segunda-feira, abril 20, 2009

Ele há coisas do diabo ou O homem da conspiração

Há dias, numa das minhas aulas de árabe via conferência áudio, a minha professora egípcia resolveu dar a aula quase toda em árabe, em vez do usual inglês. Tudo correu bem até ao momento em que começou a perguntar a raiz dos verbos que iam aparecendo. Ora, em árabe a raiz verbal, ou base, diz-se القاعدة , o que se transcreve al-qâʿida (acentuação na sílaba -qâ-), o mesmo nome usado para a infame rede terrorista (*). Na altura brinquei, dizendo-lhe que tivesse cuidado, não fosse ser surpreendida pela visita de espiões americanos que a tivessem sob escuta. Ela não respondeu, e eu pensei que tivesse levado a mal. Minutos depois o seu nome desapareceu da lista da conferência. Quando voltou, pediu muitas desculpas, mas a sua ligação tinha sido cortada durante aqueles minutos. E eu já estou como o Sancho, que não acreditava em bruxas, mas...


-----
(*) E que os media portugueses parolamente transcrevem à inglesa, quando a forma aportuguesada seria aquela que indiquei, ou, no limite, alcaida.

Paulo Rodrigues Ferreira

O Clube das Clássicas regressou, trazendo agora autores jovens ao nosso convívio. O primeiro é Paulo Rodrigues Ferreira, que lança o seu primeiro livro, com a chancela Livrododia Editores. É já no dia 22, no átrio da Biblioteca da FLUL. Confirmada está também a visita, ainda durante este semestre, de José Mário Silva e Luís Filipe Cristóvão.



Começar bem o dia . 09



Anómimo (s. X/XI), O canto da Sibila
Hespèrion XX, Jordi Savall

quarta-feira, abril 15, 2009

Verba aliena . 01

nothing is more exactly terrible than
to be alone in the house,with somebody and
with something)
.........................You are gone. ..there is laughter

and despair impersonates a street

i lean from the window,behold ghosts,
......................... ......................... .... ..... a man
hugging a woman in a park. .. Complete.

and slightly(why?or lest we understand)
slightly i am hearing somebody
coming up stairs,carefully
(carefully climbing carpeted flight after
carpeted fight. .. in stillness,climbing
the carpeted stairs of terror)

and continually i am seeing something,

inhaling gently a cigarrette(in a mirror

e. e. cummings

quinta-feira, abril 02, 2009

Já basto eu, ḥabîbî

Esforço-me por contribuir de forma positiva para a educação dos meus sobrinhos (nascidos em finais de 2005 e de 2006), já que os vou buscar à escola e passo com eles várias horas por dia. Assim, no carro ouvem quase exclusivamente a Antena 2 (o Manuel às vezes pede para ouvir a Umm Kulthûm, e parece convertido aos ritmos árabes). Já obtive resultados interessantes, e são ambos, sobretudo ele, admiradores devotos de Mozart, não dispensando a Flauta Mágica com regularidade. Também tento expô-los a literatura infantil de qualidade, e volta e meia introduzo leitura de autores menos infantis, mas com sonoridades atractivas. Além disso vou introduzindo palavras e frases em línguas estrangeiras, com insistência no árabe, língua a que estão menos sujeitos mediaticamente. O Manuel já responde a "ḥabîbî" (meu querido), que é como o trato, e até já repete de vez em quando, com bom sotaque.

Mas nem tudo corre bem, e começo a questionar se serei boa influência, no fim de contas. Além de continuarem lampiões ferrenhos, há dias o Manuel insistiu em que lhe comprasse um livro da Anita. Não satisfeito, ao chegar a casa quis pôr a tiara roxa com fitinhas da irmã. Depois disse que era uma rainha, perante a consternação da minha mãe e o meu embaraço. Lá o convencemos de que não era uma rainha, que quando muito seria um rei. Ele acabou por concordar que não era rainha, mas não deu tempo a que respirássemos de alívio: afirmou ser uma fada. E eu não sei se será da Antena 2, se da boa literatura, se dos meus brincos...

O macho


Já todos vimos - pelos menos nós, os que vemos coisas interessantes na TV - aquelas imagens de bandos de leões depois da caça: o macho dominante afocinha na barriga da zebra, enfarda até arrotar de fastio, e depois permite que as fêmeas, os machos ainda adolescentes e as crias comam o que sobrou. À volta, os abutres esperam que os leões se retirem, para, por sua vez, debicarem ossos, peles e os restos de tripas deixados.

