segunda-feira, junho 07, 2010


Da Hidra de Lerna se conta que a cada cabeça que Hércules lhe cortava nasciam duas. A solução foi, com a ajuda de Iolau, queimar imediatamente o coto logo que lhe cortava uma cabeça. A minha tese vai-se parecendo cada vez mais com a dita cuja Hidra, mas não parece haver fogo que lhe valha. Ainda agora, quando pensava ter finalmente conseguido arrancar-lhe uma das cabeças, eis que nasceram mais duas. Há por aí algum maçarico industrial a mais, a ver se a cousa se resolve de vez?

quinta-feira, junho 03, 2010

O Corpo de Deus de 1647

[reedição com alterações da publicação do ano passado]

A coisa conta-se em poucas palavras, e, apesar de quase completamente ignorada pela historiografia contemporânea, é fundamental na propaganda da Restauração. Mais, até ao século XIX ainda era fonte de inspiração de obras literárias, como "O Regicida", de Camilo Castelo Branco, e indirectamente as suas sequelas "A filha do regicida" e "A caveira da mártir".

No dia de Corpo de Deus de 1647, que nesse ano calhou a 20 de Junho, D. João IV comungou e foi à procissão, que percorria o que é hoje a Baixa de Lisboa. Alegadamente acoitado numas casas que teria alugado e cujas paredes teria derrubado para poder ter vista para os dois lados da rua, Domingos Leite Pereira esperava a passagem do rei para, alegadamente a mando de Castela, matar D. João IV (*). O rei lá foi à procissão, e voltou, imagino, para o regaço da sua Luisinha de Gusmão, no fim da dita. Então não houve tiroteio? Pois não. Alegadamente, Domingos Leite Pereira ter-se-á arrependido à última da hora, ao ver uma "majestade divina" pairando sobre o rei e que lhe teria paralisado os membros, impedindo-o de alvejar o Bragança - o que veio mesmo a calhar à propaganda quinto-imperista, que se fartou de escrever sobre isto. Confessou isto tudo em interrogatório, ou pelo menos assim diz a a crónica oficial, que acrescenta que o regicida frustrado, terá entoado loas a D. João IV, qual Saulo, aliás Paulo, depois da Estrada de Damasco.

Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo matar o homem - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).

Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.

O lugar onde não aconteceu o atentado está hoje em parte visível na Rua dos Fanqueiros, pois a rainha D. Luísa de Gusmão mandou que as casas fossem derrubadas e ali se fizesse um convento. Hoje apenas restam partes da igreja do convento, destruído em 1755.


A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.

Um dos muitos textos que então se escreveram sobre o caso foi um sermão de Frei Luís de Sá, lente na Universidade de Coimbra, e que tem este delicioso título:

«Sermão que pregou o doutor Fr. Luís de Saa religioso da ordem de S. Bernardo, Lente da Cadeira de S. Thomas, e Gabriel da Universidade de Coimbra na procissão solemne que o Reverendíssimo Cabido do próprio bispado instituiu. Pro gratiarum actione, de Deus haver livrado a sua Majestade da admirável treição, que contra ele por ordem de Castela se tinha maquinado em dia de Corpus Christi.»


Foi pronunciado em Coimbra em 8 de Setembro de 1647, e publicado no mesmo ano - naquela época não se brincava em serviço, não havia cá as molezas e procrastinações dos nossos dias. Transcrevo dois parágrafos, modernizando a ortografia, mas conservando os casos em que a escrita denuncia formas de pronunciar diferentes das contemporâneas.

«Eu não me espanto por não ter este Salmo Autor ao certo, porque como é de um ânimo agradecido, e há tão poucos no mundo, não é novo não se lhe saber o nome, e acrescento que visto não ter este Salmo conhecidamente Autor, levado do protentoso milagre porque vimos render hoje as graças a esta santa Sé Catedral de Coimbra, com pública procissão, tão autorizada, que são estas palavras do Anjo Custódio do nosso Rei e Reino, falando expressamente com ele no Santíssimo dia de Corpus, defronte de nossa Senhora da Palma de Lisboa, quando Castela toda sempre falsa, com parte de Portugal traidor, capitaneados ambos do Diabo merediano, intentaram fazer alvo de suas setas, e tiros no pino do meio dia, a quem ia coberto do escudo da maior verdade, a custódia e âmbula do Santíssimo Sacramento.

Querem dizer as palavras do Anjo Custódio deste Reino falando com o Sereníssimo Rei nosso senhor Dom João o IV. A verdade do Senhor vos servira de escudo em toda a vida, não tendes que temer sombras nocturnas, nem setas que se derijam contra vós todos os dias: não façais caso de conselhos, e juntas de traidores, que no segredo da noite se maquinam contra vossa pessoa, que são acções de quem vive em trevas co juízo; finalmente tende grande ânimo, quando ao pino do meio dia vos virdes cometer do Diabo merediano com incurso diabólico.»


Fonte: impresso na Biblioteca Nacional, com a cota TR5661/19p

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(*) Portugal estava, recorde-se, em estado de guerra com Espanha, na sequência do 1.º de Dezembro de 1640, situação que se arrastaria por mais dois reinados, e só terminaria com a paz de 1668, e o reconhecimento da independência por parte de Espanha.

quinta-feira, maio 27, 2010

Da mortificação do tacto

Frei António das Chagas (1631-1682)

Exercicio de Mortificação para toda a Semana

Sexta feira


Mortifique o sentido do Tacto, pondo pela manhaã cilicio atè o jantar, se tiver saude; à noite disciplina por espaço de hum Miserere. Não se toque, nem se coce de advertencia. Não se veja ao espelho, nem parte alguma sua. Jejue, se puder, a pão, & agua; & visite tres vezes o Santissimo Sacramento, fazendo por ter dor de seus pecados; faça por andar cuidando este dia nas dores de meu Senhor Jesu Christo Crucificado.



Obras Espirituaes Posthumas do Veneravel Padre Fr. Antonio das Chagas ...
Lisboa, 1684.

Transcrevo respeitando a orthographia do impresso original, que consultei com reverência. Sobre este injustamente esquecido frade franciscano seiscentista, cuja biografia resumida se pode ler aqui, e cuja sepultura se pode pisar no convento do Varatojo, em Torres Vedras, escreve o seu contemporâneo Pe. António Vieira, em carta a Duarte Ribeiro de Macedo, datada de 1 de Janeiro de 1675:

"... e é que, poucos dias antes do último correio, partido aos 13 de Novembro, se tinha ouvido em Lisboa um Jonas pregando:
Adhuc quadraginta dies et Niniue subuertetur. Este homem, que pode ser que seja conhecido de V. S.ª, é um capitão, grande poeta vulgar, chamado antigamente António da Fonseca, o qual se meteu frade de S. Francisco haverá oito ou dez anos, e hoje se chama frei António das Chagas. Haverá dois ou três anos começou a pregar apostolicamente, exortando a penitência, mas com cerimónias não usadas dos Apóstolos, como mostrar do púlpito uma caveira, tocar uma campainha, tirar muitas vezes um Cristo, dar-se bofetadas, e outras demonstrações semelhantes, com as quais, e com a opinião de santo, leva após si toda Lisboa"


António Vieira, Cartas, ed. J. Lúcio de Azevedo, vol. III, INCM, 1997.
p. 144

quarta-feira, maio 26, 2010

Historiarum Lusitanarum ab anno MDCXL usque ad MDCLVII Libri Decem

D. Fernando de Meneses (1614-1699), 2.º Conde da Ericeira, foi irmão do autor da História de Portugal Restaurado, D. Luís de Meneses, 3.º Conde da Ericeira. Tal como o irmão mais novo, também D. Fernando escreveu uma História do período da Restauração, mas teve o azar de o fazer em Latim; publicados só em 1734, em dois volumes, os Historiarum Lusitanarum ab anno MDCXL usque ad MDCLVII Libri Decem sofrem uma sina ainda mais triste do que a obra do mano mais novo, que mal por mal ainda é citada e lida por alguns excêntricos, e teve uma edição nos anos 40 do século XX - já os Historiarum libri por estarem em latim, permanecem inéditos e desconhecidos. E tendo em conta que D. Fernando participou activamente no processo da Restauração, é escusado lembrar a importância desta obra enquanto História, mas também fonte em primeira mão. Sic transit gloria Portugalliae.

