do teu Senhor para te dar um filho puro. (19) Disse ela: como posso ter filho se nenhum homem me tocou e sou casta? (20)Disse ele: assim disse o teu Senhor: isso é simples para Mim, e fá-lo-ei sinal para os homens e misericórdia da Nossa parte.

segunda-feira, julho 13, 2009

A direita agradece

Esta é a grande diferença entre esquerda e direita em Portugal: a direita une-se quando está em causa evitar que a esquerda chegue ao poder ou o mantenha; a esquerda, pelo contrário, prefere manter-se desunida, até porque certa esquerda prefere mesmo é ver a direita no poder, desde que isso significa uma derrota do PS.

domingo, julho 05, 2009

The White Tiger

[Repescado do fundo do baú. Escrito em Dezembro de 2008]


Aravind Adiga, The White Tiger. Atlantic Books, London, 2008
ISBN 978-1-84354-720-4
Preço (Amazon.co.uk): £6,49 / €7,50

At a time when India is going through great changes and, with China, is likely to inherit the world from the west, it is important that writers like me try to highlight the brutal injustices of society. That's what writers like Flaubert, Balzac and Dickens did in the 19th century and, as a result, England and France are better societies. That's what I'm trying to do - it's not an attack on the country, it's about the greater process of self-examination.

Quem o diz é o indiano Aravind Adiga, vencedor do Man Booker de 2008, com o romance The White Tiger, em entrevista ao The Guardian.

Munna, aliás Balram, aliás Ashok, é um empreendedor indiano de Bangalore. Pelo menos é assim que se apresenta por carta ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, de visita à Índia. Balram - chamemos-lhe assim, pois é assim que se apresenta durante a maior parte do tempo - acredita que o futuro não pertence ao Branco, mas ao Castanho e ao Amarelo. Por isso apresenta a Jiabao a sua história, como saiu de uma vida miserável numa aldeia nas margens do Ganges, e se tornou um empreendedor de sucesso, na esperança de assim ajudar a China a formar os seus próprios empreendedores. E fá-lo por meio de uma série de cartas, onde, numa escrita aparentemente simples, se traça um retrato arrepiante de uma Índia onde impera a corrupção, o caciquismo, a discriminação, a miséria e o medo. E onde a democracia não passa de um teatro de aparências. Uma Índia feia, por vezes nojenta, que se derrama no Ganges e se passeia miserável nas ruas cosmopolitas de Delhi ou Bangalore, onde para se entrar nos brilhantes centros comerciais têm de se usar roupas caras e apresentar aspecto lavado. The White Tiger é um dos grandes livros de 2008, e exige-se rapidamente uma tradução portuguesa (1). Eu já li, e garanto que é muito, muito bom.

Comecei citando uma entrevista do autor, termino citando um excerto da obra.


The Autobiography of a Half-Baked Indian. That’s what I ought to call my life’s story.

Me, and thousands of others in this country like me, are half-baked, because we were never allowed to complete our schooling. Open our skulls, look in with a penlight, and you’ll find an odd museum of ideas: sentences of history or mathematics remembered from school textbooks (no boy remembers his schooling like one who was taken out of school, let me assure you), sentences about politics read in a newspaper while waiting for someone to come to an office, triangles and pyramids seen on the torn pages of the old geometry textbooks which every tea shop in this country uses to wrap its snacks in, bits of All India Radio news bulletins, things that drop into your mind, like lizards from the ceiling, in the half hour before falling asleep—all these ideas, half formed and half digested and half correct, mix up with other half-cooked ideas in your head, and I guess these half-formed ideas bugger one another, and make more half-formed ideas, and this is what you act on and live with.

The story of my upbringing is the story of how a half-baked fellow is produced.

But pay attention, Mr Premier! Fully formed fellows, after twelve years of school and three years of university, wear nice suits, join companies, and take orders from other men for the rest of their lives.