Eu, a quem a natureza não deu atributos que me façam sobressair dos outros machos no que realmente interessa, sempre tive muita inveja destes leões dominadores. Sempre achei que não teria nunca o prazer de sujeitar machos rivais a terem de esperar pelos meus restos. Aliás, nunca achei que poderia ter machos rivais. Sempre achei que me estaria eternamente reservado o papel do macho de categoria inferior (e, nos piores pesadelos, de fêmea), no que toca aos despojos seja do que for. Até que, quem sabe fruto da velhice que não perdoa, comecei a acordar cedo, e a ir debicar a dose matinal de cafeína no café aqui do prédio.

A ideia é enfardar o cafezinho (não, não leva acento), mas também rebolar os olhos pelo jornal desportivo do dia. Dantes, quando me arrastava escadas abaixo já a meio da tarde e me entornava sem forças no balcão, na melhor das hipóteses encontrava o jornal já amarrotado e babado de dezenas de dedos lambuzados que o tinham desflorado ao longo da manhã. Já toda a gente o tinha lido, menos eu. Ossos e pele!

Agora apanho-o ainda rijinho (no pun intended), virgem ou quase. E agora acontece.

Agora acontece. Ainda agora aconteceu. Enquanto patinava os olhos pelas páginas do Record, notei nas mesas à minha volta os olhares invejosos de uns quantos machos. Perdi há décadas as ilusões de que essa inveja possa ser de alguma forma freudiana. Portanto tem de ser do jornal. De ser eu, nem que seja por minutos, o macho dominante do café. Ou pelo menos um dos de categoria superior. Eu não sou esquisito, satisfaço-me com pouco. O ar impaciente enquanto viro as páginas pachorrentas. Os olhares de coito interrompido quando pretendo ter acabado mas ainda me detenho, afinal, na inútil última página, fingindo ler não sei o quê. E depois quando o dobro e pouso perto de mim. Os primeiros movimentos nervosos dos machos inferiores (oh, que prazer poder dizê-lo), os rabos que hesitam a meio caminho entre o levantar e o ficar sentado. Os olhares trocados a aferir da categoria de cada um, para ver quem tem direito aos meus restos em primeiro lugar.

Depois levanto-me, vomitando olhares de desprezo pelo café. E há um ou dois ou três machos inferiores (ui!!!) que se levantam hesitantes, e de repente aceleram em direcção à minha mesa, e disputam o que resta da minha leitura matinal.

Assim é que se começa bem o dia. Até porque daqui a pouco vou para o ginásio, depois o duche no balneário, e lá se vai toda esta ilusão de macho superior.

domingo, março 29, 2009

A prisão do ético


É no dia 4 de Abril, às 16:00, o lançamento na Livrododia (Torres Vedras) do livro A prisão do ético, de Paulo Rodrigues Ferreira. A edição é da Livrododia Editores, e eu, que já o tenho, posso garantir que é imperdível.

sexta-feira, março 27, 2009

A cidade e as bestas

Quando li As Cidades e as Serras a minha simpatia e compreensão recairam desde as primeiras linhas em Jacinto, o homem da cidade. E foi com uma mistura de tristeza e coração atraiçoado que o vi evoluir no sentido da rejeição da vida urbana. A mim o campo põe-me doente. Física, mas sobretudo mentalmente. O isolamento, a apatia, a inanição intelectual. Um horror. Há pouco tempo descobri mais um defeito: a absoluta falta de civismo dos condutores. Estou habituado a conduzir apenas em aglomerados urbanos ou próximo de centros urbanos. Apesar da tradicional falta de consideração do condutor português, que se traduz sobretudo em carros mal estacionados e em segundas filas, vigora apesar de tudo o civismo e um mínimo de educação. Mas quando comecei a conduzir para casa da minha irmã, em pleno Oeste rural, comecei a perceber os números assutadores da sinistralidade rodoviária: excesso de velocidade, ultrapassagens delirantes, total falta de respeito pelas mais elementares regras de segurança, e uma enorme, tremenda má criação. É este o campo português? Minha rica cidade!

terça-feira, março 24, 2009

Asma nas teclas



Quando me diagnosticou asma, a alergologista pediu-me que fizesse uma série de exames. Um deles media a minha capacidade respiratória. Quando lho entreguei, despejou o nariz na papelada e regougou se por acaso sentia dificuldades respiratórias. Respondi-lhe que não, que sempre tinha respirado bem. Alvejou-me com um dos olhos, e berrou triunfante que eu sempre tinha tido problemas respiratórios, mas que como não tinha uma referência de comparação, achava que respirava bem. Era como se sempre tivesse visto o mundo a 2 dimensões e alguém me tentasse explicar como é o mundo a 3 dimensões. Apenas poderia fazer uma pequeníssima ideia.