terça-feira, maio 25, 2010

Do reinar e do servir


Nas vésperas do 1.º de Dezembro de 1640 o Duque de Bragança está ainda, de acordo com a historiografia da época, indeciso, sem saber se há-de reclamar a Coroa e embarcar na revolução, ou se há-de continuar na pachorra do Paço de Vila Viçosa, de volta da caça e da música. Consulta então a sua mulher, espanhola de todos os costados, da poderosa casa dos Duques de Medina-Sidónia. D. Luísa de Gusmão ter-lhe-á então respondido mais ou menos o que conta D. Luís de Meneses, o Conde da Ericeira, na sua monumental e incontornável História de Portugal Restaurado, começada a publicar nos finais de Seiscentos, e que, precisamente por ser um marco na historiografia portuguesa, permanece esquecida e por reeditar desde os anos 40 do século XX:

"A Duquesa, que era dotada de entendimento tão claro e ânimo tão varonil, como depois acreditaram largas experiências, ponderando os perigos da sua Casa, sendo objecto do rigor do Conde-Duque, julgou generosamente por mais acertado, ainda que a morte fosse consequência da Coroa, morrer reinando que acabar servindo, e animou o Duque, dizendo que todos os vaticínios eram segurança da empresa, e que neste sentido só a dilação de se coroar podia ser prejudicial."


D. Luís de Meneses, História de Portugal Restaurado, Vol. I
ed. António Álvaro Dória, Livraria Civilização, Porto, 1945, p. 111

segunda-feira, maio 17, 2010


this
forest pool
A so

of Black
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if

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more than life

must die to
merely
Know


e. e. cummings
95 poems
Liveright, 2002

domingo, maio 16, 2010

O Cardeal foi às putas

Continuo a ler, extasiado, as cartas do inigualável embaixador Francisco de Sousa Coutinho (c.1597-1660), que em 1655 conseguiu ser recebido a título particular pelo Papa Alexandre VII, quando Portugal andava desde 1641 (e andaria ainda até 1669) a tentar que os sucessivos Papas se dignassem fechar as pernas a Espanha, e reconhecer a independência conseguida em 1640.

Um dos inimigos de estimação de Sousa Coutinho era o Cardeal Protector de Portugal, de seu nome Ursino. Numa carta de 22 de Abril de 1656, diz mesmo isto ao secretário Gaspar de Faria:

"Mas o que sobretudo sinto é o espanto que toda esta Corte tem desde o Papa até o mais ínfimo, de havermos escolhido um Protector, que é o ludíbrio dos Cardeais, e homem de quem no Colégio se não faz caso algum, e me dezia nestes dias um autorizado que me não espantasse disso, que começara a vida com a caça e com as putas sem tratar de outra cousa, que assim continuava ainda, e assim havia de acabar, e tal como isto é o Protector que temos."


Retirei o texto do Corpo Diplomático Português (volume XIII, página 285) actualizando a ortografia, excepto nos casos em que reflecte a pronúncia da época. A edição é a de 1907.

quarta-feira, maio 12, 2010

Da alparca de Deus, ou de como já não se fazem frades desta qualidade


Ainda na mesma carta a D. João IV, de 28 de Janeiro de 1656, o embaixador Sousa Coutinho, em plena guerra militar mas sobretudo diplomática com Espanha, na sequência da Restauração, fala da bravura de um frade franciscano português, imaginativamente chamado Francisco de Assis, perante os ataques verbais de um frade espanhol, que chamava apenas "Duque de Bragança" a D. João IV, recusando-se assim reconhecê-lo Rei.

Estes fidalgos homiziados que aqui andam o tomaram tão pesadamente que, se os eu deixara, queriam tirar satisfação do castelhano; aquietei-os com lhes dizer que de castelhanos não podíamos esperar outro tratamento: que no que se nos não dizia em nossa presença nos não faziam agravo algum, que a ser nela, que não só deles esperaria eu a boa conta que diriam de si, mas que de qualquer dos seus criados, como havia feito frei Francisco de Assis, que é um frade franciscano da Província de Enxobregas, irmão de Manuel Alves Carrilho, português tão desatinado que um destes dias em Ara Coeli, que é o convento em que está, porque houve um frade castelhano que quis usar dos mesmos termos do Duque de Bragança, saltou nele descalçando uma alparca, e moeu com ela de maneira que se lho não tiram das mãos, houvera de sair delas em muito mau estado: o Assis esteve preso alguns dias, mas pôs os castelhanos em estado que diante dele nenhum falava.

Carta de Sousa Coutinho a D. João IV, de Agosto ou Setembro de 1656
in Corpo Diplomático Português, vol. XIII
pp. 229 & seqq.

terça-feira, maio 11, 2010

Da mama de ir a Roma


A cousa é mais ou menos assim. Estamos em fins de Janeiro de 1656, ou seja 15 anos depois da Restauração, mais cousa menos cousa. Cousa que está negra, pois a bem dizer só os estados inimigos de Espanha reconhecem a independência de Portugal (França, Holanda, Suécia, Inglaterra e pouco mais). O mais importante de todos, a Santa Sé, continua sem passar cartão a D. João IV: em Roma vamos no terceiro Papa desde 1640, primeiro Urbano VIII, depois Inocêncio X, e agora Alexandre VII, eleito no início de 1655. Todos se recusam terminantemente a receber a título oficial os embaixadores de D. João IV, e, pior, a prover os Bispados de Portugal.

O Reino está, pois, sem Bispos, sem reconhecimento internacional relevante (tirando a França), e à espera a qualquer momento que a Espanha resolva as outras guerras mais importantes, e ataque em força, de modo a recuperar isto. É neste contexto que D. João IV manda para Roma o embaixador Sousa Coutinho, então representante em Paris, para tentar que o novo Papa se dignasse recebê-lo. Inesperadamente, Sousa Coutinho, que chega a Roma em Novembro de 1655, consegue ser recebido menos de um mês depois. Mas a título particular, não oficial, o que é como quem diz: ficou tudo na mesma.

Apesar do fracasso relativo, Sousa Coutinho, que tinha um feitio dos diabos, está eufórico, e acha (e di-lo em carta ao Rei) que conseguiu num mês o que os outros não lograram em 15 anos. O que não deixa de ser verdade: tal como os outros, a bem dizer não conseguiu nada. Mas ele acha que não, acha que a cousa está arrumada (puro engano, só em 1669 se resolve o problema, já Sousa Coutinho estava morto e enterrado havia quase uma década). E numa das muitas e inflamadas cartas que escreve a D. João IV, saiu-se com esta pérola, que não lhe terá granjeado muitas simpatias entre o Clero, e que poderá explicar as más relações que manteve sempre com o Cardeal Protector do Reino, Ursino, e sobretudo o ter sido mandado regressar à base por D. João IV nesse mesmo ano:

O que [o Cardeal Ursino] escreve a Vossa Majestade que o Papa declarou, ou deu a entender que daria Bispos a Portugal, mas que não receberia Embaixador salva pace, cousa é que lhe não saiu nunca pela boca, são openiões (sic) vulgares, particularmente dos nossos frades portugueses, que como de haver Embaixador se segue por consequência infalível terem Núncio no Reino, e tirar-se-lhes a mama de virem a Roma a título de servirem a Vossa Majestade, andam apontando estes meios pelas praças, e pelas casas dos Cardeais.

Carta de Sousa Coutinho a D. João IV, de 28 de Janeiro de 1656
in Corpo Diplomático Português, vol. XIII
pp. 229 & seqq.


Modernizei a ortografia excepto quando reflecte a pronúncia da época. A edição é retirada do Corpo Diplomático Português, edição monumental, ainda que com muitos erros, que não é reeditada desde o século XIX, seguindo uma tradição muito portuguesa, de não reeditar obras de referência.

