sexta-feira, março 21, 2008

O culto do chá

A minha mais recente leitura recreativa é O culto do chá, de Wenceslau de Moraes, edição da Biblioteca de Autores Independentes. Como tantas vezes aqui tenho deixado catilinárias enfurecidas contra a pornografia que é o preço dos livros em Portugal, é justo que aqui venha agora felicitar esta colecção, que oferece livros a preços decentes, provando (se necessário fosse) que é possível vender livros a preços comportáveis para o português médio.

Eu sou um chazeiro inveterado. Não passo sem o meu chá matinal, em folhas soltas e com coador. E, evidentemente, sem açúcar e sem leite. Pôr açúcar ou leite no chá é assim um bocadinho como deitar sal no mel ou fazer sexo à distância ou até beber cerveja sem álcool. Tira a graça toda a coisa, na medida em que lhe adultera a natureza. Não sei, a mim pelo menos faz-me um bocadinho de confusão.

A minha família tem atitudes bastante diversas em relação ao chá.

A minha mãe, por exemplo, usa o chá para temperar o açúcar. Depois de vazar ininterruptamente açúcar para uma chávena (nem usa colher, pois isso limitaria a quantidade), deita um pouco de chá, creio que para desenjoar. Assim já me parece mais aceitável, pois não é bem pôr açúcar no chá, mas sim chá no açúcar. Além disso, da mesma forma que o vinho para os bifes pode ser qualquer zurrapa, uma vez que é apenas para temperar e o que interessa é a carne, do mesmo modo a minha mãe prefere chá do mais ordinarote, recusando os chás de qualidade. Eu tenho de concordar com ela, não faria sentido nenhum temperar o açúcar com chá de qualidade, tal como não faz muito sentido temperar um bife com Porto Vintage.

A minha sobrinha Carolina (2 anos e meio), por outro lado, tem uma atitude mais mística em relação ao chá. Usa-o para longas, silenciosas e ritualizadas abluções da cabeça, braços e mãos, seguidas de aspersões ritmadas em seu redor. Surpreendi-a ontem num destes rituais. Depois de me ter pedido um chá, achei que não seria má ideia vertê-lo numa taça de plástico, de modo a minimizar o risco de copo de vidro partido. Pu-la no chão, na sala, e deitei-me no sofá a ver qualquer coisa bastante intelectual na TV (eu só vejo coisas intelectuais). A Carolina ajoelhou-se de costas para mim, escondendo a taça da minha vista, talvez por não querer ser vista em tão piedosas acções. Assim se passaram longos minutos. A minha atenção só foi despertada quando fui aspergido por uma chuva de gotas de chá. Levantei-me, e chamei-a. Voltou-se para mim, com a cara pingando chá, os cabelos colados à testa, as mangas e as mãos encharcadas. Riu-se e, já sem qualquer pudor, voltou a mergulhar as mãos na taça, e levou de novo a cabo as suas devotas abluções de cabeça, cara, pescoço, mãos e braços. Depois, e enquanto eu me levantava e me lançava para lhe tirar a taça, fez de novo várias aspersões em volta.

A minha sala mantém, apesar de bem lavada, um belo aroma a chá verde, e a manta que uso para me cobrir no sofá, mas que estava ontem a servir de tapete à Carolina, está a secar na varanda.

2 comentários:

mada nunes disse...

Gostei muito do seu blog.
Será que podíamos trocar idéias de vez em quando?
Nesta semana iniciarei estudos na área de Filologia Românica e também seria bom ter um interlocutor. Quando 'crescer' gostaria de ter um pouquinho só do extenso conhecimento que vi nestas páginas.
Gostei muito.
Um abraço luso-brasileiro,
Madalena

André disse...

Olá Mada. Podemos trocar sim, claro, mas eu sou extremamente antipático ;)