Entrepreneurs are made from half-baked clay.

Aravind Adiga, The White Tiger


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(1) Já saiu uma tradução, entretanto.

sexta-feira, julho 03, 2009

quarta-feira, julho 01, 2009

Está lá?

"Não posso garantir títulos. Se eu tivesse árbitros em minha casa, podia garantir isso. Não almoço com eles, não janto com eles em minha casa, portanto, não posso garantir isso"
Luís Filipe Lampião, no Record
Pois não, de facto não os recebe em casa: escolhe-os por telefone.

sábado, junho 27, 2009

O piscar de olhos da divindade

Fui levar a minha mãe a Fátima. Enquanto ela rezava, eu sentei-me a reler um dos meus livros sagrados: Ulysses, do Joyce. E lmbrei-me daquela vez em que ia no comboio a ler a Ilíada, versão calhamaço da Cotovia, e uma senhora, depois de passar a viagem toda a olhar para mim embevecida, no fim disse "está a ler a Bíblia, que bonito".

Depois andei a ver as lojas dos vendilhões do templo, e dei com aqueles quadros ultra-kitsch que ninguém de bom gosto pode algum dia comprar, daqueles que mudam consoante a perspectiva. A Cristina já me tinha chamado em tempos a atenção para dois deles: um começa com Jesus e vai mudando para Nossa Senhora. Mas há ali um ponto intermédio em que a Nossa Senhora ainda não é Jesus mas também já não é Nossa Senhora, ficando ali a meio, com uma exuberante barba. Há outro em que Jesus abre e fecha os olhos, o que deve ser fonte de terror para visitantes incautos. Mas há ali uma fase em que um dos olhos está aberto enquanto o outro está fechado, de modo que se olharmos dessa perspectiva temos Jesus com ar lânguido a piscar-nos o olho. Lindo.

domingo, junho 21, 2009

Arte nova

O que vos eu afirmarei é que, ainda que há muito tempo que não exercito esta arte, nem quero bem nem à camisa que trago no corpo, que todavia não me esqueço dela, sem necessitar dos nominativos da de Ovídio; porque, quando nisso me ponho, sei amar de ũa arte nova.

D. Francisco Manuel de Melo, Cartas Familiares.
Carta 40, Lisboa, 14 de Dezembro de 1641
Edição: INCM, 1981

sábado, junho 20, 2009

Das leituras de Verão

A minha leitura de praia está decidida: reler o "Ulysses", do Joyce, mas agora no original, na incontornável edição de 1960 da Bodley Head. Não se tome isto por uma tirada pedante. Na verdade eu tenho imensa inveja de quem consegue "desligar o cérebro" e ler coisas leves no Verão. O pretexto costuma ser o de descansar a cabeça de coisas sérias e relaxar. Aí está um conceito que, no meu fraco entendimento, não consigo alcançar, daí a minha triste sorte de só conseguir ler coisas boas e estimulantes. Eu quando quero descansar de coisas sérias, e sobretudo quando quero relaxar, pego num bom livro. Num livro a sério: num Joyce, num António Lobo Antunes, num Dostoiévski, num Jorge Luis Borges, num Umberto Eco, num Eça, num Platão, num Kafka, eu sei lá, numa coisa que me estimule. É assim que relaxo e me distraio de coisas sérias. Se pegar numa leitura levezinha - e eu já tentei, juro - , em poucos minutos a minha mente acaba por fugir, por falta de estímulo, e volta a prender-se às coisas sérias e às preocupações quotidianas. As letras deixam de fazer sílabas e palavras, e os meus olhos vão passando as páginas sem ler. Ora a única maneira de conseguir que isso não aconteça é se for uma leitura a sério. Por isso tenho imensa inveja de quem consegue "desligar" com leituras leves, de quem consegue ficar com a mente presa a uma leitura inconsequente, sem se distrair, de quem consegue embrenhar-se num Dan Brown, num Paulo Coelho, numa Margarida Rebelo Pinto ou noutros de cujos nomes, الحمد لله (deo gratias), não consigo recordar-me ou nem sequer conheço. Eu não consigo. Por isso estou condenado a só ler coisas boas, interessantes e intelectualmente estimulantes.