Nota: aquele senhor bem posto ali em cima é o Papa Alexandre VII (1655-1667)
Este é um blogue laico, e portanto não concede nem faz tolerância de ponto pela visita de um líder religioso.

sábado, maio 08, 2010

Dos livros que matam

Não consigo abrir um livro sem terror: acredito que a literatura mata.
Pedro Eiras

A propósito da apresentação das Substâncias Perigosas de Pedro Eiras, hoje, na Trama, e do tema da literatura que mata, lembrei-me da história de al-Jâhiz (*), grande estudioso árabe que nasceu em Baçorá, actual Iraque, por volta de 781. Foi este al-Jâhiz um tremendo estudioso, que tinha um terrível vício: ler. Ler muito. Conta-se que pagava aos livreiros de Bagdade, onde viveu grande parte da sua vida, e de Baçorá para o deixarem pernoitar nas suas livrarias, no meio dos livros, que lia horas a fio, até ser dia. O que talvez tenha vindo a ser a sua desgraça. E é com isto que regresso à frase que serve de epígrafe a esta nuga. É que não terá sido a literatura a matar, em 869, al-Jâhiz, mas, muito mais prosaicamente, uma pilha de livros mal equilibrados que se abatera sobre ele.


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(*) Correctamente a transcição é al-Jâḥiẓ (الجاحظ). O nome é, na verdade, uma alcunha. A palavra significa qualquer coisa como "de olhos esbugalhados" - mal que ataca muito boa gente que gosta de ler.

quinta-feira, maio 06, 2010

Diálogo entre Babieca y Rocinante



«Diálogo entre Babieca y Rocinante

Soneto

B. Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
R. Porque nunca se come, y se trabaja.
B. Pues qué es de la cebada y de la paja?
R. No me deja mi amo ni un bocado.

B. Andá, señor, que estáis muy mal criado,
pues vuestra lengua de asno al amo ultraja.
R. Asno se es de la cuna a la mortaja.
Queréislo ver? Miraldo enamorado.

B. Es necedad amar? R. No es gran prudencia.
B. Metafísico estáis. R. Es que no como.
B. Quejaos del escudero. R. No es bastante.

Cómo me he de quejar en mi dolencia,
si el amo y escudero o mayordomo
son tan rocines como Rocinante?»

Cervantes, Don Quijote de la Mancha

segunda-feira, maio 03, 2010

So shy shy shy(and with a
look the very boldest man
can scarcely dare to meet no matter

how he'll try to try)

So wrong(wrong wrong)and with a
smile at which the rightest man
remembers there is such a thing

as spring and wonders why

So gay gay gay and with a
wisdom not the wisest man
will partly understand(although

the wisest man am i)

So young young young and with a
something makes the oldest man
(whoever he may be) the only

man who'll never die


e. e. cummings

Boas informações

O café do Modelo de Torres Vedras informa num cartaz que de Segunda a Quinta encerra às 23:00. Já às Sextas e Sábados o cartaz lembra que encerra às 23:00. E aos Domingos e feriados o cartaz avisa, não vá alguém ir ao engano, que encerra às 23:00. É sempre bom saber.

Da felicidade dos homens


Borges, em 1978, já cego.
«Yo sigo jugando a no ser ciego, yo sigo comprando libros, yo sigo llenando mi casa de libros. Los otros días me regalaron una edición del año 1966 de la Enciclopedia de Brokhause. Yo sentí la presencia de ese libro en mi casa, la sentí como una suerte de felicidad. Ahí estaban los veintitantos volúmenes con una letra gótica que no puedo leer, con los mapas y grabados que no puedo ver; y sin embargo, el libro estaba ahí. Yo sentía como una gravitación amistosa del libro. Pienso que el libro es una de las posibilidades de felicidad que tenemos los hombres.»
Jorge Luis Borges, Borges Oral, Alianza Editorial, 2006

quarta-feira, abril 28, 2010

Das opções

Trabalhar a ouvir Corelli no Mezzo é uma péssima ideia. No entanto, se tivesse de optar entre as cada vez mais insuportáveis intrigas vaticânicas seiscentistas e a música barroca sei que não precisava sequer de pensar. Por isso, e porque este maldito doutoramento tem mesmo de ser cuspido rapidamente, lá terei de trabalhar a ouvir Corelli no Mezzo.

Das Senhoras do Caravaggio

Gostava de que os saudosistas do Scolari e da Sr.ª do Caravaggio explicassem como é que a selecção da Federação Portuguesa de Futebol chega ao 3.º lugar do ranking da FIFA sem o dito cujo e sem a dita cuja.

terça-feira, abril 27, 2010

______to stand(alone)in some

____ autumnal afternoon:
___ breathing a fatal
__ stillness;while

_ enormous this how

_patient creature(who's
never by never robbed of
_day)puts always on by always

_ dream,is to

___taste
____not(beyond
_____death and

______life)imaginable mysteries


e. e. cummings, 95 poems
Liveright, 2002

domingo, abril 25, 2010

Madrugada


25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia

sábado, abril 24, 2010

Da colheita da Verdade


Nos 'meus' documentos do Arquivo Secreto Vaticano, um autor português responde ao um espanhol, no contexto da guerra diplomática que se seguiu à Restauração de 1640:
(...) ipsum tabellarium a Te adductum diligenter inspiciemus, ut mundo pateat quod Tu ex luce nebulas, non autem ex nebula lucem emergere facis, et ad instar illius emblematis unius floris in quo considentes apem et araneum iste uenenum, et altera uero mel haurit, Tu non solum e Tabellario, sed ex omnibus scripturis uenenum mendacii, et ambagum non autem ueritatis mel expromere curas.

O que é como quem diz, em linguagem:

(...) examinemos atentamente o próprio tabelário por ti aduzido, de modo a que fique patente ao Mundo que tu fazes nascer da luz as névoas, não da névoa a luz, e à semelhança daquela imagem de uma flor, na qual estando uma abelha e uma aranha, esta sorve veneno, a outra mel, tu tratas de retirar não só do tabelário, mas de todas as escrituras, o veneno da mentira e das ambiguidades, mas não o mel da verdade.


Toma lá que é para aprenderes.

Do infantil politicamente correcto

Com as recentemente adquiridas funções de tio e as suas agregadas obrigações de contador de histórias e cantadeiro, tenho notado que as histórias e canções infantis têm sofrido um processo de revisão politicamente correcta. Assim, por exemplo, na história do Capuchinho Vermelho o lobo já não come a avó, e o caçador já não lhe abre a barriga (ao lobo) para a encher de pedras, como no meu tempo. Agora a avozinha foge e esconde-se no armário, enquanto o caçador se limita a enxotar o lobo. Perdeu a graça toda. Na história do João e da Maria, os meninos em algumas versões já não são abandonados, antes se perdem sem que se perceba muito bem porquê. A bruxa continua a ser metida no forno, mas desconfio que também isso venha a mudar.

Agora acabo de ouvir uma menina a cantar o clássico "atirei o pau ao gato". Ainda cantou a versão que eu sempre conheci. Mas a mãe ia cantando ao mesmo tempo, e insistindo nas correcções politicamente correctas que tornam a canção impossível de cantar, e que a filha ia rejeitando (abençoada). A nova e absurda versão por enquanto ofende apenas os dois primeiros versos, e é assim: "atirei o carapau ao gato mais o gato não comeu".

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quarta-feira, abril 21, 2010

Dos javardos

De modo a conseguir trabalhar na faculdade sem ser perturbado, pedi à Ana que me deixasse ir com ela para o Anfiteatro I, onde ela ia (está a) dar aula. Não está a funcionar. Alunos a conversar como se estivessem no café, outros a entrar e sair constantemente. Nunca vi tanta má criação junta. Esta gente não tem a noção do sítio onde está. Por mim eram corridos não da sala, mas da própria Universidade.

terça-feira, abril 13, 2010

Das Leis e da Palavra

Os politicos confessam, que menos criminoso achauam os Romanos o quebrantar da ley, q̃ da palaura, dando por razam, que naquella se offendia a homẽs, & nesta a Deos; & assy se persuadio Seneca, q̃ nam podia perder a palaura, se nam aquelle que a nam tiuesse; sendo tam prejudicial o dano, que resulta, q̃ faz obrar a falta da palaura quanto se nam atreuera o poder da tyrannia.