Vem isto a propósito de mais uma aventura a utilizar um computador com Windows. Familiares e amigos não conseguem compreender porque é que bufo, resmungo, suo e às vezes até grito quando tenho de ser submetido a tal prova. Aos meus desesperados "esta merda nunca mais abre" respondem com "mas até está a abrir depressa" perplexos. Quando ao fim de 10 segundos de espera para encerrar o computador me impaciento, não conseguem entender o meu bufar irado. Se um programa deixa de responder e rebenta, parece-lhes tão natural como lavar os dentes ao deitar, e não concebem a razão do meu espanto e revolta.

No fundo é como eu com a minha asma: não tendo ponto de referência, achei sempre que respirava tão bem como um atleta de alta competição, e no fim tinha pouco mais do que a capacidade respiratória de um velho de 90 anos.

Lembrei-me de novo de tudo isto quando tentava em desespero consultar o meu email, no Windows da minha irmã. Ao fim de várias tentativas e murros furibundos no teclado consegui, não sem antes ter sido forçado a reiniciar o Firefox e o IE duas ou três vezes. Eu estou habituado, no meu Linux, a carregar no ícone do Firefox e ele abrir sem que eu tenha tido tempo de largar o rato. Depois de conseguir por fim que o IE estabilizasse, abri o Blogger para começar a escrever esta entrada. Desisti a meio da segunda linha, exasperado com o rosnar constante do disco, com o folclore das luzinhas de actividade a cegar-me, com o cursor a bloquear regularmente durante alguns segundos. Carreguei então várias vezes na cruzinha para fechar a janela e bater com a porta do escritório da mana. Quando por fim o sistema se dignou obedecer-me, fui mastigar o bolo de anos do meu cunhado e ruminar irritações.

Agora, já no meu Linux, tudo obedece, em fracções de segundo. As luzinhas de actividade estão numa modorra imperturbável. O cursor não pára. O Firefox abriu tão depressa que quase podia jurar que ainda antes de clicar já estava aberto. E não consigo entender (e juro que me esforço) como é que há quem ainda prefira sistemas operativos caros ou pirateados, e que demoram o triplo, às vezes o quíntuplo, do tempo a fazer as mesmas coisas. Nem sempre com a mesma eficiência.

A minha mãe, que vai a caminho dos 63 anos, era uma dessas pessoas. Encarava os vírus, os programas bloqueados e a rebentarem sem explicação aparente, a lentidão exasperante, a gordura mastodôntica, encarava tudo isso com a mesma naturalidade com que sorve o seu chá nocturno. Um dia, e sem explicação (como é de regra), o seu Windows deixou de funcionar. Propus-lhe instalar um sistema Linux, até encontrar alguém que pudesse instalar-lhe mais um Windows. Cairam-lhe os olhos no chão de susto e bateu no peito em aflição: e o meu messenger? E o meu office? E o meu desktop?

Já se passaram vários meses. Usa o Pidgin, que faz basicamente o mesmo que o Messenger e usa a mesma lista de contactos, mas é menos pesado; o office é agora o OpenOffice, que faz a mesma coisa que o da Microsoft, mas é gratuito; o Firefox é o mesmo que já usava em Windows; o desktop, sendo diferente, faz a mesma coisa, e é mais intuitivo e configurável. Nunca mais me falou em querer o Windows de volta. E aposto que mais dia menos dia também ela bufará quando sofrer o suplício de ter de usar um sistema Windows.

Beati pauperes spiritu

Contei oito alminhas de cartazes em punho e megafone na mão à porta da ES Madeira Torres (Torres Vedras) esta manhã. As palavras de ordem eram as do costume (não às aulas de substituição, não ao regime de faltas, etc.). Depois fiquei muito deprimido. Ainda estou para perceber se por causa da indigência argumentativa e do ridículo das reivindicações daquela meia dúzia, se pela apatia generalizada dos estudantes portugueses, longe dos dias em que enchiam ruas, independentemente da justiça das causas, e eram atacados à bastonada e com cães açulados pelo actual Presidente da República.

sábado, março 07, 2009

A lapa

Quem está mal muda-se, sempre ouvi dizer. Mas o Sr. Alegre, que há muito se sente mal no PS, não se muda nem sai. Não vota com o partido de que é deputado, juntando-se à oposição, mas não se muda nem sai. Não apoia o governo que é suportado no parlamento pelo partido de que é deputado, mas não se muda nem sai. Não se candidata à liderança do partido de que é deputado e contra quem vota, mas não se muda nem sai. Não vai ao congresso do partido de que é deputado e contra cuja liderança está, mas não sai. Agora diz que, se pudesse, se candidataria contra o partido de que é deputado, cuja liderança não disputou e a cujo congresso não foi para expor as suas ideias. Mas não se muda. Nem sai.