Marcha Pride Lisboa, 1578


Hoje decorre em Lisboa mais uma marcha do orgulho gay. Eu, que saí do armário há duas décadas, continuo sem perceber o que há nisto para se ter orgulho. Ou vergonha. Enquanto a homossexualidade continuar a ser encarada, de dentro, desta maneira, não há qualquer esperança de vir a ser encarada, de fora, com a naturalidade que se pretende. Até lá, enquanto estes homossexuais continuarem a não encarar a sua orientação com a mesma naturalidade com que encaram a dimensão da sua barriga ou a cor dos seus olhos, até lá estas marchas continuarão a fazer o seu papel de perpetuação de estereótipos e de progressivo afastamento entre esta "comunidade gay" e o resto da sociedade, outros homossexuais incluídos.

Mas esta reflexão ensonada vem a propósito de outra marcha igualmente amaricada, há 431 anos, e de consequências não menos lamentáveis: foi num Sábado, dia 14 de Junho de 1578, e preparava-se a partida das tropas portuguesas para Alcácer Quibir. Transcrevo, a partir da edição de António Sérgio, um excerto de um relato da época, de alguém que viu a mariquice toda (modernizei a ortografia):

Neste Sábado, a 14 de Junho, foi el-Rei dos paços da Ribeira à Sé a benzer a bandeira real. Tanto que amanheceu, começaram a correr os fidalgos para o acompanharem: e parece que à porfia trabalharam por ir cada um mais galante e custoso. Coisa que espantou muitas gentes, ver como iam ricamente vestidos; porque, se a matéria dos vestidos era rica, a obra, feitios e invenções de mais rica sobejava: porque tudo era brocado, tela de ouro e prata, tecidos de seda mui custosos. Os veludos, damascos, todas as mais sedas perderam sua valia, e se alguma tinham era pelos muitos passamanes, rendilhas, espiguilhas, torchados e alamares de ouro, que lhe punham; mas tudo isto era de pouco gasto em comparação dos feitios, que estes destruíram os homens.

Além disto, foi espanto ver a muita pedraria que neste dia saiu; os botões de ouro, as tranças dos chapéus cheias de rubis, diamantes, esmeralda de preço infinito, entresachadas a compasso umas com as outras; os camafeus, medalhas, estampas de feitio singular; as cadeias de ouro grossíssimas aos pescoços, de dez e doze voltas, as couras borladas de ouro com botões de ouro, cristal, pedras, e demais pedraria; os gibões e coletes sobre telilha de ouro, com invenção de corte pique pesponto maravilhoso; os capotes de damasco, setim, chamalote de seda bandados com barras de veludo e torçais de ouro.

(...)

Nem era menos para ver como os fidalgos vestiram todos sua gente, uns de grã, outros de raxa de mescla de tamete, e isto assim a escudeiros e pajens como a lacaios e escravos, cada um de sua libré de suas cores; e alguns os vestiram de calças e gibões de seda da cor da sua librea, com meias de agulha, de seda.

Enfim foram os fidalgos esperar a el-Rei à sala, e de aí desceram com ele até cavalgar. Estava a este tempo o Terreiro do Paço, que é um espaço grande, muito cheio de gente, que não havia poder andar; e além disso era para ver estarem as libreas de dez em dez homens pegando nos cavalos de seus senhores, de cores diferentes todos, com muitas plumas aos pescoços, com borlas de ouro e seda, que faziam o campo esmaltado de diversas boninas.

Anónimo, Relação da jornada.
Edição de António Sérgio (1924), pp. 45-46

Aposto que hoje também vai estar o campo esmaltado de diversas boninas, em Lisboa.

quinta-feira, junho 18, 2009

It's the teeth, stupid!