Pantaleão Rodrigues Pacheco (m. 1667)
Discursos, que se presentaram na Curia Romana, por que se mostra que... Dom Miguel de Portugal Bispo de Lamego avia de ser recebido em aquella corte, como Embaixador do Serenissimo Rey de Portugal, Dom Ioam o IV nosso Senhor. Traduzidos de italiano em portuguez. Anno de 1642.

segunda-feira, abril 05, 2010

de 'A pequena face'

Caravaggio: João Baptista
entende que te ouço quando o corpo
abre na noite os flancos
quando oculta o pavor
as asas de ouro

quando mais nu que a água acordas
na brancura
e fere
o incessante

olhas e
a tempestade varre
a desabrigo

quando se rasga o ar
a boca movediça
fonte escura

António Franco Alexandre

domingo, abril 04, 2010

Benzer o Mar


Lisboa, 1581. O Conde da Ericeira narra os primeiros acontecimentos nefastos após a subida ao trono de Portugal de Filipe II de Castela.

«Os castigos dos que falavam qualquer palavra contra o govêrno, e dos que não haviam servido el-rei na conquista do reino, eram tantos, ainda que ocultos, que se não perdoava nem aos religiosos; porque aquêles a que a tirania supunha delinqüentes, eram arrebatados de improviso, e levados à Tôrre de São Gião, donde os lançavam ao mar, que não querendo ocultar tanto delito, trazia os corpos às rêdes dos pescadores, e retiravam-se delas os peixes, ofendidos do insulto, recusando ser mantimentos de homens, que mudando as disposições de Deus, lhes queriam dar homens por alimento. E foi necessário que, à instância dos pescadores, o Arcebispo de Lisboa fôsse em procissão benzer o mar, profanado com tantos sacrilégios, para que êle (como sucedeu) tornasse a pagar o tributo do peixe que dantes costumava. (*)

Conde da Ericeira, História de Portugal Restaurado. Livraria Civilização, 1945. Vol. I, p. 52

Imagem: Jean-Jacques Grandville - "Peixes pescando pessoas"

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(*) Sigo a edição de António Álvaro Dória (1945), que está escrita na ortografia vigente nos anos 40, aquela em que, grosso modo, o Eduardo Lourenço foi alfabetizado, e na qual ele diz que continuará a escrever, naquela que foi uma das mais estúpidas e hilariantes tiradas contra o novo acordo ortográfico. Esperamos que tenha tido correctores ortográficos pacientes nas últimas décadas, já que a ortografia em que foi alfabetizado foi diversas vezes alterada até à forma actual, a que tantos se apegam, mas que tem pouco mais de 30 anos. Na verdade, a ortografia da edição de 1945 necessita de 7 (sete) alterações para ficar conforme aquela agora em vigor. Já se tivesse transcrito o texto usando a ortografia em vigor, não necessitaria de nenhuma alteração para ficar conforme o novo acordo.


sábado, abril 03, 2010

Where once the waters of your face

Where once the waters of your face
Spun to my screws, your dry ghost blows,
The dead turns up its eye;
Where once the mermen through your ice
Pushed up their hair, the dry wind steers
Through salt and root and roe.

Where once your green knots sank their splice
Into the tided cord, there goes
The green unraveller,
His scissors oiled, his knife hung loose
To cut the channels at their source
And lay the wet fruits low.

Invisible, your clocking tides
Break on the lovebeds of the weeds;
The weed of love's left dry;
There round about your stones the shades
Of children go who, from their voids,
Cry to the dolphined sea.

Dry as a tomb, your coloured lids
Shall not be latched while magic glides
Sage on the earth and sky;
There shall be corals in your beds
There shall be serpents in your tides,
Till all our sea-faiths die.


Dylan Thomas

quinta-feira, abril 01, 2010

Dos submarinos

A propósito das investigações sobre as alegações de corrupção no negócio dos submarinos, onde alegadamente estarão envolvidos o Portas e o Durão, estou curioso para ver se a Felícia Cabrita e o Sol vão investigar com a mesma sanha que têm usado contra o Sócrates. Imagino que não. Já quando à ex-deputada do CDS, Manuela Moura Guedes, se a espanholada não tivesse corrido com ela do Tempo de Antena do CDS de Sexta-Feira, tenho a certeza de que assobiaria para o lado, como sempre fez quando se trata de escândalos ligados à direita.

domingo, março 28, 2010

Bebedeira no convento

A poesia estrófica constitui o principal contributo do al-Ândalus na História da literatura árabe. Aqui nascem e desenvolvem-se duas formas: a moaxa (موشح : muwaššaḥ) e o zejel (زجل). Ao contrário da qaṣīda, baseada na prosódia quantitativa e de estrutura monorrimática e monoestrófica, a poesia estrófica estrutura-se, como o nome indica, em estrofes polirrimáticas e baseadas no acento intensivo.

O principal destes géneros estróficos é a moaxa, que acabará por ser exportada e apreciada em todo o mundo árabe, e que de resto continua hoje a ser cultivada, ainda que em moldes diferentes.

A moaxa é composta por 5 ou 6 estrofes, cada uma constituída por uma secção com rima independente, o ġuṣn (غـُصْن ، أغـْصان ou بيت ، أبيات), e outra, o qufl (قـُفْل ، أقـُفال), com rimas e estrutura iguais à kharja (خرجة), o qufl que encerra o poema. A rima do ġuṣn por vezes é interna, ente cada hemistíquio. Uma estrofe adicional, a maṭlaʿ (مَطـْلَع), encabeça a composição, reproduzindo a métrica da carja. Na sua ausência, a moaxa é chamada "careca". A kharja (do verbo kharaja, "sair"), que encerra o poema, pode ser em árabe clássico, árabe dialectal ou romance moçárabe.

Para os estudos românicos é especialmente relevante a kharja em língua moçárabe - o romance falado pelos cristãos (mas não só) do al-Ândalus. Mau grado as dificuldades inerentes aos alfabeto árabe e hebraico, que é como nos chegaram escritas, devido à ausência de escrita de vogais breves, são de uma importância fundamental para o estudo desse romance, na medida em que são os únicos textos que dele nos chegaram (descontando as palavras soltas em obras gramaticais e botânicas).

Em seguida apresento uma tradução provisória de uma moaxa do Cego de Tudela (s. XII), com kharja moçárabe, que assinalo em itálico.

Transliteração da kharja, com o texto moçárabe em itálico:

'amânu 'amânu yâ lamalîḥ ġâri
burkî tû kirš bi-l-lâhi matâri

0 (maṭlaʿ)

Uma destas noites fomos a um convento para a vinhaça,

por entre guardas e camaradas.


1

A correr, uma menina nos trouxe vinho.

Recebeu-nos com hospitalidade e respeito,

e jurou pelos Evangelhos:


“Não o vesti senão com pez,

e no fogo não foi posto nenhuma vez!”


2

E eu disse-lhe: tu, ó mais formosa de todas,

acaso tens a bebida no copo?

Ela disse: “Isso não nos incomoda de todo,


Pois assim o bebemos nos escritos

dos monges e dos bispos.”


3

Confesso-vos, ó gente nobilíssima,

estou preso de paixão por Ahmad:

tem uns olhos que matam de indiferença.


Escondi a paixão em segredo no meu íntimo,

mas as minhas lágrimas desvelaram os meus segredos.


4

As lágrimas do amante desvelaram a paixão,

pois a sua face é como a Lua cheia no horizonte;

tem olhos que matam as criaturas.


E quantos ferozes leões foram mortos

e para os caídos do amor não há vingança.


5

Uma miúda foi encantada por ele,

ficou doente com a rejeição e o orgulho,

recitou e cantou-lhe:


“Piedade, piedade, ó formoso!, diz:

por Deus, porque [me] queres tu matar?”


-

(Tradução minha a partir do original árabe e moçárabe.)

sábado, março 27, 2010

Apólogo da Morte



De D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), que teve o azar de nascer no mesmo ano do Pe. António Vieira, e assim viu passar despercebida a sua efeméride.

Apólogo da Morte

Vi eu um dia a Morte andar folgando
por um campo de vivos, que a não viam.
Os velhos, sem saber o que faziam,
a cada passo nela iam topando.

Na mocidade os moços confiando,
ignorantes da morte, a não temiam.
Todos cegos, nenhuns se lhe desviam;
ela a todos c'o dedo os vai contando.