É como uma lapa chata, agarrada à rocha do seu lugarzinho de deputado, pelo partido pelo qual foi eleito, mas contra o qual queria concorrer. E tem todo o direito de querer, deixemo-lo bem claro. O que não se percebe é porque raio se mantém deputado e filiado no partido contra o qual vota no parlamento, ao lado da oposição, a cujo congresso, onde poderia expor e discutir as suas ideias, se baldou, e contra o qual diz que se pudesse se candidatava.

Helena Roseta, que é uma grande mulher, ao menos levou a sua divergência às últimas consequências, saindo (infelizmente) do partido assim que se sentiu a mais. É que quando se é uma figura de relevo num partido e se está em rota de colisão com a direcção só há duas coisas a fazer: apresentar uma candidatura alternativa, ou sair. Roseta optou pela última solução. Alegre preferiu ficar sem ficar. Não apresentou candidatura alternativa - nem sequer foi a congresso - nem saiu. E é por isso que eu, eleitor socialista, até votaria em Helena Roseta, se se apresentasse como candidata presidencial. Mas em Alegre, em quem nas últimas eleições presidenciais até me senti tentado a votar, agora nem morto, nem com uma mola no nariz. Antes votar em branco (Cavaco nem que viesse deusnossenhor pedir pelamordedeus). É que eu não gosto de lapas.

quarta-feira, março 04, 2009

Da gorduranga

Por mais que que se invista em campanhas de prevenção da obesidade, doenças cardiovasculares, oncológicas e outras, será sempre dinheiro e latim mal gasto, enquanto as cantinas e bares de instituições públicas continuarem a servir apenas bifes a boiar em molhanga gordurosa, bacalhauzadas afogadas em natas, gordura de porco com lascas de carne agarrada e outras armas biológicas de destruição em massa. Nos bares da Faculdade de Letras da UL, por exemplo, a única hipótese para escapar aos instintos assassinos dos responsáveis pelas ementas dos vários bares é pedir para se grelhar um bife (e esperar um bom bocado...), ou então fazer como eu, e pedir um pratinho de arroz branco, uma salada que não esteja infectada com maionese, uma sopinha, e passar fome o resto da tarde.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

O anormal

Na sequência do chorrilho de asneiras que regurgitou na Figueira, o cardeal Saraiva Martins garantiu que os homossexuais não são normais. Tem todo o direito a pensar dessa forma, afinal a liberdade de pensamento é um direito. E por isso eu também tenho o direito de pensar que quem abdica da sua sexualidade para se dedicar à religião não é normal.

César

Ouço na RTP-N o cardeal Saraiva dizer, entre outras cavalidades e aleivosias, que o Estado devia permitir que a Igreja colaborasse na elaboração das suas leis. Pois eu acho que a Igreja devia permitir que o Estado colaborasse na elaboração dos seus cânones. Que tal, senhor cardeal?

sábado, fevereiro 14, 2009

Mumtaz

Embora os meus conhecimentos de Árabe sejam ainda incipientes, já me começa a ser possível confirmar o que alguns árabes há muito me diziam: nas reportagens feitas pelas canais noticiosos ocidentais nas ruas da Palestina, Iraque e outras paragens, às vezes o que de facto é dito e o que depois aparece nas legendas não tem qualquer relação. Há pouco ouvia uma assustadora reportagem sobre os meandros da Jihad Islâmica na Palestina, e, entre outras coisas, apanhei um "mumtaz" ("excelente") traduzido como "continua", ou um "yahûd" (judeus) traduzido como Israelitas. São pormenores sem grande importância, e o segundo exemplo até é comum na nossa comunicação social. Mas todos sabemos a importância dos pormenores e das pequenas alterações de sentido no contexto dos conflitos internacionais. E, repito, o meu Árabe ainda é incipiente, e não me permite perceber mais alterações deste género ou piores.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Acabar bem o dia . 05


Claudio Monteverdi (1567-1643), Il Lamento della Ninfa
Hespèrion XX, Jordi Savall


Ilustração: Francesco Albani - Adónis levado a Vénus por Cupidos (pormenor)

Ter ouvido isto, já lá vão uns 15 anos, ao vivo, com estes mesmos intérpretes, na Academia das Ciências de Lisboa mudou a forma como encarava a música de Monteverdi.