Diz que a transferência do Cissokho para o Milan sofreu uma interrupção voluntária, devido a problemas dentários. Sendo por todos conhecida a importância basilar dos dentes no futebol moderno, sobretudo em lances defensivos, não se compreende como é que o FCP permitiu uma situação destas no seu plantel, na época 08/09.

Bedtime story


«That ideal reader suffering from an ideal insomnia
James Joyce

Na foto: o meu afilhado Eduardo, no seu primeiro Bloomsday, 3 meses e 1 dia após o seu nascimento.

terça-feira, junho 16, 2009

Bloomsday '09 . a minha edição

Jimmy Joyced


É aqui que eu vou comemorar o meu Bloomsday.

Bloomsday '09


Happy. Happier then. Snug little room that was with the red wallpaper, Dockrell’s, one and ninepence a dozen. Milly’s tubbing night. American soap I bought: elderflower. Cosy smell of her bathwater. Funny she looked soaped all over. Shapely too. Now photography. Poor papa’s daguerreotype atelier he told me of. Hereditary tast.

Ulysses. Bodley Head, 1966. Página 196.

segunda-feira, junho 15, 2009

Vlad: a saga continua

O Manuel (a caminho dos 3 anos) estava a chorar quando o fui buscar à creche. A educadora disse-me que o Vlad o tinha mordido de novo. E apontava, penalizada, as marcas da dentadura do menino Vlad. Eu voltei a dizer algo como "está-lhe no sangue, e pelo menos desta vez aparou os caninos", e a educadora voltou a não perceber a fina alusão cultural, e despejou-me um sorriso comiserado. Vou deixar-me de piadas intelectuais, é o que é.

sábado, junho 13, 2009

Futebol

Passei parte da tarde a jogar à bola. Isto seria uma actividade muito máscula, não fosse a bola ser cor de rosa com Minnies e Margaridas.

quinta-feira, junho 11, 2009

O Corpo de Deus de 1647 . 01

O dia de Corpo de Deus, feriado móvel cristão neste país laico, foi hoje. Ter-me-ia passado ao lado, não fosse ter notado as lojas fechadas. No ano de 1647, em Lisboa, o dia de Corpo de Deus teve todos os condimentos para ser muito mais animado.

Passavam menos de 7 anos da revolta que pôs fim à união dinástica que juntou os reinos de Portugal e Castela em 1580, e a guerra contra Filipe IV fazia-se no campo de batalha, mas sobretudo, nesta década de 40, no campo diplomático. Importava sobretudo aos Braganças ter o reconhecimento da Santa Sé, que, ontem como hoje, preferia jogar pelo seguro, de preferência alinhando com o lado mais forte. E o lado mais forte era, sem dúvida, Castela, ainda que acossada em várias frentes, no contexto da Guerra dos 30 Anos - sem a qual, como reconhecia Vieira logo em 1642, a Restauração seria impossível (1). Interessava, pois, ao partido português qualquer pretexto que deslustrasse a ortodoxia do Rei Católico.

A ocasião apresentou-se, alegadamente, no dia 20 de Junho de 1647, dia de Corpo de Deus. O rei D. João IV ia na procissão, que percorria a actual baixa pombalina, e passava ali mais ou menos onde é hoje a Rua dos Fanqueiros. A procissão deve ter sido bonita. As procissões costumam ser bonitas, sobretudo as barrocas. Mas aparentemente foi apenas mais uma procissão, ainda que barroca. Não foi senão em Julho que se revelou que por pouco não entrou essa procissão do Corpo de Deus de 1647 para a História, pelas piores razões.