Então, quis disparar, e os olhos cerra:
tirou, e errou! Eu, vendo seus empregos
tão sem ordem, bradei: tem-te homicida!

Voltou-se, e respondeu: tal vai de guerra!
Se vós todos andais comigo cegos,
que esperais que convosco ande advertida?


in As Segundas Três Musas
ed. António Correia de A. E. Oliveira, Liv. Clássica Editora, Lisboa, 1966

quarta-feira, março 24, 2010

Dos Galegos vistos pelos Árabes


«Os galegos descendem de Jafé, o filho mais novo de Noé. O seu país chama-se Galiza: é a parte da Península que se segue ao Gharbe na direcção do Norte, residiam do outro lado da cidade de Braga, situada no Gharbe.

Esta cidade de Braga, que remontava à Antiguidade, foi uma das fundações dos romanos e uma das suas residências reais. Assemelhava-se a Mérida pela solidez dos seus edifícios e a ordenação das suas muralhas. Está hoje quase inteiramente destruída e deserta: foi demolida pelos muçulmanos que expulsaram a população.

O país dos galegos é plano e o solo é o mais das vezes arenoso. Os habitantes alimentam-se principalmente de milho painço e milho alvo. As bebidas que usam são a cidra de maçã e uma espécie de cerveja, dita 'aniska', preparada com a ajuda de farinha.

Os galegos distinguem-se pela falsidade e os seus poucos escrúpulos. Não têm asseio e só se lavam uma ou duas vezes por ano com água fria. Nunca lavam as roupas, desde o dia em que as vestem pela primeira vez até que ficam em farrapos sobre si próprios. Pretendem que, graças ao surro que os recobre, provocado pela transpiração, os seus corpos se mantêm em boa forma física. O vestuário é muito estreito e aberto à frente, de maneira que deixam a descoberto a maior parte do busto. Esta gente é muito corajosa: num recontro à mão armada, prefere fazer-se matar a fugir.»

Ibn ‘Abd al-Mun‘im al-Himyarî (s. XV)
in A. Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, Caminho, 2008, pp. 33-34

terça-feira, março 23, 2010

Um acaso misterioso

Um dos eventos mais importantes do ponto de vista simbólico da Restauração foi o alegado despregar do braço de Cristo da cruz, no próprio 1 de Dezembro. O acontecimento é narrado em vários autores e documentos, logo em publicações de 1641. Inexplicavelmente o caso é desprezado pela historiografia contemporânea - e eu, enquanto agnóstico, estou à vontade para o lamentar. Milagre ou acaso (eu inclino-me naturalmente para a segunda hipótese), marcou profundamente as mentalidades da época, e foi usado e abusado pela propaganda restauracionista como prova do apoio de Deus à Casa de Bragança e ao Portugal Restaurado. O que em seguida se transcreve é a narrativa da História de Portugal Restaurado, do Conde da Ericeira, cujo primeiro volume saiu em 1679.

«(...) pegou D. Álvaro de Abranches na bandeira da cidade, seguiram-no todos, vieram buscar o arcebispo, e quando baixava, defronte da Igreja de Santo António, pouco distante da Sé, gritou o povo que uma imagem de prata de Cristo crucificado, que levava um capelão, a quem tocava, diante do Arcebispo, despregara o braço direito. As felicidades de Portugal e a justiça daquela acção podem persuadir que seria milagre; se sucedeu por acaso, foi pela ocasião muito misterioso. Gritou o povo prostrado por terra, que era milagre, e todos cobravam invencível confiança de que Deus aprovava a gloriosa deliberação dos confederados. Persuadidos de tão grande incentivo, não soavam em toda a cidade mais que vivas e aclamações ao novo Príncipe, valoroso autor da liberdade da Pátria.»

Conde da Ericeira (1632-1690), História de Portugal Restaurado, Vol. I, liv. II
ed. António Álvaro Dória, Livraria Civilização, Porto, 1945. p. 124

quarta-feira, março 17, 2010

Manga Ancha 3


Saiu o número 3 da revista Manga Ancha, que se apresenta como uma revista de literatura em triálogo: Espanha, Marrocos e Portugal. Com um grafismo muito apelativo, o conteúdo surge em 3 línguas: o original, e a tradução nas restantes línguas, espanhol, árabe ou português. O número 3 tem a particularidade de conter uma quarta língua, o amazigh, língua berbere.

Aqui fica a apresentação de mais um número desta excelente revista, que conta, do lado português, com as contribuições de Filomena Alves (conselho editorial e traduções), Adalberto Alves, David Machado, José Riço Direitinho e Risoleta Pinto.

Pontos de Venda em Portugal
  • Algés- Livraria Ideal
  • Aveiro- Livraria da Universidade
  • Lagos: Livraria Livros da Ria Formosa
  • Lisboa- Círculo das Letras
  • Lisboa- Livraria Barata
  • Lisboa- Livraria Pó dos Livros

quarta-feira, março 10, 2010

A Décima Musa


Autora despreocupadamente ignorada em Portugal, mas conhecida em Espanha, Dona Bernarda Ferreira de Lacerda (1595-1644), portuense de nascimento, alcançou relevo nas letras hispânicas seiscentistas, a ponto de o grande Lope de Vega lhe ter dedicado a Écloga Fílis ("Fílis, écloga a la décima musa, Doña Bernarda Ferreira de la Cerda, señora portuguesa"). Em 1618, D. Bernarda publicou um poema épico sobre a Reconquista, onde faz vários ataques velados à União Ibérica - obra que permanece, como é óbvio, inédita modernamente. Apesar do tom patriotista, D. Bernarda escreve em espanhol (na altura uma coisa não tinha necessariamente que ver com a outra), apresentando a seguinte e curiosa justificação (transcrevo modernizando a ortografia, para o pessoal não dizer que não percebe):


Y tu, mi patrio Reyno Lusitano,
Que de muchos de Europa eres corona,
Si por escribir esto en Castellano
He dejado tu lengua, me perdona;
Que es el origen de la historia Hispano,
Y quiero que mi Musa, pues la entona,
También a lo Español vaya vestida,
Para ser más vulgar y conocida.

Confieso te tu lengua que merece
Mejor lugar despues la Latina,
Con que en muchas palabras se parece,
Y es como ella de toda historia dina.
Empero el ser tan buena la escurece,
Y asi la extraña gente nunca atina
Com su pronunciación y dulces modos,
Y la Española es facil para todos.

España Libertada, I 5-6

terça-feira, março 09, 2010

Ibn Ṣāra Aš-Šantarīnī. Poemas del Fuego e otras casidas.


A gente por cá não quer saber da nossa cultura e dos que nasceram por cá, a não ser que sejam actores de novela ou jogadores da bola ou navegantes quinhentistas de mau hálito e sovaqueira fedorenta. Por isso é preciso que venham os estrangeiros estudar os nossos autores e os que, não sendo "nossos", nasceram e viveram por cá. É o caso dos autores do período muçulmano nados ou criados nas nossas terras, e que são olimpicamente ignorados por nós.

São nomes importantes da Literatura Árabe Clássica, como Ibn Çâra ax-Xantarînî (ابن صارة الشنتريني), que nasceu, como o nome indica, em Santarém, na segunda metade do século XI. Em Espanha, no entanto, que é um país decente e civilizado, os autores árabes de origem hispânica são estudados, conhecidos e publicados em edições de grande divulgação. Hoje recebi uma edição da professora Teresa Garulo, com uma selecção e tradução de 109 (cento e nove) poemas de Ibn Çâra. Edição bilingue, note-se.

A tradução é garantidamente boa (apenas é pena não respeitar a distribuição gráfica do texto árabe). Teresa Garulo é uma enorme arabista, e de uma simpatia e humildade comuns na comunidade académica espanhola. Aqui deixo um exemplo, com o original, e depois a tradução da professora Garulo.

ومَهَفهَفِ أبْصَرْتُ في أطْواقِهِ قَمَرًا بِآفاق المَحاسِن يُشْرِقُ
تَقْضي على المُهَجات منه صَعْدةً مُتألِّقٌ فيها سِنان أزْرَقُ

Es un joven esbelto, sobre cuya túnica
veo alzarse una luna
brillando en un cielo de perfecciones.
Ha sentenciado a nuestros corazones
la recta lanza de su cuerpo
donde reluce el hierro de sus ojos azules.



Teresa Garulo (ed.), Ibn Ṣāra Aš-Šantarīnī. Poemas del Fuego e otras casidas. Poesia Hiperión, Madrid, 2001

quinta-feira, março 04, 2010

Cousa espantosa de ver


Logo na terça feyra a noite ouue banquete de cea na sala de madeyra, em que el Rey, e a Raynha, e o Principe, e Princesa comeram, e com elles o Duque, e o senhor dom Iorge, e Rodrigo Dilhoa Embaixador, todos em hũa grande mesa, com muytos grandes dorseis de brocado, que tomauam toda a sala a traues, e na primeira mesa da mão direyta comia o Marquez de Villa Real com as senhoras, donas, e damas, e na primeira da mão esquerda o Arcebispo de Braga, e o Bispo Deuora, e Bispos, e Condes, e pessoas principaes do conselho, que eram muytos de hũa parte, e da outra, assi homens como molheres. E a mesa del Rey com todolos officiaes vestidos de brocados, e seruida por moços fidalgos, que seruiam de tochas, e bacios, ricamente vestidos. E as outras mesas todas com trinchantes, e officiaes vestidos de ricas sedas, e brocados, e muy galantes, e assi os moços da camara ordenados a cada mesa todos vestidos de veludo preto.

No qual banquete ouue infinitas, e diuersas igoarias, e manjares, e singular concerto e abastança, e muytas, e assinadas cerimonias. E quando leuauam a mesa del Rey as igoarias principaes, e fruita primeira, e derradeira, e de beber a elle, e a Raynha, e ao Principe, e Princesa, hiam sempre diante dous e dous, muytos porteiros de maça, reys darmas, arautos, e passauantes, os porteiros mores, quatro mestres salas, o veador, e os veadores da fazenda, e detras de todos o mordomo mor, e todos hiam com os barretes na mão ate o estrado, onde faziam suas grandes mesuras, e os veadores da fazenda hiam com os barretes na cabeça ate o meyo da sala, e do meyo poir diante os leuauam na mão, e o mordomo mor hia sempre cuberto ate o fazer da mesura, que juntamente fazia, e tiraua o barrete.

E era tamanha cerimonia, que duraua muyto cada vez que hiam a mesa. E o estrondo das trombetas, atambores, charamelas, e sacabuxas, e de todos menistres era tamanho, que se não ouuiam, e isto se fazia cada vez que el Rey, a Raynha, o Principe, a Princesa bebiam, e vinham as primeiras igoarias a mesa, e a copeira era cousa espantosa de ver.

Garcia de Resende, Vida e Feitos del Rey Dom Ioam segundo, CXXIV. INCM, 1973

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Da tosse convulsa

A educação de uma pessoa também se vê no comportamento que tem durante uma conferência. Tossir e espirrar insistentemente, conversar ininterruptamente com o parceiro do lado, atender o telefone, entrar a meio, sair a meio, ressonar. Na sessão de hoje do curso de História do Islão, na FLUL, só não aconteceu a última.

Numa das filas da frente estava um senhor que terá apostado em boicotar a interessante conferência do professor Pedro Barbosa, expelindo ruidosamente os pulmões aos poucos, durante quase o tempo todo. A certa altura pareceu ter falecido. Deixou a cabeça cair para o lado e assim se manteve imóvel durante alguns segundos. Infelizmente não tinha morrido, estava apenas a retemperar forças para recomeçar o concerto tússico, agora com mais violência. Em vários pontos do anfiteatro outros tussíferos acompanhavam ora em cânone ora em contraponto o solista. Nunca lhes ocorreu sair e deixar o conferencista falar e nós ouvi-lo.

Na fila atrás de mim uma senhora espirrava copiosamente, e eu sentia-lhe os vapores do ranho no pescoço e na cabeça. Como ontem rapei o cabelo, a experiência foi demasiado húmida e fresca para o me conseguir abstrair e ouvir o Pedro Barbosa. A abertura das comportas nasais durou cerca de 2/3 do tempo da conferência (90 minutos). Claro que nunca lhe passou pela cabeça ir vazar as narinas para o raio que a partisse, e deixar o conferencista falar e nós ouvi-lo.

Atrás de mim dois pombinhos arrulharam durante o tempo todo, e à minha frente um cavalheiro com idade para ter educação atendia o telefone e bichanava suficientemente alto para poder acompanhar-lhe a conversa toda.

Já nem vou falar do desplante dos atrasados que entravam com toda a pachorra e dos apressados que se levantavam a meio para irem à sua vidinha (não me refiro, obviamente, aos organizadores, que por isso mesmo estão justificados e desculpados).

Parece ser uma questão genética. Há uns anos numa conferência patrocinada por uma instituição flamenga, 10 minutos antes da hora marcada estavam lá os franceses, belgas e holandeses todos, e eu, o único dos Pirinéus para baixo. A mesa estava composta, com os elementos todos sentados. Todos? Não, uma cadeira resistia vaga, impávida diante do olhar furioso dos belgas e holandeses que a rodeavam: era a cadeira da hispânica convidada, que estava latinamente atrasada. À hora da conferência nem sinal dos tugas. Um quarto de hora depois, mais coisa menos coisa, começaram a chegar, e a balir as desculpas esfarrapadas do costume - que tinha sido o trânsito. Esse mesmo trânsito que, selectivamente, só afectou os tugas, poupando os holandeses e belgas (já sem falar de mim). Quarenta minutos depois chegou a hispânica que fazia parte da mesa, e quarenta e cinco minutos depois ainda iam pingando tugas, que abriam a porta e trotavam ruidosamente pela sala a arranjar lugar.

Não é por isto que estamos como estamos e a Holanda ou a Bélgica estão como estão. Mas é symptomático.

P.S.: se no dia da minha conferência houver recital de tosse, eu juro que, dependendo do grau de mau feitio com que acordar, ou me calo até os prevaricadores acabaram de cuspir os pulmões, ou pergunto se a minha conferência está a incomodar a sua tosse.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Do verdadeiro chamamento

Si dixeris quare monachi hodie non faciunt signa et miracula, sicuti faciebant apostoli euntes per regiones ad aduocandos homines, respondebimus tibi quia euntes apostoli per regiones ad uocandos homines, ut confiterentur diuinitatem Domini nostri Ihesu Christi, necesse habuerunt facere signa et miracula sepius atque frequentius ut probaretur aduocatio eorum esse uera et ut aduocati scirent et intelligerent ad quid uocarentur. Monachi uero hodie non ita sunt missi uocare ad fidem, quamuis multa signa fiant per eos in occulto, ut sciatur ista beneficia non ex toto discessisse a fidelibus Christi. Sed et cum necessitas cogit, fiunt ab eis signa etiam in aperto, quorum plura nota sunt per diuersa loca in uniuerso orbe.

versão latina medieval da Risâlat al-Kindî, §98

Em linguagem isto fica mais ou menos assim:

Se perguntares porque é que os monges não fazem hoje sinais e milagres, como faziam os apóstolos que iam pelas terras a chamar os homens, responder-te-emos que os apóstolos que iam pelas terras a chamar os homens para reconhecerem a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo tiveram necessidade de fazer sinais e milagres mais vezes e com mais frequência de modo a que se provasse que o seu chamamento era verdadeiro, e que os chamados soubessem e compreendessem aquilo a que eram chamados. Ora os monges hoje não foram mandados para chamar à fé assim, embora se façam por seu intermédio muitos sinais às ocultas, para que se saiba que esses benefícios não se apartaram de todo dos fiéis de Cristo. Mas quando a necessidade a isso obriga se fazem ainda por seu intermédio esses sinais às claras, dos quais muitos são conhecidos em diversos lugares de toda a terra.

sábado, janeiro 30, 2010

Porque quanto mais vão estudando tanto melhor sabem que não sabem

«Dizem que os Cursistas de Artes no primeyro anno são Doutores, no segundo Licenciados, no terceyro Bachareys, e despoys são nada, porque quãto mais vão estudando, tanto melhor sabem que não sabem: e quanto era menos a luz, era mais a presumpção.»