A história, inexplicavelmente ignorada pela historiografia do século XX, mas que no século XIX ainda era tão conhecida que Camilo lhe dedicou um romance com duas sequelas (2), conta-se rapidamente. Domingos Leite Pereira, alegadamente a soldo de Filipe IV, ter-se-ia emboscado numas casas, cujas paredes derrubou para ficar com vista para os dois lados da rua, ali para a zona da actual Rua dos Fanqueiros. Não é que lhe interessasse ter uma boa vista por causa da beleza da procissão. Armado de uma escopeta, cujas balas tinham sido banhadas em veneno, o seu objectivo era, ao que parece, atingir D. João IV, de modo a acabar com a rebelião portuguesa, e fazer regressar a coroa de Portugal aos domínios dos Áustrias de Madrid. Não chegou, porém, sequer a disparar. Terá dito, nos interrogatórios a que poucos meses depois foi sujeito, que a visão de uma majestade divina sobre o rei lhe tinha paralisado os membros, e que tinha gritado louvores ao Bragança. Que nem ginjas, para a propaganda do Quinto Império.

Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).

Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.

Os teóricos do Quinto Império não perderam tempo, vendo na tal visão da majestade divina sobre D. João IV um sinal da preferência de Deus pelo partido português. De resto achavam já desde há muito tempo muitas evidências disso, e até pessoas seriíssimas como o Padre António Vieira escreveram longamente sobre o assunto (3).

Mas isto caiu que nem ginjas também para a guerra diplomática que se travava na Santa Sé, tendo em vista o reconhecimento do Duque de Bragança como novo e legítimo rei de Portugal (o que só veio a acontecer já depois da paz com Espanha de 1668). Uns mais entusiásticos, outros mais racionais, todos os textos portugueses contemporâneos insistiram num ponto essencial: o Rei Católico, ao ter ordenado o assassínio em plena procissão do Corpo de Deus, cometia sacrilégio. Por outro lado, D. João IV, tendo escapado, protegido na procissão por intervenção divina, como o próprio regicida frustrado teria admitido nos interrogatórios, revelara ter Deus do seu lado. Assim, apenas restava à Santa Sé deixar-se de coisas, e dignar-se receber os embaixadores portugueses, prover os bispados, e assim reconhecer de facto a nova dinastia reinante em Lisboa. A Santa Sé, porém, não se comoveu com tanta conveniência junta, e só veio a reconhecer os Braganças três décadas depois de 1º de Dezembro.


A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.

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(1) "Se Portugal se levantara enquanto Castela estava vitoriosa, ou, quando menos, enquanto estava pacífica, segundo o miserável estado em que nos tinham posto, era a empresa mui arriscada. eram os dias críticos e perigosos; mas como a Providência Divina cuidava tão particularmente de nosso bem, por isso ordenou que se dilatasse nossa restauração tanto tempo, e que se esperasse a ocasião oportuna do ano de quarenta, em que Castela estava tão embaraçada com inimigos, tão apertada com guerras de dentro e de fora; para que, na diversão de suas impossibilidades, se lograsse mais segura a nossa resolução. Dilatou-se o remédio, mas segurou-se o perigo. Quando os Filisteus se quiseram levantar contra Sansão, aguardaram a que Dalila lhe tivesse presas e atadas as mãos, e então deram sobre ele. Assim o fizeram os Portugueses bem advertidos. Aguardaram a que Catalunha atasse as mãos ao Sansão que os oprimia, e como o tiveram assim embaraçado e preso. então se levantaram contra ele tão oportuna como venturosamente." Padre António Vieira, Sermão dos Bons Anos, Janeiro de 1642.

(2) "O regicida", "A filha do regicida", "A caveira da mártir". Embora só o primeiro diga respeito ao não-acontecimento de 20 de Junho de 1647, os dois últimos dependem dele na sua construção.

(3) De resto o nosso actual Presidente da República, que já nos exortou a todos a seguir as recomendações do Padre António Vieira na História do Futuro, parece querer continuar a segurar a chama do Quinto Império, e não na sua versão inócua e muito incompleta, que é a mais conhecida: como as recomendações de Vieira vão no sentido de reconhecer que os portugueses são o novo povo eleito de Deus e que deverão esmagar os espanhóis, eu espera francamente que o Presidente nunca tenha lido o livro e que se tenha limitado a regurgitar o que algum assessor lhe passou para as mãos.

quarta-feira, junho 10, 2009

Começar bem o dia . 16

Y así como uno tuviera injusta vanidad de haber nacido falto de una vista, de un pie tullido, o árido de un brazo, así es injustísimo lo que de sí presumen algunos, leyendo mal y escribiendo peor.

D. Francisco Manuel de Melo, Cartas familiares.
Carta 35, Dezembro de 1639

domingo, junho 07, 2009

Europeias 04

A sondagem da SIC para as legislativas confirma o que escrevi logo no início da noite. Se fossem legislativas, os resultados da noite teriam sido muito diferentes, e só por ingenuidade se pode achar que, em condições normais, o PS não vence com relativa facilidade as eleições do Outono.

Europeias 03

Além da boa notícia da manutenção da Manuela, há ainda a registar a derrota da parvalhona da Laurinda Alves, que não foi eleita.

Europeias 02

A eventual vitória tangencial do PSD permite, por outro lado, conservar a Manuela na liderança, além de agitar à esquerda o fantasma do regresso do PSD ao poder, o que são boas notícias para todos os apoiantes do PS.

Europeias 01

As primeiras projecções das eleições europeias apontam para um resultado muito próximo entre PS e PSD. Como seria de esperar, e como previam todas as sondagens. Ainda que naturalmente preferisse uma vitória do PS, e por boa margem, não deixa de ser interessante verificar que, mesmo com um mau candidato que debitava à média de uma gaffe por dia, mesmo sofrendo o desgaste normal de mais de 4 anos de governo, mesmo sofrendo o tradicional voto de protesto em eleições europeias, canalizado sobretudo para o BE e que regressará em grande parte, não deixa de ser interessante verificar que se eventualmente o PS perder estas eleições, será por uma margem muito reduzida, que em nada beliscará a convicção de que, se não acontecer nada de extraordinário até lá, o PS vencerá com maior ou menor dificuldade as eleições gerais de Outubro.

Por outro lado, o PSD, confirmando-se a vitória tangencial, sobe apenas ligeiramente em relação às legislativas de 2005, não capitalizando o voto de protesto contra o governo, que foi para a esquerda.

Da democracia



Direito, de resto, negado e esmagado nos países que o seu partido, que almeja a ditadura do proletariado, toma ou tomou como modelo. A não ser que, à semelhança do seu correlegionário Bernardino Soares, considere a Coreia do Norte uma democracia.

quinta-feira, junho 04, 2009

Parkinson?

4 minutos? Mas havia algum problema com a caneta? Ou é algum problema do sistema nervoso central? Definitivamente há um problema com as assinaturas no porto. Embora as melhorias sejam notórias.

quarta-feira, junho 03, 2009

uf

Ao passar hoje pelo estádio de Alvalade achei aquilo muito mal frequentado, com muito mau aspecto, assim uma gente desgrenhada comunicando por monossílabos e gesticulações exageradas. Quando já pensava que me tinha enganado e estava perto do estádio da Luz e que havia lá jogo, lembrei-me de que hoje era o concerto de AC/DC. Uf. Por momentos...

segunda-feira, junho 01, 2009

Lidos . 01


«C'est pourquoi le parc est peuplé d'hommes qui se suicident et de danseurs qui tombent. C'est ainsi que le marquis de Fronteira tira vengeance de la vengeance de Madame d'Oeiras. C'est pourquoi les animaux sur les azulejos ont pris le visage des hommes. C'est pourquoi au coin des fresques, à l'angle de ces murs, on voit des figures accroupies qui relèvent leur jupe et excrètent dans l'ombre»