Pe. Manuel Bernardes (1644-1710)
Luz e Calor
in A. do Prado Coelho (ed.), Clássicos Portugueses. Trechos Escolhidos. Manuel Bernardes I
Clássica Editora, Lisboa 1942

terça-feira, janeiro 26, 2010

Nunca vos enfadeis de o tornar a ler


«Posto que alguũ boõ livro todo leaes, nunca vos enfadees de tornar a o leer, porque algũas cousas entenderedes sempre novamente, que vos farom proveito; e pensae que o seu leer é obra meritoria, e porem é bem assi como vos nom enfadardes de rezar algũas vezes o Pater Noster, e assi algũa cousa cada dia leerdes per el; e nunca tanto tempo leerees, se teverdes boa tençom, que leixees d'achar cousas que vos novamente prazam, ainda que as já leessees.»

D. Duarte (1391-1438), Leal Conselheiro
ed. Rodrigues Lapa, Lisboa, 1940

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Nauis, et mulier nunquam satis ornantur


«Mas cheguemo-nos especificamente ao caso de Pelágia, e das que se parecem com ela no estudo dos enfeites, ainda que se não pareçam na gentilidade, nem na gentileza, nem professem mau viver, senão somente bem parecer. Quanto é necessário de tempo de estudo, de cuidado para se pôr à vela uma destas naus? Bem lhes chamei naus; porque já Plauto disse: Nauis, et mulier nunquam satis ornantur: a nau e a mulher nunca se dão por bastante equipadas. E concorda o adágio de Terêncio: Dum mulitur, dum comuntur annus est: Mulheres enquanto se apercebem, enquanto se enfeitam, lá vai o ano.»

Pe. Manuel Bernardes (1644-1710)
Excerptos da «Nova Floresta»
Mário Gonçalves Viana (ed.), ed. Educação Nacional, Porto, 1942

quarta-feira, janeiro 20, 2010


«sentado, meditado ficarás,
na poeira que os tiros levantaram,
nas ruas devastadas contra o mar;
com a sombra da luz a desenhar-te
o perfil do perfil, imperceptivel,
em vasto chão ardido;

a máquina, metálica, movendo
os altos fios do tecto suspendidos
sobre os surpresos dedos, não a pena:
bebendo, pela tarde, o vinho fresco,
o cigarro de sal oferecido
pelo moço mais dócil e sombrio;

ameaçando o céu, secreto, rindo
talvez para o poente, aonde vibram
as lanternas do vento sobre a espuma;
à mesa, o mais sereno, acorrentado,
imóvel, mas movendo a mão do tempo,
ausente, respirando a maresia.»


António Franco Alexandre

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Länge leve Sverige!


Às vezes é nas pequenas coisas que se percebe porque é que certos países são ricos e outros se arrastam na lama.

No início do Verão de 2008 encomendei na Biblioteca Nacional uma digitalização em suporte DVD de um impresso português de 1647. Depois de preenchida a papelada em duplicado, esperei vários meses, e arrotei cerca de 70€ - que só não foram mais porque fui buscar em mão o dito cujo, que só me foi dado quando apresentei toda a papelada a comprovar que tinha entornado o carcanhol no balcão a 3 metros de distância.

No dia 31 de Dezembro de 2009 enviei um email à Biblioteca Nacional da Suécia a perguntar se seria possível fazerem-me uma digitalização de um impresso português de 1641, de dimensão semelhante ao referido ali em cima. Poucas horas depois tinha uma amável resposta a dar-me as indicações necessárias para a encomenda. No dia 4 de Janeiro de 2010 enviei por email o meu pedido, sem mais formalidades que um "Dear sirs" no cabeçalho. Hoje, dia 18 de Janeiro de 2010, duas semanas depois, recebi o meu DVD por correio - antes de pagar, o recibo vem lá dentro - na Suécia não partem do princípio de que o cliente é um ladrão em potência. O preço? 229 coroas suecas, ou seja 22€, mais coisa menos coisa, portes de envio incluídos.

Não é por isto que a Suécia é um dos países mais desenvolvidos e ricos do mundo, mas é um sintoma de uma mentalidade que infelizmente não existe por cá. É em dias como estes que me apetecia ter nascido uns milhares de quilómetros mais a Norte (tirando estes, são os outros dias todos).

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Os fins com que a mocidade os inquieta


«Quanto às musicas do tempo tambem he grande o detrimento, que nellas padece a Castidade. Porque assim como o canto grave, e devoto ajuda a levantar o espirito gerando nelle bons pensamentos, e saudades da Patria Celestial; e por isso se usa nas Igrejas entre os Divinos Officios: assim as sarabandas, e modos muy festivos, e picados, o distrahem, affeminão, e corrompem; e por isso se usa nas comedias, nas ceas nupciaes, e nas musicas, e discantes dos que de noite fazem pé de janella para os fins, com que a mocidade os inquieta.»
Pe. Manuel Bernardes (1644-1710)
Armas da Castidade
in A. do Prado Coelho (ed.), Clássicos Portugueses. Trechos Escolhidos. Manuel Bernardes II
Clássica Editora, Lisboa 1943

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Do inferno



«Muito caminho tem andado o Homem para o Céu, só com ser cristão. Mas saiba que, se não for bom cristão, também tem andado muito para o Inferno; porque o Inferno dos maus cristãos é mais profundo que o dos não cristãos.»

Pe. Manuel Bernardes (1644-1710)
Leituras Piedosas e Prodigiosas, ed. António Coimbra Martins, Bertrand, 1962

sábado, janeiro 09, 2010

Modem ZTE MF 627 em Linux (Ubuntu)

Como a ZON resolveu acabar com o ADSL, e não me apetecia voltar para a Sapo, resolvi aderir à net 3G da ZON Mobile. O modem ZTE MF 627, no entanto, só traz instalação para windows... Como eu gosto demasiado dos meus computadores para lhes prantar sistemas operativos da tanga, cá em casa não se usa disso. Tive, portanto, de procurar na net a maneira de pôr isto a funcionar (usando ainda o ADSL). Apesar da normal confusão devida à iliteracia de muitos dos informáticos, acabei por me safar, e o processo é muito simples.

Primeiro é preciso instalar os drivers do modem. Isso consegue-se, no Ubuntu, adicionando às fontes de software as duas últimas linhas da imagem:


Seleccionar em seguida o separador "autenticação", e instalar o ficheiro previamente retirado daqui.

Depois de actualizar (o próprio programa encarrega-se de chatear a pedir isso), toca a instalar o pacote seguinte (carregar na imagem):



Feito isto, é só acrescentar no gestor de rede uma nova ligação, com os seguintes dados:

Nome - zon
APN - internet.zon.pt

No separador IPv4 acrescente-se os DNS: 212.18.160.133

E pronto. Reiniciar a máquina, espetar o modem USB, lado direito do rato em cima do ícone da ligação de rede, seleccionar 'zon', e já está.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Dos anos 80

Tropecei numa reposição do Miami Vice, num canal do cabo. Depois de mirar durante alguns minutos a trunfa e as roupas dos alegados galãs, dei graças por nos anos 80 estar obcecado em ser diferente e em usar cabelos estranhos e roupas esquisitas (mas que se tornaram muito populares nos anos 90 e já neste século), em vez de seguir aquilo a que só com muito sentido de humor se pode chamar "moda".

quarta-feira, janeiro 06, 2010

A vingança de Kafka

Já aqui narrei o processo kafkiano em que me vi envolvido para conseguir o milagre de uma consulta de alergologia no SNS. Recordo e resumo: depois de ter passado algum tempo sem consulta, por indicação do próprio médico, dirigi-me ao Hospital Distrital de Torres Vedras, como habitualmente, e solicitei marcação, como fiz com as anteriores consultas. Foi-me recusado, porque para marcar consulta primeiro tinha de ir à consulta para o médico me marcar consulta. Convencido de que a senhora estava bêbeda, à falta de outra explicação racional, dirigi-me ao hospital de doenças pneumológicas, onde de facto são as consultas, e outra senhora certamente bêbeda repetiu a recusa com os mesmos argumentos delirantes.

Por recomendação de amigos e familiares, fiz queixa. Mandei um email à Administração Regional de Saúde, com cópia para o Centro Hospitalar de Torres Vedras. Recebi resposta da ARS, a dizer que tinham contactado o CHTV a pedir esclarecimentos. Isto foi há 3 semanas. Do CHTV nem sequer um acusar de recepção, nem uma justificação. Nada. Neste fim-de-semana voltei a contactar a ARS, dizendo que do CHTV só tinha obtido um silêncio burocrático.

Hoje chegou-me pelo correio uma cartinha do CHTV a dizer que tinha consulta marcada dentro de 2 semanas. Uma carta igualzinha a outras que sempre recebi em circunstâncias semelhantes para outras especialidades, mas que, inexplicavelmente, me estava até agora a ser recusada pelo CHTV. Quando no dia da consulta for registar ao balcão, se for a mesma senhora vou-lhe perguntar se custou assim tanto.

Fazer queixa resulta mesmo, embora seja lamentável que numa situação tão simples como esta eu tenha sido forçado a fazê-lo. E é pena que neste país as pessoas geralmente prefiram amochar em vez de se queixarem junto das entidades competentes. É que resulta mesmo.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

In memoriam

Lhasa de Sela
1972-2010


Soon this space will be too small

And I'll go outside
To the huge illside
Where the wild winds blow
And the cold stars shine

I'll put my foot
On the living road
And be carried from here
To the heart of the world

I'll be strong as a ship
And wise as a whale
And I'll say the three words
That will save us all
And I'll say the three words
That will save us all

Soon this space will be too small
And I'll laugh so hard
That the walls cave in

Then I'll die three times
And be born again
In a little box
With a golden key
And a flying fish
Will set me free

Soon this space will be too small
All my veins and bones
Will be burned to dust
You can throw me into
A black iron pot
And my dust will tell
What my flesh would not

Soon this space will be too small
And I'll go outside
And I'll go outside
And I'll go outside

domingo, janeiro 03, 2010

O conceito misterioso

Datado de 1639, o Philippus Prudens de Caramuel Lobkowitz é uma obra monumental, sob todos os pontos de vista. O tema único é a demonstração dos direitos dos Reis de Castela e Leão sobre Portugal, que, recorde-se, estava unido à Coroa de Castela desde 1580. Este grosso volume não surge em 1639 por acaso: acossada Madrid por guerras em várias frentes (Flandres, Catalunha, França), a revolta portuguesa, apoiada pela França, era previsível, sobretudo depois da grande revolta do "Manuelinho", iniciada em Évora em 1637 (1). Monumental, já o disse, as mais de 450 páginas deste volume serão a base da argumentação afecta a Castela, desde 1640 até à paz de 1668 - e, naturalmente, da contra-argumentação portuguesa. Mas disso se falará em outro dia, se tiver pachorra.

Em seguida apresento a página de rosto do livro. Depois, e a explicação da sua simbologia, em tradução provisória e relativamente apressada. Alguns aspectos só se podem entender no original, como o jogo que é feito entre o nome do Leão animal ("Leo") e do Reino de Leão ("Leo" e "Legio"). Fui também obrigado a dar uma ou outra beliscadela na tradução do epigrama final, de modo a respeitar a posição das palavras-chave no original.

Finalmente, apresento o original em língua de gente educada e civilizada - ou seja, no original latino. Que les aproveche.

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(1) Certamente não é também coincidência que a primeira reacção a este Philippus seja precisamente impressa em França e em francês, em 1640, pouco antes do 1.º de Dezembro.




«A cabeça do Dragão é uma secção da órbita da Lua e do Zodíaco. Tem movimento retrógrado, de acordo com a definição de Copérnico: cada dia três minutos, e consequentemente cada ano 19 graus e 20 fracções. É por isto que a cabeça do Dragão muitíssimas vezes ficará sob o signo de Leão, e, sacudindo o jugo, muitas vezes regressará. O Dragão celeste foge do Leão, mas há-de voltar.

O Leão coroado significa o Rei de Leão – direi mais, o seu Reino, que outrora se chamava “Leo”, mas hoje se chama “Legio”. O Dragão posto sobre o escudo de Portugal é símbolo da Lusitânia. Esta outrora estava sob o domínio do Rei de Leão: com efeito, reinava em Leão e Portugal Afonso o Grande, o qual deu Portugal a seu filho Ordonho. Foi a Lusitânia separada de Leão, mas haveria de regressar, pois no início do ano de 1064 encontro Fernando o Grande Rei de Castela, Leão e Lusitânia. Após a sua morte, de novo se separou a Lusitânia de Leão, com Garcia por rei próprio. De novo Afonso VI de Castela separa a Lusitânia, [então] unida a Leão, enquanto domínio de propriedade, no ano de 1094, ao dar a sua filha Teresa ao Conde Henrique, e em dote o invicto Condado de Portugal. Até que Afonso, filho de Henrique e Teresa, arrebata este Reino a Leão, enquanto suprema jurisdição, quando é coroado contra a vontade do Rei de Leão. Eis que a Lusitânia tantas vezes se despediu do poderoso Rei de Leão – mas haveria de regressar.

Finalmente, sob os auspícios de Filipe o Prudente, Rei de Leão, é subjugada, e não mais há-de partir.

Eis uma curiosa analogia, se te agrada a contemplação dos astros: compara o Dragão da Lua com o Leão, tal como ao Rei de Leão o Dragão Lusitano. A um e outro se aplica este epigrama, sobreposto ao desenho, e explicando o conceito misterioso.

Tantas vezes foge o Dragão (a) ao signo de Leão que tantas vezes voltará
e tantas vezes o pescoço soberbo restituirá ao pé:
Não fugirá, é justamente capturado; defender sabe, PRUDENTE (b),
com mão (c) armada defender os seus direitos o LEÃO.

(a) A Lusitânia.
(b) Filipe o Prudente, como Rei de Leão
(c) Mão, isto é: exércitos.

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Caput Draconis sectio est Lunae Orbitae Zodiacique: retrocurrit, iuxta Copernici definitionem, singulis diebus, tribus minutis, ac propterea singulis annis grad. 19 & 20 scrup. Hinc est quod Draconis caput saepissime subfuerit Leonis signo, & saepe iugum excutiens fuerit regressum. Caelestis Draco, sed reuersurus, Leonem effugit.

Leo coronatus, Regem Leonis indigitat; illius, inquam, Regni, quod Leo olim, sed Legio inpraesentiarum nominatur. Draco Portugallensi scuto impositus, index est Lusitaniae. Haec olim Leonis Regi suberat: Leoni enim & Portugalliae praerat Alfonsus Magnus, qui dedit Ordonio filio suo Portugalliam. Separata fuit a Leone Lusitania, sed reuersura; quia sub principium anni 1064 reperio Fernandum Magnum Castellae, Leonis, & Lusitaniae Regem: post cuius obitum iterum a Leone discessit Lusitania sub Garcia proprio Rege. Iterum vnitam Leoni Lusitaniam separat, quoad proprietatis dominium Alfonsus VI Castellae Rex anno 1094 dans Tarejam filiam suam Comiti Henrico, & in dotem Comitatum inuictae Portugalliae: quoad supremam iurisdictionem, a Leone hoc Regnum abstrahit Alfonsus Henrici atque Tarejae filius, cum inuito Leonis Rege coronatur. Ecce Lusitania saepe, reuersura tamen, inuicto Leoni valedixit; tandem auspiciis Philippi Prudentis, Leonis Regis, numquam discessura, subigitur.

Ecce curiosam proportionalitatem, si caelestium contemplatione delecteris: ita Lunarem Draconem Leoni compara, vt Regi Leonis Lusitanicum. Vtrumque respicit hoc Epigramma delineationi superpositum, & explicans conceptum mysteriosum.

Saepe reuersurus fugit (a) Draco signa Leonis,
Saepeque restituit colla superba pedi:
Nec fugiet. Capitur iuste; defendere (b) PRVDENS
Armatis (c) manibus scit sua iura LEO.


(a) Lusitania.
(b) Philippus Prudens qua Leonis Rex.
(c) Manibus id est exercitibus.